Pankhurst, a pluma branca e a traição da História

Nota: Este artigo e o vídeo (reposto legendado por mim, com autorização do autor) foram publicados no site MRALondon.org, e feitos em apoio a um protesto realizado em Londres em Novembro de 2012. 

Aldir Gracindo

 

Na cultura moderna, a estória que nos contam é simples: no passado, homens podiam votar, enquanto às mulheres isso era negado. Por exemplo, no tópico “Women and the vote”, o site do Parlamento do Reino Unido afirma simplesmente e sem ressalvas [1]: “Antes de 1918, apenas os homens podiam votar nas eleições parlamentares.” De fato, o quadro que normalmente nos é apresentado (como neste exemplo satírico da BBC) é bem distorcido. De acordo com essa narrativa popular, as sufragistas, lideradas por Emmeline e Christabel Pankhurst, empreenderam uma nobre campanha pelo sufrágio feminino e, após uma valente luta, tiveram sucesso. E curiosamente, a campanha de intimidação, violência e incêndios que elas fizeram passa sem críticas.

A realidade foi muito mais complexa, porém, e muitos aspectos históricos foram encobertos da nossa memória coletiva. Por exemplo, o simples fato de que, no início do século XX, a maioria dos homens não tinha o direito de votar nas eleições parlamentares. Mas isso é raramente mencionado.

Apenas homens com propriedades podiam votar em eleições parlamentares e antes da Lei de Reforma de 1832, apenas 2% dos homens no Reino Unido tinham esse direito [2]. Em 1903, o número subira para 1/3 [3], mas permanece o fato de, enquanto a Sra. Pankhurst e suas apoiadoras estavam “lutando por seu direito ao voto”, a vasta maioria dos homens jovens enviados às trincheiras em 1914 não terem direitos políticos. Diferentes das sufragistas, no entanto, eles lutavam por suas vidas, não pelo direito ao voto.

As sufragistas, encabeçadas pela organização fundada pela Sra. Pankhurst e suas filhas – a “Women’s Social and Political Union” (WSPU) – não era o único grupo naquele momento fazendo campanha pelo sufrágio. Enquanto outros grupos apoiavam o sufrágio universal para todos os adultos, caso do movimento trabalhista, as sufragistas defendiam uma lei separada para mulheres abastadas com propriedades, ou seja, mulheres como elas. É de certa forma perverso, portanto, que as sufragistas tenham se tornado sinônimo de sufrágio universal quando esse simplesmente não era o caso.

O seguinte trecho do Socialist Standard [4] de 1908 deixa clara sua oposição às propostas delas.

Os homens votam presentemente sob a regra de 10 libras. O sufrágio é, portanto, sobre bases de propriedade com voto plural para os mais prósperos. Desse modo, de acordo com a proposta das mulheres sufragistas, apenas essas mulheres tendo necessariamente qualificativos de propriedade poderão votar. Isso exclui não apenas todas as mulheres trabalhadoras, desqualificadas por sua pobreza, mas também impede praticamente toda mulher casada da classe trabalhadora que não tem a qualificação de propriedade à parte da dos maridos. Ademais, aumenta enormemente o poder de voto dos abastados, visto que os chefes de família de classes mais altas sempre podem transmitir as qualificações necessárias a todas as mulheres na sua casa, enquanto o homem trabalhador é inteiramente incapaz de fazê-lo.

John Bruce Glasier, presidente do Partido Trabalhador Independente, observou em seu diário, após um encontro com Emmeline e sua filha Christabel, o “miserável sexismo individualista” delas e que ele não poderia apoiar sua organização.

Ao longo da primeira década do século 20, Emmeline e Christabel Pankhurst promoveram uma campanha de intimidação, violência, vandalismo e incêndios criminosos. Logo após o início da guerra, porém, elas concordaram em cessar suas atividades militantes e a WSPU foi prontamente premiada com uma subvenção governamental [5] no valor de £2,000 (uma quantia não insignificante na época).

Emmeline Pankhurst também declarou seu apoio para o esforço de guerra e começou a exigir alistamento obrigatório para homens (que não existia antes de 1916).

Além disso, as sufragistas estavam entre as que davam plumas brancas a homens que não estivessem de uniforme, incluindo adolescentes de 16 anos. Sylvia Pankhurst escreveu em seu diário, “The Suffragette Movement”:

A Sra. Pankhurst viajou por todo o país, fazendo discursos pró-recrutamento. Suas apoiadoras entregaram a pluma branca a cada homem jovem que elas encontrassem vestindo roupas civis e se reuniam no Hyde Park com cartazes dizendo: “Prendam todos eles’.

