DARVO – ou NAIVA: Negar, Atacar e Inverter Vítima e Agressor

Por percalço técnico temporário do site, serei eu a ter que apresentar este artigo, que é de autoria da Dra. Tara Palmatier. – Aldir.

Você já se admirou com a forma como a sua esposa, namorada ou ex abusiva é capaz de dizer as coisas que mais causam mágoa, mais desleais e desprezíveis e então se colocar como a vítima inocente? Já se perguntou como ela é capaz de acusar os outros convincentemente, normalmente suas vítimas, dos comportamentos abusivos e atitudes das quais ela, na verdade, é a culpada? Não se pergunte mais, a resposta pode ser DARVO (“Deny, Attack and Reverse Victim and Offender” – Ou, em tradução livre, “Negar, Atacar e Inverter Vítima e Agressor”, o que formaria o acrônimo “NAIVA”).

A Dra. Jennifer J. Freyd, PhD da University of Oregon, identificou DARVO nos anos 90 no contexto das histeria de memórias reprimidas de abuso sexual. A despeito de suas origens dúbias, DARVO é um conceito útil com amplas implicações do que a Dra. Freyd parece ter pretendido inicialmente. Freyd escreve sobre DARVO em conjunção com seu trabalho sobre trauma de traição, que eu discuto no blog Shrink4Men. De acordo com a página da Dra. Freyd:

DARVO se refere à reação que agressores, particularmente agressores sexuais, podem mostrar em resposta a serem responsabilizados por seu comportamento. O perpetrador ou agressor pode Negar o comportamento, Atacar o indivíduo que o confronta e Reverter os papéis de Vítima e Agressor, de forma que o agressor assume o papel de vítima e converte a verdadeira vítima em alegado agressor. Isso ocorre, por exemplo, quando um perpetrador realmente culpado assume o papel de “falsamente acusado” e ataca a credibilidade do acusador ou mesmo culpa o acusador de ser perpetrador de uma acusação falsa.

DARVO parece ser uma combinação de projeção, negação, mentira, transferência de culpa e gaslighting. A Dra. Freyd nota que outros observadores identificaram os mesmos fenômenos usando diferentes termos. Meus clientes homens experienciam esse comportamento quando tentam devidamente responsabilizar as mulheres abusivas nas vidas deles. Isso também parece ser comportamento comum na maioria das pessoas de comportamento predatório, bullies, altamente conflitivos e/ou com distúrbios de personalidade. DARVO parece ocorrer especialmente em casos de divórcio de alto conflito ou de guarda de filhos.

Evidentemente, nem todos que negam seus erros estão incorrendo em DARVO. Muitos parceiros e “exes” de mulheres abusivas são acusados de coisas que eles não fizeram ou que nunca ocorreram. Naturalmente, quando isso acontece, você nega a acusação e talvez se sinta um pouco (ou muito) perplexo. Como saber se a negação de um indivíduo é a verdade ou uma manifestação de DARVO? Freyd (1997, págs. 23-24) propõe:

É importante distinguir os tipos de negação, já que uma pessoa inocente provavelmente negará uma acusação falsa. Portanto, negação não é evidência de culpa. Porém, eu proponho que um certo tipo de indignação falso, e negação excessivamente declarada, pode, de fato, se relacionar com culpa.

Minha hipótese é que se uma acusação é verdadeira, e a pessoa acusada é abusiva, a negação é mais cheia de indignação, presunçosa e manipulativa em comparação com a negação em outros casos. De forma similar, tenho observado que abusadores reais ameaçam, intimidam e criam um pesadelo para qualquer um que os chame à responsabilidade ou requeiram que eles mudem seu comportamento abusivo. Este ataque, com intenção de arrefecer e aterrorizar, tipicamente inclui ameaças de processo judicial, ataques diretos ou dissimulados sobre o denunciante e assim por diante.

O ataque muitas vezes terá a forma de focar em ridicularizar a pessoa que tenta responsabilizar o agressor. O ataque provavelmente também terá foco em ad hominem em vez de aspectos intelectuais/evidenciais. Finalmente, proponho que o agressor rapidamente cria a impressão de que o abusador é o agredido, enquanto a vítima ou observador é o agressor. Personagens e bases são completamente invertidos. Quanto o agressor é responsabilizado, mais injustiçado ele alega ser.

Isso é similar a como William Eddy, assistente social clínico e advogado, descreve as táticas de persuasão de atribuição de culpa de indivíduos altamente conflitivos. “Atribuidores de culpa persuasivos convencem os outros de que seus problemas internos são externos, causados por alguma outra coisa ou pessoa. Uma vez que os outros são persuadidos a ver o problema de forma invertida, a disputa escala para uma situação altamente conflituosa duradoura. Situação que poucos são capazes de tolerar, exceto o atribuidor de culpa persuasivo” (Eddy, 2006, p. 29). Ver o problema ao contrário é precisamente o que acontece quando ocorre DARVO. Personagens e cenário são completamente invertidos.

