A masculinidade é mais que uma máscara!

Nota: um novo documentário sobre os meninos e a masculinidade tem tido bastante atenção da mídia nos EUA recentemente. Seu título, “The mask you live” in é trocadilho com a palavra “masculine” (Masculino). Mas a perspectiva da masculinidade apresentada pela cineasta feminista tem distorções graves. Existe um grande problema em retratar a masculinidade como um construto social patológico. Veja o trailer do documentário:

Christina Hoff Sommers tem algumas palavras a esse respeito neste artigo cedido por ela ao A Voice for Men.

Será que atiradores nas escolas e assassinos em série nascem de uma ênfase agressiva na masculinidade na nossa sociedade? O trailer do novo documentário da cineasta e ativista feminista Jennifer Siebel Newsom, The mask you live in nos levaria a pensar que sim.

SERGIO ANA GOTZO trailer veiculado recentemente atraiu um milhão de visualizações no Youtube. Nele se defende que os meninos estadunidenses são reféns de um código social de masculinidade rígido e nocivo. Desde o início, dizem a eles: “Seja homem!”; “Não chore!”; “Chega de tanta emoção!”; “Tome jeito de homem!”. Este “código do macho” suprime a humanidade deles, instiga seu impulso por dominação e faz com que muitos se tornem perigosos. O trailer destaca adolescentes do sexo masculino descrevendo seu isolamento, desespero e pensamentos suicidas, entremeando imagens terríveis de atiradores em escolas e assassinos seriais.

Eu admiro Newsom por usar o considerável talento dela em favor dos meninos. Mas me preocupa que ela esteja menos preocupada com ajudar os meninos e mais com a reengenharia da masculinidade deles para conformá-la com uma literatura ultrapassada de estudos de gênero. O trailer é saturado da ideologia de que homens são perigosos, mas mostra pouco reconhecimento pela forma como a natureza dos meninos pode ser particularmente boa. The mask you live in tem estreia prevista para este ano. Vamos esperar que ainda haja tempo para edições.

Aqui estão algumas sugestões:

1. Reconhecer que a masculinidade é mais do que uma “máscara”

O título e conteúdo do filme sugerem que a masculinidade é uma construção cultural. Isso só é verdade muito parcialmente. Muito do comportamento típico, como as brincadeiras fisicamente mais ativas, assunção de riscos e fascinação com aparelhos em vez de bonecas parece ter base biológica. Pesquisadores descobriram, por exemplo, que macacas brincam com bonecas muito mais do que seus irmãos do sexo masculino, que preferem carros e caminhões. Será que os macacos também são reféns da “cultura do macho”? Um estudo recente sobre diferenças entre os sexos, de pesquisadores da Universidade de Turim, na Itália, e Universidade de Manchester, Inglaterra, confirma o que a maioria de nós vê com os próprios olhos: com algumas exceções, as mulheres tendem a ser mais sensíveis, estéticas, sentimentais, intuitivas e emotivas, enquanto os homens tendem a ser mais utilitários, objetivos, menos emotivos e obstinados. Nós ainda não entendemos completamente as subjacências biológicas dessas tendências universais, mas não há razão para negar que elas existam.

2. Reconhecer a diferença entre masculinidade saudável e patológica

Alguns meninos são hipermasculinos ou patologicamente masculinos. Eles praticam bullying e pior, estabelecem sua autoconfiança masculina através de destruição, violência e perseguição contra os mais fracos e vulneráveis. Mas a maioria dos meninos evidencia uma masculinidade saudável. Eles podem até gostar da agressividade em brincadeiras e esportes, mas na vida eles gostam de construir, não destruir. Seus instintos não é o de explorar pessoas vulneráveis, mas protege-las e defende-las. Claro que todos os meninos necessitam de orientação e disciplina dos adultos em suas vidas. Eu concordo com Newsom que dizer “seja homem” a um menino num momento difícil pode ser muito áspero e degradante. Mas ensiná-lo a ser cavalheiro é outra coisa. É uma forma comprovada de trazer à tona o melhor na masculinidade.

3. Reconhecer a virtude da discrição masculina

O filme de Newsom nos diz que os meninos na nossa sociedade não se sentem seguros para falar sobre emoções e dificuldades pessoais. Fazer isso violaria o código masculino e os sujeitaria à vergonha e ridicularização. A mensagem do filme de Newsom é que nós devemos libertar nossos jovens do sexo masculino para se tornarem emocionalmente expressivos. É claro, pais e mães devem fazer todo o possível para melhorar a educação emocional dos filhos. Mas os pais (assim como as esposas e namoradas) deveriam ter em mente que a discrição masculina tem suas vantagens.

