Misandria na Psicologia – Parte 2: ignorando a violência contra meninos

Essa é a segunda parte de uma série de quatro artigos escritos pelo psicólogo Tom Golden. Lei as outras partes: parte 1parte 3 – Parte 4.

Artigo original aqui.

Tradução: Aurélio Jaguribe.

 

O primeiro projeto que iremos analisar é um estudo sobre violência entre relacionamentos adolescentes feito na Grã Bretanha. O estudo consistiu em uma pesquisa bibliografia e de entrevistas com adolescentes escolhidos para o projeto. O estudo concluiu que a violência em relacionamentos adolescentes pode ser vivida tanto por meninos quanto por meninas. Um comunicado de imprensa foi criado para divulgar o resultado desse trabalho, mas, surpreendentemente, ela foi feita para ajudar somente meninas vítimas de violência, enquanto os meninos foram focados apenas como agressores. Essa negligência impressionante com as vítimas do sexo masculino e agressoras do sexo feminino está em gritante contraste com os resultados da pesquisa, que mostrou que homens podem ser vítimas de violência feminina em relacionamentos adolescentes. Vamos começar pelo início dessa história, quando esse caso começou a chamar minha atenção.

Um amigo havia me mandado um e-mail com um link para um artigo britânico sobre violência entre adolescentes. Esse amigo estava preocupado, pois acreditava que o artigo fora tendencioso contra os meninos.

  • Meninos adolescentes serão ensinados a não serem violentos com suas namoradas em uma campanha do governo que começa a ser aplicada hoje.
  • Anúncios de TV, rádio, internet e cartazes terão como alvo jovens do sexo masculino com idades entre 13 e 18 anos, em uma tentativa de mostrar as consequências de relacionamentos abusivos.
  • Isso é parte de um esforço mais amplo do governo para acabar com a violência contra mulheres e meninas jovens.
  •  Uma pesquisa publicada no ano passado pela NSPCC mostra que um quarto das adolescentes disseram ter sido fisicamente agredidas por seus namorados.
  • Uma em cada seis afirmou ter sido pressionada a ter relações sexuais e uma em cada três disse já ter “ido mais longe” do que realmente queriam.

Isso me fez lembrar de uma pesquisa recente que dizia haver uma simetria no que se tratava de violência entre relacionamentos adolescentes, sendo meninos e meninas tanto vítimas quanto agressores. Este artigo mostrava uma perspectiva totalmente diferente do assunto, eu percebi. Estava claramente dizendo que meninas eram as vítimas primárias e os meninos os agressores primários, refletindo um estereótipo arcaico e ultrapassado sobre violência doméstica. Por isso, quis saber exatamente o que estava acontecendo. Li diversos artigos online sobre a campanha mencionada e fiquei chocado ao ver que o foco da mesma era, na verdade, somente ajudar meninas e “ensinar” os garotos que não deveriam abusar de suas namoradas.

Em cada um dos artigos, havia uma referência aos resultados da pesquisa que levaram à criação da campanha. Decidi, então, procurar pelo estudo original e acabei encontrando-o.

O estudo fora realizado pela Sociedade Nacional pela Prevenção da Violência à Criança (NSPCC, na sigla em inglês) da Grã Bretanha e consistia em duas partes. A primeira era um “relatório completo” em 209 páginas explicando a metodologia, os resultados, implicações e conclusões. A segunda era o Resumo Executivo, que consistia em 10 páginas de conclusões sobre o relatório completo. Esta era uma leitura rápida que buscava mostrar às pessoas a essência do documento maior. Eu li o “relatório completo” e, depois, o resumo executivo. Ao fim, fiquei impressionado, pois os dados do documento completo mostravam que meninos eram vítimas de violência em relacionamentos entre adolescentes. A primeira notícia que eu lera sobre o artigo dizia que 25% das meninas entrevistadas disseram ter sido vítimas de violência física por seus namorados. Mas o que a revista omitiu foi que a mesma pesquisa mostrava que 18% dos meninos também disseram ter sido fisicamente violentados por suas namoradas. Isso significa que, de acordo com a pesquisa, quase metade das vítimas de violência em relacionamentos adolescentes eram meninos! De alguma maneira, essa importante informação foi deixada de lado nas notícias. Havia, ainda, muitos outros dados no relatório mostrando que meninos também eram vítimas de meninas, mas esses dados estavam longe de ser vistos em qualquer um dos artigos que falaram sobre a pesquisa. Aqui estão alguns desses dados, que poderiam ser noticiados, mas não foram:

  • 25% daqueles que relataram ter forçado seus parceiros a ter relações sexuais eram meninas – Tabela 15, página 82 do relatório completo.
  • Meninas relataram usar violência severa nos relacionamentos cerca de três vezes mais que os meninos – Tabela 11, página 75 do relatório completo.
  • Meninas disseram usar violência contra o parceiro mais de três vezes mais que os meninos – Tabela 10, página 74 do relatório completo.
  • Mais de 1/3 dos que afirmaram terem sido pressionados a “beijar, tocar ou algo do tipo” foram meninos – tabela 10, página 74 do relatório completo.
  • Cerca de metade (42%) das vítimas de violência em relacionamentos adolescentes eram garotos – Tabela 3, página 44 do relatório completo.
  • Cerca de um terço das vítimas de violência severa eram meninos – Tabela 4, página 45 do relatório completo.
  • Duas vezes mais meninas relataram ter forçado o parceiro a “beijar, tocar ou algo do tipo” mais de uma vez – Tabela 13, página 82 do relatório completo.

