De mulher a homem e à pílula vermelha

Eu nunca pensei que minha transição de mulher para homem me levaria para o movimento por direitos dos homens.

Eu nunca nem soube que tal coisa existia até um ano depois do fato. Minha transição não foi sobre políticas sexuais, mas sobre conquistar congruência pessoal entre cérebro e corpo. Eu estava corrigindo uma disforia interna que persistia desde os 7 anos de idade, quando eu irritadamente declarei ao garoto da casa ao lado que eu era “superboy e não supergirl”, e fortemente defendi minha decisão de entrar no banheiro dos meninos para um professor estressado da escola fundamental.

Aos 11 eu implorei à minha mãe que me deixasse cortar o cabelo o mais curto possível e fiquei eletrizado quando nosso dentista me confundiu com um menino. Resumindo, tudo que eu era por dentro; tudo que eu pudesse sentir e juntar à minha identidade era masculino, ainda que meu corpo dissesse o contrário.

Esse conflito se intensificou duramente. No ano seguinte eu tentei cortar os míseros seios que cresciam em meu tórax com uma faca de carne e expressei um forte desejo de ter câncer de mama, “assim poderei ter uma dupla mastectomia, como a vovó!” Aos 16 desenvolvi anorexia para parar com a menstruação e encolher meus seios o máximo possível.

Meu sofrimento nunca teve muito a ver com papeis sociais e em boa parte eu não fiz a transição para ganhar qualquer privilégio social percebido.  Eu brincava com bonecas Barbie e me vestia como uma princesa (embora eu sempre adicionasse uma espada só para provar que eu era uma princesa durona). Xena era minha modelo.

Mas, desde tenra idade, eu expressa raiva extrema por não ser possível me alistar no exército como um soldado de infantaria e fiquei enfurecida quando a avó de uma amiga achou que eu não sabia como colocar gasolina no carro porque era uma garota. Cada vez que um homem me demonstrava “cavalheirismo”, como se oferecer a carregar algo pesado, eu ficava insultada e brava. E também experimentava assobios (e cantadas) numa base diária, de homens em carros quando eu saia sozinha para passeios.

“Bem, devo ser uma feminista extrema”, me lembro de pensar. “Porque feministas são as únicas outras garotas que parecem tão irritadas com essas coisas quanto eu.”

Fiz a mastectomia dupla que sempre quis no dia antes de completar 20 anos. A essa altura eu tinha descoberto a existência de pessoas transgêneras (mulher-para-homem) e sabia que isso descrevia minha condição quase perfeitamente. Cheguei ao ponto em que ou mudava de sexo ou me matava.

Após ter meus seios removidos, comecei a aplicar injeções de testosterona semanalmente. Minha voz ficou mais grossa e comecei a ter barba. Nessa época comecei a ser considerada como homem em contextos sociais.

A primeira coisa que notei foi que as cantadas vindas de carros quando eu andava pela rua acabaram. Não me sentir ameaçada sexualmente era um grande alívio, embora também tenha me levado a outra observação interessante. Me perguntei se era um garoto feio, já que não mais recebia a constante confirmação diária de que era sexualmente desejável. Realmente, levei um tempo para me acostumar a não ser visto como o sexo fisicamente atrativo. Meu ganho se tornou uma perda inesperada e comecei a perceber que há algumas coisas do outro lado da cerca que a gente só percebe depois de atravessá-la e ficar lá do outro lado.

Ficar lá, como estou agora, fornece uma visão completamente diferente da vida, e dos homens, que nunca tive. Até chegar aqui, havia tanta coisa que não percebia, como a até então não vista objetificação do meu corpo como uma utilidade.

Me tomou um tempo para perceber. Fiquei agradavelmente surpresa quando uma amiga me pediu para ajudar a mudar os móveis de lugar um logo após começar a terapia hormonal. Neste ponto, meus músculos tinham se desenvolvido um pouco em resposta à testosterona, mas eu ainda estava dentro do padrão de força feminina. Mesmo assim, consegui mover os móveis (apesar de que tenho certeza de que ela poderia ter feito isso sozinha). Me senti muito másculo e forte. Não era maravilhoso que as pessoas agora achavam que eu era forte e capaz ao invés de fraca e precisando de proteção do cavalheirismo?

Estava feliz, celebrando o fato de que não era mais vista com apenas uma peça de carne – embora mais tarde eu tenha percebido que agora a sociedade ou me usa ou me ignora, porque não sou atrativo o suficiente para ser uma peça de carne. Ao invés, sou apenas uma besta peluda e feia com uma carteira um par de braços musculosos. Ou, eu poderia dizer com alguma ironia, um pedaço de carne que sequer consegue uma cantada.

Também descobri que é muito difícil me acostumar a sempre ter que agir e tomar decisões. Homens são esperados, ou melhor, forçados, a serem agentes ativos da sociedade. Se há um problema, espera-se que os homens tomem a iniciativa para soluciona-lo ao invés de buscar ajuda ou conselho ou se aproveitarem de serviços sociais.

Em relações hétero, espera-se que o homem se aproxime da mulher, inicie a conversa e mova a relação na direção que ele deseja, enquanto simultaneamente é extremamente cuidadoso em monitorar as dicas não faladas dela, para se assegurar que não está passando a imagem de violentador ou assustador (e se ele falhar em ler esses sinais, corre o risco de ser jogado na cadeia e estuprado).