Sendo socializados a servir seu país e ainda sujeitos a essa estigmatização coercitiva pelas mulheres, muitos homens não enxergariam opção além de se alistar para uma guerra que mataria milhões deles. Um exemplo amargo disso está no seguinte comentário encontrado num livro da época, sobre piolhos e pulgas que acometiam os soldados que viviam nas trincheiras imundas [6].

… as moças semi-histéricas que oferecem plumas brancas a jovens cujos corações estão partidos porque um oficial médico após outro lhes tem recusado o desejo de seus jovens corações de servir seu país.

Enquanto as sufragistas carregavam cartazes exigindo o “direito de servir” pelo trabalho na guerra, a Sra. Pankhurst proclamava que “O mínimo que os homens podem fazer é que cada homem na idade de lutar se prepare para redimir sua palavra para com as mulheres…”

Aproximadamente 8.7 milhões de homens britânicos “redimiram-se” nas trincheiras da 1ª. Guerra Mundial. Para eles, isso não foi um direito, mas uma OBRIGAÇÃO. Estima-se que 704.803 homens do Reino Unido foram mortos, além de 2.2 milhões feridos [7], muitos perdendo braços e pernas. A vasta maioria desses nunca teve direito de votar, mas se esperava que dessem suas vidas mesmo assim. Há poucas referências à idade média do soldado britânico e, de qualquer forma, muitos adolescentes mentiam sobre sua idade para poder se alistar. No entanto, entre os executados por não cumprir a obrigação de “redimir sua palavra”, como dizia a Sra. Pankhurst, a média de idade era de 25 anos [8].

Ao contrário da percepção popular hoje, as sufragistas não tinham apoio amplo na época, especialmente dada a sua proposta de limitado sufrágio para mulheres e defesa da violência. Mesmo assim, Emmeline Pankhurst exerceu influência considerável entre a elite política e a partir de 1914 o governo, prioritariamente preocupado com o esforço de guerra, considerou que o WSPU seria útil para ajudar a eliminar a resistência dos sindicatos a ter mulheres substituindo os homens obrigados a abandonar seu lugar no mercado de trabalho.

Certamente não se pode negar que, em tempos passados, a sociedade impunha cargas e expectativas de gênero específicas sobre homens e mulheres. Muitos argumentam que a brutalidade das condições de vida, longe de serem mais prejudiciais às mulheres, as distinguia de forma amplamente benéfica. Porém, com o advento da industrialização no século 19, a sociedade estava mudando rapidamente e as coisas também tinham que mudar nas regras sociais para homens e mulheres. Mas a campanha de intimidação e destruição da WSPU acelerou o sufrágio feminino ou o atrasou? Falando em 1913, o Primeiro Ministro Lloyd George exclamou:

Será que as Sufragistas não tem o senso de ver que a pior forma de fazer campanha pelo voto é tentar intimidar um homem a fazer o que ele, sem isso, faria com satisfação?

Ao final da Guerra, as mulheres acima da idade de 30 podiam votar nas eleições parlamentares. Certo ou errado, argumentou-se na época que a restrição de idade era necessária para evitar um desequilíbrio de gênero nos votos, devido à quantidade de homens jovens que haviam perdido suas vidas. Por volta de 1928, porém, o sufrágio universal, tanto para homens quanto para mulheres, se tornou uma realidade.

Hoje, próximo às Casas do Parlamento em Londres, está uma estátua de bronze de Emmeline Pankhurst. Localizada no lado direito da meia-rotunda que se estende da base, há uma dedicatória a sua filha Christabel. De fato, Emmeline tinha duas outras filhas – Sylvia e Adela, ambas igualmente engajadas na formação da WSPU. Porém, não se encontra referência a Sylvia ou Adela na estátua de Emmeline. E conhecendo mais sobre a vida familiar das Pankhurst, dificilmente não se sente alguma compaixão por essas outras duas, de que pouco se fala.

Na vida real, Emmeline era uma mãe abusivamente controladora e suas filhas nasceram num ambiente emocionalmente doente. Sylvia escreveu sobre Adela em seu diário:

O desejo era uma reação ao conhecimento de que, embora uma palestrante brilhante e uma das trabalhadoras mais árduas do movimento, ela era normalmente vista com mais desaprovação do que aprovação pela Sra. Pankhurst e Christabel, e sujeita a uma maior crítica do que a enfrentada por outras organizadoras.

Claramente, Christabel era favorecida por Emmeline e nada podiam fazer Sylvia ou Adela para estar à altura da aprovação de sua mãe. Após a morte de seu pai em 1898, Adela fez um relato semelhantemente desolado sobre sua vida em família.