Um estudo de 2012 pesquisou e observou quase 2.000 crianças e adolescentes e descobriu que meninos e meninas têm expectativas muito diferentes sobre a importância de falarem dos próprios problemas. As meninas tendem mais a relatar que falar dos próprios sentimentos lhes fazia sentir queridas e entendidas. Os meninos, no geral, consideravam isso um desperdício tedioso de tempo – e desconfortável. Ao contrário do que aprendemos com o filme de Newsom, os meninos não consideram que falar dos próprios sentimentos seja vergonhoso ou que não seja masculino. De acordo com a autora do estudo, Amanda Rose: “As respostas dos meninos indicam que eles simplesmente não veem a atividade de falar dos problemas como uma atividade particularmente útil” (grifo meu).

Mas nas meninas, falar excessivamente dos problemas é de fato relacionado a ansiedade e depressão. O estoicismo masculino pode ser adaptativo e protetivo. Se você quer que um menino seja mais expressivo, Rose tem um bom conselho para pais, mães e conselheiros: “Você vai ter que persuadi-lo que aquilo serve para um objetivo prático.” Envolva seu instinto masculino de resolver problemas.

4. Esclarecer que a maioria dos meninos são saudáveis e resilientes

The Mask You Live In dá a impressão de que o adolescente médio é seriamente deprimido. De fato, a depressão clínica é rara entre meninos (dados do NationalInstitute of Mental Health mostram que a prevalência de depressão entre meninos de 13 a 17 anos é de 4.3%; entre as meninas do mesmo grupo, é de 12.4%.).

O filme de Newsom diz que todos os dias nos EUA três ou mais meninos tiram as próprias vidas. O suicídio é, realmente, um mal principalmente masculino. Entre 10 e 24 anos, 81% das vítimas de suicídio são do sexo masculino. Em 2010, no total, 3.951 jovens morram pelas próprias mãos. O suicídio masculino é um flagelo muito negligenciado e os esforços de Newsom para a conscientização disso são admiráveis. Ainda assim, numa nação de aproximadamente 33 milhões de meninos, isso significa que o percentual de meninos que se suicidam está próximo de 0.1%. Cada uma dessas mortes é uma tragédia. Mas não nos ajuda em nada fingir que o suicídio é o comportamento representativo da masculinidade.

menino portão ana gotzO Transtorno de hiperatividade e déficit de atenção (ADHD) realmente parece ser uma epidemia entre meninos, mas as implicações disso são controversas. Pode ser que a nós, como sociedade, estamos patologizando a turbulência masculina que existe desde sempre. Alguns especialistas sugerem que o ADHD seria significativamente reduzido se nós permitíssemos aos meninos intervalos menos estruturados e oportunidades para as atividades mais físicas. Mesmo assim, no documentário de Newsom, cenas de meninos envolvidos em brincadeiras simulando boxe, cabeceando-se ludicamente e correndo um atrás do outro pela área de recreio são mostradas como evidência de como os meninos são levados a “provar” sua masculinidade agressiva.

5. Incluir ideias específicas sobre como ajudar os meninos com depressão e pensamentos de suicídio

Algumas das ideias mais promissoras e inovadoras estão chegando da Austrália. Em 2006, um relatório no Medical Journal of Australia defendeu uma mudança de paradigma no sistema de saúde mental nacional. Em vez de culpar a “masculinidade” ou tentar “reeducar” os homens para tirá-los da sua relutância em buscar ajuda, o autor pergunta: “Por que não proporcionar serviços de saúde que se adequem melhor às necessidades dos homens?”

Os australianos agora estão desenvolvendo procedimentos específicos para a saúde mental masculina. Um estudo de 2012, por exemplo, descobriu que uma grande maioria de homens jovens associa o termo “saúde mental” com insanidade e camisas de força. Boa forma mental parece funcionar melhor com eles. Os australianos recentemente lançaram um aplicativo de boa forma mental para “os caras”. O foco é na aquisição de “habilidades”, desenvolvimento de “força” e chegar a ser “mestre de si mesmo”. Mas isso não reforça as narrativas tradicionais de masculinidade? Certamente – essa é a ideia, e a chave para o que a nova abordagem promete.

A energia, competitividade e coragem física normal dos homens são responsáveis por muito do que há de bom no mundo. Ninguém nega que a agressividade e tendência a se arriscar dos meninos deve ser sociabilizada e direcionada para fins construtivos. Mas a desconstrução da masculinidade dos nossos meninos não deveria ser objetivo de ninguém. Eu estou certa de que não é o de Newsom. Mesmo que o filme que ela está criando sugira o contrário.

christina-hoff-sommers-e1389985061864-150x150Christina Hoff Sommers foi professora universitária de Filosofia, lecionando Ética. É provavelmente mais conhecida por sua crítica ao feminismo recente (último quarto do século XX). Ela também é conhecida por diversas textos publicados, entre eles os livros Who Stole Feminism? (Touchstone Books, 1995), The War Against Boys (Touchstone Books, 2001), One Nation Under Therapy (St. Martin’s Press, 2005) e The Science on Women and Science (AEI Press, 2009). Seu livro Vice and Virtue in Everyday Life, um best-seller universitário sobre Ética, está atualmente na nona edição. Seus livros mais recentes são  Freedom Feminism—Its Surprising History and Why it Matters Today (AEI Press) e a nova edição  revisada de The War Against Boys: How Misguided Policies Are Harming our Young Men  (Simon and Schuster).

