Feminismo e falsa dicotomia

É preciso ser feminista para defender a igualdade de gênero?

Como movimento ideológico, o feminismo intitula-se como porta-voz da igualdade de gênero. Mas será que essa definição basta para defini-lo? Tal questionamento se dá pelo fato de que, ao definir-se dessa forma, o feminismo incorre ao uso de uma falsa dicotomia.

Falsa dicotomia ou falácia do “preto ou branco” é uma falácia retórica que consiste em apresentar a ideia de que somente duas respostas ou posicionamentos são possíveis em uma determinada questão, quando, na realidade, existem outras possibilidades que permanecem omitidas. Em geral, os dois posicionamentos apresentados por quem utiliza a falácia costumam ser dois opostos extremos dentro de uma linha de raciocínio.

Vejam, por exemplo, o que a escritora Clara Averbuck afirma em um texto publicado em seu blog na página da Carta Capital intitulado “Feminismo para Leigos“:

“Feminismo não prega ódio, feminismo não prega a dominação das mulheres sobre os homens. Feminismo clama por igualdade, pelo fim da dominação de um gênero sobre outro. Feminismo não é o contrário de machismo. Machismo é um sistema de dominação. Feminismo é uma luta por direitos iguais.”

“Então se você diz “não sou feminista, acho que todos deveriam ser tratados igualmente e ter os mesmos direitos” você está dizendo, exatamente: ‘não sou feminista, mas sou feminista’”.

Apesar de “feminismo” ser definido como não sendo o equivalente contrário de “machismo”, as definições que Averbuck dá aos termos deixa transparecer que ambos são pensamentos opositores: “o feminismo é contra o machismo”. Se isso for considerado dentro de uma situação dicotômica, chega-se, ainda, à afirmação: “quem é contra o feminismo é machista”.

O texto tem, inclusive, um teste para averiguar se o leitor é feminista, com perguntas do tipo “Você concorda que uma mulher deve receber o mesmo valor que um homem para realizar o mesmo trabalho?” ou “Você concorda que uma mulher não pode sofrer violência física ou psicológica por se recusar a fazer sexo ou a obedecer ao pai ou marido?“, dentre outras, que reforçam a ideia de que alguém ser favorável à igualdade de gênero e à liberdade da mulher é, de fato, feminista – e, consequentemente, a de que alguém que proclame-se contra o feminismo seja contra uma ou ambas as coisas. Entretanto, creio que essa abordagem não é, de todo, verdadeira.

Ora, se um movimento é, de fato, defensor da igualdade de gênero, é lógico considerar que alguém que se oponha a esse movimento é contra essa igualdade proclamada. E é nesse ponto que o questionamento inicial se detém: discordar do feminismo – ou não ser feminista – é ser contra a igualdade de gênero? A resposta é: NÃO. E o motivo disso é o fato de a definição do feminismo, “movimento que luta pela igualdade de gênero”, estar incompleta…

Feminismo não é simplesmente “luta por igualdade de gênero”. Feminismo é a luta por igualdade de gênero baseando-se na premissa da opressão histórica da mulher pelo homem. Tal especificação é de total relevância pois permitirá que se possa pensar a questão de maneira mais ampla: é possível ser a favor da igualdade entre gêneros, mas não de acordo com a proposta feminista? Pois, se a luta por igualdade parte de uma visão que não considera a mulher como única vítima (ou o homem como único agente) da desigualdade – possibilidade não considerada por quem acusa de ser contra a igualdade alguém que se diz não-feminista -, isso faz cair por terra a dicotomia de que “ou se é feminista ou se é contra a igualdade” (ou “machista”, como mais comumente se afirma).

Mais realista – e talvez mais honesto – seja este texto da socióloga Marília Moschkovich, “Por que alguns homens “feministas” não falam sobre as questões das mulheres?“, publicado em seu blog pessoal, que traz outro teste, um pouco diferente, para averiguar o “grau de feminismo” do leitor. Reproduzi a imagem com e teste abaixo (não sei se a Marília Moschkovich é a autora do teste, o texto não deixa claro. Ah, e o “disvantagem” já estava assim 😛 ).

Para ver o teste, clique aqui.

