O problema dos direitos dos gays

Nota: Este artigo é de 2010, então em parte se refere ao que estava em discussão naquele momento e lugar (como as acusações de “infantilidade” sobre o aumento de homens optando por não se casar e políticas militares contra gays assumidos). É bastante atual, porém, por algumas razões – inclusive por ser um dos artigos que delineiam o posicionamento do AVFM em relação aos homens gays. Outros artigos sobre temas relacionados deverão vir. Vale observar que as partes em colchetes – “[]” – são notas minhas como tradutor. – Aldir.

Se você realmente passou qualquer quantidade de tempo lendo os artigos, particularmente em fóruns do movimento dos homens, então você está ciente de uma atitude muitas vezes anti-homossexual que tem sido prevalente já há algum tempo.

Em um nível político, alguns desses ressentimentos são compreensíveis. Ativistas gays se alinharam com feministas e, enquanto marcham em trote misândrico, se envolveram em andrajos de grife de vítimas e agarraram seu lote de consideração especial governamental. As intrusões draconianas resultantes e perseguição em favor de gays e outros grupos de interesse especial são um assunto basilar no movimento dos homens, por bons motivos.

Homens heterossexuais são a preferência social sobre quem colar o papel de perpetradores e são subsequentemente identificados como inimigos para qualquer vítima do momento ter seus 15 minutos no palco. Apenas mais misandria numa cultura em que, nos dias atuais, misandria parece correr solta.

Mas, embora a política envolvida possa ter ajudado a estruturar a fachada de melhoria para a vida dos homens gays, na realidade revelou algo sobre os objetivos políticos reais que se tornam mais evidentes a cada campanha política.

Eles não têm ideia de quem são seus reais inimigos. Nem a menor ideia. E essa ignorância os coloca perto de perder mais direitos do que eles jamais poderiam esperar obter.

Permitam-me a digressão, por um momento, para fazer uma declaração sobre os homens gays em geral.

Homens gays inventaram novas tecnologias, construíram cidades, pesquisaram curas para doenças, fizeram contribuições profundas para as artes, literatura e filosofia, foram excelentes atletas e participaram totalmente em cada aspecto do desenvolvimento da civilização como a conhecemos.

Mas, é claro, eles não fizeram essas coisas por serem gays. Eles fizeram essas coisas por serem homens. Resolver problemas e criar avanços é o que os homens fazem e não há evidência a sugerir que os homens gays sejam menos proficientes nisso do que os homens heterossexuais.

E aí está, na minha opinião, o problema:

Nós vivemos numa cultura que não vê os homens gays como homens.

Então, há boas razões para um movimento de consciência social e esclarecimento proferir que os homens gays não são menos homens do que os heterossexuais, faz muito sentido. E isso não se afastaria dos propósitos do movimento dos homens hoje – reconhecer que ater os homens a padrões e expectativas baseadas em [seu] sexo, ao mesmo tempo aliviando as expectativas correspondentes para as mulheres, nos levou diretamente ao maltrato sistemático e seletivo de seres humanos.

Ao abraçar a ideologia feminista e misandria, os gays apenas engoliram a mentira de que eles não são, e não deveriam ser, homens. E deixando-se cooptar por um grupo de ideólogos que odeia a masculinidade até a medula, eles apenas minaram os caminhos para a solução de seus problemas, que são muito reais.

E isso nos leva ao que vemos no movimento por “direitos gays” hoje – uma ideologia dissonante projetada para atacar a própria natureza de quem são os homens gays. Pois, por fim, não importa se você é um desconstrucionista juramentado da masculinidade tradicional ou um tradicionalista igualmente fervoroso que pensa que homens de verdade ainda montam sela altivos e colocam seus casacos na lama para mulheres caminharem, os gays permanecem o que são: homens. E não importa aonde vamos para buscar incluí-los nos “direitos” dos homens na mentalidade atualmente vigente, eles invariavelmente irão sofrer as consequências nessa busca.

Os dois pontos de tensão exemplares e mais recentes nisso são o casamento e o serviço militar. Grosso modo, o ativismo que busca incluir os homens gays nessas duas áreas está, na realidade, colocando-os diretamente no alvo das Varas de Família corruptas e no campo de batalha, onde eles podem ser usados, juntamente com os homens heterossexuais como buchas de canhão preferenciais do para benefício dos governos e dos grupos de interesse por trás do Estado.

Vamos mais a fundo essas duas “causas” e tentar entender o que elas realmente significam.

