Uma introdução sobre Direitos dos Homens

 

Muitos homens são muito mais oprimidos que muitas mulheres, e qualquer feminista que esteja determinada a apoiar mulheres em todas as situações certamente encontraria algumas onde seu apoio a mulheres em vez de homens aumentaria o nível de injustiça no mundo. Nenhuma feminista cuja preocupação com mulheres venha de uma preocupação pela justiça em geral pode jamais legitimamente permitir que seu único interesse seja a vantagem das mulheres. – Janet Radcliffe Richards, “The Sceptical Feminist”, 1994.

Quando falamos em um movimento pela defesa dos direitos dos homens, muita gente se surpreende. Não é para menos: mais antigo nos Estados Unidos, o movimento, no Brasil, ainda está em uma fase inicial, ganhando corpo. E quando se trata de algo desconhecido, surgem perguntas como: o que são? O que eles defendem?

Antes de falar sobre o que o Movimento dos Direitos Humanos dos Homens é, vou começar falando sobre o que ele não é, e com o que é muitas vezes, equivocamente, confundido. Parte disso é graças a certos grupos radicais de extrema-direita, que defende que mulher não deveria votar, que mulher deveria ser propriedade do marido, que homossexual tem que se “curar”; tendo o escritor Nessahan Alita como principal (ou única) referência teórica. A outra parte disso é o esforço intelectualmente desonesto da blogueira Lola Aronovich para difamar o movimento, tentando vincula-lo a essa imagem radical; ao mesmo tempo em que insiste em desvincular o feminismo de Valerie Solanas, do FEMEN, daqueles que enfiaram cruzes no ânus na marcha das vadias, daqueles que pregam a castração ou assassinato de homens livremente no Facebook, com o argumento clássico de que são apenas correntes mais radicais que não representam o movimento em si. Um ela vinculado ao radicalismo, e outro, procura desvincular.

Cara ou coroa. Cara, eu ganho. Coroa, você perde.

Primeiro, o movimento dos direitos dos homens não é, de forma alguma, conservador ou reacionário, querendo retroceder a 1950, como alguns acusam. Quando falo de direitos dos homens, estou falando nos grandes sites e associações em nível mundial. Estou falando no A Voice For Men, National Coalition For Men, National Organization for Men e tantos outros. Estou falando em Warren Farrell, Christina Hoff-Sommers, Paul Elam ou Glenn Sacks. Não em Nessahan Alita, que jamais escreveu uma vírgula sobre questões de gênero – é um escritor que fala sobre relacionamentos.  Farrell, no primeiro capítulo do clássico e fundamental (penso que todos que querem falar sobre assuntos relacionados a gênero deveriam ler esse livro) The Myth of Male Power afirma que ele fala sobre os papeis de gênero de 2050 e não de 1950 ou 2000. Estamos olhando para o futuro, não querendo voltar ao passado. Apenas não defendemos, como as feministas, que o futuro deve ser uma eliminação de papéis de gênero e a igualdade absoluta entre homens e mulheres. Existem diferenças biólogicas que impedem que isso seja possível. Um homem não pode amamentar uma criança, assim como , para uma mulher, não é simples ter filhos a partir dos 40 anos.

Segundo, o movimento de direito dos homens não é, de forma alguma, um feminismo às avessas. Não defendemos que homens são vítimas da opressão do femismo e do matriarcado, que somos oprimidos o tempo inteiro de diversas e diversas maneiras diferentes. Não acreditamos que ser homem é ser vítima de violência de discriminação durante toda a vida, enquanto ser mulher é ter uma vida fácil, cheia de poder e privilégios. Não defendemos que foi instalado um matriarcado há 5 mil anos (ou 10, ou 20? As feministas nunca se definiram quanto a isso. Defendem a tese da opressão histórica feminina como certa e não sabem explicar quando, onde e em quais circunstâncias isso teria começado) e desde lá se estabeleceu uma hierarquização nas relações de gênero onde mulheres são opressoras e homens são oprimidos. Defendemos que homens são tão opressores quanto são oprimidos, e que não existe “O” sexo oprimido, mas sim papéis de gênero construídos por influência biológica e cultural  – e não apenas cultural (como insistem as feministas ao desprezar a Biologia) ou apenas biológica (como insistem certos conservadores) – que privilegiam e oprimem ambos os gêneros.

