Uma forma masculina de curar

Recentemente eu li um um texto sobre apego parental (“attachment parenting”). Eu li e participei comentando, também. Desde então os efeitos disso têm batido na minha cabeça como uma bolinha de fliperama (sim, tem todo esse espaço lá dentro) e não têm me deixado sossegado.

Isso não tem nada a ver com apego parental ou qualquer outro tipo de parentalidade. Foi mais por causa da reação emocional que eu tive à discussão sobre os homens seus sentimentos.

Aquilo me lembrou do meu pai. Não dele como pai, ou mesmo homem, mas, na verdade, do meu estado emocional após a morte dele.

Aproximadamente um mês após meu pai falecer, eu estava com um amigo num bar. Era um daqueles raros lugares para alguém como eu. Tinha paredes cobertas com painéis de madeira escura, assentos grandes de couro espalhados sobre um carpete espesso o suficiente para deixar o lugar praticamente sem ruído, mesmo quando cheio. E tinha a aparência de nunca ter estado cheio. A memória de conversas silenciosas pairava no ar como a história secreta de mil amizades. O único barman lá, um senhor, polia os óculos; pronto para servir o veneno que você escolhesse ou ouvir uma piada.

Nós estávamos lá só conversando baixo sobre qualquer assunto, provavelmente fazendo rindo um pouco de política ou talvez falando sobre os últimos filmes. Eu não me lembro exatamente do que nós estávamos falando aquele dia. Foi mais de vinte anos atrás.

Em algum momento, no meio de uma pequena pausa, ele me perguntou, quase numa reflexão distraída: Então, como é que você está, desde que o seu pai…?”

E eu disse, sabe, daquele jeito de conversa casual entre dois amigos no bar.

“Ah, sabe como é. É um processo. Altos e baixos. O jeito normal como acontece o luto, mesmo. Mas eu estou me virando. Estou bem. Acontece com todos nós, sabe?”

Meu amigo me ouviu, concordou com a cabeça e derrubou o resto da cerveja sem dizer nada. Então ele levantou da cadeira, deu um passo, depois se inclinou na minha direção. Ele falou muito baixo: “Vai outra cerveja?”

E enquanto ele falava, descansou a mão no meu ombro. Me deu um aperto leve, quase inexistente; só a pressão suficiente, apenas o bastante para registrar, e naquilo eu pude sentir o amor profundo do meu amigo. Foi um toque que tornou as palavras desnecessárias; aquilo transcendeu qualquer noção maluca de que houvesse alguma coisa a dizer e realmente provou o quanto a fala humana às vezes pode ser vazia e desnecessária.

Com aquele toque, uma lágrima instantaneamente deslizou de um olho e procurou o outro lado do meu rosto, longe da vista dele.

E antes que você resolva esfaquear aquele momento observando que eu não deveria me envergonhar de chorar, ou que eu pense que lágrimas devam ser escondidas, por favor não faça isso. Eu não tenho vergonha de chorar, nem meu amigo jamais guardaria qualquer pensamento desses.

Acontece que ele não precisava ouvir a confissão da minha dor, ou ver as lágrimas, para saber do meu pesar. Ele me conhecia. Ele sabia que o meu pai tinha morrido. Então, ele sabia o que ele tinha que saber. Ele não requereu nada de mim para ser amoroso de um jeito que o meu coração poderia absorver, como água numa esponja seca. Eu não precisei derramar meu pesar aos pés dele or satisfazer a necessidade dele de puxar dos meus lábios os meus sentimentos sobre a perda do meu pai.

Ele respeitou minha privacidade. Ele não cavou e raspou e invadiu por baixo da minha obviedade para chegar à crueza da minha perda. Nem ele se deixou enganar pela superficialidade das minhas respostas. Ele simplesmente contornou todas essas coisas e me ofereceu o que só um outro homem poderia. O silêncio, sem demandas, de um irmão.

No seu toque estava a compaixão de mil terapeutas. E em respeito ao meu jeito privativo de sofrer estava a habilidade que tão poucos terapeutas são capazes de aprender. Ele, naquele momento breve, mas imortal, foi o protetor do meu coração partido; como um sentinela guardando meus ferimentos e deixando que eu me apoiasse nele, do jeito como os homens fazem.

Hoje em dia, quando eu ouço o falatório dos supostos entendidos sobre os corações dos homens, eu quase sempre rio da falta de compreensão deles; do seu desespero em provar competência e expertise em assuntos dos quais eles realmente eles não fazem ideia.

Eu os ouço falar sobre a necessidade masculina de aceitar compartilhar seus sentimentos, sobre serem emocionalmente abertos, mas mais comumente isso tudo é mostrado no tom de maior desconsideração e ignorância de alguém afirmando que os homens estariam melhor se fossem mais como as mulheres.

Como sempre, um alqueire de tolice geralmente contém alguma verdade. Certamente os homens precisam se dar permissão para sentir e espressar. Mas quando eu olho além de oda a condescendência e desdenhosa daqueles que acham que os homens ganhariam muito sentando em círculos e passando kleenex uns para os outros, satisfazendo os egos doentes e sem respeito de vendedores de livros e aficionados da Oprah,  eu me lembro desse meu amigo e seu amor fraterno e curativo.

Lembro-me que a dor emocional não é uma exposição de cães e pôneis, que o amor não é uma banda de música ou um abraço grupal e que a amizade é definida e comprovada pelas pessoas nela. Com todo o respeito pelas mulheres, e honrando suas maneiras de lidar com seus próprios corações, mas tudo isso é especialmente verdadeiro para os homens.

Eu não estou fingindo que você pode satisfazer todas as necessidades de um homem com uma expressão tão simples. Mas recebi cura naquele dia, um tipo de cura que eu levo comigo e levarei sempre. Não foi preciso um avanço emocional ou algum grande momento catártico ou circuitos de aconselhamento, formulários de seguro e a dissecção da minha infância. Tudo o que foi necessário foi a companhia de um amigo que escolheu ver a minha dor, e escolheu oferecer conforto, e não com o seu ego e falsa sabedoria, mas com o seu amor e bem fundado respeito.

Este é o caminho do homem, quando não o atrapalhamos  optamos por não forçá-los a entrar no molde dos ideólogos. Duro como possa parecer, eu não encontro erro nele.

Tradução: Aldir Gracindo.

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