Doutrinação de vítimas de estupro

Quem são os verdadeiros culpados no “caso Fernanda”?

Foi no documentário Könskriget (“Guerra de Gênero”), exibido pelo canal nacional sueco SVT em 2005, que a jornalista Evin Rubar denunciou a forma como supostos “grupos de ajuda” feministas para vítimas de estupro mantidos pelo Feminismo de Estado sueco estavam contribuindo com o aumento dos traumas psicológicos sofridos pelas vítimas ao tentar usar seu sofrimento para condicioná-las ideologicamente. Por meio de entidades feministas como a Roks, a Suécia financiava, na época, abrigos para mulheres vítimas de estupro que aplicavam o isolamento das vítimas de qualquer pessoa do sexo masculino, convencendo-as de que qualquer homem era um potencial estuprador e que era necessário odiá-los.  Na ocasião, Rubar mostrou a história da jovem Caroline, que buscou ajuda do grupo “Amigas de Bella” (o nome é uma homenagem a uma personagem literária que odiava homens por ter sido abusada sexualmente), grupo mantido pela Roks, para superar seu caso de abuso e cujo caso acabou por se tornar um traumático caso de fuga internacional depois que as líderes do grupo tentaram convencê-la, junto de outra vítima, de que elas estavam sendo perseguidas por inimigos que as queriam mortas (a existência desses “inimigos” jamais foi comprovada). A suspeita é de que Caroline e sua companheira de fuga foram levadas pelas “Amigas de Bella” para a Noruega porque relutavam em concordar com a explicação que as feministas deram para o motivo de seu estupro (de que elas foram molestadas para que os homens pudessem afirmar seu poder sobre seus corpos). O documentário completo, em seis partes e legendado em português, pode ser visto aqui.

Quase dez anos depois, não tive como não me lembrar do caso de Caroline ao tomar conhecimento de como alguns grupos feministas vinham tratando casos de moças vítimas de estupro aqui no Brasil. A situação em questão veio à tona na página no Facebook da Liga Humanista Secular, quando uma série de comentários de feministas em uma publicação me fizeram relembrar a denúncia realizada por Rubar em 2005. Eu só tomei conhecimento dos fatos quase no final, não tendo participado de nenhuma das discussões ocorridas na história, mas tendo observado seu final como mero espectador e tendo, depois, acesso aos depoimentos de alguns envolvidos.

A história ocorreu da seguinte maneira: aparentemente, tudo começou quando uma moça, membro do grupo “Anarquismo” no Facebook, compartilhou no grupo uma postagem da página feminista “Cantada de Rua” com o comentário “Homens, leiam!”. Insultado pelo comentário, um membro do grupo respondeu que não leria pelo fato de ela ter-se dirigido apenas aos homens. A partir de então, iniciou-se uma discussão em torno do assunto cuja maior parte do conteúdo é desconhecida. Em determinado ponto, entretanto, uma outra integrante do grupo decidiu participar da discussão dizendo que odiava os homens e insultando o rapaz que, ofendido, salvou imagens desse trecho da conversa e publicou em seu perfil (com o comentário “Cultura de ódio ao Peru”) e também em sua página no Facebook, “Sou Ateu Brasil”:

Print caso fernanda

A partir deste ponto, ao que parece, diversos usuários começaram a entrar no perfil da moça para insultá-la e ameaçá-la. Alguns amigos dela pediram ao rapaz que retirasse os prints de sua página, ao que ele se recusou, dizendo que sua atitude era uma denúncia contra uma forma de discriminação. Fernanda continuou a receber mensagens e decidiu fechar sua conta no Facebook.

Ao tomar conhecimento do caso, a página “Cantada de Rua” pronunciou-se em seu blog com uma matéria defendendo Fernanda. No texto, acrescentou-se às informações sobre o caso um dado até então desconhecido do público: Fernanda havia sido vítima de estupro há menos de um ano. Tal informação foi usada, então, como justificativa para o ódio da moça pelos homens.

Há uma coisa que chama a atenção na publicação do blog “Cantada de Rua”, que é o seguinte trecho:

Trecho Cantada de Rua

Repare que a frase de Thiago, “A Cultura de ódio ao Peru”, antes uma frase solta, é apresentada na publicação como uma crítica ao feminismo (coisa que ele não havia declarado), levando a crer que o rapaz havia publicado o print em sua página para deslegitimar o movimento. A partir daí, Thiago também passou a receber mensagens com ameaças e insultos por parte de terceiros e decide apagar as imagens de sua página.

