Jovens, negros e assexuados

Já vai fazer dois meses que o jornalista Leonardo Sakamoto publicou no UOL um artigo intitulado O Brasil é um segurança de mercado que sufoca e mata jovens negros, no qual comentava a morte de Pedro Henrique de Oliveira Gonzaga, de 19 anos, sufocado por um segurança do supermercado Extra ao supostamente tentar se evadir do local tentando roubar um produto. Mas se a notícia, por essa altura, já parece mofada e sem interesse, as escolhas linguísticas de Sakamoto ao urdir sua crítica ao Estado brasileiro revelam uma indiferença social em relação aos problemas masculinos que continua atual, merecendo, portanto, este comentário tardio.

É um fato conhecido que, no Brasil, os homens representam mais de 90% das vítimas de homicídio e que a maioria desses homens são jovens e negros. Contudo, sempre que se quer chamar a atenção para esse problema, é praxe entre políticos e jornalistas, principalmente os que se filiam à esquerda, fragmentar a identidade da vítima visando descolar as categorias jovem e negro da categoria homens, de modo que as duas primeiras características fiquem em destaque enquanto a última seja relegada ao esquecimento.

O artigo de Sakamoto é ilustrativo de como essa operação é realizada. Ao analisá-lo, observa-se que a expressão “jovens negros” aparece duas vezes: uma no título, como se viu, e outra no corpo do texto. Ainda aparece um “jovem, negro” e um “jovens pobres e negros”. Já a expressão “homens jovens e negros” não surge nem uma única vez, de modo que só é possível perceber que esses jovens negros são homens pela desinência de gênero no adjetivo “negros”. É pouco para lembrar que eles são homens, tão pouco que é difícil não pensar que se trata de uma tentativa consciente de ocultamento do fenômeno. Se as mulheres estivessem morrendo nessa proporção vertiginosa, parece pouco provável que ele omitiria o substantivo mulheres. Afinal, como chamar a atenção para o problema apenas com a díade jovens e negras?

Suspeito que, se os negros ajudassem, Sakamoto não titubearia em varrer para debaixo do tapete a informação indesejada de que os homens são as maiores vítimas de homicídio no país. Infelizmente para ele, os negros gostam de ser chamados de negros e não de afrodescendentes… “Negro” é ruim, porque é adjetivo biforme, ou seja, possui flexão de gênero (negro, negra), o que acaba entregando a rapadura. Já “afrodescendente” é adjetivo uniforme, podendo ser usado para ambos os sexos, o que permitiria ocultar melhor o sexo das vítimas. Claro que, nesse caso, seria preciso suprimir o artigo masculino o(s), já que a expressão “os jovens afrodescendentes” continuaria deixando o rabo da verdade para fora da cama. O melhor seria trocar o substantivo “jovem” por um substantivo feminino, tipo “mocidade”. Aí ficaria perfeito: daria para dizer que a mocidade afrodescendente está sendo morta pela polícia…

Para não ser injusto com Sakamoto, ele usou o vocábulo homem duas vezes: uma para falar do americano Eric Garner, que há alguns anos morreu sufocado ao levar uma chave de braço de dois policiais em Nova York, enquanto gritava “I can’t breathe” (eu não consigo respirar); a outra na expressão “homens de bem”, o direitista raivoso a quem ele atribui a responsabilidade pela morte dos jovens negros assexuados. Ou seja, o homem só é vítima de homicídio lá nos distantes, nos isteitis. Aqui ele só é o agente matador.

Não bastassem essas traquinagens linguísticas para apagar o sexo das vítimas, Sakamoto ainda atropela a lógica. Ao tentar provar a sua asserção expressa no título, ele informa candidamente que, segundo dados obtidos através da Lei de Acesso à Informação, 9 entre cada 10 pessoas assassinadas pela polícia do Rio de Janeiro são negros. E completa: “1227 pessoas foram mortas pela força policial entre janeiro de 2016 e março de 2017. Metade delas tinham até 29 anos. A maioria na periferia.” Ou seja, a maioria era negra. Mas, se ter 9 entre 10 mortos prova que os negros estão sendo perseguidos pelo Estado brasileiro através de sua força policial, como é que ter 9 entre cada 10 mortos não prova que os homens estão sendo igualmente perseguidos?

Ao omitir o sexo das vítimas, Sakamoto sabota o seu próprio (suposto) objetivo, que é chamar a atenção da sociedade para o morticínio dos negros e fazê-la se importar com esse problema. Mas a questão é: como é que as pessoas vão se importar com vidas negras quando são ensinadas a não se importar com vidas masculinas? Se queremos resolver o problema dos jovens negros que estão sendo chacinados nas periferias, é preciso encarar o fato de que eles são homens e que os homens constituem a parcela mais vulnerável da população aos homicídios. Eu até arriscaria a dizer que ser homem é um fator de risco maior do que ser negro, pois até os homens brancos, que são considerados privilegiados, estão morrendo muito mais que as mulheres negras. Segundo dados do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM), do Ministério da Saúde, em 2016, foram assassinadas no Brasil 61.143 pessoas, sendo identificados 56.409 homens e 4.635 mulheres. Entre os homens, 73,3% eram negros e 22,7% brancos. Entre as mulheres, 64,7% eram negras e 31% brancas. Fazendo um cálculo simples, encontramos os seguintes valores para cada grupo:

Homens negros – 41.344

Homens brancos – 12.843

Mulheres negras – 4.102

Mulheres brancas – 1.438*

Homicídios por sexo e etnia em números absolutos.
Homicídios por sexo e etnia, números relativos (percentuais)

Por esses dados, dá para observar que há quatro vezes mais homens brancos do que mulheres negras sendo assassinados nesse país. Além disso, a distância entre homens e mulheres é maior que a distância entre negros e brancos. Enquanto os homens são 92,25% dos assassinados contra 7,58% das mulheres, as pessoas negras são vitimadas em 72.5% dos casos contra cerca de 23,4% para as pessoas brancas. Portanto, para tornar efetivo o lema “vidas negras importam”, seria preciso uni-lo a um lema que ainda está por ser criado: “vidas masculinas importam”. E Sakamoto – bem como todos os outros jornalistas e políticos – não nos ajuda a enxergar essa solução. Pelo contrário, ele só atrapalha.

*Os valores obtidos consideram a população negra como soma de negros e pardos, e a população branca como a soma de brancos e amarelos. Os dados podem ser obtidos no SIM/MS, óbitos por causas externas, Brasil, ocorrências por sexo e cor/raça, grande grupo CID10 – Agressões, período 2016.

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