A Associação Americana de Psicologia na guerra contra a masculinidade

A informação de que a Associação Americana de Psicologia (APA) declara a masculinidade uma ideologia opressora pode parecer novidade para muitos, mas se analisarmos a história da Divisão 51, a Sociedade de Estudos Psicológicos dos Homens e Masculinidades (SPSMM), e dos estudos de gênero que abordam a masculinidade, veremos que isso existe desde, no mínimo, a década de 70. Mas a “guerra contra os meninos” (como chamou Christina Hoff Sommers) só está ganhando visibilidade agora.

De acordo com o website da Divisão 51, sua missão consiste em “esforçar-se para corroer definições limitantes de masculinidade que, historicamente, inibiram o desenvolvimento dos homens, suas capacidades para formar relacionamentos e que têm contribuído para a opressão de outras pessoas” (tradução minha). Essas e outras declarações deixam claro que a SPSMM, que supostamente se propõe a aprimorar e promover atuações de psicólogos sensíveis aos problemas masculinos, vê os homens como se precisassem ser “consertados”, para usar o termo de Mark Kiselica.

Apesar de haverem diversas teorias para abordar a masculinidade, a principal macroteoria, os “estudos de gênero”, adotam uma postura declaradamente feminista, com suas principais ideias vindo de Judith Butler, Michel Foucault, R. W. Connell e defensores da “desconstrução da masculinidade”. Por exemplo, uma teoria criada especificamente para estudar a masculinidade, e adotada quase como a teoria oficial da SPSMM, é a teoria da Tensão de Papel de Gênero (Gender Role Strain), do psicanalista Joseph Pleck. Segundo essa teoria, ao serem socializados para adotar papeis masculinos, homens podem sofrer três tipos de efeitos colaterais: “discrepância de papel de gênero”, “trauma de papel de gênero” e “disfunção de papel de gênero”.

A discrepância de papel de gênero é a dificuldade (ou impossibilidade) de corresponder ao ideal social. Assim, o homem desempregado, que não consegue cumprir seu papel provedor, pode desenvolver depressão e cometer suicídio, por exemplo. O trauma de papel de gênero ocorre quando a pessoa cumpre seu papel, mas o processo é traumático. Um exemplo americano corresponde aos inúmeros veteranos da Guerra do Vietnã que sofrem de Transtorno de Estresse Pós-Traumático e apresentam tantos problemas de saúde física e mental que existem programas de saúde pública só para essa população. Já a disfunção de papel de gênero é quando a pessoa cumpre seu papel e não apresenta sofrimento aparente, mas as características desenvolvidas têm efeitos negativos para si ou para os outros. Um exemplo seria os problemas familiares decorrentes do excesso de trabalho.

Embora esses três conceitos tenham lá sua serventia, um bom observador perceberá uma grande complicação: se você corresponde ao papel social, você terá um problema, se você não corresponder, você também o terá. O que fazer então? O que não gera discrepância, trauma ou disfunção de gênero? Existe alguma característica, normativa ou subversiva, que não tenha um efeito negativo para si ou para os outros (até mesmo estudos sobre amor e amizade mencionam que eles têm efeitos negativos, mas os valorizamos por gerarem um grande benefício em troca). Perceba também que esses conceitos podem ser aplicados às mulheres (por que ninguém fala da “feminilidade tóxica”, de como devemos combater a “disfunção de papel de gênero feminino” das mulheres que dizem não precisar de homens pra nada, mas gritam por socorro ao ver uma barata?) e a outros papéis, como papéis profissionais (trauma de papel docente parece um bom termo para “professor com síndrome de burnout” e disfunção de papel de líder parece um bom termo para chefe autoritário), mas desconheço a aplicação dessa teoria em tais situações.

Inclusive, eu participava do grupo de discussões da SPSMM no Facebook, mas fui expulso por concordar com Cassie Jaye que movimentos pelos direitos dos homens deveriam ser ouvidos tanto quanto movimentos pelos direitos das mulheres. Para a SPSMM, apenas movimentos feministas merecem ser ouvidos, enquanto masculinistas são inimigos que desejam oprimir as mulheres e retornar à Idade Média. Também quase fui expulso de um grupo de WhatsApp do Conselho Regional de Psicologia da região do ABC paulista por dizer que a Psicologia não deve ser “feminista”, já que o feminismo é uma ideologia política, enquanto a Psicologia é (ou deveria ser) uma ciência e uma profissão e, portanto, não pode favorecer uma ideologia ou outra em detrimento da Verdade e Profissionalismo.