Pode-se perceber, então, que a questão é mais complexa que a simples luta por igualdade. Se a luta contra a desigualdade é pautada na premissa de que ambos os gêneros sofrem desvantagens e que ambos devem protagonizar a discussão em uma luta por igualdade, ela não necessariamente será classificada como feminista (podendo, inclusive, sofrer retaliação de quem se intitula como tal), já que o feminismo é, por definição (e aqui eu aprofundo a definição dada anteriormente), um movimento pelos direitos das mulheres, com foco nos problemas das mulheres, tendo somente a elas como protagonistas e com o pressuposto de que elas são as oprimidas no sistema de poder controlado e criado para empoderar apenas ao sexo masculino. A expressão “male tears“, com cunho pejorativo, já deve ter sido dirigida a qualquer um que tenha tentado apresentar problemas masculinos em um debate feminista, sob a alegação de estar “roubando o espaço feminino”. (E, se querem saber, foi justamente na terceira resposta – “desvantagens iguais de jeitos diferentes” – que o “não-feminismo” deste que vos escreve ficou comprovado).

Embora os textos considerados acima não sejam os únicos a tratarem do tema nem sejam conclusivos para se chegar a um consenso sobre a definição da ideologia feminista, creio que foi possível perceber, afinal, o porquê de dizer que alguém é “machista” ou “contrário à igualdade de gênero” pelo fato de discordar do feminismo ser uma falsa dicotomia, sabendo que alguém pode defender a igualdade de gênero sem enxergar a mulher como única vítima do processo histórico e, ainda, dispondo-se a ouvir e discutir problemas enfrentados pelos homens. A visão baseada na dualidade “mulher oprimida X homem opressor” é, obviamente, uma visão maniqueísta, tal como a maioria das visões que originam falsas dicotomias, e o problema dos maniqueísmos é que eles são baseados em uma estrutura fixa para definir o bem e o mal, podendo – e quase sempre acabando – por produzir uma forma de preconceito reacionário que tenta se justificar na ideia de “reação do oprimido”. Grupos pela igualdade com protagonismo masculino, por exemplo, são muitas vezes rotulados arbitrariamente de “misóginos” ou “machistas”, tão grande é vínculo que a palavra “homem” tem, entre grupos feministas mais radicais, com termos negativos como “opressão”, “violência” ou “estupro” (sobre o uso do termo “machismo” como palavra-chave de tática do espantalho, falarei algo futuramente).

Por fim, acho que este meme de autoria desconhecida que encontrei vagando pelo Facebook é bem apropriado quando se usa falsa dicotomia contra alguém que discorde do feminismo… falsa-dicotomia Originalmente postado aqui.

7 thoughts on “Feminismo e falsa dicotomia”

  1. Concordo com o texto. Muito bom. Sou a favor da igualdade de gêneros, mas reconheço que ambos os gêneros sofrem opressão com o machismo. Alguns radicalismos feministas muitas vezes são desnecessários e injustificáveis também.

  2. Entendo seu argumento, mas discordo em alguns pontos.
    Como feminista, não vejo essa dicotomia mulher vítima x homem opressor tão engessada no pensamento do movimento da maneira como você colocou. A maioria das feministas que é referência para mim e para muitas outras entende que o machismo é uma construção social, que não tem apenas esse ou aquele grupo como agente. Desta forma, homens e mulheres são responsáveis por perpetuar o machismo, diariamente, assim como ocorre com o racismo, a homofobia, o preconceito contra idosos, etc. Esse pensamento se revela inclusive na criação de páginas como o “Moça, você é machista” e no movimento para que mães eduquem seus meninos de uma maneira mais consciente, uma vez que as mulheres ainda ficam hoje com grande parte da responsabilidade da educação das crianças.
    Dito isto, os homens precisam assumir sim sua parcela de responsabilidade nesse sistema. A violência contra a mulher é um problema social no mundo todo. Mortes por companheiros, estupros, abusos e assédios acontecem diariamente. No Congresso brasileiro, 90% dos representantes brasileiros são homens. A maioria dos cargos nas grandes empresas são ocupados por homens. Indiscutivelmente, estamos em uma sociedade dominada não só por homens, mas por homens brancos.
    O machismo (ou o sexismo, se preferir), coloca regras, mordaças e coletes de força em todos nós. Mas como grupo que saiu privilegiado nessa divisão de forças, os homens têm que reconhecer a dominação que seu gênero coloca sobre o feminino e assumir sua responsabilidade, da mesma forma como os brancos precisam reconhecer que a sociedade os coloca em uma posição de privilégio em relação aos negros. Para mim, é uma questão de maturidade.