Percebe-se que, até aí, a história por si só já é confusa e repleta de erros por parte de todos os envolvidos. Mas a parte que mais chama a atenção ainda estaria por vir. Ela começa quando Asa Heuser, membro da presidência da Liga Humanista Secular, decide publicar a postagem do blog “Cantada de Rua” na página oficial da Liga, em apoio à moça que havia sofrido ameaças.

Em virtude do caráter polêmico da história, uma vez que todos os envolvidos haviam errado de alguma forma, a publicação sofreu várias críticas, de forma que Asa Heuser decidiu apagar a publicação da página da LiHS e emitir uma nota de esclarecimento. Uma atitude madura, em minha opinião.

Nota de Asa Heuser

Mas foi aí que o caso piorou. Diversas feministas – que já haviam aderido ao caso depois da publicação do “Cantada de Rua” – comentaram a publicação criticando a LiHS por ter ouvido as críticas e apagado a publicação e – este é o ponto que eu quero destacar – passaram a justificar a misandria de Fernanda alegando que uma vítima de estupro tem direito de odiar os homens. Publicaram ainda que odiar os homens é algo justificável na “sociedade patriarcal” e que não é tão grave quanto o ódio às mulheres, por isso nada tinham do que reclamar. Houve mesmo quem se declarasse “misândrica política”. Em resposta a esses comentários, muitos homens – dentre os quais alguns que também haviam sido vítimas de abuso sexual – disseram que não se justifica odiar todos os homens por causa da atitude de um estuprador e que tal ódio produz efeitos negativos sim, principalmente naqueles que, tal como Fernanda, foram vítimas de estupro e estavam vendo o ódio contra eles ser defendido por causa de um trauma que eles também sofreram. Houve até mesmo um rapaz que relatou ter sofrido discriminação por ser homem e tentou cometer suicídio, em resposta à afirmação de que “misandria não traz nenhum problema para ninguém”. Essas foram as reações das moças que antes clamavam por “empatia” pela Fernanda:

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Foi mais ou menos nesse momento que eu tomei conhecimento da história e passei a acompanhar o rumo das discussões.

Uma coisa importante a se destacar, neste ponto do texto, é que a LiHS costuma apresentar neutralidade com relação a ideologias, no que se trata de questões de gênero. O próprio fato de Asa Heuser ter emitido sua nota demonstra esse fato. Se observarmos os textos publicados no blog da organização, o “Bule Voador” veremos que, embora defenda alguns ideais feministas, a Liga também não exclui discutir assuntos relacionados aos homens, como observado na tradução de uma excelente reportagem de Will Storr sobre estupro de homens em guerras, realizada pelo então vice-presidente da LiHS, Luiz Henrique Coletto. Entretanto, é preciso lembrar que essa polêmica aconteceu em meio a um período delicado devido a diversas mudanças na presidência da LiHS, assunto que nada tem a ver com o tema discutido mas que ajudou a potencializar a discussão entre os favoráveis e os contrários às novas posturas da presidência da organização. Outro fato importante é que os membros do grupo Anarquismo (onde se iniciou toda a história) também passaram, recentemente, por alguns rompimentos e discussões internas por causa de discordâncias com o dono do grupo, Henrique Xavier, e isso também acabou esquentando mais a discussão. Tudo isso para mostrar que o caso de Fernanda apenas entrou de pára-quedas dentro de um enorme conjunto de conflitos pré-instaurados e as vítimas de abuso sexual, que deveriam ser o foco da discussão, acabaram sendo atropeladas por uma avalanche de defesas de ideologias – que, claro, sempre estão acima das pessoas…

Analisando os comentários, repare que uma das moças disse que a culpa pela repressão de homens que sofreram abuso sexual seria do próprio “machismo” masculino, mas foram as próprias feministas – que teoricamente lutam contra o “machismo” – que ridicularizaram os homens que relataram ter sofrido abuso. E tudo por discordarem de sua ideia de que misandria “não existe” ou “não é tão grave assim”. Ironicamente, foi justamente quem alegou a inexistência da misandria quem a estava cometendo ali mesmo, no próprio ato de sua negação, ao ridicularizar o sofrimento de homens vítimas de abuso, discriminação e tentativa de suicídio. Depois, justificaram essas atitudes dizendo que “têm permissão para odiar os homens” por terem sido “vítimas do patriarcado” e ninguém pode negá-las o “direito” ao ódio contra o opressor. Infantil, não? Mas é o que acontece. Isso só confirma minha ideia de que a negação da misandria nada mais é do que uma desculpa para praticá-la.

