Superando a divisão Biologia x Cultura nas discussões sobre sexo/gênero

Para quem ainda não viu, o Aldir Gracindo (editor deste site) representou muito bem os Ativistas pelos Direitos dos Homens (e, mais especificamente, o AVFM) quando colocado para conversar com uma feminista (você pode ver o vídeo aqui). No vídeo, vemos algumas falácias sobre o papel da biologia e das pesquisas científicas serem repetidas e, como poucos cursos e instituições realmente ensinam o pensamento científico (e o papel da Biologia no comportamento), vou porque o Aldir estava certo ao dizer que homens têm maior desejo sexual por causa da testosterona.

A primeira falácia que precisamos abandonar é que uma predisposição biológica equivale a dizer que todos os indivíduos que apresentam uma característica serão sempre iguais (no vídeo: “porque existem mulheres com maior desejo sexual que os homens, não podemos dizer que a testosterona tem relação com o desejo sexual”). Lembremos que, atualmente, o paradigma dominante nas ciências biológicas é o evolucionismo darwinista, o qual defende que não somos cópias idênticas de nossos pais/mães, mas que todo indivíduo tem alguma coisa de diferente. Às vezes, é uma grande diferença, a maioria das vezes, uma diferença quase insignificante. Se essa diferença for herdável e aumentar as chances do indivíduo sobreviver e se reproduzir, ela passará para a próxima geração, o que tende a torna-la mais forte a cada nova geração.

Em segundo lugar, tanto o determinismo cultural quanto o determinismo biológico são muito falhos e incompletos sozinhos. Graças a epigenética, hoje sabemos que não basta uma informação estar no seu DNA, é necessário que ela esteja ativada para se manifestar e o ambiente afeta quais informações devem estar ativadas ou não (é isso que garante que seu cérebro nasça na cabeça e seu coração no peito, apesar de ambos terem o mesmo DNA).

Agora vamos ao assunto principal, não é necessário injetar testosterona em um monte de pessoas para saber seus efeitos. Em teoria, esse seria o método “ideal”, o que seria mais confiável, mas pode ser eticamente duvidoso e não seria garantido que sempre obteríamos os mesmos resultados. Aqui podemos fazer uma analogia com o clichê dos cegos descrevendo o elefante: se várias pessoas observam a mesma coisa de ângulos diferentes, cada uma descreverá uma coisa diferente, todas terão certeza de que estão certas e, frequentemente, não conseguirão unir as divergências de uma forma que faça sentido. Mas se a mesma pessoa observar a mesma coisa de ângulos diferentes, ela vai perceber onde está cada diferença e como elas se encaixam. Assim, podemos saber os efeitos da testosterona (ou das predisposições biológicas) estudando o problema de vários ângulos: comparações transculturais, estudos clínicos, estudos comparativos com outros animais, entre gêmeos, entre sexos, entre orientações sexuais, etc.

Por exemplo, vários estudos identificaram que, em média, homens pensam em sexo com mais frequência que mulheres, transam com mais pessoas ao longo da vida, masturbam-se com mais frequência, esforçam-se mais para conseguir transar, tentam (ou gostariam de tentar) mais posições sexuais, usam (ou gostariam de usar) mais objetos sexuais, gostariam de transar com mais frequência e essas diferenças continuam existindo quando comparamos homens com mulheres homossexuais ou comparamos diferentes culturas (para mais detalhes, vejam Baumeister, 2010; Buss, 2005; Ellis et al., 2008). Importante frisar que eu usei “em média” (apesar de achar desnecessário e redundante), justamente para lembra-los que pode haver mulheres com níveis de desejo sexual iguais ou acima do nível dos homens, assim como pode haver homens com níveis tão baixos quanto os das mulheres.

Estudos que comparam os níveis de testosterona entre vários homens sugerem que os homens que têm mais testosterona iniciam a vida sexual mais cedo que os homens com menos testosterona, têm mais parceiras sexuais, mais espermatozoides, mais interesse em sexo, mais casos extraconjugais, mais divórcios (Schmitt, 2005). Porém, é claro que isso não prova que “a testosterona aumenta o desejo sexual”. Para começar, a testosterona é apenas um dos vários hormônios que afetam o desejo sexual, outros incluem o estrogênio (hormônio que aumenta durante o período fértil da mulher), progesterona (hormônio que aumenta durante a gestação), oxitocina (associado ao comportamento materno e ao orgasmo) e vasopressina (associado ao comportamento paterno). Pode haver mais hormônios (imagino que o cortisol seja um deles) e cada hormônio pode ter múltiplas funções, podendo, inclusive, agir de formas ligeiramente diferentes em cada sexo. Coloquei apenas os hormônios e funções que parecem mais recorrentes no que leio, mas a testosterona parece ser a principal responsável pela diferença libidinal entre os sexos (sugiro o documentário Science of Men para saber mais sobre a testosterona).

