É melhor JAIR aceitando a realidade – Parte 1: Falar de direitos dos homens? Perca a ingenuidade

INTRODUÇÃO

Nesta série pretendo, com algum detalhamento, contribuir para a compreensão do impressionante cenário político atual do mundo, com enfoque no Brasil. E de como as questões dos homens e dos nossos filhos se contextualizam nisso.

Ser conciso sem ser superficial não é fácil, então desculpem o textão. Vocês dizem que mesmo meus textões são interessantes, então veremos. Vou abordar os assuntos em partes.

Por outro lado, sei que atendo uma necessidade das pessoas que acompanham o AVFM e querem ler, discutir, pensar, aprender e têm também muito a dizer. Sei que vou “lavar a alma” de muitos e apresentar novidades a outros. E talvez alguns se revoltem, mas a revolta não vai ser comigo. Vai ser com a realidade.

Eu estou longe de ser um apoiador de primeira hora do Bolsonaro, como vou explicar em outra parte desta série. Mas, durante o primeiro turno dessas eleições, enquanto eu declarava o meu voto nele, coisas interessantes aconteciam. Vou usar estes acontecimentos para ilustrar o que eu tenho pensado durante estas eleições.

Mas, antes de falar do fenômeno envolvendo a eleição de Jair Bolsonaro, há dois temas importantes que precisam ser, por assim dizer, tirados do caminho, ou esclarecidos, nas partes 1 e 2.

Vou começar dando atenção a algo basilar nesta parte 1.

PARTE 1: PERCA A INGENUIDADE

Ainda durante o primeiro turno dessas eleições, alguém me enviou uma mensagem. Esta primeira parte é dedicada a pessoas aproximadamente com este perfil. Gente que, de boa vontade, quer compartilhar mensagens como essa. Para que pessoas assim estejam preparadas, prevenidas. A mensagem veio acompanhada do pedido para que nós compartilhássemos por todo lado e foi a seguinte:

Com a campanha eleitoral é fundamental questionar os candidatos a deputados e senadores sobre suas propostas para os Homens e Meninos. Direito dos homens e meninos;
Saúde dos homens e meninos;
Métodos anticoncepcionais para Homens e Meninos;
Liberação e redução da idade para o procedimento de vasectomia;
Falsas acusações de estupro e violência;
Aplicação da Lei Maria da Penha para os mesmos casos de agressão e violência da mulher contra Homens e Meninos;
Leis especificas contra a violência contra Homens e Meninos;
Tipificação dos crimes de masculinicídio.
Não discriminação penal por ser Homem e Menino;
Alienação parental e Direitos dos Pais;
DNA feito automaticamente em todos os nascituros;
Inclusão dos direitos dos homens na discussão sobre Aborto;
Direitos previdenciários dos Homens e Meninos.
Os homens e meninos continuam abandonados.

Não vou analisar, menos ainda julgar, cada um dos pontos acima. Apenas, àquelas pessoas na fase em que:

  • Saíram da fase de não perceber discriminações contra homens e meninos em função da sua masculinidade;
  • Veem a misandria como injusta, prejudicial, não só aos nossos homens, como aos nossos filhos; e
  • Pensam que essas coisas devem ser faladas e mudadas.

A essas pessoas, quero dizer:

Percam a ingenuidade.

O que vocês acham que quase todo político diria sobre isso? Isso é algo que possa trazer muitos votos?

Os problemas dos homens e meninos não envolvem só cada um dos problemas dos homens e meninos. Há uma questão cultural, atrelada com Biologia. A grande maioria das pessoas, homens e mulheres, estão despreparadas para sequer enxergar que há injustiça contra homens e meninos. Em segunda instância, ainda, que essas identificadas discriminações importem. São as pessoas que não se importam. E mais, vão reagir automaticamente com incredulidade, ridicularização eou  raiva a cada um dos pontos que você tentar lhes expor. Os motivos para isso são de origem biológica, cultural e político-ideológica. É preciso também entender que biologia e cultura não formam conjuntos inteiramente separados, estanques, de fatores.

Eu poderia citar milhares de livros ou matérias jornalísticas para exemplificar, ou algumas dezenas de outros para explicar isso. Mas aqui vou usar trechos de duas palestras disponíveis online.