Sem dúvida, os gays têm sido alvo de exclusão do matrimônio legalmente ratificado. E com isso vem a exclusão de algumas vantagens legalmente colocadas no casamento. Existem questões de bens e propriedade envolvidos, visitação hospitalar, redução de tributos e muitas outras vantagens legalmente concedidas aos casais legalmente casados. Recusando o casamento aos gays, nós também lhes recusamos muitos outros direitos que parecem normais para o restante da população.

Se as coisas fossem assim tão simples, aqui não haveria nenhum desafio intelectual. Mas, como sempre vemos, em se tratando de leis, as coisas não são, nem de longe, tão simples assim. E quanto mais nós examinamos a realidade nisso, um casamento legalizado não é um caminho para expansão de direitos, mas uma rota na direção de permitir aos burocratas estatais eviscerarem-nos de liberdades individuais.

Além disso, e eu não penso que isso deva ser subestimado, empreender por um reconhecimento legal do casamento é, de fato, endossar a cultura estatista: uma capitulação para reconhecer O Estado, não o indivíduo, como a maior autoridade sobre as relações humanas.

Depender do governo para legitimar suas relações é o mesmo, literalmente, que dar ao governo o controle sobre elas. E quando a lua de mel acaba – e ela acaba – ninguém estará a salvo de uma Justiça [preconceituosa] por sua posição política ou orientação sexual.

Quando histórias de jornal cobrem casamentos gay, elas sempre as mostram com fotos de um casal, ou casais, felizes e com a mensagem mal disfarçada sobre as pessoas realizarem seus sonhos ou serem incluídas na sociedade “normal”. O que esses jornais não fazem é acompanhar essas histórias mais completamente, com fotos dos advogados litigantes, propriedades confiscadas, acusações falsas, mandados de restrição judiciais, desapropriação de bens de terceiros por dívida judicial de ex-cônjuge e aprisionamento por dívida ou desobediência a ordem judicial.

Estas são as consequências do casamento sancionado pelo Estado no qual os gays lutam tanto para ser incluídos.

Eu não culpo ninguém por exigir sua justa parcela de sofrimento, mas já que falamos de direitos, deveríamos também incluir os direitos que são perdidos para essa instituição “sagrada”.

Seria sensato que, já que o casamento, pelo menos na cultura ocidental, é uma instituição religiosa, que os homens – todos os homens – procurassem tirar isso completamente das mãos do governo. Instituições religiosas seriam capazes de casar quem quer que elas quisessem, o que asseguraria os direitos de quase todos a se casar – e sofrer depois por isso.

Mas, é muito melhor esse sofrimento ser um simples souvenir de sonhos destruídos do que a lucrativa destruição de vidas infligida pelas varas de família.

Varas de família são uma zona de guerra, mas não são nada comparadas à verdadeira zona de guerra.

Nas guerras do Iraque e do Afeganistão, a contagem total de norteamericanos mortos e feridos é de 43.459. Este número não inclui os mais de 16 veteranos de guerra que se suicidam todos os dias. Mais de 98% desses mortos e feridos são, por definição do serviço, homens.

Serviços [legalmente] obrigatórios [militares ou não] são um clube do Bolinha. Sejam hétero ou gays, os homens são obrigados ao registro, sob ameaça de prisão. Apenas as mulheres são isentas. E se houver convocação novamente, seria só para os homens, com ou sem o consentimento deles.

Nós temos convocação flexível [nos EUA], inclusive. É chamada convenientemente de “contenção de perdas” [“stop loss”] e amplia o tempo de serviço obrigatório quando carne fresca é necessária no campo de batalha. Sejamos justos, soldados mulheres também estão sujeitas a medidas de “stop loss”, mas elas ainda gozam do resultado dos vigorosos esforços das forças armadas para mantê-las a salvo de perigo, às custas dos homens. Pela distribuição de mortes em combate por sexo, vê-se que há um sucesso incrível nisso.

E para que? Lucro com petróleo? Imperialismo? Se nós já tivemos alguma guerra em defesa deste país, em vez de apenas a defesa dos interesses de empresários, isso foi há muito, muito tempo. Provavelmente há mais tempo que o tempo médio de vida de um homem.

Todas essas guerras são criadas por uma extrema minoria de homens muito ricos e pagas com o sofrimento em massa e morte daqueles muito pobres.

Homens gays deveriam ter o direito de servir às forças armadas? Claro, e é evidente que muitos fazem isso, mesmo que não [assumam sua sexualidade] abertamente. Mas, novamente, como objetivo político de promover um grupo de seres humanos a obter tratamento igual perante a lei, a toda essa ideia é um fracasso completo.