    1. Então, dentre as 20 linhagens de feministas, você é a do “tipo Betty Friedan”, que “não é contra os homens”, é contra o “sistema”, é contra o “machismo.”

      Como qualquer feminista, eu considero sua logica obviamente autocontraditória e eu poderia sair listando os erros aí.

      Mas, diálogo com feminista “boazinha” dura pouco, porque feminista boazinha não é o que pensa que é. Então, vou só fazer uma pergunta, que na verdade é retórica, já que você se supõe uma das feministas “do bem”, não-misândricas que só querem combater o tal “machismo”, que e um sistema de opressão que privilegia os homens e oprime as mulheres: Quem teria, então, criado esse sistema (que para mim é uma mentira feminista óbvia, só que vocês se acostumaram ao mimo de não ouvir muito que suas teorias são ridículas), por que e pra que?

    2. Larissa Veloso disse: “não vejo essa dicotomia mulher vítima x homem opressor tão engessada no pensamento do movimento … é uma construção social, que não tem apenas esse ou aquele grupo como agente”. Então me explica uma coisa, feministas dizem que homens são machistas, mas porque a nova moda feminista é dizer que “não existem mulheres machistas, mulheres apenas reproduzem o machismo”. Quando o machismo vem das mulher é diferente! Resumindo a lógica feminista mais atual, o homem machista é um babaca consciente, a mulher machista é uma inocente vítima da própria ingenuidade.
      Para piorar, ainda tem uma grande parcela dizendo que homens não podem ser feministas, mas apenas colaboradores. Não digo que você compartilha dessas ideias, mas são ideias que vejo com muita frequência atualmente.
      Por exemplo, se um homem não quiser ficar com uma mulher e ela ridicularizar sua masculinidade, para as feminista ela é só uma ingênua “reproduzindo o machismo” e mulheres só cobram posturas machistas dos homens por “inocência”. No feminismo todos os erros dos homens são babaquice, todos os erros das mulheres são inocência.

    3. Jorge Alan Vivace

      O feminismo é e sempre foi um movimento maniqueísta. E por mais que uma feminista pose de “moderada”,ela nunca é diferente das demais feministas. É sempre a mesma ladaínha: “O homem é forte e privilegiado,a mulher é fraquinha e sofre violência,a mulher é o ‘negro do mundo'” e mimimi,blábláblá…
      Larissa Veloso,já estamos vacinados contra seu discurso manjado.

      “A violência contra a mulher é um problema social no mundo todo. Mortes
      por companheiros, estupros, abusos e assédios acontecem diariamente.”

      Me diz uma coisa: Só a mulher sofre violência? Só as mulheres vivem com medo e sofrem agressões físicas e psicológicas? Os homens vivem felizes e despreocupados por aí,jogando futebol e tomando cachaça no bar? É isso que você acha?

      “No Congresso brasileiro, 90% dos representantes brasileiros são homens”

      E as mulheres são a maioria do eleitorado,sabia disso?

      “A maioria dos cargos nas grandes empresas são ocupados por homens”

      E a imensa maioria dos lixeiros,limpadores de esgoto,mineradores,varredores de rua,açougueiros,soldados e mendigos também são homens. Mas as feministas nunca tocaram nesse assunto,não é? Vocês não querem o “privilégio dos homens”,mas o privilégio de ALGUNS homens.

      “O machismo (ou o sexismo, se preferir), coloca regras, mordaças e
      coletes de força em todos nós. Mas como grupo que saiu privilegiado
      nessa divisão de forças, os homens têm que reconhecer a dominação que
      seu gênero coloca sobre o feminino e assumir sua responsabilidade, da
      mesma forma como os brancos precisam reconhecer que a sociedade os
      coloca em uma posição de privilégio em relação aos negros. Para mim, é
      uma questão de maturidade.”