Mesmo em relacionamentos gays masculinos, nenhum parceiro assume o papel “feminino”: é esperado de ambos que se aproximem, iniciem, assumam o controle e tomem decisões em pelo menos metade das vezes.

Ser um agente ativo o tempo todo não é um privilégio, mas uma responsabilidade muito tediosa e estressante. Ter isso tudo subitamente forçado sobre mim sem haver sido treinado para isso desde o nascimento foi extenuante, física e mentalmente.

O fardo de toda essa hiperagência foi um enorme aspecto negativo. Às vezes os homens precisam de ajuda, também. Quando eles precisam, as pessoas são muito relutantes em ajudar e não hesitam em fazer piadas pelo fato de que eles necessitam ajuda. Praticamente não existem abrigos para homens que sofrem violência doméstica, ninguém se importa se um homem é sem teto ou desempregado, ou se ele está mentalmente doente e precisa de cuidado e que se importem, porque ele é um homem, pô. Supõe-se que ele seja forte e capaz, o tempo todo, ou então ele é inútil e poderia simplesmente não existir (da mesma forma que uma mulher mais velha, não atraente e acima do peso é vista como inútil).

De acordo com o feminismo, os privilégios masculinos garantem que tudo seja mais fácil para eles que para as mulheres. Elas riem da ideia de que possa ser difícil para um homem nesta sociedade, porque elas não conseguem enxergar o outro lado.

Bem, estive dos dois lados da cerca e sem vieses de qualquer lado, posso seguramente dizer que “privilegio masculino”, nos dias de hoje, não existe.  Mulheres enfrentam várias ameaças, com certeza; mas homens enfrentam muito das mesmas ameaças, porém sem o apoio social e legal que as mulheres têm. Os problemas masculinos, em sua maioria, sequer têm sua existência reconhecida.

Devido ao estresse da faculdade e ao bullying (que, estranhamente, veio apenas de dentro da comunidade feminista/LGBT do campus) eu precisei de um breve período em um hospital psiquiátrico no verão passado. Eu estava no fundo do poço e comecei a soluçar e chorar durante minha avaliação de entrada, e em determinado ponto o médico me disse, “ você é um homem, certo? Esse choro é patético. Seja homem!”

Seja homem. De repente me toquei que a maioria dos homens ouve essa frase centenas de vezes durante sua infância. Em um ponto eu teria dado de tudo para as pessoas me encorajarem a ser forte como a XENA. Agora eu percebi que algumas vezes, os homens, como as mulheres, simplesmente não se sentem fortes e durões e precisam do mesmo amor e carinho que as mulheres precisam quando estão sofrendo. Por que é tão difícil que a sociedade aceite isso? Tanto homens como mulheres podem ser durões a maior parte do tempo, mas todo mundo possui pontos em suas vidas em que precisam ser cuidados por outros.

De qualquer forma, parei de chorar imediatamente (algo que a testosterona torna mais fácil de se fazer, fisicamente), tendo sido lembrado que agora é socialmente inaceitável demonstrar meus sentimentos, mesmo ao ser admitida em um hospital psiquiátrico. Não me preocupei tanto com isso. Afinal, é uma responsabilidade do homem ser sempre forte e capaz, certo? Eu era um homem, caramba, e estava constrangido por ter falhado em me comportar como tal.

Após um ano dessas experiências e um ano ouvindo a doutrina feminista extrema na minha faculdade liberal de artes (que me ensinou sobre a violência inerente à sexualidade masculina, “cultura do estupro”, “trigger warnings”, “espaços seguros”, etc… Parecia que muitas delas queriam ser vistas como frágeis, delicadas flores ao invés de mulheres fortes e capazes), comecei a mudar a forma como via as coisas. Tomei a pílula vermelha, você poderia dizer.

Desde que as mulheres agora compartilham “privilégios” masculinos tradicionais, elas também deveriam compartilhar as responsabilidades masculinas tradicionais, ou seja, carregar seu próprio peso e reconhecer a culpa quando são culpadas, e respeitar e cuidar dos homens em suas vidas, assim como os homens respeitam e cuidam delas.

A doutrina feminista atual deseja acumular os privilégios femininos tradicionais (na forma da Leis Maria da Penha, tribunais favorecendo mães em detrimento dos pais e ex-mulheres sobre ex-maridos, etc.) assim como todos os direitos tradicionais masculinos que elas merecidamente conquistaram nos últimos cem anos (habilidade de entrar em praticamente qualquer carreira e participar plenamente da sociedade). É uma vitória válida dos direitos humanos que as mulheres agora compartilhem dos direitos tradicionais masculinos, mas é injusto que elas não aceitem abrir mão dos direitos tradicionais femininos em troca, porque isso agora coloca os homens em posição de desvantagem.

Artigo originalmente postado em 2012 no AVFM.
Tradução: Thais Drimmel

5 thoughts on “De mulher a homem e à pílula vermelha”

    1. Você só é a favor do casamento e dos direitos dos homens porque tem filhas e quer que elas se casem mas não adianta suas filhas ficaram velhas e solitárias é hora da sociedade escravoceta pagar a melhor vingança é a indiferença.

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