Esta é apenas uma pequena amostra dos dados que aparecem no relatório completo. É óbvio que essa pesquisa indica claramente que a violência em relacionamentos entre adolescentes não é uma questão de gênero e que meninos e meninas podem ser tanto vítimas quanto agressores. Entretanto, o que eu reparei depois de ler o relatório completo e o resumo executivo foi que o primeiro continha uma enorme quantidade de informações sobre meninos vítimas de violência e de meninas agressoras enquanto o segundo era consideravelmente mais raso a respeito dessas informações. Na verdade, o resumo executivo parecia focar vítimas meninas e agressores meninos.

Eu me vi perguntando a mim mesmo como essa mudança aconteceu. Meninos eram mostrados como podendo ser vítimas no estudo original, nem sempre em um número tão grande quanto as meninas, mas vítimas do mesmo jeito. Geralmente, os meninos apareciam entre 25% e 42% das vítimas. Certamente não a maioria, mas não um número tão pequeno a ponto de ser ignorado. Mas muitos os ignoraram!

A NSPCC apresentou esse estudo à mídia por meio de um comunicado de imprensa. Podemos reparar a mesma tendência de ignorar o foco nos meninos ao observar as palavras do comunicado de imprensa. No início do relatório completo, podemos reparar uma abordagem aparentemente igualitária sobre a violência em relacionamentos adolescentes enquanto o resumo executivo e, depois, o comunicado de imprensa sobre o estudo acabam por restringir o foco somente às meninas. Eis aqui a abertura do comunicado. Note o foco exclusivo nas meninas no título e nos primeiros parágrafos:

Meninas adolescentes são agredidas pelos namorados, adverte o NSPCC

01 de setembro de 2009

“Um terço das garotas realizam atos sexuais forçados e um quarto sofre violência física por parte dos parceiros, revela um novo estudo, divulgado hoje (01 de setembro de 2009) pela NSPCC e pela Universidade de Bristol.”

“O estudo, realizado com adolescentes entre 13 e 17 anos, revela que nove em cada dez meninas adolescentes está em uma relação íntima. Dessas, uma em cada seis relatou ter sido pressionada a ter relações sexuais e uma em cada 16 afirmou ter sido estuprada. Outras afirmaram ter sido forçadas a dar beijos ou toques sexuais.”

“Um quarto das meninas já sofreu alguma forma de violência física como tapas, socos ou espancamento por parte do namorado.”

As meninas são repetidamente enfatizadas no comunicado de imprensa. Com uma rápida olhada no texto, pode-se perceber que meninas são claramente identificadas como vítimas da violência em relacionamentos adolescentes e os meninos o são apenas incidentalmente. Os meninos foram mencionados em apenas um parágrafo (apenas um em dezoito, enquanto as meninas são mencionadas em onze). Aqui está:

“Nove em cada dez garotos afirmou estar em um relacionamento amoroso. Um menor número afirmou ter sofrido pressão ou violência por parte da namorada (apenas um em cada dezessete meninos afirmou ter sido forçado a um ato sexual e um em cada cinco já sofreu violência física da companheira).”

Note como a agressão aos meninos é minimizada com expressões como “um menor número” e “apenas um em cada dezessete”. Tenha em mente que o “menor número” a que se refere a segunda sentença é 18% contra 25% das meninas. 18 não é um número tão menor que 25. Outra grande diferença é que as 25% das meninas são citadas logo no início do texto (e, indiretamente, no título) enquanto os 18% dos meninos são mencionados muito depois, entre parêntesis. Sim, a porcentagem dos meninos é menor, mas parece óbvio que o comunicado de imprensa está tentando marginalizar os casos em que meninos são as vítimas.

Note que o comunicado menciona que uma em cada 17 meninas já foi estuprada¹. Isso corresponde a 5,8% das meninas entrevistadas. O que eles não mencionam é que a mesma tabela, no relatório completo, que mostrou que 5,8 das meninas foram estupradas também mostrou que 3,3% dos meninos também foram. O comunicado de imprensa cita o estupro de meninas mas é completamente omisso com relação à chocante estatística de que 3,3% dos meninos já foram estuprados. O fato é que os dados do relatório completo mostram que meninos são um terço das vítimas de estupro. E nenhuma palavra é citada sobre isso.

Agora, parecerá fácil entender como a mídia enfoca exclusivamente as garotas e ignora as necessidades dos meninos. Eles provavelmente leram apenas o anúncio do comunicado de imprensa e algumas partes do resumo executivo. O comunicado pode muito bem ser o único documento que boa parte das pessoas leu sobre o estudo, e ela claramente tem foco exclusivo nas meninas às custas da omissão para com os meninos. O quanto isso pode ser ruim? Eis abaixo uma pequena amostra dos títulos das notícias que foram publicadas com base na pesquisa e no comunicado de imprensa (todas as notícias estão em inglês):

 

“Mais meninas” são abusadas pelos namorados

http://news.bbc.co.uk/2/hi/8230844.stm

 

Um terço das adolescentes são forçadas a fazer sexo, afirma pesquisa da NSPCC

http://www.theguardian.com/society/2009/sep/01/teenage-sexual-abuse-nspcc-report

 

Uma em cada três meninas reportaram abuso sexual por parte dos namorados

http://www.dailymail.co.uk/news/article-1210375/One-teenage-girls-physically-abused-boyfriend.html

 

Meninas adolescentes são agredidas pelos namorados, segundo o NSPCC

http://www.bris.ac.uk/news/2009/6524.html

 

Quase todos os títulos de notícias que encontrei focavam somente as meninas como vítimas. Eu não encontrei nenhum título que focasse os meninos. Os artigos podem ocasionalmente citar que meninos são vulneráveis, mas o grande foco é sempre a vulnerabilidade e vitimização das meninas.

