Terry Crews

O texto a seguir não é meu e o autor preferiu permanecer anônimo. – Aldir.

Eu tinha seis anos de idade.

Eu estava em um quarto na ala de crianças do Hospital Montefiore no Bronx, numa cama, após uma cirurgia.

Eu era o único paciente no quarto naquele momento.

Meu pai estava vindo me ver, mas ainda não tinha chegado.

A enfermeira entrou pela direita.

Ela checou minha temperatura.

Ela saiu.

Um homem entrou.

Ele vestia um jaleco, como um médico. Ele foi rapidamente e quietamente para o lado esquerdo da minha cama. Até hoje, se necessário, eu poderia reconhecê-lo entre quaisquer outros, eu nunca vou esquecer aquele rosto: óculos de aro metálico, barba, bigode, rosto pequeno e redondo, não musculoso, magro, menos de um 1,70m, olhar disparando para a esquerda e a direita antes de se fixarem em mim.

“Preciso checar”, ele sussurrou.

Ele levantou os lenções, colocou sua mão esquerda sob a minha roupa de paciente e começou a acariciar meu pênis e testículos.

A mão direita dele estava dentro do que parecia ser seu bolso.

Então ele soltou um gemido.

Ele removeu a mão direita e tocou meu abdômen e deixou ali o que eu agora percebo que deve ter sido sêmen.

Eu estava com medo.

Eu não estava com raiva.

Eu não senti nada – o que é uma coisa muito ruim para um menino de seis anos.

Eu continuei olhando para a porta para ver se a enfermeira voltaria, para explicar o que estava acontecendo.

Então o homem silenciosamente foi embora.

Até hoje, enquanto sigo cuidando da minha vida, digamos, andando pela rua, e eu viro a cabeça para olhar para trás, eu vejo tudo: manifestações do meu medo, raiva, invejas, arrependimentos e ressentimentos, todos personificados como jagunços. Diante de mim estão minhas alegrias e bem-aventuranças, mas eles estão no meu presente e, espero, no meu futuro, enquanto isso se trata de manifestações do meu passado. Eles são uma porção variada de personagens – desenhos. Eu me imagino acenando com a mão para eles e eles todos desaparecem; exceto ele. Ele ainda está lá, em silêncio, de pé, imóvel: óculos, barba, jaleco branco, olhos penetrantes – sem expressão na sua cara redonda e pequena. Ele estará lá até o dia que eu morrer, parado ao lado do portal quando eu passar para o desconhecido. Eu não tenho medo, nem raiva, quando penso nele. Eu tenho só um vazio.

A vida sendo a vida, algo aconteceu de novo.

Eu tinha doze anos.

Naqueles dias, crianças podiam entrar no cinema quando mostravam filmes não tão apropriados. O filme que estávamos vendo era “Pendulum” – uma história de assassinato. A grande sala de cinema era na Bainbridge Avenue, perto da 204ª Rua (“204th Street” – a cidade de Nova Iorque tem várias ruas com números em vez de nomes). Era um dos dias mais quentes do ano. Depois do filme, meus amigos saíram, mas o ar condicionado estava ótimo. Eu resolvi ficar lá, sozinho.

A sala tinha capacidade para umas 300 pessoas, mas não devia haver mais de 20 naquela hora. Eu me sentei sozinho perto da frente, na ala esquerda. Ninguém estava perto de mim durante a primeira metade do filme. Então, um homem veio, passou por mim e se sentou à minha esquerda. Ele tinha um copo de café. Eu me lembro do café como um detalhe irrelevante. Ele se inclinou para trás, deslizou sua mão para dentro da calça e começou a se tocar. Eu vi o volume do seu pênis pela calça. Ele tirou o pênis para fora.

Eu podia ter saído, mas escolhi ficar, em parte por causa da memória do um “médico.” Era um desejo antigo de entender o que aquele “médico” tinha feito. Além disso, eu estava fascinado com a aparência de uma ereção. Após uns quinze minutos ou mais, me levantei e saí.

Novamente, algo aconteceu.

Anos depois, aos 19 anos, eu estava trabalhando na Biblioteca Pública de Nova Iorque – um trabalho para pagar a faculdade. Um dia, meu gerente me mandou para o porão para ajudar um dos outros gerentes a remover material ultrapassado dos catálogos de cartões. Na quietude daquele dia, um dos gerentes veio até mim, colocou o braço em volta de mim e me propôs.

“Eu conheço um homem que chuparia a rola de qualquer um da sua idade,” ele disse, enquanto apertava meus ombros e apertava o saco contra o meu braço. Eu o empurrei. Eu tirei seu braço de cima de mim. Eu sorri para ele e disse: “Não, não.” Nós continuamos amigos durante o meu tempo lá.

