O protesto de um homem transformado em discurso sobre mulheres

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Matheolus adorando mulher em pedestal

Em uma obra prima falando sobre o protesto de um homem, Matheolus verteu sua angústia e revolta com os sofrimentos que lhe tinham sido impostos pela igreja e sua esposa. O protesto de Matheolus gerou polêmicas sobre mulheres, pedidos de desculpas às mulheres e defesas das mulheres. Este é um efeito deliberativo característico. A sociedade ginocêntrica tende a transformar o protesto de homens em discursos sobre mulheres.

A recepção do texto de Matheolus ilustra os efeitos do ginocentrismo. Matheolus escreveu seu trabalho sobre o protesto de um homem em latim, em 1290. Aproximadamente um século depois, Jehan Le Fèvre traduziu, de uma forma não tão cuidadosa, o trabalho de Matheolus para o francês. Talvez temendo o poder social dominante, Le Fèvre adicionou desculpas e satisfações em sua versão:

Eu desejo me desculpar em meus escritos, pois eu não difamo as boas mulheres, nem pretendo difamar. Antes, prefiro me retratar do que ser odiado por linguagem tola. Deus sabe que ele {meu livro} e eu temos meu pagamento por ele, pois não tenho má vontade para com as mulheres. Nem eu digo qualquer coisa em raiva, exceto para colorir minhas afirmações. As mulheres boas e virtuosas não podem jamais receber honra demasiada.1

Le Fèvre depreciou a raiva dos homens, como ainda é feito, mesmo quando a revolta dos homens nasce de injustiças ultrajantes. Le Fèvre, em vez disso, faz alusão ao seu interesse financeiro e desapaixonado em traduzir o livro de Matheolus. Apesar da antiga condenação da poesia como sendo mentira, o Matheolus de Le Fèvre aceita, de forma masoquista e de boa vontade ser agredido por sua poesia. Ele declarou: “Se eu minto, quero que me espanquem.” E então, Le Fèvre desmente tudo que tinha escrito, como sendo uma mera tradução das palavras de outro homem:

É apropriado, visto que eu traduzo, que eu fale ou cale. Por isso eu peço que não seja desagradável se neste tratado moral eu registro algumas palavras que possam ser cortantes. Pois nada procede de mim, nem a minúscula parte, que não seja encontrada em histórias e memórias da antiguidade.

Le Fèvre reconhecia a hostilidade social aos protestos específicos dos homens. Defendendo razoavelmente seus próprios interesses, ele se distanciou do trabalho de Matheolus.

Além de adicionar desculpas e explicações ao texto de Matheolus, Le Fèvre escreveu um texto adicional que ele coloca como uma defesa das mulheres. Ele começou esse livro adicional com um apelo às mulheres:

Minhas damas, rogo sua misericórdia. Gostaria de me desculpar a vós aqui, pois eu nada disse sem sua permissão sobre o grande luta e tormentos do casamento.2

Homens a protestar seu sofrimento no casamento não é coisa que se permita sem a permissão das mulheres. Le Fèvre novamente excusa seu trabalho anterior como apenas uma tradução. Ele com urgência procura evitar o ódio das mulheres e ganhar suas graças:

Nenhuma mulher e ninguém vivente deve me odiar por isso {traduzir o livro de Matheolus}. Portanto, se eu me ocupei disso, rogo que isso me seja perdoado e excusado por vossa graça. Pois eu estou em todo pronto a escrever um livro para me redimir: Por favor, que isso não me seja negado. … Sem sua graça, não quero viver.

Le Fèvre como escritor representa o servidor das mulheres, submisso e autopenitente do cavalheirismo medieval do homem que sangra pelas mulheres. Ele explicou que escreveu seu novo livro:

defendê-las fielmente, damas, e especialmente mostrar que nenhum homem há que pôr culpa sobre mulheres; nós havemos que louvá-las e amar, estimar e honrar, e servir, se desejamos ser merecedores de sua graça.

O valor das vidas dos homens, na visão de Le Fèvre, se subordina à graça das mulheres. Homens culparem mulheres é um ilícito categórico, enquanto homens servirem mulheres é categoricamente requerido. Ao atacar homens que rejeitam essa subordinação, Le Fèvre e os outros homens com o mesmo pensamento alegam estar defendendo as mulheres.