O comunicado de imprensa publicitária é a responsável pela maior influência nas campanhas de televisão, rádio, internet e cartazes que tentam mudar os comportamentos dos adolescentes envolvidos em relacionamentos amorosos. É onde se encontram a teoria e a prática e onde se definem o foco das campanhas de apoio e do direcionamento de verbas. Inexplicavelmente, o foco do comunicado de imprensa é inteiramente das meninas vítimas de violência em relacionamentos, enquanto os meninos são vistos como a causa do problema e são ensinados a não agredir suas namoradas. De alguma maneira, o artigo original mostrava meninos e meninas como vítimas de violência nos relacionamentos e, conforme as informações foram caminhando pelo comunicado de imprensa até chegarem à mídia, os dados originais foram esquecidos.

Como isso aconteceu?

Como os meninos vão desaparecendo

 

Do Relatório Completo ao desaparecimento dos meninos

O relatório completo oferece abundantes dados sobre como os meninos são vítimas em casos de violência nos relacionamentos adolescentes, mas, de alguma forma, as recomendações tanto do relatório completo quanto do resumo executivo concentram-se principalmente nas meninas. Abaixo, está um rápido resumo feito a partir do relatório completo.

De acordo com a pesquisa:

 

72% das meninas reportaram experiências de violência emocional.

51% dos meninos reportaram ter sofrido violência emocional

MENINOS SÃO 41% DAS VÍTIMAS DE VIOLÊNCIA EMOCIONAL EM RELACIONAMENTOS ADOLESCENTES.

 

25% das meninas experimentaram violência física do parceiro.

18% dos meninos relataram violência física da parceira.

MENINOS SÃO 42% DAS VÍTIMAS DE VIOLÊNCIA FÍSICA DO PARCEIRO EM RELACIONAMENTOS ADOLESCENTES.

 

31% das meninas experimentaram violência sexual do parceiro.

16% dos meninos experimentaram violência sexual da parceira.

MENINOS SÃO 34% DAS VÍTIMAS DE VIOLÊNCIA SEXUAL DO PARCEIRO EM RELACIONAMENTOS ADOLESCENTES.

 

Como podemos observar, meninos estão entre 34% e 42% das vítimas, conforme registrado na pesquisa. O relatório completo afirma isso de maneira alta e clara. Mas, em seguida, nas recomendações tanto do relatório completo quanto do resumo executivo e, após estes, do comunicado de imprensa, os meninos simplesmente desaparecem. Como isso pôde acontecer? Os pesquisadores não conseguem explicar a razão exata para isso, mas, se você ler nas entrelinhas, perceberá que eles oferecem duas razões. A primeira é que as respostas obtidas na pesquisa indicam que meninas são mais “impactadas” pela violência nas relações que os meninos. Há uma questão na pesquisa que pergunta sobre reações emocionais à violência e as meninas eram muito mais propensas a assinalar respostas que indicavam que elas estavam com medo, tristes ou humilhadas. Os meninos eram mais propensos a assinalar respostas que indicavam que eles estavam zangados, irritados ou que não havia nenhum efeito sobre eles. Os pesquisadores parecem ter percebido essas diferenças e decidiram que as meninas eram mais “impactadas” pela experiência de violência e que, portanto, deviam ser as únicas a receber a atenção dos serviços de apoio. Há vários trechos do relatório completo nos quais isso está implícito. Este é um deles:

“Esta pesquisa demonstrou que há uma diferença fundamental na forma como meninas e meninos são afetados pela violência do parceiro e essa violência precisa ser um componente central no desenvolvimento das respostas profissionais para essa questão.”

O que, exatamente, significa “respostas profissionais para essas questões”? Eles não dizem, mas eu posso apenas supor que eles estão sugerindo que as meninas devem receber mais atenção e serviços de apoio devido a serem mais afetadas pela violência. Considerando que as recomendações focam as necessidades das meninas e ignoram as dos meninos, eu penso que essa suposição esteja correta. Eu ficaria feliz em ser corrigido nessa suposição, caso esteja errado.

Os pesquisadores parecem dispostos a simplesmente ignorar suas próprias evidências substanciais de que meninos são vítimas de violência simplesmente porque as meninas têm uma reação emocional maior. Eis outra citação:

Estes resultados tornam-se mais evidentes com os dados obtidos nas pesquisas, onde as meninas consistentemente descrevem o impacto prejudicial que a violência teve em seu bem estar, muitas vezes a longo prazo, enquanto os meninos frequentemente afirmaram que não foram afetados ou, na pior das hipóteses, sentiram-se irritados. Esses resultados fornecem um contexto mais amplo no qual a violência entre adolescentes precisa ser vista.

Tenhamos em mente que os dados acima citados da entrevista, que analisaremos adiante, incluíram apenas 62 meninas selecionadas a dedo e 29 meninos igualmente escolhidos. Importante: apenas um dos 29 meninos foi vítima de violência não-recíproca, de forma que fazer generalizações com base nos dados das entrevistas é uma atitude pouco confiável, principalmente considerando que os dados da pesquisa foram coletados a partir de mais de 1.300 adolescentes. Note ainda que, ao dizer que “esses resultados fornecem um contexto mais amplo no qual a violência entre adolescentes precisa ser vista”, nós só podemos supor que os pesquisadores estão sugerindo que as meninas devem ter preferência nos serviços de ajuda. O que sabemos é que os dados sobre a violência contra os meninos são ignorados nas seções de recomendações e também nas campanhas publicitárias. O trecho seguinte nos fornece mais clareza sobre o ponto de vista dos pesquisadores:

“Programas de intervenção precisam refletir essa diferença fundamental para assegurar que o significativo impacto da violência sobre o bem estar das meninas seja reconhecido e compreendido, enquanto que aos meninos deve ser permitido reconhecer as implicações da violência sobre sua parceira e sobre si mesmos.”