Veja, primeiro, como a Dra. Christina Hoff Sommers (autora de “A guerra contra os meninos”, “Quem roubou o feminismo” e “Uma nação sob terapia”), por exemplo, aponta a cegueira biológico-cultural para o problema da evasão escolar dos meninos. No jornal The New York Times, anos antes, houvera uma matéria de primeira página com o título sobre a educação das crianças hispânicas: Girls most likely to drop out (“Meninas [estão] em maior risco de evasão escolar”, em inglês). Com gráficos e mapas, a matéria mostrava as dificuldades das meninas hispânicas na educação. Diz Sommers:

Mas, enterrada lá no sexto parágrafo, tinha esta frase: “O único grupo com maior tendência [do que as garotas hispânicas] à evasão escolar é o dos meninos hispânicos.” Diziam, 31%.
Eu pensei: “Isso é tão curioso.” E telefonei para a repórter, Dada Kennedy, no New York Times, e perguntei a ela sobre a lógica de um artigo que estava dramatizando as dificuldades das meninas – hispânicas, neste caso – quando os meninos estavam em maior risco. E em vez de uma melhor explicação, ela disse que a American Association of University Women (“Associação Americana de Mulheres Universitárias”, em inglês) tinha feito um estudo chamado “Latinas na escola” e ela estava apenas escrevendo sobre aquilo. E ela tinha certeza de que eventualmente haveria um estudo sobre meninos hispânicos e haveria um artigo.
Bem, alguns anos se passaram e nenhum artigo assim se “materializou”. E o que eu penso é que não existe uma “Associação Americana de Homens Universitários”, que produzisse um estudo sobre latinos na escola – isso não vai acontecer.

Observe bem você, homem ou mulher, pai, mãe, irmão, irmã, que é recém-chegado nessa discussão, quando há pessoas nela há pelo menos um século. Você que ingenuamente pensa que basta expor certos dados, reflexões, ponderações, problemas sérios que você vê. Que as pessoas vão parar e pensar: “É, isso é errado, tem injustiça aí, não é bobagem, tem repercussões!” Pare por um momento, até pelo melhor interesse do seu bem-estar psíquico e social, e considere os seguintes grifos em sequência:

  1. “As meninas estão em mais risco”.
  2. Exceto, claro, se considerássemos os meninos.
  3. Isso (considerar também o que acontece com os meninos) não vai acontecer.

Você vai ver esses mesmos 3 pontos em inúmeras, bibliotecas cheias de matérias, artigos, trabalhos científicos, livros, palestras, disciplinas universitárias inteiras, políticas públicas, campanhas eleitorais. E novelas, filmes… Pois é. E você vai, inevitavelmente, se sentir sozinho nisso, vai parecer que as pessoas simplesmente não veem o que você vê. E mais estranho ainda, você verá realizada uma expressão das nossas avós no Brasil:

Não sei, não quero saber e tenho raiva de quem sabe.

Você, se ainda não viu, verá que 1) há uma grande “cultura popular” implantada, compartilhada por pessoas comuns, 2) grupos organizados de pressão política e econômica (associações, ONGs, ONU et cetera), 3) imprensa, 4) intelectuais/acadêmicos, 5) políticos e políticas públicas vigentes que irão reagir agressivamente sempre que alguém falar de “ver também o que acontece com os meninos, com os homens, com pais, com homens no trabalho” et cetera.

Pessoas mais à esquerda ou à direita no espectro político vão reagir mal, com argumentos em parte semelhantes, em parte diferentes.

Hoje mesmo eu fiz uma observação sobre uma matéria jornalística compartilhada com um “coraçãozinho” no Facebook. A reação adversa veio lá pelo 7º e 8º comentários.

Alguém disse:

Só passa pela humilhação quem se dispõe a aceitá-la, se o cara não aprende isso é problema dele, vida que segue.

Outro:

Mano, na moral, essa página tem mais mimimi que as feministas…

Não é “mimimi” para quem passou, ou conhece quem tenha passado, por uma condenação sem provas como espancador, estuprador (inclusive dos próprios filhos) no Judiciário, sendo inocente. Para essas pessoas, todos os aspectos da misandria na cultura e nas instituições importam. Afinal, ser pressuposto estuprador ou criminoso importa muito a quem vislumbre a proximidade de uma condenação injusta por estupro ou outro crime violento, não é?

Só uma das pessoas nesta foto acaba de ser chamado de estuprador sem ter estuprado. E você sabe quem foi.

Mas aqueles comentários têm lá sua razão e motivo, como vou opinar ao falar de “objetificação” no artigo 2 desta série.

Mas por que esse conflito de percepções sobre os mesmos fatos? Afinal, não se diz, popularmente, que “contra fatos não há argumentos”?

Aliás, que ditado enganado, esse acima. As pessoas são capazes de ver – e mais ainda apresentar, descrever, relatar – exatamente os mesmos fatos não notando (e/ou suprimindo, ao descrevê-los) parte deles; “vendo-os” (entendendo) e reagindo de diferentes formas; com emoções diferentes; com indiferença.

Aqui, alguns poderiam perguntar: “Mas com tanta coisa tão crucial, por que você por vezes fala de coisas pequenas? É claro que parece mimimi.” Por 3 motivos: O primeiro eu estou explicando aqui: Algumas coisas parecem mimimi a uns, não a outros – por alguma razão. Segundo, como se pode ver, eu sou do tipo de pessoa observadora, tanto de grandes cenários, quanto de detalhes. Terceiro, porque existe um só item relacionado a misandria e ginocentrismo que é alvo do AVFM, a grande prioridade. Um só. Mas isso é assunto para a parte 2.

