A mulher por trás da primeira foto de buraco negro… é Fake News?

Ontem foi mais um dia de lacre feminista. Dessa vez, a “notícia” em diversos informativos, como CBS News, Yahoo News, BBC News, New York Post e vários outros, em inglês, assim como MSN, Revista Galileu e vários outros, em português – foi sobre “Katie Bouman, a mulher por trás da primeira foto de um buraco negro.” A foto de Katie feliz se espalhou pela internet juntamente com a foto do buraco negro, resultado do projeto.

No Facebook, uma feminista fez uma postagem do tipo “empoleirada” que viralizou:

https://www.facebook.com/julia.ivy.7311/posts/131266804656474

“Vai ter que aguentar o poder da mulher na ciência.” Em um dos comentários, o glorioso complemento: “Chora machistas”! Pois é, machos, acabou. Suas filhas são o futuro e seus filhos, o passado. “A casa grande surta quando a senzala…” e outros diatribes interseccionais que você quiser, insira aqui. A fantasia de que as mulheres foram oprimidas por trocentos mil anos e agora vão pisar sobre os homens brancos héteros misóginos opressores agora é realidade. Nenhuma mulher vai poder fazer mais nada sem se tornar peteca neste jogo político carcinogênico antimasculino.

A postagem foi replicada pela grande página da esquerda regressista no também esquerdo-regressista Facebook, a Quebrando o Tabu.

E ontem mesmo, a controvérsia. Katie estaria recebendo todo o crédito pelo trabalho de um homem: Andrew Chael. Isabel Togoh, no também regressista Huffington Post, disse que o ataque – contra os sonhos de pobres e heroicas menininhas de se tornarem cientistas – disparado por horríveis trolls a partir das negras fossas de ódio da internet, teria surgido no fórum Reddit, onde um usuário teria dito:

É, essa mulher escreveu mais ou menos 2.000 linhas da codificação total. Outro cara escreveu mais de 850.000. Katie mal trabalhou em nada no projeto até ano passado, Andrew Chael trabalhou nele incansavelmente desde a sua concepção. Se alguém merece crédito, é ele.

Chael, agora memeficado, corre a internet com prints sugerindo a pouca participação de Bouman no resultado final. Aqui tem um exemplo:

Chael viu a história passar e se manifestou em 8 tuítes. Disse que, apesar de ter sido o principal criador do código, não escreveu 850.000 linhas de código, que muitas dessas estão em arquivos do software atual, que o total é de 68.000 linhas e ele não se importa com quantas ele escreveu pessoalmente – não se importa, mas disse ter sido “o principal”, não é? E até adicionou que é homossexual, informação sem qualquer importância, exceto para quem quer sinalizar para a (in)justiça social que é membro do seleto grupo das minorias.

O que importa é: O que é verdade nessa história tão conspiratória e rocambolesca? Bouman foi a propiciadora da primeira foto de um buraco negro ou não? Teria ela se apropriado do trabalho de Andrew Chael e ele a estaria protegendo por ela ser sua chefe? Ela coordenou a equipe e por isso foi creditada como foi na imprensa?

Há muitas fontes de onde obter e filtrar detalhes, para quem quiser. Fico com o que eu acho mais relevante e favoritei Sarah Mervosh, que diz quase tudo no New York Times, sob o título tão revelador Como Katie Bouman acidentalmente se tornou a face do Projeto Buraco Negro e já com uma sublime contextualização da estória:

Quando a primeira foto de um buraco negro foi revelada esta semana, outra imagem começou a se propagar pela internet: uma foto de uma jovem cientista, batendo as mãos sobre o rosto e reagindo com alegria a uma imagem de um anel laranja de luz, circulando um abismo profundo e negro.

Era uma foto boa demais para não ser compartilhada. A cientista Katie Bouman, uma estudante de pós-doutorado que contribuiu para o projeto, se tornou uma heroína instantânea para as mulheres e meninas na área científica, um símbolo bem-vindo em um mundo faminto por representação.

Figuras públicas, de Washington a Hollywood, souberam o nome dela. E alguns ativistas, familiarizados com como a história pode apagar a contribuição das mulheres…

Sim, de fato. Heroína para as mulheres e meninas, o mundo faminto por representatividade, mulheres oprimidas pela historiografia… Sem surpresas no framing que dado à história – Digo no sentido da música do Radiohead Sem Surpresas, mesmo.

Mas, escusando a contextualização pararreligiosa de Mervosh, ela transmite fatos. Katie é uma jovem cientista, pós-doutoranda, que contribuiu para um trabalho importante para qualquer pessoa no planeta interessada em Ciência. Ela colaborou em uma equipe de 200 pessoas em todo o mundo. Quarenta mulheres, 160 foram homens.

Ela é “a mulher por trás da imagem”, portanto? Não.