Essa conclusão claramente mostra que os pesquisadores acreditam que as meninas devem ser tratadas de maneira diferente e que os programas de intervenção devem “refletir” a ideia de que meninas são mais impactadas pela violência.

Mas as meninas são realmente mais impactadas? Eu não tenho certeza. Vamos começar analisando a seguinte pergunta do questionário:

3- Como você se sentiu quando foi usada força contra você?

com medo/assustado

zangado/irritado

humilhado

triste/infeliz

amado/protegido

achei engraçado

nada

Os pesquisadores determinaram que as respostas para essa questão mostraram uma enorme diferença na forma como meninos e meninas são impactados pela violência. Entretanto, eles não fornecem os dados sobre quantas pessoas de cada sexo assinalaram cada questão e mesmo assim nos dizem no relatório que as meninas são muito mais “impactadas”. Há muitas razões para isso. As palavras escolhidas fazem com que as respostas de meninas e meninos sejam naturalmente diferentes umas das outras. Os elaboradores falharam em perceber a natureza hierárquica dos meninos e sua forte relutância em demonstrar falta de independência. Se os meninos tivessem assinalado “com medo / assustado”, “humilhado” ou “triste / infeliz”, eles estariam admitindo pouca independência. Isso usualmente é evitado, enquanto escolhas como “nada” ou “zangado / irritado” são mais favoráveis a manter sua imagem. Como Warren Farrell diria, “a fraqueza dos homens é sua aparência de poder; o poder das mulheres é sua aparência de fraqueza”.

Os homens e meninos são mais propensos a escolher respostas que os mostrem como fortes. Se é assim, é fácil entender por que as respostas dos meninos pode não transmitir com precisão o quanto eles estão feridos ou com medo. É bem possível que aqueles meninos que assinalaram a opção “nada” estivessem tão impactados pela violência quanto as meninas. Esse tipo de pergunta não nos permite saber nada. Sugerir como os serviços de apoio devem agir com base nas respostas a essa pergunta é algo muito arriscado e provavelmente trará resultados muito pobres.

Gostaria de saber se uma vítima de estupro que alegasse que o ato não teve nenhum impacto sobre ela seria dispensada dos serviços de apoio. Será que os médicos simplesmente a ignorariam? Eu creio que não. Se um grupo de vítimas de violência doméstica dissesse que a violência não teve impacto sobre elas, será que todos rapidamente assumiriam que não há necessidade de serviços de suporte para elas? Não! Então por que eles ignoram o trauma dos meninos simplesmente porque eles marcaram uma resposta de forma diferente e alegaram estar menos chateados? Eles deveriam perceber que as pessoas têm maneiras muito diferentes de responder a um trauma e que não ter uma reação emocional imediata não indica que essa pessoa deve ser ignorada. Isso é simplesmente ridículo.

Tendo trabalhado com vítimas de traumas durante anos, eu sei muito bem que algumas pessoas demoram meses para sentir o impacto desse trauma, algumas levam até anos. Restringir os serviços a vítimas de trauma devido ao fato de suas respostas aparentarem demonstrar menos impacto emocional é uma das ideias mais loucas que eu já ouvi. Negar serviços a um grupo de pessoas por essa razão é algo simplesmente inaceitável.

 

Os pesquisadores são tendenciosos contra os meninos?

Há inúmeras indicações, além das já citadas, de que os pesquisadores foram tendenciosos contra os meninos. Há o óbvio desaparecimento dos dados que indicam que meninos são vítimas de violência e o foco exclusivo nas meninas como vítimas. Mas há inúmeras pistas sutis no trabalho que parecem indicar um desdenho pelos meninos.

Quando menciona os meninos como vítimas, o relatório tende a minimizar sua experiência. Eis o trecho:

A experiência dos meninos com a violência

“Pouca evidência existe de que os meninos, mesmo sendo menos afetados pela violência de suas parceiras, sintam-se incapazes de expressar ou reconhecer sua vulnerabilidade. Meninos minimizam seu uso de violência referindo-se a ela como “brincadeira”. Eles também alegam mais que a violência é mútua, mas usaram força desproporcional comparado a suas parceiras do sexo feminino.”

Em vez de comentar a experiência dos meninos com a violência, os pesquisadores concentram-se na ideia de eles poderem “expressar” aos efeitos negativos da violência de suas parceiras. Essa parece ser uma fraca tentativa de mostrar que os meninos podem de fato expressar sua preocupação quanto a serem vítimas de violência e, uma vez capazes de se expressarem, suas respostas não são “disfarçadas” por medo de não se enquadrarem a uma ideia tradicional de masculinidade. A suposição implícita parece ser que, uma vez que eles possam expressar sua dor, eles não estão retendo nenhuma informação, de forma que eles realmente não são afetados pela violência. Eles não se importam com eles, uma vez que as meninas são quem realmente importam. Isso parece demonstrar que esses meninos foram vítimas de uma distorção da realidade. Ao ler o parágrafo acima, o leitor terá uma noção de como os meninos foram tratados de forma diferente nesse estudo. Sua dor é minimizada e racionalizada de forma a alegar que eles realmente não são afetados pela violência. A conclusão é que os meninos experimentam a violência de suas parceiras, mas não são tão impactados por ela, afinal eles reconheceram abertamente sua vulnerabilidade! É de conhecimento geral que homens e meninos sempre tentam minimizar qualquer tipo de dor que possam estar sofrendo e sempre tentam manter uma postura de independência. Isso não significa que eles não sejam impactados, significa apenas que eles tentam não deixar os outros perceberem isso. É por isso que devemos ter uma abordagem diferente com meninos que possam ter sido vítimas de violência, mas esse estudo prefere simplesmente ignorar sua dor e concentrar-se apenas nas meninas.