Anos se passaram.

Minha carreira deslanchou. Encontrei felicidade dentro de mim mesmo. Finalmente, conheci uma mulher. Estamos casados há 20 anos agora, com dois filhos que tivemos juntos. Hoje, tenho sessenta anos e uma esposa maravilhosa e uma ótima vida. Suponho que você possa dizer que eu esteja entre os 5% do topo, a despeito de ter começado entre os 10% da base da pirâmide, em uma família muito pobre.

Sim, eu escolhi ficar naquela sala de cinema. Eu podia ter saído, eu tomei a decisão, na idade de 12 anos, e tomo posse dela sem arrependimentos. O ato de assumi-la me permitiu ver isso como um incidente benigno e isso me fez capaz de superar isso. Portanto, você pode imaginar o que eu penso de Terry Crews.

Terry Crews é um homem de 40 anos, ex-halterofilista/jogador de futebol americano, que foi apalpado ao ar livre, diante de testemunhas. Eu ouvi seu testemunho perante o Congresso e me cheirou a falsidade. Ele disse que “aquilo” durou minutos, mas ele também disse que ele reagiu imediatamente: isso é contraditório. Seriamente, conte três minutos e imagine Crews de pé ao ar livre, diante da sua esposa, enquanto outro homem segurou suas bolas por 180 segundos. Eu chamo isso de baboseira. Em seu testemunho, eu ouço expressões melodramáticas demais, demasiados aforismos ensaiados, mas nenhuma dúvida autorrefletida e profunda. Eu o vejo mudar as faixas das suas gravações mentais muito facilmente. Eu o vejo reestruturando um incidente menor dentro de uma contextualização fictício chamado masculinidade tóxica.

Na idade de 12 anos eu sabia que eu podia ter me levantado e saído daquela sala de cinema. Se eu tivesse me transformado numa vítima, eu teria negado minha decisão consciente e isso teria incendiado a ponte para o bem-estar. Eu nunca teria assumido a propriedade das minhas decisões ou a minha eventual transcendência acima delas.

O homem que me fez a proposta na biblioteca era só um homem velho que agiu mal. Hoje, se ele estiver vivo, provavelmente está nos seus 90 anos. Eu espero que ele esteja feliz; realmente; ele não era um monstro ou membro de um culto. Sim, aquilo me chocou só por um momento, mas isso foi tudo.

O primeiro incidente, quando eu tinha seis anos, foi uma agressão sexual real; foi o mal batendo à minha porta. Porém, aquele “médico” não manifestou “masculinidade tóxica.” Ele era um pervertido. Eu sei a diferença.

Eu era um menino de 6 anos. Crews era um fisiculturista que foi apalpado por menos de alguns segundos. Terry Crews sugere que ele sofreu TEPT. Meninos de seis anos não têm poder. Crews tinha um braço para autodefesa e aquilo aconteceu a céu aberto.

Eu acredito, sim, que Terry Crews foi surpreendido por uma apalpada de três segundos. Eu acredito que ele esteve confuso por uma pegada de três segundos em local aberto, com testemunhas. Eu não acredito que ele seja uma vítima. Quando ele assegura que sofre de Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT), ele denigre cada soldado que voltou da guerra, incapaz de reconciliar sua boa vontade de homem interiorano com o mesmo soldado que mata o inimigo.

A alegação de TEPT feita por Crews, se não questionada, desrespeita como eu fiz uma decisão consciente de permanecer naquela sala de cinema. Quando ele afirma TEPT, ele trivializa o que eu vivi quando menino de 6 anos. Se isso fosse tudo que Crews tivesse feito, ele estaria relegado, na minha mente, a um ator no palco de uma comédia – um bufão, um palhaço, um bobo. Se isso fosse tudo que ele tivesse feito, eu nem mesmo escreveria isto.

No entanto, ele foi além. Ele valida a expressão “masculinidade tóxica” e então sugere que isso é um culto. Um culto. Um culto!

Quando ele valida um “culto da masculinidade tóxica”, ele atravessou uma ponte demais.

Ele abriu o portão da ponte, então agora eu vou atravessar também.

Um culto?

O mundo é simples. Há grandes homens; há bons homens (todo homem que eu conheço); há homens ruins (meu bibliotecário e o agente de Crews); e há homens malignos (meu “médico”). O mesmo vale para as mulheres.

Nós usamos esses simples adjetivos para descrever homens (ou mulheres). Nós não afixamos palavras como “tóxico” a um gênero. Não se fixa um adjetivo a uma religião, raça ou gênero. Compare “O culto da masculinidade tóxica” com “O culto do islamismo radical.” Como qualquer pessoa razoável e objetiva valida o primeiro e repudia o último?

