Afinal, mulher joga videogame?

A pergunta inicial é: mulher joga videogame? Antes de qualquer coisa, quero afirmar que não sou especialista nas áreas, mas apenas um observador atento. Estou disposto a responder qualquer tipo de questionamento sobre os argumentos utilizados, uma vez que a própria intenção do artigo é questionar a metodologia usada em publicações diferentes.

Digamos que, hoje, seja decidido que homens e mulheres não têm qualquer diferença física ou cerebral. Todos os esportes e atividades competitivas serão mistos.

O que você acredita que acontecerá? Quais as consequências reais? Quem vai ter vantagem nisso? Difícil de imaginar algum cenário onde isso seja vantajoso pras mulheres.

Então por que é tocada repetidamente uma narrativa de que não só as mulheres estão profundamente inseridas no mercado e comunidade de games, como também não existe qualquer empecilho físico para que disputem junto e contra homens em partidas competitivas? A intenção deste artigo é levar em consideração alguns fatos que são ignorados pela mídia, nacional e internacionalmente. Sim, é um posicionamento bem peculiar, que é repetido ostensivamente ao redor do mundo.

A chamada da postagem deixa um “fato” claro: pelo terceiro ano consecutivo, mulheres são a maioria de gamers no Brasil.

Este último fim de semana me trouxe duas notícias que pretendo usar como exemplo aqui. A primeira é uma postagem da Girls of Comics, uma página no Facebook com mais de 360 mil curtidas. A página divulgou na sexta-feira (11) uma pesquisa do perfil do gamer brasileiro, feita pelo Sioux Group em conjunto com Blend New Research, ESPM e Go Gamer. A chamada da postagem deixa um “fato” claro: pelo terceiro ano consecutivo, mulheres são a maioria de gamers no Brasil. 58% dos jogadores, pra ser preciso. Isso gera uma falsa sensação de pertencimento. A mulher lê a notícia, se anima e compra um console. Passa dias jogando e praticamente só encontra homem. Natural que ela se desmotive, uma vez que esperava um cenário completamente diferente. Não existe você estabelecer um dado impreciso como “fato” e esperar que a realidade se molde ao redor do “fato” em si. Aí, numa situação hipotética onde ela confronte aqueles que divulgaram a informação, a resposta certamente seria “Mas a gente não disse isso. Não é nossa culpa se você entendeu dessa forma e criou expectativas em cima disso.”

Só que há pequenos defeitos na apresentação dos dados. Antes de prosseguir, vamos passar o resumo da pesquisa: A pesquisa foi feita com 2853 pessoas, em dois estados e no DF (não diz quais estados). A pesquisa não cita quantos homens e quantas mulheres foram entrevistados, mas cita que as mulheres são a maioria. A pesquisa também cita que a plataforma preferida para as mulheres é o mobile.

“O mais interessante é que as características de jogo das mulheres divergem da dos homens, e normalmente há uma preferência pelos dispositivos móveis”. Não é citado o percentual de mulheres que jogam em mobile.

O que complica bastante a compreensão aqui é que não há, no artigo inteiro, percentual que destaque o número de mulheres presentes nos consoles e PCs.

Diz que, do total de entrevistados, 46% jogam em console e 44% em PCs. Não diferencia sexo nesses dados.  Por que isso é um dado relevante? Porque é um indicador da presença das mulheres nas comunidades de games como um todo. A primeira reação de alguém que lê “mulheres são maioria entre os gamers” é basicamente descrença. E não é por sexismo, mas por conhecimento empírico: muito raramente vemos mulheres participando mesmo passivamente de grupos de gamers internet afora, assim como nas jogatinas online. Jogadores de celular são, em sua maioria, o público casual dos games (embora este seja um cenário em rápido desenvolvimento. Emuladores e jogos como Free Fire, Fortnite e PUBG são cada vez mais jogados no mobile). Não estão ligados à comunidade na maioria esmagadora dos casos. Acredito que todos gostaríamos que a estatística fosse reflexo da realidade: mulheres mais presentes nos ambientes online, tanto nos games como em comunidades, trariam todo um novo espectro de opiniões pra mesa. Mas não é o reflexo da realidade, e uma pesquisa que poderia responder esse questionamento está cobrando R$5.000,00 para possivelmente dar a resposta. O único dado que dá alguma determinação de gênero aqui é quando os pais são perguntados se seus filhos jogam. As respostas dos pais foram de que 82,9% dos filhos jogam. Dividindo por sexo, 48,4% das filhas jogam, enquanto 71% dos filhos jogam. Esse é o único dado por gênero com percentuais que a pesquisa fornece. Se for possível para a equipe de pesquisa do Sioux Group fornecer esses dados, teríamos um layout muito mais preciso dos consumidores do mercado de games brasileiro.

segundo artigo que quero abordar aqui é algo bem complicado de aferir, mas que o pessoal do VS da IGN Brasil tornou bem simples. Publicado também na sexta-feira (11) começa dizendo que, embora o cenário de e-sports permita a competição mista na maioria dos casos, “as jogadoras não encontram seu lugar nos grandes times, sendo cobradas diretamente sobre desempenho, performance e resultados“.

