Cavalheirismo é sexismo?

CARTA CAPITAL de 29 de Maio de 2013 trouxe uma matéria intitulada CAVALHEIRO OU CANALHA?, que analisa posições de um certo feminismo radical que afirma serem os bons modos masculinos para com as mulheres apenas outra face da opressão patriarcal, o Sexismo Benevolente, sugerindo até mesmo que o cavalheiro é indissociável do espancador de mulheres.

Bem comentada num post do Diários da Desinformação, o texto original é bem intencionado e crítico, embora problemático, e mostra o quanto é difícil formular qualquer frase verdadeira que se proponha a descrever ‘Feminismo’ no singular.

Tal vertente, evidentemente contrária à opinião da maioria das mulheres, abusa de alguns já consagrados dogmas do Determinismo Cultural, com noções do tipo:

Hoje em dia, o discurso dominante enxerga, porém, a diluição das diferenças até um ponto que, como acredita (Regina) Navarro Lins, em 30 ou 40 anos toda a humanidade será bissexual. “Masculino e feminino não existem, isso está acabando”, defende. “Essa divisão foi forjada e aprisionou ambos os sexos”

Ao que parece, a sapiência em questão não sabe que a maior parte da humanidade está na China, Índia ou é Muçulmana.

Como nada é tão ruim que não possa ser pior, um post mais antigo no famoso blog Papo de Homem, que tem o mesmo título deste meu ensaio afora o ponto de interrogação, e já recebeu quase mil comentários (mais de 7 vezes o que teve a reportagem de Carta Capital), consegue transformar o já viciado tema num festival tão incrível de disparates que é difícil levar a sério, e doravante será referido como o post do Toninho Bombadão.

A quantidade de desinformação e incompetência intelectual dessa ideologia é vasta demais para esgotar em poucas palavras, mas vale lembrar que, em Português, sequer se dá conta de um problema de tradução do Inglês, de onde os termos chivalry e gentleman tem significados distintos, mas são traduzidos como ‘cavalheirismo’ e ‘cavalheiro’. Chivalry remete ao código de honra dos cavaleiros medievais, knights, o que inclui regras de combate, coragem, honestidade e civilidade. Já um gentleman é apenas um homem gentil, sem o componente de heróismo envolvido no primeiro. E ambos incluem polidez e reverência para com as mulheres.

NENHUM destes termos em ambos idiomas jamais se resumiu a atitudes somente de homens para mulheres, e pressupõem a ‘gentileza’ proposta para substituí-los. Reduzir tudo isso a pagamento de conta num jantar romântico é tão estúpido quanto consequência inevitável da incapacidade de discernir a realidade por trás das palavras.
Talvez isso explique porque é difícil achar um único texto sensato a respeito em nosso idioma. Para um ótimo tratamento em inglês veja Let’s Give Chivalry Another Chance.

Ademais, toda essa abordagem parte do dogma de que não existem diferenças essenciais entre Masculino e Feminino, apesar da absoluta ausência de qualquer evidência nesse sentido, e fartura avassaladora de evidências contrárias. Jamais se conheceu uma sociedade onde homens e mulheres se comportassem ou fossem tratados de forma completamente igual e suas diferenças ignoradas, e mesmo as avançadas nações escandinavas tem sido incapazes de efetivamente eliminar as diferenças de gênero, ainda que seja bom depurá-las, o que leva à experiências ainda mais ousadas e quase certamente inócuas.

Se de premissas errôneas só se obtém conclusões erradas, não admira que o
post do Toninho Bombadão traga pérolas como:


…só faço por ela as gentilezas que faria igualmente pelo meu hipotético amigo Toninho Bombadão.

Então, quando viajamos, por exemplo, não carrego sua mala, pois não carregaria a mala do Toninho Bombadão.(Sim, ela tem menos força física que eu, mas conhece sua própria força, então só faz malas que sabe que pode carregar com conforto, justamente para não precisar depender da ajuda de ninguém.)
Hoje, ela foi pegar um ônibus na praia de Copacabana às seis da manhã. Quando comecei a me vestir pra ir junto, ela me olhou desconfiada: “Você iria até a praia com o Toninho Bombadão esperar o ônibus com ele?”
E respondi, na lata: “Sim, mas só porque quero ver o sol nascer nas montanhas de Niterói.”
“Hmm, então tá.”

