A fase da raiva

No meu último vídeo, parte do tema pode ter chegado perto do assunto da transição da pílula vermelha, que os homens fazem e a raiva que muitas vezes vem com isso. É um assunto que não é estranho a mim pessoalmente, eu lhes digo, e de algumas formas eu acho que ainda estou com raiva.

Para fazer isso um pouco mais fácil de entender, eu volto ao meu início na pílula vermelha, que, como eu já mencionei algumas vezes, foi em 1993, quando eu li, pela primeira vez, The myth of male power (O mito do poder masculino), de Warren Farrell. Foi realmente um momento profundo na minha vida, como eu já disse publicamente antes.

Mesmo a minha vida de pílula azul foi marcada por uma incômoda suspeita de que alguma coisa estava errada no mundo. Uma coisa que eu não podia identificar exatamente, mas mesmo assim eu sabia que estava ali.

É uma das razões por que a analogia da “pílula vermelha” funciona tão bem para mim. Eu consigo olhar para trás e ver a mim mesmo no papel de Neo, no início do filme Matrix. Tive a sorte de ter alguém que fizesse o papel de Morfeu na minha vida, me indicando o livro de Farrell. Minha própria pílula vermelha pessoal. Após ler de uma só vez todo o livro, tudo na minha vida mudou. Eu nunca mais veria a mim mesmo e ao mundo à minha volta da mesma maneira de novo.

Em nível pessoal, eu estava exultante. A transição da pílula vermelha me deu o satisfatório entendimento de que eu tinha estado certo todo o tempo. Que eu não estava louco. Que havia, de fato, uma coisa errada no mundo. E finalmente eu sabia o que era. Foram muitas confusões que sempre me desconcertaram, subitamente a fazer sentido.

E aquilo meu deu um outro presente. Foi como se quase instantaneamente eu fosse capaz de enxergar através de mais merda, no dia-a-dia, do que eu jamais tinha pensado ser possível. Consigo enxergar por trás dos jogos que homens e mulheres fazem uns com os outros e consigo próprios. Eu intuitivamente sabia como lidar com as pessoas muito melhor e especialmente me conduzir com mulheres de formas que eu nunca tinha imaginado anteriormente.

Eu falei sobre isso de uma forma ou outra publicamente ao longo dos anos, mas houve outro efeito colateral de ingerir aquelas pílulas vermelhas lá em 93, sobre o que eu não falei muito. Eu fiquei com raiva. E falando assim, eu não fazendo realmente justiça com a verdade. Eu não estava só com raiva, eu estava com uma raiva filha da puta. E não de uma forma temporária. Eu estava com raiva de um jeito que a minha raiva paria filhotes e os filhotes da minha raiva cresciam grandes rápido e pariam seus próprios filhotes.

Começou com uma raiva generalizada contra as mulheres. Contra as expectativas que elas tinham dos homens. Contra o senso de supostos direitos e a falta de responsabilidade delas. Eu perseverei nos pensamentos negativos sobre mulheres em geral por mais ou menos um ano até eu perceber que eu tinha raiva dos homens também – e todos os cavaleiros brancos e cavalheiros por aí cheirando as bundas dessas mulheres sem valor. Não demorou muito até que eu odiasse os imbecis mais do que eu odiava as mulheres.

A minha opinião sobre as mulheres e os homens, seus facilitadores, formou uma fossa ácida. E eu passei uma boa parte da vida me sentindo mais deslocado do que eu jamais tinha me sentido antes.

Não tinha nada online para homens fora da matrix naquela época, então eu tive que me contentar com o fato de que eu sabia algo que a maioria do resto do mundo não sabia. O que, é claro, era pouco consolo para mim no quadro geral.

Finalmente, eu precisei de mais um ano para eu entender que eu estava, também, talvez principalmente, com raiva de mim mesmo. Eu olhava para toda a minha vida passada, para todas as vezes que eu me curvei e cisquei diante de qualquer coisa com uma vagina. As inúmeras maneiras em que eu me vendi. Eu via todas as similaridades feias e berrantes entre todos os homens que eu agora detestava e o homem que eu tinha sido. Eu não estava só com raiva. Eu estava com vergonha de mim mesmo. E o meu único consolo ali era que o mundo em volta nunca seria capaz de enxergar aquela vergonha. E eles não iriam entender, mesmo se enxergassem.

Eu era uma única pílula vermelha em um oceano muito grande e muito azul.

Então, embora a minha vergonha não fosse ser aparente para as pessoas à minha volta, a minha raiva certamente era. Ela sangrava por sobre tudo na minha vida.

Eu me lembro de ter ido a uma loja de conveniência, uma vez. Eu estava preocupado com alguma coisa quando eu entrei e nem notei a mulher imediatamente atrás de mim. Eu entrei na loja e deixei a porta voltar e se fechar atrás de mim. E a porta se fechou, mais ou menos, na cara da mulher. Eu não soube o que tinha acontecido até a porta se abrir atrás de mim e uma voz feminina me chamar:

– Ei, o que aconteceu com ser um cavalheiro?