 

“Apenas brincando”

A citação acima afirma que os meninos minimizam sua violência alegando que estavam “apenas brincando”. O relatório completo afirma que eles rotulam sua violência como “brincadeira” em 56% dos casos. Isso é citado depois, na seção de recomendações, como uma razão pela qual meninos devem ser ensinados sobre as consequências de sua violência (veja adiante). Mas e quanto às meninas? Quando você vê que os meninos possuem essa percepção, você pode pensar que as meninas não enxergam a própria violência da mesma maneira. Não no País das Maravilhas onde vivem os que fizeram esse estudo. Atualmente, de acordo com os números dos próprios pesquisadores, meninas se referiram à sua própria violência como “brincadeira” em 43% dos casos. Apenas 13 pontos a menos que os meninos. Deveríamos  pensar, portanto, que ambos deveriam aprender sobre as consequências de sua violência, mas, de alguma forma, os únicos que devem aprender tal coisa, para os pesquisadores, são os meninos!

Aqui está o trecho:

“Entretanto, embora os programas de intervenção devam garantir que as necessidades de meninos e meninas sejam reconhecidas, é importante que as experiências mais profundas experimentadas pelas meninas permaneçam em foco. Além disso, a minimização que os meninos fazem de sua própria violência – ao usar termos como ‘apenas brincando’ e justificações baseadas em agressão mútua – precisa ser desafiada.”

Por que os meninos devem ser desafiados e as meninas não? Os meninos disseram que sua violência era “apenas brincadeira” em 56% dos casos e as meninas fizeram a mesma afirmação 43% das vezes, um número ligeiramente menor. O ponto de vista apresentado é claramente a favor das meninas e contra os meninos.

Os pesquisadores vão além de apenas recomendar que o sofrimento das meninas seja o foco. Eles também dizem que o aparente menor impacto emocional nas respostas dos meninos faz deles mais perigosos do que suas parceiras do sexo oposto. Leia abaixo:

“Se os meninos veem o impacto da agressão que sofrem como insignificante, eles também podem aplicar essa percepção à agressão que praticam. Assim, eles parecem acreditar que suas parceiras também não são afetadas por sua violência.”

A ideia aqui é que a ignorância ou insensibilidade dos meninos acerca do impacto da violência sobre si mesmos faz com que eles também sejam insensíveis com relação à sua própria violência contra suas parceiras. Vamos usar a mesma linha de pensamento, mas aplicada às meninas. De acordo com a pesquisa, meninas sofrem um impacto emocional muito maior quando vítimas de violência. Ainda segundo o relato delas, elas usam de violência três vezes MAIS em seus relacionamentos que os meninos, mesmo sabendo de seu impacto negativo e considerando-a mais prejudicial. Isso poderia nos levar a crer que meninas estão conscientes do poder que a violência tem de ferir alguém e ainda assim escolhem praticá-la muito mais do que os meninos. Isso não põe as meninas em uma situação muito boa, não é mesmo?

“Assim, baseando-se nesses achados, parece conclusivo que a violência representa um problema para as meninas, enquanto meninos relatam não ser afetados.”

Isso praticamente resume tudo, não é mesmo?

 

“Meninos são mais violentos!” Quando o subjetivo supera o objetivo

A pesquisa supostamente foi a principal fonte de dados, mas, em alguns momentos, os pesquisadores parecem ter dado muito mais ênfase nos dados subjetivos que eles obtiveram na pesquisa. Enquanto a pesquisa, no relatório completo, mostrava claramente que as meninas relataram usar violência contra seus parceiros três vezes mais que os meninos, de repente os pesquisadores aparecem exclamando que há um claro consenso, entre as meninas, de que os meninos usaram violência física em seus relacionamentos muito mais que elas. Veja:

“Há um claro consenso entre as meninas de que os meninos usaram violência física nos relacionamentos muito mais do que elas. Esse pensamento comum em relação à natureza de gênero da violência física foi relatado por quase todas as meninas, tenham elas sofrido violência ou não.”

Isso está escrito na página 94 do relatório completo e mostra que a avaliação dos pesquisadores sobre as entrevistas com as meninas. O maior flagrante aqui é que a pesquisa mostra claramente que as meninas eram de 3 a 6 vezes mais propensas a admitir que eram violentas em seus relacionamentos e ainda os dados subjetivos elaborados a partir das entrevistas dizem que há um “pensamento comum em relação à natureza de gênero da violência física” entre “quase todas as meninas” que “os meninos usam violência física nos relacionamentos muito mais do que elas”. Há uma enorme discrepância quando uma metade do estudo mostra que as meninas reportam ser muito mais inclinadas a ser violentas que os meninos e a outra metade diz que “os meninos usaram violência física nos relacionamentos muito mais do que elas”. Isso exige explicações, mas muito poucas foram feitas. O máximo que os pesquisadores fizeram foi usar a alegação banal de que as altas taxas de violência das meninas em seus relacionamentos se devem ao fato de elas a usarem em autodefesa. Mas, se você olhar para os números, essa afirmação cai de cara no chão. O fato é que 25% das meninas alegaram já ter usado violência contra seus parceiros contra 8% dos meninos. Se você tentar descobrir qual a porcentagem da violência alegadamente usada em legítima defesa entre os meninos (30%) e as meninas (44%), você descobrirá que 14% das meninas e 5,6% dos meninos usaram violência por outras razões que não foram legítima defesa (-30% de 8% = 5,6% e -44% de 25% = 14%). Isso corresponde a quase três vezes mais meninas que meninos. Não fazer disso um ponto importante nesse estudo é muito suspeito. Essa diferença é grande. Meninas relataram três vezes mais que elas já haviam sido violentas com seus parceiros e ainda há uma alegação de que quase todas as meninas acreditam que os meninos usaram “muito mais violência física em seus relacionamentos” e isso traz até nós a ideia de que as meninas estão precisando de ajuda e os meninos estão precisando mudar seu comportamento? Desconcertante. Claramente, misandria.