Para a conselheira da minha região, não posso opinar sobre o feminismo porque não sou mulher, logo não sei o que as mulheres passam todos os dias. Interessantemente, esse raciocínio também deveria valer ao contrário: mulheres não podem falar sobre a condição ou mentalidade masculina por não saberem o que homens passam todos os dias. Infelizmente, mulheres não só podem como são incentivadas a dizer como os homens devem agir e a reclamar da boa vida dos homens. Contudo, a grama do vizinho é sempre mais verde e ninguém vê a espada de Dâmocles pendurada sobre a cabeça de cada homem. Não poderei entrar em muitos detalhes aqui, mas recomendo a série de 4 artigos do A Voice for Men Brasil sobre a misandria na Psicologia.

Self Made Man: My year disguised as a man (algo como “o homem que fez a si mesmo: meu ano disfarçada como um homem”) é um livro que retrata a história da jornalista lésbica e feminista, Norah Vincent, se passando por homem durante mais de um ano para escancarar os privilégios masculinos e terminando com a autora dizendo que o preço pago pelos homens para desfrutar de tais privilégios é tão alto que ela prefere continuar sendo mulher. Por que tais livros não são considerados em estudos de gênero, divulgados na grande mídia ou mesmo traduzidos para outros idiomas, como o português? Não pode ser falta de vendas, pois livros de Warren Farrell, como The Myth of Male Power, são sucesso de vendas.

Claro que, ao mencionar Self Made Man, não estou dizendo que a vida das mulheres seja melhor que a dos homens ou que elas não tenham problemas, mas cada sexo desenvolveu formas de se acostumar e se proteger dos problemas que lhe são inerentes, seja através da socialização ou da evolução genética. Uma coisa que meu professor de química me ensinou é que só podemos comparar coisas semelhantes, como quilogramas com quilogramas e litros com litros, mas jamais quilogramas com litros. Os problemas masculinos e femininos são diferentes demais para fazermos uma comparação justa.

Parte do sucesso do feminismo e, ao mesmo tempo, pelo qual defendo ser impossível uma Psicologia Feminista é que o feminismo possui todas as características de uma pseudociência. Os “estudos científicos que provam vivermos em um patriarcado” costumam ser falas/exemplos de episódios individuais desagradáveis que ocorreram com mulheres, com explicações super simplificadas (tudo é culpa do machismo), não muito claras (o que caracteriza preconceito?), pouco parcimoniosa (ou seja, exageradamente complexas. Para aceitar que a teoria feminista está correta, precisamos acreditar que os homens se juntaram para proibir as mulheres de terem autonomia durante milhares de anos; as mulheres estavam infelizes, mas nunca tentaram se rebelar ou suas rebeliões foram relegadas ao esquecimento com facilidade; as diferenças entre os sexos não é natural, mas ensinada; esse ensinamento, de alguma forma, se manteve inalterado antes do surgimento do feminismo mesmo com inúmeras mudanças culturais; além de conceitos como misoginia; cultura do estupro; lugar de fala; patriarcado; relações de poder; falocentrismo; microagressões, mansplaining e outros) e, talvez o mais grave numa “ciência”: não podem ser falseados (ou seja, o estudo é feito de uma forma que o único resultado possível é a confirmação de que o pesquisador tem razão).

Para ilustrar melhor, recorramos ao carro-chefe das pesquisas feministas: os estudos de violência por parceiro íntimo (violência conjugal). As pesquisadoras Conceição, Bolsoni, Lindner e Coelho (2018) fizeram um levantamento das pesquisas realizadas sobre violência por parceiro íntimo e compararam as pesquisas de assimetria de gênero (feministas, defendem que a violência é produto da diferença de poder entre os sexos numa sociedade patriarcal) e de simetria de gênero (teóricos da família. Defendem que a violência é decorrente de inúmeros fatores, como deficiências em habilidades de comunicação, e é comum a ambos os sexos).