Na guerra, a discriminação é contra os homens, desde os processos de indução e recrutamento até o campo de batalha. Buscar inclusão nisso pode até ser uma questão de direitos humanos – mas será, no final, às custas dos mesmos. Isso facilmente se revela quando se observa mais a fundo temas complicados como esse.

Isso me lembra uma história de anos atrás, publicada no The Houston Press, um jornaleco de política e entretenimento da área de Houston [Texas]. Era sobre um homem gay que foi repetidamente espancado pelo namorado. Ele tentou obter ajuda em várias organizações locais, mas era mais ou menos ridicularizado e expulso de todas. O jornal escreveu a história da perspectiva de que ele era discriminado por ser gay. Tendo trabalhado num campo onde muitas vezes encaminhamos vítimas de violência doméstica a organizações de apoio, eu sabia que não era bem o caso. Escrevi para o Press e os informei que aquele homem era rejeitado por ser homem, não por ser gay. Simplesmente não há esses serviços para homens. Mas há vários para mulheres, inclusive lésbicas, que recebiam ajuda normalmente.

Eles nunca publicaram a carta.

É vastamente claro que eles não quiseram reconhecer essa verdade, mesmo que essa verdade ajudasse homens como aquele, de quem eles falavam, eventualmente virem a obter ajuda, quando precisassem.

Mais uma vez, as políticas de gênero tiveram precedência sobre tudo e as razões reais para essas pessoas, para as dificuldades daquele homem, foram omitidas dos olhos do público.

É aí que o movimento dos homens, se for na direção certa – minha opinião, obviamente -, fará uma diferença decisiva. E quando eu vejo a mentalidade que está emergindo no movimento, tenho a impressão de que chegaremos lá.

O movimento dos homens, ou pelo menos uma parte crescente dele, tem a ver com expulsar todo o senso de expectativa e obrigações baseadas tão somente no seu sexo. É uma resposta adequada e apropriada num mundo onde mulheres aprendem que não devem se ater a nada e podem escolher, com todo o direito, que caminho querem na vida. E isso parece perfeitamente consistente com desacorrentar expectativas, inclusive sobre orientação sexual, tanto quanto quaisquer outras expectativas.

Coincidentemente, eu vejo crescimento em duas áreas citadas neste artigo em particular. Os homens estão aprendendo a dizer não ao casamento e a serem coletores de tiros para um pequeno grupo de bastardos gananciosos. Nós estamos aprendendo a dizer ao mundo ao nosso redor que não vamos deixar ninguém nos humilhar como homens, nem permitir que nos ensinem o que é ser homem.

E quando nós aprendermos a fazer isso bem o suficiente, existirá terreno fértil para podermos enxergar os verdadeiros ressentimentos que apodrecem os caminhos dos homens gays – que se resumem a um fato inescapável:

Os gays sempre foram alvo de ressentimento por não proverem mulheres [entre outras inúmeras expectativas e utilidades sociais a que os homens deveriam servir e, ainda, considerarem isso como uma “honra” para eles, definidoras do que é ser homem, ou ser “homem de verdade”]. Eles literalmente nascem livres de restrições e das expectativas gigantes que os homens heterossexuais ainda são educados para cumprir.

Eles são, de fato, os recipientes naturais daquilo por que muitos homens no movimento dos homens clamam todos os dias – liberdade do controle de mulheres e do controle do Estado em benefício das mulheres.

É minha esperança que este movimento venha a convidar e incluir os homens gays em suas fileiras, não como gays, mas como homens. Mas eu temo que isso leve algum tempo; tempo para os poucos dentre nossos grupos que realmente odeiam gays por serem gays, ou ficarem mais sábios, ou ir embora, e tempo para muitos gays acordarem e entenderem que ideologias, como o feminismo, baseadas em ódio a homens, só vão produzir neles o ódio a si mesmos. Ou pior.

Neste momento, os objetivos feministas incluem mandar homens para o altar e finalmente para a Justiça e a zona de combate.

Os homens deveriam trabalhar juntos para evitar as duas coisas.

 

Artigo originalmente postado no AVFM aqui
Tradução: Aldir Gracindo.

6 thoughts on “O problema dos direitos dos gays”

  1. Flavescit Ƹ̵̡Ӝ̵̨̄Ʒ

    Algumas coisas mudaram desde a publicação do artigo. É o caso da percepção “não-homem” por parte do movimento feminista em relação a homens que tenham como foco sexual outros homens (homossexuais, bissexuais, pansexuais etc.). O movimento feminista em geral concorda com a ideia de que homem é homem e se beneficia do patriarcado independente de sua orientação sexual – ainda que sofra discriminação em razão desta. Por outro lado, a rejeição de homens em geral nos movimentos feministas não impediu que homens gays se posicionassem, pelo menos no Brasil, em favor de movimentos políticos que pautam o feminismo e a busca pela extinção do racismo. É a chamada polarização: de um lado, ativismo LGBT, negro e feminista + ideologias marxistas versus conservadores + ideologias (neo-)liberais. (Considero tal separação uma contradição por si só, enfim…)

    A tradução está adequada, mas sugiro uma revisão mais atenta aqui e ali. Há problemas, principalmente, de concordância e pontuação.