O direito dos homens é, em síntese, a ideia de que não existe privilégio masculino. E que esse mito, que as feministas insistem tanto em propagar, junto com a crença não só altamente questionável como também um tanto infantil de que “a sociedade é machista” tem criado uma verdadeira guerra dos sexos, um fosso segregacionista extremamente pernicioso para ambos, homens e mulheres. É absurdo defender que homens são privilegiados quando as estatísticas demonstram que são eles a maioria esmagadora das vítimas de homicídios. “Ah, mas são outros homens…”. Quando divulgadas estatísticas de que negros são 3 vezes mais mortos do que brancos, não se considera aí que muitos desses homicídios são praticados por outros negros. Isso seria considerado racismo. Violência doméstica não é questão de homem agressor e mulher agredida, simplesmente – em um texto futuro vou abordar o assunto com maior profundidade -, a maioria também esmagadora de pessoas em estado de miséria e de vítimas de todos os crimes (inclusive estupro), vivem 7 anos a menos que as mulheres (diferença biológica? Não, se isso fosse verdade, a diferença não seria de apenas 1 ano em 1920), são as maiores vítimas de doenças (ainda que toda a preocupação da sociedade civil seja com a saúde da mulher – é só ver cartazes do SUS sempre focados unicamente na saúde feminina) trabalham mais e se aposentam mais tarde (feministas também divulgam uma estatística que diz que mulheres têm jornada dupla – e omitem outra, que demonstra que homens trabalham mais), entre outras que serão analisadas com mais detalhes futuramente.

É essa maneira que estamos nos comportamento que leva a todos os problemas masculinos que citei acima- o que são apenas a ponta do iceberg, porque é possível escrever um livro inteiro falando sobre todas as maneiras que homens e meninos sofrem violência e discriminação pelo único fato de pertencerem ao sexo masculino. E isso não é levado a sério – a crença de que os homens são um grupo privilegiado está tão enraizada em nossa psique que lutar pelos direitos masculinos é algo que costuma ser ridicularizado, com expressão como “iuzomismo” ou “male tears”. As pessoas que fazem isso são as mesmas que pensam que podemos diminuir os estupros colocando fotos em redes sociais de topless e segurando cartazes. É claro que tal estratégia é completamente ingênua e ineficaz – que vem daquilo que Jung chamava de “puer aeternos” – a criança eterna, o arquétipo juvenil, que parece ser fortemente presente nas feministas dos dias de hoje, principalmente dentro das mais radicais – estas, com voz cada vez mais ativa dentro desse movimento. E é dessa maneira que estamos nos comportando- com esse segregacionismo de gênero, com a ideia de que apenas mulheres são vítimas e políticas voltadas à igualdade de gênero devendo ser voltadas apenas ao feminino – que temos como resultado tantos os índices gigantescos de suicídios, assassinatos e mortes violentas de homens como também os problemas femininos tão conhecidos, como a questão do assédio sexual. A sociedade trata os homens mal – e não isso ainda não é reconhecido.

Homens que são maltratados fazem o mesmo a outras pessoas- homens e mulheres. Para combater o sexismo, devemos deixar cair esse rigor ideológico, esse dogma de “privilégio masculino”, buscar compreender as causas do sexismo – que prejudica a ambos os sexos- de uma maneira imparcial, sem ter uma visão distorcida pela lente de uma ideologia que explica estupro, violência doméstica, abuso sexual e os outros problemas femininos com a simplista explicação de “porque a sociedade é machista” – e , quando reconhece a existência de algum problema masculino, dá a mesma explicação, como sendo um “efeito colateral” do “machismo”.

É disso de que se trata o movimento de direitos dos homens – buscar estudar o sexismo analisando suas causas de forma imparcial, suas manifestações e causas históricas, biológicas e culturais, e não apenas através de uma explicação mágica chamada “machismo”, um inimigo imaginário criado pelas feministas que consistiria na onipresente ideia, esta enraizada na psique humana há milhares de anos, de que a mulher é inferior ao homem e que seria uma das principais causas da injustiça no mundo, do qual caberia ao feminismo a tarefa heroica de nos libertar. Questões de gênero vão muito além dessa explicação simplista, e para beneficiar a ambos os sexos, nós precisamos tomar em conta tais questões do ponto de vista de ambos. Se segregarmos em opressores e oprimidos, entre privilegiados e discriminados, insistindo em falar em “male tears” e “iuzumismo” , ignorando os problemas sofridos por um gênero através do dogma de que eles não existem, estamos, automaticamente, prejudicando o gênero que queremos defender. Por isso o feminismo atual presta um enorme desserviço às mulheres.

Direitos humanos masculinos são necessários na medida em que o homem, devido à ilusão de seu privilégio, não goza da proteção de governos e a masculinidade não é estudada no meio acadêmico – a não ser para ser demonizada. E construir um mundo melhor para os homens, revertendo a discriminação que sofrem por serem homens, é construir um mundo melhor também para as mulheres com quem convivem.

11 thoughts on “Uma introdução sobre Direitos dos Homens”

  1. Por favor, alguém poderia me indicar onde encontro os dados oficiais que comprovam todas as formas de opressão realizadas sobre o homem que são indicadas no texto?
    Por favor mesmo!