Outras afirmaram, ainda, que também foram ofendidas pelos homens, embora todas essas ofensas tenham sido deletadas pelos próprios ofensores, que perceberam seu erro, ou pela administração da página, enquanto que a maioria dos insultos delas permanece publicado, conforme pode ser visto na página da publicação.

Neste ponto, me pergunto até onde vale passar por cima das pessoas para defender uma ideologia. No auge de um fanatismo ridículo, pessoas exigem atenção sobre seus sofrimentos mas negam a oportunidade de outras pessoas falarem sobre os seus, tudo porque essas “outras pessoas” não fazem parte do grupo que os adeptos dessa ideologia consideram como “vítimas”.

Mas, além de pensar nos danos sofridos por esses homens que foram insultados e cujos sofrimentos foram ridicularizados (muitos decidiram retirar os comentários da página para não serem ofendidos ou deletaram seus perfis do Facebook por se sentirem mal com o que aconteceu), penso também no caso dessas moças que foram vítimas de abuso sexual e, em vez de serem incentivadas a buscarem tratamento para superar seus traumas, são incentivadas a transformarem sua dor em ódio pelos homens.

Uma das moças cujos comentários eram mais agressivos e que declaravam mais abertamente seu rancor contra todos os homens também se declarou vítima de estupro e também excluiu sua conta após a discussão e, após isso, de acordo com uma amiga, estava passando por uma séria crise depressiva. Tudo por ter discutido em uma página da internet com homens aos quais ela própria havia inicialmente ofendido de maneira pesada por terem discordado do fato de que ela tinha direito de odiá-los por ter sido vítima de estupro. Isso me fez pensar no nível de estresse mental ao qual ela foi submetida e no quanto isso poderia ter sido evitado. Pois qualquer um que lesse seus comentários (que já não podem ser vistos, uma vez que sua conta foi bloqueada) perceberia que o ódio que ela estava demonstrando era muito anterior à toda aquela discussão. A palavra que me vem à cabeça, quando penso nesse caso e no da Fernanda, é “doutrinação”.

Não creio que nenhuma dessas moças tenha realmente algum ódio contra os homens por terem sido vítimas de abuso. Pelo meu caso e o de diversos outros amigos e amigas que já passaram por esse trauma, acho pouco provável que o ódio seletivo a todo um grupo que compartilhe características em comum com o abusador seja fruto natural do abuso. Tal ideia lembra a também falaciosa “teoria do vampiro”, de que uma criança que sofre abuso sexual será uma potencial estupradora quando tornar-se adulta. Todas apresentam a vítima de abuso sexual como uma provável pessoa doente, desequilibrada, que não pensa como as “pessoas normais”. Entretanto, é inegável que uma vítima de abuso pode ser muito frágil, principalmente se o abuso foi recente.

Com base nesses dados e no fato de as falas apresentadas por essas “misândricas com motivo” apresentarem uma série de discursos pré-concebidos e bastante comuns em círculos feministas mais fanáticos (como “cultura de estupro”, “misandria política” e “homens são estupradores em potencial”), tudo leva a crer que o ódio dessas moças é baseado mais na doutrinação ideológica do que no abuso em si.

Não é de hoje que o feminismo usa o estupro como palavra-chave para atrair empatia. Isso porque seus adeptos sabem que o estupro é, provavelmente, o crime mais repudiado em nossa sociedade. O assassinato, o sequestro, o latrocínio, o tráfico… Nenhum desses crimes causa tanta repulsa no cidadão comum quanto o estupro, tanto que os próprios criminosos odeiam estupradores. E, se somarmos isso à péssima tendência que temos de associar estupro como um crime cometido apenas contra mulheres (quando o próprio Código Penal já mudou esse conceito desde 2009, por assumir que homens também são vítimas), fica fácil entender por que é tão fácil usar o estupro para promover uma campanha de vitimização feminina acompanhada de demonização masculina. E por que é tão fácil convencer uma mulher que foi vítima de estupro de que ela tem o direito de odiar os homens…

Lembrando muito os casos denunciados por Evin Rubar há quase dez anos atrás, essas moças são convencidas de que foram estupradas para que seu abusador pudesse reafirmar seu “poder masculino” sobre seus corpos e que todos os homens, “ensinados pela cultura patriarcal a dominarem as mulheres”, são capazes de estuprar para manter esse “domínio”. “Eles farão de tudo para manterem seu poder sobre nossos corpos, foram ensinados a serem assim”. Isso é o que dizem as teorias de feministas como Eva Lundgren, por exemplo.

