O silêncio dos que querem ser pais

Ser acadêmico num ambiente tão cheio de ideologias como a Psicologia é algo bem difícil, querer compreender os problemas masculinos e pensar em intervenções eficazes é pior ainda. É impossível falar de gênero sem entrar no meio feminista. Na minha graduação, nunca encontrei ninguém que compartilhasse minha paixão pela mente masculina e, para poder trabalhar com homens, tive de entrar num grupo de estudos feminista sobre maternidade.

O grupo pesquisa o sofrimento feminino na gestação, parto e pós-parto, mas, mesmo com os maridos dessas mulheres pedindo para que alguém os escute, ninguém parece minimamente interessado em estudar como esse período tão estressante é sentido pelo homem. Mas o mais desanimador são os constantes ataques aos homens, que devo escutar calado se quiser preservar minha saúde mental (a outra opção seria desistir do grupo, mas aí perderia a oportunidade de dar voz a esses homens).

Ser mulher é muito difícil. Seu corpo muda a ponto de não se reconhecer mais, seu humor fica instável, os profissionais de saúde não se importam com o seu bem-estar e o do seu bebê, eles só querem fazer uma cesárea de 10min para pegar seu dinheiro e ir para o próximo parto, o marido não aceita dividir as tarefas domésticas e de cuidado com o bebê e nem pense em usar a palavra “ajuda”. Homem não tem que ajudar, a casa e o bebê são dele, ele TEM que fazer! A última que ouvi foi sobre “o sofrimento das mulheres que só se tornaram mães porque se sentiram pressionadas pelo marido”.

Claro que todo esse sofrimento existe, mas está longe de ser considerado uma violência de gênero, ou uma opressão machista, como minhas colegas de profissão tanto gostam de falar. Em meu TCC, expus o sofrimento masculino: homens que são impedidos de participar do pré-natal, que fazem hora extra ou arranjam um novo trabalho para dar melhores condições de vida à mulher e ao bebê, que desejariam fazer algo para diminuir a dor da mulher em trabalho de parto, que desejariam ficar em casa cuidando do bebê, mas não podem porque a licença paternidade só dura cinco dias.

Imaginemos só por um instante: durante nove meses, a mulher manteve uma relação simbiótica com o feto, não poderia se separar dele nem se quisesse. Aí o bebê nasce e, durante cinco dias, ela e seu companheiro dividem os cuidados infantis e trabalhos domésticos. Ao final desses cinco dias, a mulher ficará, no mínimo, 3 meses e 25 dias em casa com o bebê em tempo integral, enquanto o homem trabalhará e só poderá realizar essas atividades após um dia, geralmente, estressante de trabalho. Quais as chances desse casal realmente dividir as tarefas em igualdade?

Parece lógico que, após mais de um ano se considerarmos desde a descoberta da gestação, a mulher estabeleça um apego mais forte que o homem ao seu filho, tenha mais habilidade em identificar as necessidades do bebê e na realização de atividades domésticas. Sabendo que humanos, como os demais animais, são seres de hábitos, de rotinas. É difícil imaginar que o casal continuará com a rotina na qual a mulher é a principal cuidadora do bebê e da casa depois que a licença acabar? De que ela presta mais atenção nesses detalhes e os executa de forma mais rápida e eficiente?

Claro que ao ouvir isso, a culpa foi imediatamente atribuída ao todo poderoso e onipresente “Machismo”, essa suposta entidade milenar que oprime as mulheres para poupar os homens do sofrimento da parentalidade e que, até hoje, não me chamou para gozar de minha vida sem sofrimento no Paraíso pré-morte. Até mesmo os casais lésbicos estabelecem a mesma divisão, uma mulher fica responsável pela casa e o bebê enquanto a outra é responsável pelo sustento econômico, mas isso é culpa do “Machismo” que fez lavagem cerebral nas pessoas para que elas reproduzam essa desigualdade mesmo quando não deveriam.

Entretanto, eu me pergunto: as pessoas são tão idiotas que “oprimem” aqueles que amam, fazem-nos sofrer sem perceber, só porque um sistema social criado de forma inconsciente (pois não existe nenhuma prova que o tal “Patriarcado” tenha sido criado propositalmente) manda que eles assim o façam? Partindo do pressuposto que, para uma teoria ser aceita, não deve haver nenhuma outra que explique melhor, lanço a seguinte pergunta: “a divisão sexual do trabalho não poderia existir porque é mais fácil do que ambos os genitores/cuidadores serem responsáveis por tudo ao mesmo tempo”? Se você acha estressante cuidar, em tempo integral, de um bebê e da casa, imagine ter que se preocupar em cuidar do bebê, da casa, de conseguir dinheiro e de saber se seu companheiro já resolveu algum dos problemas com os quais você está se preocupando, tudo ao mesmo tempo. Se você é pai ou mãe solteiro/a, deve ter uma noção.