    Quanto ao artigo em si: Apesar de não concordar com diversos argumentos nele apontados, vou utilizá-lo em favor de homens gays em meios homofóbicos que insistem em discriminar a diversidade sexual. Absurdo que, como o próprio autor do texto aponta, ainda ocorre por aí.

    1. Aldir Gracindo

      Muito tempo antes desse artigo ser escrito, feministas fazem campanha dentro do mov. LGBT contra os homens gays, que a meu ver nunca reagiram de uma forma muito eloquente a isso. Aliás, foi justamente por isso que “GLBT” passou a ser “LGBT” e recentemente, ridiculamente, estão querendo transformar em “LgBT”. Considerando a história do movimento, quem foi que deu a cara a tapa, o peito pra levar paulada, chute e tiro, a história da revolta de Stonewall, etc. etc.

      Não existe homofobia sem misandria. Desde que eu aceitei ser editor do ramo brasileiro do site, isso era um dos alvos que mais me mexem as vísceras, por assim dizer. Talvez se possa facilmente demonstrar, aliás, que homofobia, pela forma como ela escolhe seus alvos desde a história antiga, é espécie, misandria sendo gênero. Mas a questão maior é a humana, apesar de todos os estelionatos políticos e ideológicos de esquerda ou direita.

      Obrigado pelo comentário e pela observação sobre revisão do texto, vou fazer isso.

  2. Damnes Aspare

    Sou participante ativo no meio gótico , e depois de um debate onde defendo os direitos dos homens e coloco pauta as dificuldades dos homens na sociedade sempre vem aquele argumento : você nem é um homem comum , usa maquiagem e é gentil. Mesmo as mulheres não tendo nunca tendo valorizado esse tipo de homem alternativo parece que convêm a movimento feminista instrumentaliza-lo como mais simbolo de direito das mulheres ( claro sempre seu amigo playboy de maquiagem nunca o favelado que é zuado no face. ) . Acredito que entender a diversidade de expressão do masculino não torna ninguém menos homem é algo importante . O feminismo sempre tenta colocar tudo como uma luta das mulheres ( com interesse de deixar a mulher em primeiro plano sempre ) tentando colocar um preconceito que muitos homens sofrem por esta fora comum como um preconceito contra as mulheres.

  3. “Eles (homossexuais) literalmente nascem livres de restrições e das expectativas gigantes que os homens heterossexuais ainda são educados para cumprir”.
    Gente, mas isso é muito equivocado. Homens gays são discriminados justamente por não serem vistos como homens de verdade, mas como “desviados, pecadores e criminosos.” Como pessoas que fazem práticas “anti naturais” e femininas, pois ser sexualmente passivo é visto pela sociedade em geral como algo feminino. Sendo assim, o machismo é a base da homofobia. Os homens gays sempre sofrem por não corresponderem ao esperado pela sociedade, nao se casam com mulheres, não dão netos para os pais, são vistos como um desgosto, expulsos de casa etc. E o próprio texto se contradiz ao dizer que homens gays são homens, mas depois cita essa parte que transcrevi acima. Homens gays pagam o preço de não corresponderem à exigência social de ser um “homem heterossexual”… Na verdade as pessoas no geral não fazem essa separação entre homem gay ou hetero, mas entre homem e gay, como se o gay tivesse deixado de ser homem. Achei o texto meio confuso também. Conheci o site agora, depois vou ler mais.

    1. É curioso ver homens que não conseguem pensar fora da narrativa feminista. A primeira lei sempre citada contra homossexuais, com pena de morte, é Levítico 18:22 – e é só contra HOMENS, mulheres não são citadas. A maior incidência de violência homofóbica é contra homens, assim como a maior incidência de violência racista é contra homens. Mas dizer que não existe homofobia sem misandria? “Absurdo”, “é tudo por causa do ‘machismo'”. Realmente o cérebro fica lavado, é a única explicação pra alguém não conseguir aceitar qualquer um falar de qualquer assunto mudando de perspectiva um centímetro que seja. “A culpa é do próprio ‘machismo’ dos homens”, esse maravilhoso conjunto de “privilégios” que os homens se dão de se desprivilegiarem.

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