Coment10

Entretanto, usar o trauma de uma vítima de estupro para doutriná-la ideologicamente é uma forma covarde de conseguir adeptos. Tomar a dor de uma pessoa e transformá-la em ódio para torná-la um soldado ideológico definitivamente é um golpe baixo que mais prejudica do que atrapalha essas pessoas. Basta ver o nível de estresse mental enfrentado por esses “soldados” quando postos no “campo de batalha”. E isso porque nem paramos para pensar na forma como muitos fazem crer que o estupro as aguarda atrás de qualquer esquina e por trás de qualquer olhar masculino, gerando uma paranoia bastante influenciada por atitudes como o recente relatório do Ipea sobre o estupro no Brasil.

Coment12

Misandria não tem justificativa. Tentar justificá-la usando o argumento de que homens merecem ser odiados por mulheres que foram vítimas de algum homem é ensinar a essa vítima que ela não tem controle nem responsabilidade sobre seus impulsos e que não há nenhum problema em odiar pessoas inocentes porque ela, como vítima de estupro, é totalmente isenta de culpa quando dirige ódio contra alguém (mesmo esse ódio potencializando ainda mais seu sofrimento). E é ensinar também que homens inocentes, incluindo aqueles que também foram vítimas de estupro, merecem ser odiados porque o simples fato de ser homem faz dele um demônio, o receptáculo da culpa de todos os crimes que indivíduos isolados fizeram – ainda que essa atitude os leve à depressão. Tudo isso para quê? Para o bem de uma ideologia?

Não, isso não tem justificativa!

Postado originalmente aqui.

7 thoughts on “Doutrinação de vítimas de estupro”

  1. Aldir Gracindo

    Fico feliz em ter seu primeiro artigo publicado aqui, Aurélio. Bem-vindo!
    (Estou vendo que seu perfil ainda não ficou pronto, logo vamos resolver isso.)

    1. Aldir Gracindo

      Confuso em que?

      Não leva a nada como? Essa discussão à toa diz respeito a leis que estão sendo preparadas para dizer que todo homem e menino, por princípio (inconstitucional, mas que o STF ‘constitucionaliza’ fácil, fácil) é estuprador. Como hoje é espancador da própria companheira, etc. Se algum homem que você conhece for preso e condenado só por uma acusação, como ocorre hoje com a Lei Maria da Penha, você vai entender aonde essas meras discussões levam, levam gente inocente à cadeia.

      1. Fiquei confuso com a “narrativa da história”… Blog tal disse isso, ai blog tal disse aquilo, ai não-sei-quem falou aquilo outro, ai a página no facebook tal disse isso, que gerou uma resposta de não sei quem…

        Você narrou uma discussão de Internet… Tudo bem, teve o mérito de envolver muita gente, mas no fim é só mais uma discussão de Internet, que não levou a lugar nenhum. Não virou lei, não foi parar na polícia, ninguém morreu, ninguém nem mesmo perdeu o sono por isso.

        Eu até concordo com o “mote” que inspirou o post, as Feminazis, a cultura da demonização do homem (humano do sexo masculino) e tudo mais… Mas quando eu entrei aqui eu esperava um artigo sobre o assunto, não uma meta-discussão.

        Mas tudo bem, o blog é seu, você é livre para escrever o que quiser… Eu é quem sou o intruso. Respeito seu espaço.

        Até mais!

        1. Aldir Gracindo

          Entendi o motivo da confusão. A questão do estupro não se encerra numa discussão. Realmente, falta mostrarmos às pessoas que se trata de toda grande universidade no Brasil, todo grupo feminista, prefeituras, governos estaduais, estarem envolvidos na campanha “estuproculturista”. Estão aproveitando vítimas de estupro real para engrossar a campanha e estão tendo resultados perigosos.

          Não é um blog, todos podem enviar textos a fim de contribuir, como foi feito pelo Aurélio. E você não é intruso aqui, irmão.

          Abraço, até mais.

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