Misandria na Psicologia – Parte 3: Coerção Reprodutiva

Essa é a terceira parte de uma série de quatro artigos escritos pelo psicólogo Tom Golden. Veja os outros artigos: Parte 1Parte 2 e Parte 4.

Artigo original aqui.

Tradução: Aurélio Jaguaribe.

 

Estava navegando pela internet quando me deparei com um texto sobre um estudo a respeito da “coerção reprodutiva”. Quando eu li, fiquei espantado com as estatísticas. O artigo dizia que 53% das mulheres pesquisadas já haviam sofrido violência em seus relacionamentos. “Uau”, eu pensei, “isso é mais que a metade das entrevistadas. É um número grande!”. Eu então li e reli várias outras estatísticas igualmente chocantes. Comecei a me perguntar como os pesquisadores haviam chegado a tais estatísticas alarmantes.

Estimulado meu interesse, comecei a procurar artigos sobre este estudo em particular. Havia muitos. Um da Newsweek, um da Science News Daily, um da Medical News Today, um da eScience News, um da LA Times, e assim por diante. Todos faziam afirmações parecidas a respeito do estudo, muitas vezes usando as mesmas estatísticas. Eu continuei buscando mais artigos, pensando que estatísticas tão altas como essas deveriam ter origem em algum fenômeno incomum. Gostaria de saber se sua amostra foi tendenciosa, de alguma forma. “Talvez”, pensei, “a forma como eles definiram os rumos da pesquisa tenha influenciado os números”. Finalmente, encontrei um texto do jornal da faculdade da pesquisadora principal. O Aggie era um jornal estudantil da Universidade da Califórnia em Davis. Esse texto trazia uma informação que os outros tinham omitido: a pesquisa havia sido feita com uma população carente de mulheres latinas e afroamericanas. O texto inclusive avisava que as informações não deveriam ser generalizadas: “As cinco clínicas pesquisadas estavam em bairros pobres, nos quais mulheres latinas e afro-americanas correspondiam a dois terços das entrevistadas. Os resultados devem ser aplicados em clínicas de saúde reprodutiva localizadas em bairros demograficamente pobres. Os pesquisadores não podem estimar se pesquisas realizadas em clínicas ginecológicas particulares produziriam os mesmos resultados”.

De repente, os resultados começaram a fazer sentido. Sabemos que os níveis socioeconômicos mais baixos tendem a apresentar níveis mais elevados de violência interpessoal. Um relatório do Departamento de Justiça mostra que as mulheres com níveis mais baixos de renda têm quase três vezes mais probabilidade de sofrer violência em relacionamentos do que aquelas com rendimentos mais elevados. Além disso, sabemos que as mulheres que vivem em moradias de aluguel são três vezes mais propensas a experimentar violência interpessoal que aquelas que possuem casa própria. Dessa forma, essa amostra de mulheres pobres aumentou drasticamente a probabilidade de se encontrar taxas mais elevadas de violência interpessoal.

bias-viol

Então comecei a me perguntar: por que todos os artigos que milhões de pessoas haviam lido perderam essas informações importantes sobre a amostra? Obviamente, os jornalistas não estavam fazendo sua lição de casa. Consequentemente, eles estavam propagando informações falsas.

Eu precisava de uma cópia do estudo. Encontrei-o online no Contraception, o jornal que publicou o artigo original. Depois de lê-lo, fiquei chocado. Ele não continha nenhuma menção ao contexto socioeconômico da amostra. Em outras palavras, nenhuma menção ao fato de as mulheres pesquisadas serem ricas ou pobres. Eu já estava acreditando que os jornalistas, preguiçosos, não haviam sequer tomado tempo para ler o relatório original do estudo… Mas agora eu percebia que algo completamente diferente estava acontecendo. As informações foram omitidas do relatório original. Nada menos que sete pesquisadores o haviam escrito, o que significa que ao menos sete pessoas o haviam lido e editado. Como poderiam todos os sete deixar de fora algo tão básico como a descrição de uma amostra?