Mas não é assim com todos os praticantes? Existe alguma discriminação na cobrança que o artigo não evidencia? Citando a resposta de Amanda “AMD” Abreu, pro player de CS:GO:

Eu sei que os campeonatos não são exclusivos para competidores masculinos, mas temos muitos problemas nesse cenário dito como ‘misto’. Muitas meninas sofrem não só assédio, como também ofensas e intimidações. Não são todas que têm psicológico para lidar com isso.

É fácil de entender a justificativa, mas o cenário em si continua aberto para todos e apenas o aumento da presença feminina e punições maiores para quem descumpre as regras pode trazer resultados positivos para isso. O artigo segue citando um excelente exemplo de pro player: Kim “Geguri” Se-yong. Mostra que ela enfrentou críticas às suas habilidades como falsas e desbancou quem a criticava. Sensacional.

O artigo também cita, ligando um clipe do twitch, que “ela ainda é cobrada a respeito de sua aparência, com inúmeros comentários no chat das transmissões mencionando seu peso ou corte de cabelo curto demais.”.
Ninguém no clipe faz isso. Logo em seguida liga um tweet de Geguri onde ela se desculpa por ser gorda, mas não mostra a origem das críticas. Vamos ter que confiar na palavra do Versus da IGN Brasil pra isso, porque o artigo em si não cita fontes nem provas da perseguição. Geguri é uma jogadora sensacional, sem sombra de dúvidas.

Tem mais dois pontos a serem abordados nessa narrativa. O artigo do VS afirma que um estudo da Universidade de Berkeley e Universidade do Estado de Michigan “comprovou que indivíduos masculinos e femininos não apresentam diferenças de performance em jogos eletrônicos“. O critério avaliado para definir dita igualdade entre os sexos em performance foi o tempo levado para subir de level em dois MMOs diferentes .

Thus, perceived gender‐based performance disparities seem to result from factors that are confounded with gender (i.e., amount of play), not player gender itself. We conclude that the stereotype of female players as inferior is not only false, but also a potential cause for unequal participation in digital gaming.

Ou, traduzindo:

Portanto, disparidades de performance baseadas em gênero parecem resultar de fatores que são confundidos com gênero (exemplo: tempo de jogo), não com o gênero do jogador em si. Nós concluímos de que o estereótipo de que jogadoras são inferiores não é apenas falso, mas também uma causa potencial para a participação desigual na jogatina digital.

Qualquer gamer com quase nada de experiência sabe que MMOs em geral são um dos gêneros MENOS exigentes de habilidade possível: é literalmente clicar num monstro até subir um medidor de experiência. Comparar o tempo de grind num MMO com habilidade em e-sports é como comparar tirar carteira de habilitação com ser piloto de F-1. Não estou dizendo que há disparidade entre sexos, mas uma pesquisa com essas determinantes é reducionismo, e não consegue provar qualquer tipo de “igualdade”. Um pro player de CS-GO, Overwatch ou LoL, seja homem ou mulher, tem uma exigência de tempo de resposta muito maior do que uma pessoa jogando MMO.

Eu, como leigo, penso em opções que considero mais plausíveis para fazer uma comparação precisa: Coordenação motora. Mais precisamente reflexo e Hand-Eye Coordination (coordenação mão-olho), e percepção espacial.

Existem estudos, não ligados a games, que fazem essa comparação entre homens e mulheres. Sobre o primeiro ponto, reflexo, a “International Organization of Scientific Research” determinou que o tempo de reflexo masculino é significativamente menor que o feminino. Usaram para a pesquisa 100 indivíduos entre 17 e 20 anos, sendo 50 homens e 50 mulheres.[1]

Sobre Hand-eye coordination, o “International Journal of Social Science and Humanity” determinou que, embora mulheres sejam melhores em calibrar, corrigir e aprender com os erros de ajustes finos, os homens são mais precisos em cumprir as tarefas passadas sem erros. Participaram do teste 68 indivíduos, sendo 36 mulheres e 32 homens.[2]

A parte do cérebro responsável pela percepção espacial e hand-eye coordination é o lóbulo parietal inferior, situado no hemisfério esquerdo do cérebro. O lóbulo parietal inferior possui maior volume em indivíduos do sexo masculino do que feminino, de acordo com a Johns Hopkins University. Foram avaliados 30 indivíduos, sendo 15 homens e 15 mulheres.[3]

Conclusão:

1-A participação de mulheres no ambiente gamer não foi definida. Os dados estatísticos fazem rodeios para dizer algo que, embora tenha sua verdade (mulheres jogam e preferem celular), não existe qualquer estimativa com números válidos de sua participação no ambiente gamer, seja nos consoles em parties, nos pcs ou em comunidades online.

2-EXISTEM diferenças não levadas em conta com relação ao comportamento cerebral masculino e feminino. Ligas femininas existem nos esportes e e-sports. Muito embora possa existir uma diferença cerebral, ela é menos complexa de se superar que uma diferença física. Mas o CNTP, a condição natural dos indivíduos, é diferente para homens e mulheres. Jogadoras como a Geguri na OW League são exemplos de superação. Elas deveriam ser muito mais louvadas.

 

Referências:

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