Le Fèvre usou a subordinação às mulheres como uma estratégia para o avanço em seus interesses pecuniários e sexuais. Ele insta as mulheres a comprar e promover seu livro:

Minhas damas, eu vos peço humildemente, se eu as defendi insuficientemente pela minha ignorância, usai aqui sua força para suplantar meus defeitos e publicar sua honra, que todos saibam dela. … Queiram defender-me, ou eu posso em verdade dizer e prometer que nunca terei um dia satisfatório, mas permanecerei em tristeza, que destruirá meu corpo cansado, se eu tiver que pagar os custos.3

Na ignorância da arte do amor, Le Fèvre busca os favores sexuais das mulheres através de subserviência e adulação:

Tenham piedade, piedade do pobre Smith {Le Fèvre faz trocadilho com seu nome}, que sore de uma sede maior em seus lábios do que a do homem rico no inferno; pois ele não sabe como trabalhar com ferro, mas seus esforços são todos em pergaminho. Ele fez este livro para vós, pois ele sabe que, para todos os homens que carregam bolsas e sacos, vós sois conforto, felicidade e repouso.

Sacos são figura de linguagem para escrotos, ou mais geralmente, genitais masculinas. Carregar uma bolsa associa os homens com o pagamento pela companhia das mulheres. Buscar “piedade” se associa aos homens implorarem o amor das mulheres.4 Isso não é uma estratégia de sedução tão propícia. Adotar a subordinação às mulheres, porém, ajuda homens a vender seus livros a mulheres.

A tradução e refutação autointeressada, desapaixonada, que Le Fèvre faz do protesto de Matheolus proporciona literatura ginocêntrica adicional. Cristine de Pizan indicou que “Matheolus”, o que provavelmente se refere tanto à tradução de Le Fèvre do trabalho de Matheolus Matheolus, quanto sua refutação dele, a inspirou a escrever Livre de la cité des dames (Livro da Cidade das Damas).5 De Pizan também conseguiu criar uma “querelle des femmes” (debate sobre as mulheres). Um debate sobre as mulheres, acontecendo na cúpula da sociedade francesa, incluindo a rainha e o clero. As questões dos homens, como ocorreu pela da longa história anterior do protesto dos homens, foram vastamente subestimadas e ignoradas.

Um desenvolvimento exemplar foi o livro de Martin Le Franc, Le Champion des Dames (O Campeão das Damas). Terminado em 1442, O Campeão das Damas segue pela longuíssima série de 5 livros contendo 24.336 versos. Le Franc coloca seu trabalho como uma resposta ao que foram as lamentações sentidas de Matheolus. Le Franc acusa Matheolus de difamar as mulheres. O Campeão das Damas tendenciosamente coloca o campeão defensor do título contra um bicho-papão alegórico, Malebouche (Boca má), Brief Conseil (Julgamento Apressado), Vilain Penser (Pensamento Mau), Trop Cuidier (Muita Suposição), Lourt Entendement (Entendimento Lento) e Faulx Semblant (Falsa Aparência):

Contra o faltoso Malebouche e seu anfitrião —
Aquele orgulhoso e arrogante capitão —
O Campeão sua lança abaixa, tão
Duramente ele foi ferido,
Ele teme uma luva
O saldo das desgraças da batalha,
Pois sua vitória é certa:
Ele vencerá, não importa como.6

Um tradutor contemporâneo de O Campeão das Damas descreveu a obra de Matheolus como provendo “representações misóginas do casamento, usando humor para impugnar as mulheres.”7 O campeão ridiculariza e culpa todos os homens pelo protesto de Matheolus. Para o moderno campeão das mulheres, O Campeão das Damas mostra “compreensão da natureza multifacetada das relações de gênero”8 E isso aparentemente não tem intenção humorística.

A volumosa e tediosa literatura erudita oferecendo sermões morais contra o “antifeminismo” e “misoginia” medievais serve às estruturas dominantes do ginocentrismo. Essa literatura recusa-se a reconhecer a possibilidade do protesto de um homem medieval.9 Muitas pessoas hoje em dia também se recusam a reconhecer a violência contra homenspaternidade financeira forçadadesigualdades institucionalizadas no reconhecimento biológico parentalaprisionamento desproporcional de homens e muitas outras injustiças prementes contra homens. A conexão entre o protesto do homem medieval e o protesto do homem atual é óbvia nas estruturas que os reprimem.