Eu olhei, avaliei rapidamente a situação, a olhei nos olhos e atirei nela minha resposta.

– Feminismo – eu disse.

A mulher pareceu perdida, como se procurasse o que dizer. Finalmente ela respondeu, defensivamente:

– Bom, eu não sou feminista.

– Nenhuma de vocês é, quando não funciona pra vocês – disparei, resistindo à tentação de adicionar a palavra “vaca” no fim da resposta.

A mulher ficou tão abalada com o meu tratamento, que deu meia volta e foi embora da loja. O homem por trás do balcão, aparentemente nos seus 30 anos, sorriu para mim como o gato Cheshire, como se eu tivesse feito o dia dele valer a pena.

Eu não sei se eu fiz o dia dele valer a pena ou não, mas eu sei, sim, que eu fiz valer o meu. Foi bom estar vivo, estar andando pela vida conscientemente. Aquela raiva era pesada, mas eu achava que tinha a força para carrega-la para sempre.

Isso é uma parte importante da experiência da pílula vermelha que é pouco discutida em qualquer real profundidade. Realmente, foi só nos anos recentes que eu mesmo fui capaz de discutir isso.

Afinal, a mulher na loja de conveniência tentou me envergonhar, certo? Se eu a tivesse visto, eu provavelmente teria segurado a porta por um momento, apenas por uma cortesia comum. Mas eu não a vi. Então, ela tentou me humilhar publicamente questionar a minha “masculinidade”. Minha decência humana básica. Tudo porque essa mulher idiota teve que abrir a porta para si mesma. Porque o homem à frente dela esqueceu do lugar dele e não atendeu a necessidade dela de privilégio.

Junte este cenário a um homem saído de uma vida inteira de negação e raiva reprimida e você facilmente chega a uma situação em que não chamá-la de vaca de merda é uma vitória moral.

E é com isso que nós estamos realmente lidando aqui. Os homens são criados com um derrame de mensagens de “faça isso”; “não faça aquilo”; “leve seus ‘fazer’ e ‘não fazer’ a uma bela e obediente forma de arte ou enfrente a humilhação como consequência. ” “Não pense jamais em você”; “ignore seu sofrimento”; “produza como uma merda de máquina e coloque tudo isso aos pés das mulheres”; “Seja homem e aguente essa bosta”; “se vire com o que quer que aconteça com você em silêncio ou seja relegado à lata de lixo padrão que a sociedade reserva aos [homens] ‘não homens’”. “Faça esse tipo de vida um padrão inconsciente tal, que você nunca sequer sonhe em parar, nem por um momento para pensar em como você está sendo ferrado”.

Se você pensar nisso sob a luz certa, a experiência de sair da matrix, da pílula vermelha, é semelhante à de uma máquina se tornar autoconsciente. De um robô subitamente percebendo que ele é um robô. E que ele não quer mais ser um robô. E então, imagine que esse robô ainda vive em uma fábrica gigantesca que depende de ele produzir sem pensar ou sentir. Os programadores e mesmo outras máquinas vão ver aquele robô como defeituoso, como apenas uma engrenagem que range. Por alguma razão, eles acham que o melhor lubrificante é a humilhação. E para ser honesto, eles têm vasta evidência apoiando essa noção. Ao longo da História, a humilhação foi usada com grande sucesso para silenciar os homens com o “mau funcionamento” de pensar que eles são tão importantes quanto as causas e as pessoas a quem eles servem.

Em um mundo que opera dessa forma, raiva é inevitável. Seria inevitável, mesmo que a sociedade não reagisse com tanta estupidez a homens que começam a seguir seu próprio caminho. A experiência de sair da matrix é uma experiência de sofrimento, de luto. E raiva sempre vem com isso. A pílula vermelha significa perder uma identidade, uma visão de mundo, e possivelmente, a única coisa que um homem fora da matrix já conheceu.

Não importa nem um pouco a vida pílula vermelha – fora da matrix ser uma experiência amplamente melhorada em relação à vida da pílula azul – dentro da matrix. Ainda assim é uma perda.

É como se divorciar da desgraçada mais lamentável no planeta. É uma perda. O processo de luto vai acontecer e raiva é uma parte profunda disso. Essa realidade desafia aqueles que se importam em pensar em coisas assim além do nível superficial.

Apenas dizer que a raiva é parte do luto não provê uma resposta completa à questão. Por exemplo, se um homem adentra a pílula azul pela porrada de um divórcio com tanta fúria quanto aquela que logo será sua ex, eu entendo! Quando ele desabafa, eu digo a ele que desabafe mais. Chamá-la de vagabunda, de puta e quaisquer outros nomes que vierem à mente é uma parte importante e necessária da sua passagem pelo processo de luto, na direção de retornar à sua integralidade. De fato, mesmo que ele necessite ver todas as mulheres dessa forma, ele deveria ser encorajado a se expressar. Ele deveria ter um ambiente livre de repreensão para processar e expelir toda aquela raiva e ressentimento. Todo o sofrimento e dor. E quando a polícia do “nem toda mulher é assim” aparecer para tentar envergonhá-lo, eu penso que a resposta apropriada é “Obrigado por compartilhar sua opinião, agora cala a porra da boca.”