Ela foi a líder do projeto? Também não. O Projeto Buraco Negro é uma iniciativa da Universidade de Harvard e é liderado pelo astrônomo Shep Doeleman, do Harvard Smithsonian Center for Astrophysics.

Ela liderou uma das equipes, então? Também não. A Dra. Katie Bouman liderou um grupo que desenvolvia um software para criar a fotografia de um buraco negro e chegou a fazer um Ted Talk a respeito. Mas aquele software não foi usado para criar esta fotografia.

Vendo-se retratada como “a mulher por trás da foto do buraco negro”, Bouman teve o cuidado de fazer, gentilmente, o esclarecimento de que “Nenhum algoritmo ou pessoa fez esta imagem. Ela requereu o incrível talento de um time de cientistas de todo o globo” em uma postagem no Facebook:

I'm so excited that we finally get to share what we have been working on for the past year! The image shown today is the…

Posted by Katie Bouman on Wednesday, April 10, 2019

Estou muito entusiasmada por nós finalmente podermos compartilhar o que nós temos trabalhado durante o último ano! a imagem mostrada hoje é a combinação de imagens produzidas por múltiplos métodos. Nenhum algoritmo ou pessoa fez esta imagem, ela requereu o incrível talento de um time de cientistas de todo o globo e anos de trabalho duro para desenvolver o instrumento, processamento de dados, métodos de criação de imagem e técnicas de análise que foram necessários para obter esse feito aparentemente impossível. Foi verdadeiramente uma honra e eu tenho muita sorte de ter tido a oportunidade de trabalhar com todos vocês.

Katie Bouman usou a foto, agora famosa, no seu perfil do Facebook, comentando: “Observando incrédula a primeira imagem, no processo de ser reconstruída, que eu já fiz de um buraco negro.” Onde alguém comentou: “Isso é uma descrição bem humilde. Não é a primeira foto DE TODOS OS TEMPOS de um buraco negro, além de ser a primeira que você já fez?” Ela responde:

Na verdade, não, houve um grande número de nós que, todos espremidos dentro de uma sala e apertamos go nos nossos computadores exatamente ao mesmo tempo! Nós não queríamos que qualquer pessoa ou algoritmo fosse o primeiro a fazer a imagem. Reconhecimento a Andrew Chael, Michael Johnson, Kazu Akiyama, Daniel Palumbo, Lindy Blackburn, Maciek Wielgus, Sara Issaoun e muitos outros!

Watching in disbelief as the first image I ever made of a black hole was in the process of being reconstructed.

Posted by Katie Bouman on Wednesday, April 10, 2019

A propósito, Andrew Chael não escreveu mais de 850.000 linhas de código. Como qualquer usuário de Github, ou a página guides.github.com, pode esclarecer, “commit”, naquela plataforma/software, significa salvar alterações – não importam quantas ou quais – você realiza no seu trabalho. Comparativa e exemplificativamente, você pode escrever um artigo de 35 linhas para o seu site, “commit” (postar) uma vez, depois fazer 50 alterações, adicionando 3 linhas ao texto e “commit” (salvar as alterações na postagem) 15 vezes. O número de “commits” não significa, absolutamente, o número de linhas de código.

Conclusão: A grande imprensa usou a foto da Dra. Katie Bouman para fabricar a narrativa da “mulher se apoderando da ciência e que a sociedade machista ia ter que aguentar.” Ela não é “a mulher por trás” de um grande avanço científico. Ela não comandou o projeto. Ela também não se apropriou do trabalho de David Chael. Ela própria jamais disse ser “a mulher por trás da foto do buraco negro”, pelo contrário – e por isso mesmo não terá outros 199 cientistas, no mínimo, a desmentindo.

Eis uma mera e legítima suspeita: Alguém se empolgou com a foto, extrapolou a realidade e a imprensa entrou em modo ctrl+V em dominó. Não seria a primeira vez. Some-se a isso que Bouman estrelou um TED Talk justamente falando de software criador de imagem de buraco negro e voilá! Os sites jornalísticos, a Quebrando o Tabu e as feministas do seu Facebook entraram nessa realidade alternativa, diversa da realidade dos cientistas do projeto.

Segundo Sarah Mervosh, aquela do NY Times, Katie Bouman disse ter chegado a desligar o telefone nesta quinta-feira por causa da grande quantidade de mensagens. “Fico feliz que todos estejam entusiasmados como nós e as pessoas estejam achando a nossa história inspiradora”, teria dito Bouman. “Porém, os holofotes deveriam estar sobre a equipe e não em uma pessoa individual. Focar em uma pessoa dessa forma não ajuda ninguém, nem a mim.”

“Outras mulheres no projeto também comemoraram esta semana”, rebate e finaliza Mervosh, e eu grifo em itálico.

O texto teve edições desde a data de postagem.

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