Voltando ao “porquê”, muita gente vai prover, ou até mesmo impor agressivamente, explicações e/ou justificações. A origem disso seria a direita, a esquerda, o marxismo, a malignidade e egoísmo das mulheres, a Biologia, o machismo, o patriarcado, o feminismo.

O Dr. Warren Farrell (autor de “Por que os homens são como são”, “Por que os homens ganham mais dinheiro”, “O mito do poder Masculino” e “A crise dos meninos”) oferece a seguinte explicação, ainda tomando a crise educacional dos meninos como referência:

Pense em como ouvimos sobre um policial que deu um tiro em um menino negro. Nós, com razão, protestamos: “As vidas dos negros importam”. Mas ninguém sequer pensa em dizer: “As vidas dos meninos importam.”
O “menino” em “menino negro” era invisível, também.
A parte “menino” do “menino negro” não importa porque, historicamente, temos sido dependentes dos meninos morrerem a fim de que nós sobrevivêssemos. Nós os subornamos chamando-os de heróis. Dizendo-lhes que eles terão glória se eles morrerem por nós.
Então, nosso primeiro problema é: Se a nossa sobrevivência tem dependido da disponibilidade dos nossos filhos para morrer, ser sensíveis à morte deles compete com o nosso instinto de sobrevivência.
Nós não podemos chegar a lugar algum, em termos de enxergar a evidência para a crise dos meninos, a não ser que tiremos esta “cortina” primeiro.

Conclusão da parte 1

Nós não criamos e mantemos civilizações ensinando os homens a cuidar de si próprios. Pelo contrário, civilizações foram erguidas sobre a descartabilidade masculina. Menos ainda ensinando as pessoas a terem essa empatia toda com meninos e homens. E ainda menos, ensinando homens a defenderem meninos, e principalmente outros homens, nestes aspectos. Expressões como “discriminações contra homens”, “liberação de homens”, “direitos dos homens”, “sofrimento masculino”, “homens vítimas de” são capazes de despertar raiva, rejeição e vergonha.

Ora, a espécie humana só surgiu porque nossos antepassados machos primatas resolveram investir em proteção e provimento das fêmeas e filhotes. É por isso que eu costumo dizer que, antes de sermos humanos, já éramos pais e maridos. Só somos seres humanos porque fomos pais e maridos. Não é significativo admirar que, se você diz “as mulheres também são seres humanos” (parte de velho slogan feminista), normalmente as pessoas concordem e apoiem, mas se você diz “os homens também são seres humanos”, isso soe tão revoltante para tantos? Por isso o próprio Warren Farrell, que pesquisou, falou e sofreu reações por falar sobre a vida dos homens em sociedade, disse que “os homens não são seres humanos, eles são fazeres humanos.” Talvez não seja só cultura.

Até mesmo criticar e/ou ser contra a ideologia feminista é mais aceitável do que começar a falar em defesa de homens como grupo humano (sim, antifeministas e ativistas de direitos dos homens não são a mesma coisa). Especialmente se as pessoas identificam isso como atenção a detalhes, minúcias, de preconceitos contra meninos e homens. E muitos vão achar mais “minucioso, fútil, fresco”, se tratando de homens. Parte dessas pessoas é aversiva a conversa “problematizadora” típica de “estudos de gênero” feminista. Mas, sabemos também como se torna subitamente “importante” falar-se dos mesmos fatos se forem relativos a meninas e mulheres. O homem caído, o homem “chorando” (literal e/ou figurativamente) tende a despertar raiva nas pessoas e nós temos que lidar com isso. Por isso muita gente, não só nós, tendemos a repetir aquela frase que feminista detesta: “E se fosse o contrário?”

Mas, isso tem mudado. Hoje, é mais difícil prever qual reação você vai encontrar ao falar desses assuntos. Alguns homens (e mulheres) vão reagir com identificação e até entusiasmo imediato. Vou começar a abordar isso a seguir, na parte 2, ao explicar o propósito do AVFM.

O que Farrell sugere é que o posicionamento mental de rejeição à menção de manifestações de misandria pode estar ligado ao próprio instinto de sobrevivência das pessoas, porque é um comportamento que nos fez sobreviver até aqui. Algo anterior ao socialismo, marxismo, liberalismo, conservadorismo e ao Partido dos Trabalhadores (PT). Da parte 3 em diante, vou falar de como este mesmo instinto de sobrevivência é fator determinante por trás da tal “ascensão mundial do fascismo” e na eleição de Jair Messias Bolsonaro para Presidente do Brasil. Isso também é cultural. E é também biológico.

Por enquanto, apenas perca um pouco da ingenuidade.

Como se vê, aqui termina o básico que eu tenho a dizer. A seguir, águas mais profundas.

Forte abraço.

Imagens: Mídias sociais de Jair Bolsonaro e Youtube.

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