Ou seja, não é apenas a negação da diferença inter gêneros, mas até mesmo da intra gênero, uma vez que o mínimo bom senso recomenda a qualquer pessoa oferecer ajuda a um homem franzino com dificuldades em carregar uma coisa pesada, mas dispensa tal oferta para um Bill Kazmaier qualquer capaz de carregar várias dessas coisas, mais a pessoa junto, sem piscar.

Um delírio desses não pode ir muito longe sem cair em contradição, pois noutra ocasião é dito. “Um cavalheirismo de verdade seria saber ouvir e respeitar as mulheres. Quando elas reclamam de ter sido violentadas,”. Claro! Afinal o Toninho Bombadão deve ficar muito traumatizado quando uma mulher o agarra, o joga no chão e o cavalga furiosamente. Bem como deve morrer de medo que o assediem quando está sozinho numa parada de ônibus, temendo a abordagem de predadoras sexuais!

Ironias à parte, existe algum componente sexista em certas gentilezas por parte de alguns homens, há alguma correlação entre machismo e cavalheirismo. MAS isso não só NÃO resume o Cavalheirismo Romântico como sequer configura sua maior parte, pois o motor primordial que leva os homens a fazer tais gentilezas para as mulheres nada tem a ver com considerá-las dependentes e inferiores, e sim o ABSOLUTO CONTRÁRIO!

Quando um cliente chega ao restaurante de luxo, há manobristas na recepção, que abrem a porta e estacionam o carro para os fregueses. O garçom puxa a cadeira e serve o cliente. Nos bons hotéis, nossa bagagem é carregada por funcionários e temos uma série de regalias. Então, segundo esse pensamento, isso significa que esses garçons, manobristas e hoteleiros nos acham inferiores e mais fracos!

Mas sabemos que o que motiva tudo isso é o princípio oposto. É o reconhecimento da superioridade social do cliente que leva às gentilezas e reverências, que evidentemente também não são exatamente gratuitas, embora possam conviver facilmente com alguma não correspondência ocasional.

Da mesma forma, A Força Motriz desse Cavalheirismo é o reconhecimento da superioridade social da mulher na dinâmica de relacionamentos, visto caber a ela a decisão entre aceitar ou não o homem. Mesmo o pretendente rico e poderoso Tem Que Se Ajoelhar para PEDIR a Moça em Casamento, mesmo sendo ela de origem humilde.

Há também a questão da reverência embutida que trazemos à nossas mães, o agradecimento implícito pela doação da vida, o respeito intrínseco pela maior fragilidade feminina e outras coisas que nada tem a ver com interesse sexual. Mas se as inteligências em questão não conseguem sequer dar conta especificamente do simples Cavalheirismo Romântico em si, querer que considerem o quadro mais amplo é submeter-lhes ao risco de uma estafa mental.

Deixando o Toninho Bombadão de lado, note que substituir o livre raciocínio pela replicação automática de ideologias suspeitas não pode ter resultados benéficos. Para sustentá-las, mesmo acadêmicos precisam no mínimo resistir à realidade com idéias do tipo “A ideologia do Sexismo Benevolente baseia-se na pretensa diferença de “força” entre homens e mulheres”. Que dizer de inocentes que, confiando na pretensa inteligência da Dr. em Psicologia que trás essa pérola, dependem diretamente dessa realidade física.

Por fim, tamanha pataquada pode ter o resultado contrário do que pretende, pois ao equivaler Cavalheirismo à Machismo, é mais fácil se obter a elevação do último do que o rebaixamento do primeiro.

Marcus Valerio XR

10 de Julho de 2013

Texto original em xr.pro.br/Ensaios/Cavalheirismo.html

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