Uma explicação parcial para isso é mostrada no trecho seguinte:

“Somente 6% dos meninos, comparado a um terço das meninas, disseram ter sido negativamente afetados pela violência emocional que sofreram. Essa disparidade de gênero no impacto emocional sustenta a afirmação de Stark (2007) de que o controle coercivo, que muitos dos agentes de violência emocional analisados refletem, torna-se significativo apenas quando a violência íntima é analisada sob a compreensão da dominação de gênero. Assim, embora as meninas tenham usado violência emocional, sem o apoio de outras formas de desigualdade e poder suas tentativas tornam-se, em grande parte, ineficazes.”

Por incrível que pareça, essa afirmação parece estar dando permissão às meninas para praticar violência emocional. O padrão continua: quando meninas são perpetradoras, são-lhes concedidas desculpas; quando os meninos são vítimas, eles são ignorados e minimizados.

 

Relatando coisas estranhas

Quando se analisa atentamente a seção que mostra que as meninas relatam com mais frequência realizar violência em seus relacionamentos, percebe-se algo muito estranho. Leia o parágrafo seguinte e note como os pesquisadores escolheram as palavras. Perceba que as meninas “relatam” e os meninos “admitem”:

“Mais meninas relataram usar violência física contra seus parceiros do que os meninos. Isso representa uma diferença significativa. Um quarto das meninas (148), contra 8% dos meninos (44) disseram ter usado alguma forma de violência contra o parceiro. Analisando primeiramente os casos de violência menos severa (veja tabela 10), a vasta maioria das meninas (89%) relataram que violência física fora usada uma ou algumas poucas vezes. Poucas delas (11%) a usaram com mais frequência. Similarmente, a pequena proporção dos meninos que admitiu usar violência física também não a usava de maneira frequente (83%).” (P. 74, grifos meus).

Talvez as palavras “relatar” e “admitir” tenham significados diferentes na Grã-Bretanha, mas aqui nos Estados Unidos elas geralmente não significam a mesma coisa. “Relatar” geralmente significa fazer uma declaração ou anúncio. A palavra “admitir”, entretanto, tem conotação diferente. Na maior parte das vezes, ela está mais para “conceder” ou “confessar”. Uma interpretação da escolha que os pesquisadores fizeram das palavras pode ser que eles simplesmente não acreditaram no que os meninos relataram. Em outras palavras, eles só reconhecem ou admitem uma parte da violência. Basicamente, implica que eles não estão contando a história inteira. Esta é, claro, uma interpretação minha, mas isso parece ser preconceito contra os meninos.

 

A seção de entrevistas

Conforme dito anteriormente, a pesquisa tem uma seção quantitativa e uma qualitativa. A seção qualitativa consistiu de entrevistas semiestruturadas que incluíram cinco vinhetas. As vinhetas eram histórias que eram contadas aos participantes e que depois tinham suas relevâncias discutidas como parte da entrevista. O objetivo dos pesquisadores era usar a pesquisa quantitativa para obter dados e as entrevistas qualitativas para ampliar sua compreensão.

Os pesquisadores declararam que tiveram problemas para conseguir participantes para as entrevistas da maneira como eles tinham planejado, de forma que eles tiveram de mudar sua abordagem, conforme descrito abaixo:

“Por isso, adotamos um sistema no qual os pesquisadores observaram quais dos jovens participantes pareciam estar mais envolvidos com a pesquisa. Eles então perguntaram a esses jovens se eles gostariam de participar da fase de entrevistas.”

Ou seja, eles escolheram os participantes a dedo baseando-se em suas impressões subjetivas a respeito de os participantes estarem “envolvidos na pesquisa”. Isso me parece ser um convite direto para formar uma amostra bem tendenciosa. Então você descobre que os participantes escolhidos, que estavam “envolvidos na pesquisa”, eram 62 meninas e apenas 29 meninos. Você também descobre que, dos 29 meninos, apenas um foi vítima de uma violência não recíproca no relacionamento! Isso nos faz refletir sobre a ideia deles de estar “envolvido com a pesquisa”. Não é preciso dizer que a seção descrevendo as entrevistas com os meninos tem apenas 22 páginas, enquanto a seção destinada às entrevistas das meninas tem mais de 60 páginas. Mesmo com uma seção curta, a maior parte do texto dos meninos descreve a violência causada por eles, não sua experiência como vítimas da violência da parceira. A vitimização das meninas foi destacada, assim como a violência dos meninos. Mesmo na seção que deveria falar sobre seus casos de vitimização.