      Qual é a “dominação do homem sobre a mulher”? A chefia das empresas e a maioria no congresso? Responda,as mulheres são tão empreendedoras quanto os homens? As mulheres,por acaso,sempre tiveram o costume de lutar por suas carreiras,pensando no sustento de marido e filhos? Antigamente,o direito ao voto vinha acompanhado da obrigação de servir o exército,por acaso as mulheres queriam servir o exército e arriscar suas vidas em guerras? Se há mais homens na política,na liderança de grandes empresas ou ganhando mais dinheiro,isso é uma consequência histórica e não uma “criação do patriarcado malvado”.
      Feministas dizem que a mulher foi oprimida,durante toda a história,por
      terem que ficar restritas ao ambiente doméstico, enquanto os homens eram
      privilegiados por poderem trabalhar fora. Mas trabalhar fora
      nunca foi um privilégio até a Revolução Industrial. Na realidade,esse
      era o trabalho mais indesejável e arriscado. Pensemos, quais eram os
      “trabalhos fora” que 99,9% dos homens faziam até o século XIX? Plantar,
      capinar, cuidar do rebanho, carregar pedra, esquentar ferro, puxar
      carroça… E isso numa sociedade em que tais funções não necessariamente
      representavam lucro, visto que era uma sociedade rural,em que
      praticamente não existia mobilidade social, ou seja, ele ia ficar nessa
      situação para o resto da vida. Chamar a esses homens de “privilegiados” é,na melhor das hipóteses,um anacronismo gritante, pois sabemos que esse tipo de divisão de
      trabalho era necessária e que homens e mulheres dependiam do trabalho
      um do outro para a sobrevivência da família. Foi só com o advento da
      Revolução Industrial, do capitalismo e da urbanização em massa que o
      “trabalho fora” passou a ser remunerado e mais seguro, que o dinheiro
      passou a ser o que comandava a sociedade e a ideia de “independência”
      passou a estar ligada a individualidade e a poder de consumo, de forma
      que ter dinheiro passou a significar poder, e para ter dinheiro era
      preciso trabalhar; Foi só então que o “trabalho fora” passou a
      significar “liberdade e independência” (que eu ponho entre aspas,pois
      essa “liberdade e independência” são construídas sobre valores
      capitalistas; se por um lado há a ideia de “não precisar depender de
      outra pessoa para ter sua própria vida”, para isso ela precisa se
      inserir dentro de outro sistema de exploração – o capitalista – que é o
      grande dilema do feminismo). Ou seja, o trabalho fora só passa a ser
      “vantajoso” no capitalismo, visto que antes disso ele não representava
      vantagem alguma, e lutar para trabalhar fora, nesse contexto, é lutar
      para se inserir no sistema capitalista – daí vem a teoria de que o
      feminismo é uma ideologia a serviço do sistema. Claro que hoje não faz
      sentido haver essa mesma divisão de trabalho, mas dizer que essa divisão
      privilegiava o homem e reprimia a liberdade feminina é olhar para o
      passado de acordo com a ótica e os valores de nossa época.
      A grande questão é que o feminismo baseia todos os seus estudos
      em cima dos homens,e concentra toda a culpa neles.
      A
      situação em que se encontram homens e mulheres não é fruto de decisões
      apenas masculinas, mas também de uma cumplicidade por parte das próprias
      mulheres. As teorias feministas colocam
      as mulheres como vítimas em quase todos os casos, se isentando de
      qualquer responsabilidade de mudança.

      Questão de maturidade? Maturidade,cara Larissa,é PENSAR antes de querer mudar o mundo,e não ler o livro de Simone de Beauvir e transformá-lo na sua “bíblia sagrada”,seu guia para toda a vida. Para mudar o mundo,em primeiro lugar,é preciso mudar a si mesmo.
      As mulheres devem sim lutar por seus direitos ( aqueles ainda não
      alcançados ), mas é preciso que elas estejam dispostas a reconhecer os
      próprios defeitos e aceitar uma construção espiritual.

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