Notas:

[1] Les lamentations de Mathéolus, II.1541-51, in Van Hamel (1892) p. 85, tradução francesa. Obermeier (1999) p. 131. A citação subsequente é da parte II.1559-68, trans. id. Fiz algumas pequenas mudanças nessas traduções por exatidão e clareza.

[2] Jehan Le Fèvre, Le livre de Leesce (The Book of Gladness), l. 1-5, da trad. francesa. Burke (2013) p. 74. As duas citações subsequentes são l. 12-19, 27 e l. 35-40, trans. id.

[3] Le livre de Leesce, l. 3948-54, 3968-73, trans. id. p. 107. A citação subsequente é l. 3974-82, trans. id.

[4] Um significado de piedade em francês antigo é a recompensa na forma do favor de uma mulher. Em La belle dame sans mercy, de Alain Chartier (escrito por volta de 1424), uma bela dama se recusa a dar a um homem o “favor” de permitir a ele que a sirva não sexualmente.

[5] Burke (2013) p. 133.

[6] Martin Le Franc, Le Champion des Dames (The Champion of Ladies) l. 9-16 (s. 2), da tradução francesa. Taylor (2005) p. 18.

[7] Taylor (2005), Introdução do Tradutor, p. 4.

[8] Id. p. 13.

[9] Mann (1991) não demonstra qualquer consciência de que homens possam fazer algum protesto específico justificadamente. Blumenfeld-Kosinski (1994) emprega um dos critérios eruditos predominantes para julgamento literário: “elogio ou reprimenda para as mulheres?” E conclui com imaginação misândrica de um “novo tipo de discurso que poderia enfrentar a rebelião, linguagem desordenada, fábulas e mentiras do discurso masculino.” Id. p. 725. Burke (2013) aborda Le Livre de Leesce como um jogador no Time Christine de Pizan e promete trabalhos posteriores “na tradição da minha autora.” Id. p. 137. While Burke (2013) considerou Le Fèvre como apresentando uma defesa das mulheres, Pratt (2002) percebeu Le Fèvre como cometendo um crime literário imperdoável e lamentou:

A defesa de Le Fèvre das mulheres foi um jogo literário em que a ambiguidade e ironia permitiram que atitudes antifeministas fossem perpetradas com impunidade.

Id. p. 114. Felizmente, a punição por “atitudes antifeministas” continua a ser fortalecida.

[imagem] Matheolus adoring woman on pedestal. Gravura, de image 18 em edição de Jehan le Fèvre, Matheolus qui nous monstre sans varier les biens & aussi les vertus: qui viennent pour soy marier (Lyon: Olivier Arnouillet, 1550), in Bibliothèque municipale de Lyon, Rés. B 487656. Agradecimentos a Gallica.

Referências:

Blumenfeld-Kosinski, Renate. 1994. “Jean Le Fèvre’s Livre de Leesce: Praise or Blame of Women?” Speculum. 69 (3): 705-725.

Burke, Linda, ed. and trans. 2013. Jehan Le Fèvre. The book of gladness / le livre de Leesce: a 14th century defense of women, in English and French. Jefferson, North Carolina: McFarland & Company, Inc.

Mann, Jill. 1991. Apologies to women: inaugural lecture delivered 20th November 1990. Cambridge: Cambridge University Press.

Obermeier, Anita. 1999. The history and anatomy of auctorial self-criticism in the European Middle Ages. Amsterdam: Rodopi.

Pratt, Karen. 2002, “The Strains of Defense: the Many Voices of Jean Le Fèvre’s Livre de Leesce.” Pp. 113-133 (Ch. 6) in Thelma Fenster, ed. Gender in debate from the early middle ages to the Renaissance. Palgrave Macmillan: Basingstoke.

Taylor, Steven Millen. 2005. Martin Le Franc. The trial of womankind: a rhyming translation of Book IV of the fifteenth-century Le champion des dames. Jefferson, N.C.: McFarland.

Van Hamel, Anton Gerard, ed. 1892. Mathéolus, Jean Le Fèvre. Les lamentations de Mathéolus et le livre de leesce de Jehan Le Fèvre, de Ressons: poèmes français du XIVe siècle. Paris: Bouillon.

Artigo publicado originalmente no Purple Motes e é repostado sob licença Creative Commons.
Publicado no A Voice for Men aqui.
Tradução: Aldir Gracindo.

Douglas Galbi é economista e tem um BSE em Engenharia Elétrica e Ciência da Computação. É historiador amador e editor do blog Purple Motes: a journal of whimsy and hope.

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