Segundo essas pesquisadoras, quase 47% (37 artigos – n=37) dos estudos em violência doméstica adotaram uma postura feminista, dos quais, pouco mais de 80% (n=30), são compostos de entrevistas apenas com mulheres, 73% (n=27) das pesquisas recrutaram participantes em delegacias da mulher, centros de saúde e outros serviços de ajuda à vítima de violência doméstica (leia “violência contra a mulher). Um detalhe interessante é que quase 84% das “pesquisas” (n=31) relataram que apenas as mulheres foram vítimas, enquanto pouco mais de 16% (n=6) relatou violência tanto de homens contra mulheres quanto o contrário, mas nenhum desses artigos abordou a violência contra o homem. Um perfil semelhante foi encontrado por mim e meu colega Thiago Peixoto em pesquisas psicológicas que abordam a violência doméstica e utilizaram os radicais masculin*, home* e gênero*, além de estarem disponíveis na plataforma Brasil (ainda não publicado).

Estudos de teóricos de gênero (n=20. Pouco mais de 25% das pesquisas encontradas por Conceição e colaboras), por outro lado, utilizam estudos qualitativos e quantitativos praticamente na mesma proporção. Desses estudos, 35% (n=7) pesquisaram casais, 25% (n=5) apenas mulheres, 20% (n=4) apenas homens e 20% (n=4) ambos os sexos (homens e mulheres não necessariamente se conheciam). Além disso, 30% (n=6) das pesquisas recrutaram participantes em suas residências, 20% (n=4) em consultórios particulares e 20% (n=4) em serviços de proteção à vítima de violência, sendo que o restante (n=6, 30%) não foi informado o local ou foi realizado em outros locais. Nessa abordagem, 16 estudos (80%) dizem que a violência costuma acontecer nos dois sentidos, o homem agride a mulher e a mulher agride o homem; 3 estudos (15%) só encontraram (ou só quiseram falar de) exemplos de homens que agridem mulheres e 1 (5%) falou apenas da violência da mulher contra o homem.

Os demais estudos (n= 22 | 28%) pareceram combinar a abordagem feminista e dos teóricos da família ou não foi possível classificar a teoria usada em nenhuma das duas abordagens. Observa-se que, cientificamente, estudos da família são mais confiáveis que estudos feministas, mas quando foi a última vez que você ouviu falar sobre violência contra o homem na TV ou num congresso? Minha colega Sara Próton pediu que homens respondessem um questionário sobre violência doméstica e, em menos e um mês, conseguiu mais de 800 respondentes. Um número bem alto para uma população que “não denuncia os abusos que sofre por vergonha, medo de ser visto como fraco ou que não percebe que é vítima de violência”.

Talvez algumas pessoas pensem como as amigas de Christina Hoff Summers, que eu deveria ignorar as falhas e erros da comunidade psicológica porque isso prejudicaria a imagem da Psicologia como uma ciência e profissão séria e as pessoas parariam de procurar/contratar psicólogos (ou seus serviços), cursos de psicologia fechariam e, talvez no futuro, a psicologia se torne uma coisa do passado. Mas assim como a Christina, eu acho que precisamos denunciar mesmo, pois só assim os erros serão corrigidos antes que seja tarde demais. Precisamos acabar com a arrogância dos psicólogos, de achar que eles sempre sabem o que é melhor para os outros. Precisamos parar com esse complexo messiânico, que enche a boca pra dizer que não julga ninguém, mas chama de “empoderamento” quando uma mulher reclama de seu marido, enquanto chama de “preconceito” quando um homem diz que tem a sensação de estar dando muito para um relacionamento dar certo e não recebendo nada em troca.

Devemos reconhecer a luz e a escuridão que há nos dois sexos. A feminilidade pode ser tão tóxica quanto a masculinidade, mas também foi a masculinidade quem criou praticamente todas as artes, ciências e ferramentas e chamar isso de “ideologia opressora” é hipócrita e estúpido. O papel que homens e mulheres desempenharam ao longo de milhares de anos foi necessário para criar essa sociedade em que eles já não são mais necessários.

Homens, quando precisarem de um(a) psicólogo(a), pesquisem sobre quem irá atende-los primeiro, sempre que possível, claro. Se acabarem sofrendo discriminação, não parem simplesmente de comparecer as consultas (eu sei, é tentador). Anotem o nome e CRP do “profissional” e mandem uma carta (conselheiros são tecnofóbicos) para o conselho da região detalhando o ocorrido, e procurem outro profissional, pois nada pode ser mais importante que a sua sanidade.

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