O tema mais falado no grupo é sobre a Violência Obstétrica, uma forma de violência contra a mulher decorrente de maus tratos durante o parto e trabalho de parto. Para feministas, a Violência Obstétrica nasceu da apropriação masculina de um saber feminino e da objetificação do corpo da mulher e seus processos reprodutivos. Imaginem o que aconteceria se eu dissesse que a crise econômica que assola o país atualmente fosse culpa da Dilma Rousseff, da entrada de mulheres no mercado de trabalho, da “apropriação feminina de um saber masculino”, do mau uso do conhecimento adquirido por homens ao longo de incontáveis gerações sobre administração, gestão e política. É óbvio que quem sofre violência no parto são as mulheres, não porque a medicina foi criada por homens odiadores de mulheres, mas porque SÃO AS MULHERES QUE PAREM!

Entretanto, essa violência só é exclusiva à mulher quando olhamos apenas para o papel feminino na gestação, parto e pós-parto. No quarto parágrafo desse artigo, resume algumas das formas de violência que apresentei em meu TCC, no qual problematizei (para usar o termo da moda):

[…] devemos considerar normal um homem se sentir impotente ao ver a esposa sofrendo as dores do parto? Ignorado pela equipe obstétrica? Que é tratado como auxiliar de enfermagem durante o trabalho de parto da companheira? Que não pode entrar na UTI neonatal para ver a filha quando a esposa pode? Podemos falar de homens vítimas de violência obstétrica? Ou deveríamos pensar em “alienação obstétrica”? (MORAES et al., 2016, p. 73)

Particularmente, acho que alguns dos problemas são difíceis, ou impossíveis, de se resolver, como a sensação de impotência no momento do parto, e chamar de violência casos em que o médico não pergunta à mulher qual tipo de parto ela quer ou ignora as perguntas do homem parece-me um certo exagero. Mas acho muito fútil a criação de um novo termo para nos referirmos ao mesmo fenômeno, o desrespeito (ou simples ignorância do melhor método, em muitos casos) de alguns profissionais a aqueles que estão à espera de um bebê, só para diferenciar o desrespeito ao homem do desrespeito à mulher e podermos chamar a Violência Obstétrica de “violência de gênero” ou “violência contra a mulher”.

Não nos esqueçamos das pobres mulheres que não querem ser mães, mas aceitam engravidar por pressão do marido, que tanto deseja ser pai. Essa “horrível” violência de gênero, que faz tantas mulheres sofrerem em nome do “Patriarcado”. Mas… espera um pouco. Não há homens que preferem não ter filhos e engravidam suas companheiras para satisfazer uma vontade DELAS?

Uma grande dificuldade em estudar paternidade é que os estudos são enviesados, eles apenas apresentam pais super comprometidos e envolvidos, o que é totalmente esperado. Considerando que qualquer pessoa que participar de uma pesquisa deve dar seu consentimento e não é socialmente bem visto falar que você não gosta de ser pai, por que esses homens participariam das pesquisas?

Entretanto, com um pouco de sorte e insistência, é possível encontrar alguma pesquisa sobre a opinião de alguns pais não pagaram pensão, eu encontrei dois nesses meus três anos de estudo. O que os dois têm em comum? Os homens sabiam que eram responsáveis pelo bem-estar da criança, que deviam pagar pensão e interagir com a criança e, de certa forma, até queriam fazer isso. Mas o relacionamento com a ex-companheira era tão ruim que eles preferiam evitar qualquer tipo de situação em que fossem obrigados a interagir com elas e, numa dessas pesquisas, quatro dos cinco participantes acreditavam que a mulher engravidou propositalmente, para impedir o término do relacionamento.

Já conheci homens que não queriam ser pais, pelo menos, não naquele momento, e suas companheiras engravidaram. O desejo de não ser pai era tão forte que eles preferiam descobrir que tinham sido traídos do que realmente serem pais. Um deles chegou a fazer exame de DNA escondido da esposa, mas o filho era dele mesmo e ele assumiu. Onde estavam o Machismo e o Patriarcado para darem a esses homens a permissão de “abortarem socialmente” e viverem seus mares de rosas? Teriam esses deuses nos abandonados ou seriam simples explicações ruins para problemas que afetam os dois sexos?

 

Referências

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