 

As vinhetas

Quando eu analisei essa pesquisa pela primeira vez, eu enviei um e-mail pessoal para a NSPCC pedindo uma cópia do questionário original e das vinhetas. Eles tiveram a amabilidade de me enviar os dois. Eu suspeitava que as vinhetas fossem inclinadas para as meninas, por isso não fiquei surpreso ao ver que as histórias eram principalmente sobre rapazes agindo com possessividade, gritos, xingamentos, violência e pressão sexual. Apenas uma das quatro histórias mostrava uma mulher como agressora e, nessa história, a agressão era bem leve. A moça (e seus aliados) roubou o celular do namorado, fez comentários grosseiros no dia seguinte e depois pediu desculpas. Nas outras vinhetas, nós vemos rapazes sendo violentos ou forçando as meninas a comportamentos sexuais que elas não queriam. Em uma delas, a menina usa violência, mas em autodefesa. Para o crédito dos pesquisadores, as primeiras três histórias tinham questões perguntando se aquele tipo de comportamento poderia ser observado no sexo oposto. Inexplicavelmente, eles omitiram essa importante questão nas outras duas vinhetas, que focavam a violência sexual. Isso é muito suspeito e leva-nos a supor que sua interpretação ideológica os impede de pensar em meninos como possíveis vítimas e/ou meninas como possíveis agressoras nesse tipo de violência. Mas o interessante é que os dados do relatório completo mostram que meninas admitiram categoricamente ter pressionado sexualmente seus namorados, e isso novamente nos leva a imaginar por que eles teriam retirado essa questão da seção de entrevistas.

Será que os pesquisadores tolerariam um conjunto de vinhetas que mostrasse 80% dos agressores sendo mulheres e cuja única que mostrasse um agressor do sexo masculino fosse sobre ele roubando o celular da namorada e depois se desculpando? Eu possivelmente ouviria altos gritos sobre tal pesquisa ser inconclusiva e exclusiva, e eles estariam certos! A mim parece que essas vinhetas marginalizam seriamente os meninos nessa pesquisa e, provavelmente, fez com que eles se sentissem incompreendidos e deixados de lado uma vez que suas situações simplesmente não foram retratadas, reconhecidas ou incluídas.

Eu penso que uma boa alternativa seria usar essas cinco histórias da forma como são contadas, mas às meninas poderiam ser contadas mostrando personagens femininas como vítimas e as masculinas como agressoras, enquanto aos meninos as mesmas histórias seriam contadas da maneira oposta, mostrando a perspectiva deles. Isso exigiria apenas algumas edições, mas creio que poderia ser muito mais efetivo e daria tanto às meninas quanto aos meninos a sensação de que suas histórias foram ouvidas e compreendidas como existentes.  Vítimas são muito mais propensas a se revelarem quando percebem que sua situação é reconhecida. Talvez uma possibilidade seria ter usado nomes neutros para todos os personagens das histórias, de forma a não se reconhecer o sexo do(a) agressor(a) ou da vítima². Outra opção seria usar seis histórias, três com homens agressores e três com mulheres agressoras, sendo uma história para cada uma das três categorias de violência. Penso que qualquer uma dessas alternativas seria muito melhor do que a que foi usada.

O fato de as meninas terem sido retratadas como vítimas em quatro das vinhetas e os meninos como agressores e o de não haver qualquer sugestão de que as meninas possam ser causadoras de violência sexual parece ser mais uma evidência de que o projeto é embasado sobre uma ideologia que prefere ver mulheres e meninas como vítimas e homens e meninos como agressores. Se nós permitirmos que esse tipo de preconceito permaneça entre nós, estaremos falhando com nossos meninos e meninas. Se permitirmos que isso continue na literatura e na pesquisa produzida pelas ciências sociais, então estaremos certamente em apuros.

 

A seção de recomendações

Vamos dar uma rápida olhada na seção de recomendações do resumo executivo. Temos aqui o único parágrafo dessa seção que menciona os meninos:

O impacto da violência do parceiro em adolescentes – diferenças de gênero

“O impacto da violência do parceiro é indiscutivelmente diferente em cada gênero; vítimas meninas relatam níveis muito maiores de impacto que os meninos. Isso não significa que a experiência dos meninos com a violência deva ser ignorada. Pode ser que os rapazes minimizem o impacto da violência que sofrem devido à necessidade de demonstrar uma certa forma de masculinidade. Entretanto, embora os programas de intervenção devam garantir que as necessidades de meninos e meninas sejam reconhecidas, é importante que as experiências mais profundas experimentadas pelas meninas permaneçam em foco. Além disso, a minimização que os meninos fazem de sua própria violência – ao usar termos como ‘apenas brincando’ e justificações baseadas em agressão mútua – precisa ser desafiada.”

Este parágrafo é desconcertante. Veja a primeira parte:

“O impacto da violência do parceiro é indiscutivelmente diferente em cada gênero; vítimas meninas relatam níveis muito maiores de impacto que os meninos. Isso não significa que a experiência dos meninos com a violência deva ser ignorada.”

Essa parte afirma que a violência do parceiro é recebida de forma diferente por cada gênero e que a experiência das vítimas meninas é mais negativa, o que implica que os meninos devem ser ignorados. Em seguida, eles negam que querem ignorar os meninos.

“Pode ser que os rapazes minimizem o impacto da violência que sofrem devido à necessidade de demonstrar uma certa forma de masculinidade.”

Eles oferecem uma possível explicação.

“Entretanto, embora os programas de intervenção devam garantir que as necessidades de meninos e meninas sejam reconhecidas, é importante que as experiências mais profundas experimentadas pelas meninas permaneçam em foco.”

Então, eles ignoram sua própria explicação dada anteriormente e afirmam que “as experiências mais profundas experimentadas pelas meninas” (o que quer que isso signifique) devem ter primazia.

“Além disso, a minimização que os meninos fazem de sua própria violência – ao usar termos como ‘apenas brincando’ e justificações baseadas em agressão mútua – precisa ser desafiada.”

E então eles finalizam as coisas dizendo que o foco dos meninos deve ser em sua violência, especialmente em sua minimização da própria violência, como já foi discutido.