A mamãe estava agora envolvida na atuação pública. Nós não tínhamos amigos, não brincávamos e não íamos a lugar nenhum… ela não tinha interesse nos nossos assuntos. Christabel parecia distante, Sylvia irremediavelmente deprimida… A vida pública era um alívio para ela…

Emmeline e Christabel eram defensoras entusiásticas da violência, mas como membros femininos da classe alta, elas próprias eram relativamente imunes a se ferirem. Com o uso cada vez maior de incêndios pela WSPU, Sylvia e Adela se distanciaram dessas táticas e rejeitavam as ações políticas de sua mãe, se isolando dela. Temendo que Adela criticasse a WSPU publicamente, Emmeline a enviou à Australia em 1914 com uma passagem só de ida. E nunca mais a viu novamente.

A alimentação forçada das sufragistas na prisão é amplamente tida como um exemplo da sua bravura. Embora Emmeline e Christabel incitassem outras a faze-lo, nenhuma das duas quis submeter-se a isso (somente Sylvia teve essa coragem). Atendidas por empregados e levadas às passeatas por motoristas, a vida de Emmeline Pankhurst era privilegiada – ela nunca teve que enfrentar os horrores que ela prontamente defendia que outros enfrentassem. Chega a ser uma paródia que essa mulher seja tão idolatrada pelo stablishment contemporâneo e sua ideologia tão mal representada na nossa cultura.

Créditos do vídeo:

Produção do grupo MRALondon.

Narração masculina por “Trauma Fried Brains”.

Narração feminina por “Girl Writes What” (usada com autorização).

Vídeo original no youtube está aqui

Referências:

1. UK Parliament website, Women and the Vote. Link:http://www.parliament.uk/about/living-heritage/transformingsociety/electionsvoting/womenvote/
2. Steve Moxon, The Woman Racket (“True Sufferers for Suffrage”).
3. Spartacus Educational, Emmeline Pankhurst. Link:http://www.spartacus.schoolnet.co.uk/WpankhurstE.htm
4. Socialist Standard, No. 46 June 1908 (“Suffragette Humbug”). Link: http://www.worldsocialism.org/spgb/socialist-standard/1900s/1908/no-46-june-1908/suffragette-humbug
5. Spartacus Educational, Emmeline Pankhurst. Link:http://www.spartacus.schoolnet.co.uk/WpankhurstE.htm
6. The Minor Horrors of War, 1915. Link:http://archive.org/details/minorhorrorsofwa00shipuoft
7. Chris Baker. The Long, Long Trail, The British Army in the Great War. Link:http://www.1914-1918.net/faq.htm
8. Wikipedia, The British Army during World War I. Link:http://en.wikipedia.org/wiki/British_Army_during_World_War_I

 

Informações e observações adicionais: 

– Sobre o protesto em Londres, em Nov. 2012

Andy Man ressalta que é a favor da igualdade de direitos e obrigações. Ele outros ativistas fizeram um protesto pelos milhões de homens que NÃO tiveram o sufrágio, mas tiveram a obrigação de oferecer suas vidas. Homens tão “privilegiados” que eram sujeitáveis à humilhação pública das “oprimidas” mulheres que quisessem dar-lhes uma pluma branca, com a ativa participação da “heroica” Madame Pankhurst e suas “sufragistas”.

A campanha das plumas brancas é um dos eventos históricos normalmente afastados da vista do público para o lucro conveniente de políticos desonestos.

Aqui estão informações sobre o protesto. O cartaz que diz: “Votos para as mulheres, plumas para os homens”, para ser mais exato, no que tange à Sra. Pankhurst, poderia dizer: “Votos para ALGUMAS mulheres, plumas para TODOS os homens.

– Sobre homens, mulheres e o sufrágio no Brasil e no mundo:

Vários meses atrás, a internet estava cheia de referências comemorativas à “luta das mulheres pelo direito ao voto” no Brasil, como ocorre no mundo inteiro. Eu também comemoro cada parcela da sociedade que é incluída em qualquer aspecto da cidadania. Mas, são de se repudiar as distorções entre a narrativa que se popularizou e a realidade histórica, que são gritantes.

Principalmente porque essas distorções – via seleção dos fatos, ampliação e generalização deles, e interpretação ideológica -, são feitas para encaixar a narrativa dentro da visão de que as mulheres são e sempre foram o grupo mais oprimido e os homens, os opressores a reservar para si “privilégios”.

Um exemplo brasileiro é a inexatidão da linha de tempo na versão oficial sobre o sufrágio e os dois sexos: nos 30 anos entre o alegado “sufrágio” masculino e o feminino, decretado por Getúlio Vargas, houve o sufrágio para diferentes grupos, entre eles os analfabetos, que na época eram a maioria da população. Sem mencionar o fenômeno do “voto de cabresto”, uma realidade que superou os tais 30 anos. Em outras palavras, não houve os 30 anos entre o “sufrágio” masculino e o universal no Brasil.

Isso, claro, não é tudo sobre a História de homens, mulheres, cidadania e papéis de gênero ontem e hoje.

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