A hipocrisia de gênero no debate sobre pornô

No filme "Don Jon", a disputa dos gêneros sobre sexo e pornografia é central
No filme “Don Jon”, a disputa dos gêneros sobre sexo e pornografia é central

A onipresença do uso de pornografia por homens se tornou o novo campo de batalha de uma enorme guerra cultural. As pessoas têm medo das consequências do uso de pornografia e temem que ela cause danos aos homens, seus cérebros, seu desempenho sexual, suas atitudes em relação às mulheres, intimidade e sexo. O diálogo mudou desde os dias de “Take Back the Night”, quando Andrea Dworkin declarou que pornografia era estupro e deveria ser restrita. Hoje, valores e perspectivas feministas ainda permeiam o debate anti-pornô, mas eles servem como pano de fundo para o argumento de que o pornô é um estímulo que gera dependência e sobrepuja nossas respostas evolucionárias naturais, mudando nossos cérebros e corpos. O pornô é apresentado como assustador, insidioso e enganoso. Dizem-nos para “ter medo, muito medo” do que o pornô está fazendo aos homens.

O filme de Joseph Gordon-Levitt Don Jon, traz uma mensagem diferente e sugere que o verdadeiro problema com a pornografia não é que ser assustadora, mas que ser livre, conveniente e oferecer aos homens uma opção mais barata para o alto custo do sexo. Há uma fascinante subtrama no filme, que explora a maneira que a sexualidade foi transformada em commodity. A personagem de Scarlett Johansson usa deliberada e descaradamente sua sexualidade para manipular a personagem de Jon conforme os seus desejos de como e que ele deveria ser. Anúncios comerciais mostrados no filme retratam como os homens são manipulados por imagens sexuais e temas em publicidade.

A personagem de Scarlett fica furiosa quando descobre que Jon continuou a assistir pornografia, aparentemente porque ela descobre que ele mentiu para ela. Mas, ela está realmente irritado com a mentira ou com raiva porque o fácil acesso de Jon ao pornô tira um pouco do seu poder? Baumeister e Twenge escreveram um fascinante artigo em 2002, onde eles argumentam que são, na verdade, as mulheres que suprimem a sexualidade de outras mulheres, não os homens. Seus argumentos sugerem que o controle da sexualidade foi historicamente uma das únicas commodities pertencentes às mulheres e que as mulheres tinham de controlar o mercado, por assim dizer, via estigmatização, envergonhando e reprimindo aquelas que de alguma forma oferecessem sexo grátis, fácil ou barato. Isto reitera o velho argumento de que as mulheres têm de defender o valor do sexo, porque “ninguém compra uma vaca, se ela doa leite de graça.”

 Os homens usam pornografia porque é grátis, fácil e conveniente, não porque é um vício
Os homens usam pornografia porque é grátis, fácil e conveniente, não porque é um vício

Em um determinado momento do filme, Jon realmente diz que o sexo “real” é menos satisfatório do que a pornografia e masturbação, porque durante o sexo com uma mulher, “eu sou quem tem que fazer todo o trabalho.” Mas, com pornô, Jon pode sentar , assistir de graça, “perder-se” na fantasia da pornografia, e não ter trabalho. Ele pode ser egoísta com sua sexualidade. Porque a pornografia é grátis e conveniente, Don Jon pode relaxar e concentrar-se em si mesmo, explorando suas fantasias, em vez de manter o foco nas necessidades da sua parceira. Isso é assustador para muitos, porque não é um valor cultural que o sexo não deveria ser gratuito, fácil ou casual. Sexo, de acordo com a narrativa antipornô atual, deve ser custoso, caro, tanto em esforço quanto emoções. Supõe-se que deveria envolver intimidade e entrega emocionalmente transparente. A conveniência e acesso fácil e grátis à pornografia enfraquece o poder e alto valor que o sexo tem tido durante a história humana.