Eu considero este parágrafo muito vago e inconclusivo. Creio que isso é intencional, uma vez que aquilo que eles realmente querem dizer é que “meninas são as piores vítimas e meninos não são”, mas é complicado para eles escrever deste modo pois isso deixaria claro seu fanatismo. Ser vago e obscuro é uma estratégia mais segura e garante que o trabalho seja feito! Uma coisa fica clara depois de ler isso: o leitor é convencido de que, seja qual for o motivo, as meninas precisam da maior parte dos serviços de ajuda e os meninos precisam mudar!

 

A ideologia dos pesquisadores é direcionada às meninas?

Se você olhar somente do ponto de vista do marketing, esses pesquisadores realizaram um feito notável. Eles foram hábeis em criar um documento que foi rotulado como um “estudo” que encontrou dados objetivos e chegou a conclusões e recomendações que ignoram seus próprios dados. Eles foram adiante e publicaram essas conclusões e recomendações em um vasto número de artigos midiáticos que chegaram a milhões de espectadores, ouvintes e leitores, para quem essas “meias-verdades” passaram a ser verdade incontestável. Realmente incrível, se você parar pra pensar.

Alguém pode apenas supor que esses pesquisadores sejam militantes feministas viciados na ideia ultrapassada e refutada que diz que a violência doméstica é realizada somente por homens e que as mulheres são as únicas vítimas. Nós vimos no artigo de Straus o quanto essa ideologia é grosseiramente imprecisa e até onde seus seguidores vão para propagá-la.

Eu sempre pensei que a ciência foi criada para reunir dados para que, então, nós usássemos esses dados para reajustar nossas teorias e ideologias baseando-se nas novas descobertas. Mas parece-me que, nesse caso, em vez de a ciência ser usada para mudar a ideologia, é a ideologia que está governando a ciência e determinando quais dados podem ser mostrados e quais não podem. Esse é um terreno muito perigoso para os humanitários e para aqueles que querem o melhor para todos.

No caso desse estudo, parece que os pesquisadores tinham a ideia pré-concebida de que as meninas eram as vítimas e os meninos os agressores. Quando seus próprios dados não confirmaram essa suposição eles se esforçaram para encontrar uma forma de converter esses dados em uma mensagem que se harmonizasse com suas ideias pré-concebidas sobre violência (meninas são as principais vítimas e meninos são os principais agressores). Isso foi feito para reafirmar a repetidamente proclamada ideia de que as meninas são mais impactadas pela violência e, por isso, elas precisam estar no foco da atenção dos programas de apoio. Essa ideia é oca e anêmica. Muitas pessoas pensantes podem analisar essa ideia e ver que, por mais que um grupo fique mais chateado com um problema, não se deve negar a determinadas vítimas o acesso a serviços e à atenção.

Há muitas partes desse estudo que parecem misândricas para mim e sobre as quais eu literalmente poderia escrever umas vinte ou trinta páginas. Eu vou poupar o leitor desse fardo e deixar para que outros leitores analisem por conta própria e façam seus comentários. Posso dizer que esse estudo é um claro exemplo dos males de se deixar uma ideologia orientar uma pesquisa e como os serviços públicos e a população em geral sofrem uma lavagem cerebral ao ouvir somente metade da história.

Creio que esse estudo possa mostrar o perigo envolvido em dar espaço para que fanáticos ideológicos intencionalmente moldem a opinião pública conforme sua própria versão da realidade. Nós precisamos de cautela ao aceitar estudos tidos como “científicos” e analisar apuradamente para descobrir quais estudos podem ser manipulados pelos fundamentos ideológicos de seus autores. Um estudante de ciências do ensino médio, pode ser capaz de ler esse estudo e explicar claramente por que ele é deficiente. Nossa mídia e nossos governantes, entretanto, têm falhado gravemente ao fazer isso.

 

Relatório Completo

Resumo Executivo

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Notas:

¹Um fato não mencionado por Golden, mas que merece ser observado, é que o comunicado de imprensa afirma que uma em cada dezessete meninas já foi vítima de estupro como um dado relevante e, mais adiante, cita que apenas um em cada dezessete (a mesma proporção) meninos já foi forçado a ter relações sexuais. Embora os números sejam exatamente os mesmos, o segundo caso é tratado como pouco relevante, contrastando com a importância dada ao primeiro. N.T.

²Em inglês, diversos nomes pessoais são comuns de gênero, são usados tanto por homens quanto por mulheres.

2 thoughts on “Misandria na Psicologia – Parte 2: ignorando a violência contra meninos”

  1. Marcus Valerio XR

    Eu já ia comentar exatamente o que o tradutor com comentou na nota 1, o que me leva a congratulá-lo ainda mais. Minha única ressalva para esse texto é que acho que ele trata a pesquisa com um respeito mínimo que ela simplesmente não merece. Dizer que é vaga, imprecisa, inconclusiva, suspeita etc, são verdadeiros elogios para uma canalhice sórdida como essa.

    Entendo que ele não pudesse ser por demais agressivo devido ao contexto, mas é preciso ser dito ao menos no final que não se trata sequer de um estudo, ou de uma pesquisa, mas de uma FRAUDE PERVERSA, do começo ao fim, sem intenção alguma de esclarecer ou mesmo entender alguma coisa, e sim somente reforçar o sistemático crime feminista de corromper a percepção da realidade e forjar visões de mundo absurdas em benefício de uma agenda ideológica desumana e corrupta.

    1. Anderson Torres

      De fato, ele parece sempre se comedir ou ser propositadamente velado em suas críticas. Em vez de falar da clara canalhice, ele coloca em forma de perguntas retóricas.
      Seria efeito do “politicamente correto”?

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