      1. Obrigado pela indicação Pobretano!
        No entanto, minha percepção é que o MRA brasileiro está quase completamente baseado em traduzir textos estrangeiros.
        Isto não está certo. Temos que produzir nossos próprios textos, que reflitam a nossa realidade. Temos que basear nossos argumentos em dados de institutos de pesquisas nacionais e que são reconhecidos nacionalmente.
        Acho que tem muita qualidade o que é produzido lá fora. Mas se agente não produzir aqui também, creio, isso tudo não passará de mera curiosidade.
        Concorda com a forma como vejo?
        Se não concorda, por favor me explique melhor esse movimento MRA brasileiro. Não entendo como ele se explica a si próprio. Até então ele não me parece muito mais do que um indício de que outros brasileiros estão atentos para os conteúdos que estão sendo produzidos no estrangeiro.

        1. De fato, tem pouca coisa produzida aqui em comparação com o estrangeiro. Afinal, eles que começaram isso tudo, além de terem muito mais estrutura para lidar com essas coisas.

          Sobre o lado autoral BR: O próprio Aldir e o Marcus Valério têm alguns textos autorais, mas que focam mais na parte “filosófica”. Ainda é algo incipiente, mas acredito que é bastante promissor. Primeiro, porque o feminismo mesmo está perdendo muito do seu apelo. Antigamente todo mundo comprava aquela meia conversa de “sem as feministas as mulheres seriam escravas”. Segundo, porque antes tais movimentos não tinham a internet para se falar.

          Note que o texto que te passei é primariamente estatístico – ele compila dados de diversas ocorrências típicas dos EUA. Não é conceitualmente difícil fazer o mesmo tipo de coisa aqui no Brasil, até porque nossa legislação é conceitualmente mais simples; o problema é aonde e como coletar esses dados.

          Eu mesmo pretendo ingressar na carreira jurídica só para isso – fazer o mesmo trabalho de Ernest B. Bax em seus livros, só que para nosso atual tempo. E isso não vai ser fácil – esses dias mesmo o TJSP baixou uma portaria para campanhas contra a violência doméstica contra a mulher

          1. Seria legal se tivesse um fórum de discussão para os brasileiros interessados nesse tema. Através de discussões num fórum poderíamos criar alguns consensos com base no convívio. E, a partir disso, seria possível começar uma produção de textos. Isso porque se saberia quais são os interlocutores, qual é a proposta, quais são os valores de base e coisas do tipo. Sem isso, quem produz um texto não está certo se ele será lido, se será entendido, se servirá à algum proposito etc.
            Tem aquele fórum do búfalo. Mas acho que a proposta é bem diferente. Trata-se apenas de um fórum onde homens discutem problemas masculinos sem serem amordaçados pelo politicamente correto. Ele até tem seus aspectos interessantes, mas está longe de oferecer um combate real ao feminismo que, penso, não está se retraindo nem um pouco, pq ele ainda não foi contestado. E só vai ser contestado quando tivermos um pensamento anti-feminista nacional, quando conseguirmos representar em textos, reivindicações, palavras de ordem, a insatisfação própria de brasileiros em relação ao feminismo e do que passa com eles no Brasil.
            Para dar um exemplo: Warren Farrell fala bastante do que há de descartabilidade masculina nas guerras feitas pelos EUA. Já no Brasil não há essa cultura de fazer guerras com outras nações. No entanto aqui existe a guerra civil, a condição de vida dos policiais, dos homens dentro do crime organizado e etc. Ao falar de descartabilidade masculina teríamos que falar tendo como base a nossa realidade. Se não, não tem aparência de ser coisa séria.
            Entende?

          2. O forum do bufalo é só um fórum comum sobre desenvolvimento pessoal, que tangencia questões de direitos dos homens; a AVFM é mais sobre ativismo político.

            Sobre como fazer essas abordagens aqui no Brasil, mais uma vez, não é conceitualmente complicado. O link que eu passei concentra-se em estudos estatísticos, e acredito que a porcentagem aqui é próxima à dos EUA: mais de 90% das vítimas de assassinato são homens, e mais de 80% das vítimas fatais de violência domiciliar são homens (é algo que pode ser puxado a partir do DATASUS).
            E, se é para apontar a descartabilidade masculina, não precisamos nem colocar guerras: basta apontar as mortes de policiais por aqui, e por que não, destacar os suicídios de agentes da PF.

            A princípio, tem um grupo de discussão no Facebook. Talvez possa te interessar.

          3. Achei cara, valeu mesmo.
            Espero que me aceitem, já faz um dia e ainda nada.
            O seu nome lá é o mesmo que aqui?

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