No filme, não é que Don Jon é um “viciado” em pornografia porque seu cérebro foi deformado, ou porque ele substitui seu design evolutivo sexual. É porque Jon, como todos os homens, tem sido sujeito a um mundo onde o sexo é constantemente pendurado no fim de uma corda na frente deles, e um homem tem que trabalhar como um cavalo de obter aquele sexo. O alto valor do sexo foi programado nos homens. Mas, de repente, os homens não têm que trabalhar duro para obter sexo, ou pelo menos um simulacro razoável. A pornografia na Internet representa não apenas uma vaca que dá leite de graça, mas um mundo onde o leite simplesmente jorra de uma torneira na cozinha, com o simples acionar de um botão. De repente, as mulheres que usam o sexo para o seu poder e valor têm uma nova e poderosa ameaça no mercado e a capacidade dos homens para negociar o sexo e os relacionamentos mudou substancialmente.

Em outra perspectiva recente sobre as questões de gênero envolvidas no pornô, eu recomendo muito este vídeo (SFW), que também mostra as hipocrisias de gênero embutidas neste debate. A guerra cultural, ou ouso eu dizer, guerra dos sexos, sobre a pornografia não vai acabar tão cedo. Mas, espero que filmes como Don Jon continuem a avançar o debate para melhores níveis de honestidade sobre o que realmente estamos discutindo.

– Antes que os comentadores irritados e mordazes comecem, deixe-me dizer-lhe que eu não sou um homem amargurado, irritado com rejeições sexuais atuais ou passadas. Eu realmente concordo com a mensagem final de Don Jon, que sexo bom é sexo entre iguais. Acho que a guerra dos sexos sobre pornografia reflete uma equalização significativa no poder sexual, mudando um desequilíbrio ultrapassado e desnecessário que acaba por prejuicar os homens e as mulheres.

 

O Dr. David Ley é  psicólogo clínico em Albuquerque, New Mexico, EUA. Ele é autor de Insatiable Wives: Women Who Stray and the Men Who Love Them e The Myth of Sex Addiction. Atualizações no Twitter @drdavidley.

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2 thoughts on “A hipocrisia de gênero no debate sobre pornô”

  1. Marcus Valerio XR

    Interessante notar que Pornografia e Prostituição tem sido os temas mais controversos no feminismo. Por um lado, há toda a carga crítica que os vê como forma de degradação e exploração da mulher, parte da instituição patriarcal. Por outro, há a idéia de que isso as empodera, e que devem ser livres para fazer o que bem quiser.

    Mas eu penso que essa controvérsia é ilusória, e só se sustenta porque há muitas “feministas” light ou que apenas pensam serem feministas sem de fato compreender os fundamentos e objetivos primários do movimento. E se isso for feito, vejo que é inevitável que a anti pornografia e anti prostituição terminem vencendo. E digo isso não apenas pelo fato de que é exatamente isso que acabou ocorrendo nos países onde o feminismo foi mais longe, como a Suécia com proibição da contratação de prostitutas ou a Islândia que proibiu boates de Strip Tease.

    Digo porque o objetivo primordial do feminismo nada tem a ver com libertação ou empoderamento da mulher, mas evidentemente com a destruição da família patriarcal, e acontece que a prostituição e a pornografia, incluindo boates de strip tease, prestam um serviço de sustentação a família, visto que permitem ao homem uma válvula de escape para seu impulso sexual que não põe em risco o casamento.

    Não é a toa que toda sociedade sempre conviveu com a idéia de pais de família responsáveis que frequentam prostíbulos, e hoje que consomem pornografia, pois isso diminui a necessidade de procuraram outras formas de satisfação alternativas mais perigosas, como possuir uma amante, ou mesmo de serem tentados a dissolver o casamento apenas para satisfação de uma libido despertada por uma outra mulher.

    No momento em que fica claro esse papel da prostituição e da pornografia, uma vez que fica evidente que funcionam muito mais como um apoio, e não uma ameaça ao casamento patriarcal (como muitos conservadores pensam e por isso mesmo também os combatem e com isso acabam confundindo as feministas), então o feminismo dominante inevitavelmente irá se mover consistentemente contra eles, eliminando a controvérsia.

    O fato de parecer estar havendo um consenso feminista maior contra essas práticas ajudam a mostrar que o movimento está chegando a seus termos finais, tanto no sentido de conseguir emplacar alguns de seus maiores projetos, quanto de já dar sinais de desgaste por estar sendo cada vez mais confrontado.

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