Um exemplo do efeito de outros hormônios envolve os hormônios sexuais femininos. O comportamento sexual das mulheres tende a ficar mais parecido com o dos homens quando as mulheres estão no período fértil e não estão tomando pílula anticoncepcional (alto estrogênio, baixa progesterona) (Gangestad et al., 2005). A interação entre hormônios e ambiente está relacionado à paternidade, homens sofrem quedas nos níveis de testosterona, aumento da vasopressina, dentre outras mudanças hormonais quando são pais, o que parece explicar, pelo menos em parte, diminuição da libido em recém-pais (Flinn et al., 2005; Nunes-Costa et al., 2014). Já um exemplo interessante dos efeitos ambientais vem da Teoria de História de Vida (Life History Theory).

Essa subdivisão das teorias darwinistas diz que todo ser vivo deve optar (normalmente, de forma inconsciente) entre se reproduzir agora (e ter o maior número possível de descendentes) ou mais tarde (melhor qualidade que quantidade) e essa escolha pode mudar em função do ambiente. Assim, espécies/indivíduos que vivem em ambientes perigosos, com escassez de comida, com muitos patógenos e/ou instáveis atingem a maturidade sexual cedo e tendem a ter muitos filhotes (por que esperar ou ter poucos filhos se eu não sei se eu ou meu filho estará vivo amanhã?), enquanto espécies/indivíduos que vivem em ambientes seguros, com abundância de comida, poucas doenças e estáveis amadurecem mais tarde e têm menos filhotes (quanto mais filhos eu tiver, menos eu poderei dar para cada um, então melhor ter poucos e garantir que eles tenham uma boa vida) (Hentges & Wang, 2018). Essa teoria ajuda a explicar porque a vida sexual das pessoas que vivem em comunidades pobres, com baixa expectativa de vida e dominadas pelo crime começa mais cedo que as de classe média/alta, com alta expectativa de vida e baixa criminalidade, além das diferenças em gravidez na adolescência, idade na primeira menstruação, ausência paterna, mães com filhos de pais diferentes, etc.

Devido a diferença no potencial reprodutivo e investimento parental mínimo obrigatório (mulheres só podem gestar a cada 9 meses e normalmente não o fazem por mais alguns meses, até que o bebê desmame, enquanto homens podem engravidar várias mulheres e reproduzir-se de forma exponencial), os homens com maior desejo sexual conseguem se reproduzir mais, enquanto existiria um limite de até que ponto um maior desejo sexual seria benéfico para as mulheres. Isso também tornaria os homens mais “descartáveis” e não é à toa que homens sempre ficam com os trabalhos mais perigosos e insalubres, tendo menor expectativa de vida (Farrell, 1993/2014; Gilmore, 1990), o que sugere que adotar uma estratégia de reprodução mais imediata, mais focada em quantidade, seria uma estratégia melhor com mais frequência. Temos assim, biologia e cultura interagindo para criar uma diferença comportamental consistente, mas flexível.

Também temos que considerar que a poliginia (um homem ser casado com várias mulheres) é/foi permitido em quase todas sociedades conhecidas, mas a poliandria (uma mulher ser casada com vários homens) é extremamente rara (Campbell & Ellis, 2005, Schmitt, 2005). Em aulas com outros pesquisadores que conhecem mais de estudos transculturais, aprendi que, em sociedades poligínicas, as mulheres podem até preferir que seus maridos tenham mais de uma esposa, porque os homens querem transar com mais frequência do que elas e elas podem encaminhá-lo para a outra esposa, ao invés de se sentirem pressionadas a satisfazê-lo. Isso parece ser particularmente verdade se as esposas anteriores mantiverem seu status com a chegada da nova esposa, mas se cada nova esposa diminui o status das esposas anteriores, as mulheres preferem a monogamia.

Sobre a questão de injetar testosterona em pessoas para ver os efeitos, nós já fazemos isso, de certa forma, nas terapias hormonais para mudança de sexo. Pessoas que passaram por terapia hormonal tendem a relatar mudanças na libido e existem estudos que controlam a testosterona de animais de laboratório, ainda no útero, para observar seu comportamento sexual quando adulto (veja o Science of Men). Por fim, não nos esqueçamos das pesquisas clínicas. Existem várias condições médicas que afetam a quantidade de testosterona produzida ou seus efeitos, como Síndrome de Insensibilidade Androgênica (SIA) e Hiperplasia Adrenal Congênita (HAC). Você pode comparar o comportamento sexual de pessoas que tenham uma dessas condições com pessoas normais e verificar se encontra o mesmo padrão descrito ao longo desse texto (desconheço trabalhos desse tipo, mas pode ser porque eu não tenho familiaridade com o tema).