 

O vídeo original da AEI, sem legendas, está aqui.
Leia outros artigos como este de Christina Hoff Sommers na Revista Time.
Tradução do artigo e vídeo e legendagens: Aldir Gracindo

2 thoughts on “A masculinidade é mais que uma máscara!”

  1. Assisti ao vídeo e digo que,uma mulher falar de problemas masculinos é um problema. Ela disse que os garotos valentões que praticam bullying são uma minoria. Pode ser,mas se esqueceu de falar sobre o impacto que essa minoria causa,a influência nociva dessa minoria na maioria das crianças,sobretudo nos meninos.
    Disse que não existe nada de errado com a masculinidade tradicional,que existe a “masculinidade saudável” e a “masculinidade tóxica”. Ora,mas se não há nada de errado com a masculinidade tradicional,por que só existe a “masculinidade tóxica”,e não existe nenhuma “feminilidade tóxica”?
    Falou em desenvolver a força nos meninos ,desde a infância,para que sejam homens fortes,mas evitando dizer-lhes “seja homem” em momentos difíceis. Só não soube dizer como exatamente fazer isso. A masculinidade tradicional se trata disso mesmo,dizer “seja homem” em momentos difíceis. Se um garoto apanha na escola,porque ainda não aprendeu a brigar,o que os pais devem fazer?Ir à escola defender o filhinho e fazer dele um frouxo,ou dizer “seja homem e aprenda a resolver seus problemas”? Vai dizer que não defender uma criança,dando a entender que ela tem que aprender a se virar sozinha,por ter nascido menino,não é dizer,mesmo que indiretamente,”seja homem” num momento difícil?
    O que essa Christina H. Sommers sabe sobre o que os homens pensam ou sentem? É uma mulher dando palpites sobre coisas que ela não sabe nem nunca passou.
    Mas o final foi “grandioso”,mostra a maneira fria,racional e utilitarista que a mulher enxerga o sexo oposto: “A competitividade masculina é sadia,pois assim os meninos vão crescer fortes,vigorosos,construirão coisas e serão cavalheiros com as mulheres”. Claro,porque as mulheres não podem construir nada,devem continuar deixando os trabalhos mais duros e tediosos para os homens,não é?
    Não se esqueça que,se existe a “competitividade masculina”,também existe a “competitividade feminina”. De acordo com a psicóloga Olga Tessari,a competitividade feminina está ligada à cultura. Ela sempre existiu, pois das mulheres sempre foi exigido muito,e hoje em dia,mais ainda: tem que ser boa como dona-de-casa, mãe, esposa, profissional… Então, nada mais “””natural””” do que elas competirem entre si a respeito de quem é a melhor, seja em que quesito for. Já quando surge a rivalidade feminina,traz consigo o sofrimento, o ciúme, a inveja, a irritação, a diminuição da autoestima,principalmente diante da vitória da rival. Com isso, ocorre uma mudança de atitude. A depressão leva a mulher a ter comportamentos fora do comum e exacerbados, como gastos exagerados ou compulsivos para poder estar à altura da outra ou mesmo superá-la; fazer jogos, alianças, acordos e estratégias; ser dissimulada. Isso geralmente acontece com mulheres que se sentem inseguras com relação ao seu corpo ou quanto à sua capacidade intelectual.
    Mas,como a dona Palpiteira Sommers,também vou dar meus palpites,e expressar minha visão masculina sobre a competitividade feminina. Existe também a “competitividade feminina saudável”,nela,as mulheres estão sempre belas e cheirosas e quem sai ganhando com isso somos nós,os homens. Ensinar a ser bela e prendada é o que traz à tona o melhor das mulheres. Assim,quando elas competem entre si, estarão sempre mais belas e perfeitas para nós,homens. Legal,né?

  2. Anacond Amazonense

    (((As meninas tendem mais a relatar que falar dos próprios sentimentos lhes fazia sentir queridas e entendidas. Os meninos, no geral, consideravam isso um desperdício tedioso de tempo – e desconfortável. Ao contrário do que aprendemos com o filme de Newsom, os meninos não consideram que falar dos próprios sentimentos seja vergonhoso ou que não seja masculino.)))

    Mas será que os meninos não acham desconfortável falar sobre os próprios sentimentos porque isso é considerado “pouco masculino” mesmo?

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