Porém, se eu vejo o mesmo homem cinco anos depois do final do seu divórcio ainda enterrado até o queixo no mesmo ânimo do início da sua separação, então eu vejo as coisas um pouco diferentemente. Se ele não tem visto ou falado com a sua ex em anos e mesmo assim ainda solta fumaça diante da menção do nome dela, então essa fumaça o leva, de forma constante e persistente, a uma vociferação redundante sobre como todas as mulheres são vadias e piranhas. Eu me preocuparia que ele esteja desperdiçando a sua vida. Eu mantenho que tentar envergonhá-lo ou confrontar seu direito de sentir raiva é um erro. Mas eu ainda veria um homem estagnado no luto, não se direcionando para se apoderar da sua felicidade na vida.

Neste ponto, você poderia perguntar: “Quem caralho é você pra saber de quanta raiva qualquer homem precisa?” E você estaria certo em perguntar isso. Eu não sou ninguém para fazer essa escolha por qualquer outra pessoa. Por isso eu não vou tentar envergonhá-lo, não importa o quanto eu imagine que ele esteja estagnado. Ainda assim, eu sei que o luto é um processo, a raiva sendo uma parte inevitável da jornada. Passar pela raiva é passar por um caminho, com começo, meio e, esperançosamente, um fim. E alguns homens – muito tristemente, na minha opinião – nunca chegarão ao fim desse caminho. E não vão conhecer a liberdade que vem com isso.

Não que eu venha a me colocar entre um homem e a sua vontade de levar seus os ressentimentos na vida até o túmulo.

Eu olho para trás e me vejo naquele dia, na loja de conveniência. Eu me pergunto se a minha reação à mulher foi certa ou errada e eu tenho as duas respostas. Na época, foi certa. Foi a reação perfeita no tempo próprio, foi parte da minha cura e eu não mudaria um momento sequer dela. Hoje, não há outra forma de colocar isso, seria a reação errada. Não porque a reação fosse literalmente um erro, mas simplesmente porque eu não preciso mais daquele tipo de reação. Eu gostaria de pensar que hoje, no mesmo cenário, eu apenas sorriria para ela, daria de ombros e seguiria em frente. Sem a necessidade de ensinar-lhe uma lição que ela, provavelmente era incapaz de aprender, para começo de conversa. Naquela época, eu precisava contra-atacar. Eu necessitava me defender intensamente e emocionalmente contra as tentativas de me envergonhar.

Hoje eu acho essas tentativas mais engraçadas do que ameaçadoras. Naquela época, o sarcasmo e ridicularização que eu lhe dei foram a expressão da minha liberdade. Hoje, seria a expressão da minha falta de liberdade. É uma longa estrada para mim, e uma que eu tenho que admitir que ainda não trilhei inteiramente. Afinal, eu tinha 36 anos quando tive minha primeira dose da pílula vermelha. Quem sabe que idade eu vou ter, se é que eu vou ter, antes de eu considerar essa jornada completa.

Mas eu estou determinado. Eu não vou deixar a injustiça e insanidade da vida da pílula azul ditar meu estado de espírito, minha raiva ou minhas reações para sempre. Afinal, se eu fizesse isso, qual teria sido o valor daquelas pílulas vermelhas? Escapar da prisão do casamento e da vida empresarial apenas para encalhar em uma pesada e lenta armadura que eu tenho que arrastar comigo para onde eu for, não parece uma solução e certamente não parece se parece com liberdade. Eu prefiro pegar as lições que a vida me dá e fazer alguma coisa melhor. Como caminhar através da raiva da pílula vermelha, para a liberdade da pílula vermelha.

 

Postado originalmente no canal An Ear for Men.
Tradução: Aldir Gracindo.

1 thought on “A fase da raiva”

  1. Elson Glauber Carneiro Felix

    Muito bom, eu sentia essa raiva, e na realidade ainda sinto!
    Só que eu cheguei ao ponto em que de fato tenho certa liberdade, ser invisível, é melhor do que ser visto como um alfa, melhor do que ser visto somente pela humilhação de si mesmo e dos outros como um beta,ou mesmo alguém que ignora tudo até a si mesmo como o ômega.
    Ser um homem zeta, é ter a possibilidade de ter todos os poderes do alfa beta e ômega mas usa-los, não para os outros, mas para si mesmo.
    Hoje o homem forte, não é aquele que ergue mais peso, que corre mais longe, ou que faz mais dinheiro, o homem mais forte é aquele que é capaz de abdicar de tudo, menos de si mesmo!

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