Se alguém disser que algo não pode ser biológico porque existem exceções, lembre-se: sempre haverão exceções! Pode ser que essas “exceções” tenham uma mutação genética ou condição clínica rara, podem viver em condições ecológicas que potencializam ou inibem uma característica ou possuem um viés que as impedem de ver as coisas de uma determinada maneira. Há muitas formas de explicar porque alguém não segue o mesmo padrão que os outros e, diferente das ciências exatas, uma exceção não invalida a regra. Pode ser que a regra seja inválida ou que há variáveis que foram ignoradas.

Se alguém disser que algo é cultural, isso não é uma explicação. “[…] pesquisadores culturalistas atribuem as diferenças sexuais às normas sociais que influenciam todos os membros da cultura similarmente. Entretanto, apelar às normas sociais pode apenas redescrever um fenômeno, ao invés de explicar suas origens.” (Kenrick et al., 2005, p. 809). Em outras palavras, dizer que algo é cultural é tão vago quanto dizer que é biológico ou que é assim porque Deus quis. Em nada te ajuda a entender como funciona, como surgiu ou pra que serve. Se numa cultura é de um jeito e outra cultura é de outro, precisamos entender porque elas diferem.

Outra falácia é a falácia naturalística: acreditar que, se algo for biológico, não pode ser mudada ou que pode ser usado para justificar guerras, discriminações e outras injustiças. Características biológicas podem ser mudadas, como espero ter demonstrado nesse artigo e, se alguém alegar que matou por ser biologicamente programada para tal, podemos responder que somos biologicamente programados para puni-lo. Assim, uma coisa ter um fundamento biológico não tira a responsabilidade que temos pelos nossos atos. Dizer que homens tendem a ser mais violentos por causa da testosterona não lhes dá carta branca para agredir quem quiserem, nem uma mulher pode alegar que matou o marido ou filho porque estava de TPM ou depressão pós-parto e não responder criminalmente.

Aqueles que estiverem interessados em saber mais como funciona os estudos evolucionistas sobre o comportamento humano, encontrarão informações valiosas no Manual de Psicologia Evolucionista (Yamamoto & Valentova, 2018), enquanto informações sobre diferenças entre homens e mulheres podem ser encontradas em Sex differences: summarizing more than a century of scientific research (Ellis et al., 2008). Comparações transculturais sobre diferenças de personalidade podem ser encontradas em Personality and gender differences in global perspective.

 

Referências

Baumeister, R. F. (2010). Is there anything good about men? How culture flourished by exploiting men. New York: Oxford University Press

Buss, D. (Ed.) (2005). The handbook of evolutionary psychology. New Jersey: John Wiley & Sons.

Campbell, L. & Ellis, B. J. (2005). Commitment, love, and mate retention. Em: D. Buss (Ed.). The handbook of evolutionary psychology (pp. 419-442). New Jersey: John Wiley & Sons.

Ellis, L., Hershberger, S., Field, E., Wersinger, S., Pellis, S., Geary, D., …, Karadi, K. (2008). Sex differences: summarizing more than a century of scientific research. New York: Taylor & Francis Group.

Farrell, W. (1993/2014). The myth of male power: why men are the disposable sex. (Ebook ed.). Autor.

Flinn, M. V., Ward, C. V., & Noone, R. J. (2005). Hormones and the human family. Em: D. Buss (Ed.). The handbook of evolutionary psychology (pp. 552-580). New Jersey: John Wiley & Sons.

Gangestad, S. W., Thornhill, R. & Garver-Apgar, C. E. (2005). Adaptations to ovulation. Em: D. Buss (Ed.). The handbook of evolutionary psychology (pp. 344-371). New Jersey: John Wiley & Sons.

Gilmore, D. D. (1990). Manhood in the making: cultural concepts of masculinity. New Haven: Yale University Press.

Kenrick, D. T., Maner, J. K., & Li, N. P. (2005). Evolutionary social psychology Em: D. Buss (Ed.). The handbook of evolutionary psychology (pp. 803-827). New Jersey: John Wiley & Sons.

Schmitt, D. P. (2005). Fundamentals of human mating strategies. In: D. Buss (Ed.). The handbook of evolutionary psychology (pp. 258-291). New Jersey: John Wiley & Sons.

Yamamoto, M. E. & Valentova, J. V. (Eds.) (2018). Manual da Psicologia Evolucionista. Natal: EDUFRN.

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