A masculinidade, em suas boas facetas, é bela, criativa e poderosa. Eu amo a faceta de autorresponsabilidade, estoicismo (não no seu sentido pejorativo), modéstia e introspecção – nenhuma dessas exibida pelas árias de Crews.

Um culto?

Eu não canto minhas experiências. Sim, eu faço isso aqui, mas apenas para conter minha rejeição de Crews em um mundo infectado por Oprah Winfrey e sua filosofia barata de Talk Show de que a experiência pessoal por si é a moeda da sabedoria. Crews inflaciona um incidente melhor para confundir masculinidade com malignidade, enquanto ele desfila como uma diva antes de um close-up. Seu incidente nem atinge o nível de um teatro trágico, pois eu nada vejo nele digno de reproduzir. Ele não é trágico, nem cômico; no máximo, é personagem de um desenho de sábado da década de 60.

Um culto de masculinidade tóxica?

Estarão os homens como Crews criando um anexo do cemitério de veteranos? Nós agora substituímos a Medalha de Honra do Congresso com “Eu sou um sobrevivente”? Um culto de masculinidade tóxica?

Não estou sugerindo que os homens não devam falar sobre os acontecimentos nas suas vidas. Falar, refletir, discutir e escrever. Porém, falar sobre isso falar sobre isso nos braços de alguém que se ame; falar sobre a guia de um terapeuta; falar com um conselheiro espiritual; falar com amigos próximos; falar sob a luz da lua; mas não faça como Crews diante do Congresso, também conhecido como Gloria Swanson diante de Hollywood; quero dizer: “Estou pronta para o meu close, Sr. DeMille.”

Um culto de masculinidade toxica?

Eu também não estou sugerindo que homens não tenham feito coisas ruins: eles são capazes; e homens fizeram grandes coisas; e a masculinidade sempre manteve o mal sob restrição e fertilizou as aspirações na direção do bem. Porém, abraçar e promulgar uma expressão revoltante e infundada, criada para afastar o que há de bom na masculinidade, para ganho pessoal, é sintomático de um eunuco em pose de pavão, inconsciente que seus testículos há muito já foram estourados igual bolinha de plástico bolha.

Um culto de masculinidade tóxica?

Que tal uma ópera para o Sr. Crews: “O dia em que alguém apertou minhas bolas”? Naturalmente, um soprano teria que cantar sua parte pelos três segundos em que ele atinge o “Dó” alto – ou talvez ele mesmo cante.

Ele atravessou várias pontes até agora.

Terry Crews glorificou uma mão no saco para montar o pedestal rosa de dor performática enquanto belisca os mamilos e peida palavras sobre o “culto da masculinidade tóxica.” E fazendo isso, ele joga fora – um após o outro- bons homens (homens decentes, tentando entender seu lugar em um mundo envenenado pela navalha feminista disfarçada de Gillette) no lixo para que ele possa abrir suas nádegas diante do altar do vitimismo feminista tóxico.

Um culto?

Homens, como indivíduos, agiram contra mim e se eu visse isso como um culto do mal, eu nunca teria prosseguido e superado isso – teria parecido algo impenetrável. Esses incidentes me fizeram quem eu sou e eu sou grato por nunca ter sido indoutrinado para clamar status de vítima. Por gentileza não me estenda qualquer compaixão (sentimentos que nós temos por iguais). Eu não necessito ou quero isso, pois isso está no meu passado. Sim, eu poderia ter vivido muito bem sem o “doutor” na minha consciência. Mas isso foi o que a vida colocou para mim. Reserve para Crews a sua pena (sentimentos que nós temos por tolos).

Eu não sou Terry Crews.

Eu não sou vítima.

Eu não sou sobrevivente.

Eu sou filho e irmão.

Eu sou marido em um casamento forte e amoroso com uma mulher que é minha parceira.

Eu sou pai.

Eu sou homem.


Eu escolhi o pseudônimo Anônimo por duas razões. Principalmente, porque qualquer pessoa que apoie Crews e ler isso pode se irritar e eu não tenho o poder ou o tempo para lidar com estupidez egoísta, arrogância e ilusões. Ademais, meus filhos são ainda jovens e minha esposa e eu decidimos evitar contar-lhes sobre os incidentes da minha vida. A única pessoa que sabe quem eu sou é Paul Elam e assim continuará. Dito isso, os eventos deste ensaio são verdadeiros e as opiniões são as minhas.

Originalmente publicado no A Voice for Men.
Tradução: Aldir Gracindo.

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