Somente os Atribuidores de Culpa do Cluster B conseguem manter as disputas altamente conflitivas continuamente. Eles são persuasivos e para manter o foco fora do próprio comportamento (a maior fonte do problema), eles fazem com que outros se unam a eles na atribuição de culpa. (Eddy, 2006, pág. 30).

É por isso que muitas narcisistas, borderliners, histriônicas e antissociais empregam efetivamente campanhas de difamação e táticas de mobilização de grupos contra seus alvos – seja um esposo, advogado, avaliador judicial ou terapeuta. Culpando outros por tudo que há de errado nas suas vidas, elas mantêm o foco fora do problema real: Elas mesmas. Isso parece ser exatamente o comportamento negar atacar inverter vítima e agressor descrito por Freyd.

Afirma Freyd (1997, págs. 23-24):

O agressor está na ofensiva e a pessoa tentando responsabilizar o agressor está na defensiva. ‘Negar, Atacar e Inverter Vítima e Agressor’ funcionam melhor em conjunto. Como pode alguém estar tão ferozmente no ataque e estar no papel de vítima? Pesquisa posterior poderá investigar a hipótese de que o agressor rapidamente muda de papel entre atacar e inverter vítima e agressor.

Esse comportamento é enlouquecedor se você for seu alvo. Você sabe que está sendo atacado enquanto sua parceira/ex faz papel de vítima em todos os aspectos, insistindo na versão distorcida de irrealidade dela. Pior ainda, muitas pessoas acreditam nela; o raciocínio dessas pessoas é: “Ela está tão aborrecida que deve ser verdade.” Mesmo alguns dos meus clientes homens que sabem que as acusações e mentiras das suas esposas não são verdade, às vezes duvidam de si mesmos e do que eles sabem ser real. Eu acredito que muitas mulheres e homens que efetuam DARVO chegam a crer em suas próprias mentiras depois de repeti-las o suficiente. Eu chamo isso de “Efeito O.J. Simpson.”

Abusadores normalmente empregam diferentes tipos de negação. Talvez alguns dos seguintes seja familiar a você:

  • Negação frontal ou gaslighting“Isso nunca aconteceu.”
  • Minimização. “Não tudo isso.”
  • Amnésia. “Eu não me lembro de ter feito isso.”
  • Redefinição. “Eu tenho um mal temperamento, então você não deveria me chatear.”
  • Projeção. “Você é abusivo e controlador. Você me faz mal.”
  • Conversão. “Eu errei, mas eu mudei e não vou fazer aquilo de novo.”

Freyd (1997, págs. 23-24) conclui:

O agressor se aproveita da confusão que nós temos na nossa cultura sobre a relação entre comprovabilidade e realidade (e o sistema legal que tem um certo histórico a esse respeito) na redefinição da realidade. Pesquisa futura poderá testar a hipótese de que o agressor pode chegar a acreditar na sua inocência via esta lógica: se ninguém pode ter certeza de que [ela] é culpada], então, logicamente, [ela] não é culpada, não importa o que realmente ocorreu. A realidade é, portanto, definida por prova pública, não pela experiência pessoal vivida.

Pode ser difícil discernir quem está falando a verdade nesses casos. Porém, descobri que indivíduos altamente conflitivos que têm esse tipo de comportamento muitas vezes não conseguem fundamentar suas alegações, ou se simplesmente inventam mais mentiras para tentar fundamentar suas alegações, são inconsistentes ao longo do tempo, então preste bastante atenção e documente suas mentiras. Isso pode ajudar você a enforcá-la com a corda que ela própria cria, se e quando você precisa provar a sua versão dos fatos em oposição às versões mutáveis da verdade que ela cria.

Se ela ameaça chamar a polícia e fazer acusações falsas contra você e/ou você está pensando em se divorciar, é extremamente importante que você documente os abusos que você experiência em um diário, um gravador digital ou algum outro meio. Atribuidores de culpa abusivos se apoiam na força das emoções deles para vender suas mentiras, meias verdades e distorções. Visto que a maioria das pessoas são idiotas diante de um drama, especialmente na forma de uma mulher farisaica e lacrimejante, você vai precisar de provas se quiser ser acreditado. Pense nisso como uma forma de se tornar à prova de NAIVA.

Referências:

Eddy, W. (2006) SPLITTING: Protecting Yourself While Divorcing a Borderline or Narcissist.

Freyd, J.J. (1997) Violations of power, adaptive blindness, and betrayal trauma theory. Feminism & Psychology, 7, 22-32.

A Dra. Tara Palmatier é consultora, coach e terapeuta para homens e mulheres que lidam com problemas em relacionamentos. Ela pode ser contatada na página Shrink4Men Services.

Artigo publicado no A Voice for Men em 6 de novembro de 2013.
Tradução: Aldir Gracindo

 

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