Decidi questionar a pesquisadora-chefe, Dra. Elizabeth Miller, sobre isso. Teria o Aggie cometido um erro? Ela respondeu muito agradavelmente, alguns dias depois, pedindo desculpas pelo atraso. Sim, disse ela, o Aggie estava certo; a amostra incluía, em sua maioria, mulheres pobres hispânicas e afro-americanas. Eu escrevi de volta, muito rapidamente, perguntando por que o artigo no Contraception havia omitido essa informação. Ela não se preocupava com o fato de os jornalistas e os meios de comunicação estarem dando a entender que o estudo poderia ser aplicado à população em geral? Ela me escreveu de volta uma vez, mas nunca me ofereceu respostas a essas perguntas.

Nesse ponto, entrei em contato com Gabrielle Grow, que tinha escrito o artigo do Aggie, parabenizando-a pelo trabalho bem feito. Perguntei-lhe como havia descoberto que a amostra era composta por mulheres pobres. Ela me disse que essa foi apenas uma das perguntas que ela fizera aos pesquisadores durante uma entrevista. Escrevi de volta, parabenizando-a novamente, e expliquei que os jornalistas dos principais canais midiáticos nacionais haviam perdido aquela importante informação. Só ela havia feito a pergunta chave.

corec

 

“Embora nenhum dos coordenadores do Centro de Pesquisas e Apoio para Mulhes (WRRC) tenha encontrado esse tipo de abuso, a psicóloga conselheira C. Jezzie Fulmen disse que a  UC Davis tem vários recursos para ajudar as vítimas de abuso.”

“As cinco clínicas pesquisadas encontravam-se em áreas pobres, com mulheres latinas e afro-americanas compondo dois terços das entrevistadas. Os resultados devem ser aplicados em clínicas de saúde reprodutiva localizados em áreas demograficamente pobres. Os pesquisadores não podem estimar se pesquisas realizadas em cínicas ginecológicas particulares produziriam resultados similares.”

Mas por que, exatamente, jornalistas de grande renome não fizeram a mesma pergunta? Ainda não sabemos a resposta. Tudo o que sabemos é que os pesquisadores emitiram um comunicado de imprensa sobre suas descobertas e nunca mencionaram a amostra. Como resultado direto, não se menciona o fato (que eles observaram em seu próprio estudo) de que pessoas pobres apresentam taxas muito mais elevadas de violência interpessoal que as demais pessoas e que, portanto, a incidência parece muito maior quando confundida com a da população em geral. A pesquisa refere-se, em suma, somente às pessoas que vivem em bairros pobres. Aqui estão alguns pontos que o comunicado de imprensa (que é diferente do estudo original) apresentam:

1- Mulheres jovens e adolescentes muitas vezes enfrentam os esforços dos parceiros do sexo masculino para sabotar seu controle de natalidade, danificando preservativos e destruindo contraceptivos. Às vezes, esses homens recorrem à pressão emocional ou mesmo à coerção.

2- 53% das entrevistadas disseram ter sofrido violência física ou sexual por um parceiro íntimo.

Não é de admirar que os leitores tenham a impressão de que o estudo se aplica à população geral; porém, mesmo os pesquisadores admitiram, quando Grow lhes perguntou, que o estudo se aplica somente a populações carentes. Deve-se assumir que os pesquisadores omitiram essa importante informação não só em seu comunicado de imprensa, como também em suas entrevistas. Na verdade, eles apenas mencionaram que poderia ter desanimado os jornalistas tratar o estudo como sendo aplicado a homens e mulheres em geral.

Isso é óbvio quando você lê as manchetes e citações de vários artigos e notícias. Eis aui alguns exemplos:

 

Newsweek
“‘O que observamos é que, dentro do amplo quadro de violência contra mulheres e meninas, essa é uma outra forma de se manter o controle’, afirma Miller. ‘O homem está tirando da mulher o poder de decidir ter ou não um filho’.”

 

LA Times
“A coerção reprodutiva é uma forma de gravidez não desejada. As mulheres jovens ainda relatam que seus namorados sabotam seu controle de natalidade para engrvidá-las.”

 

Science Daily
“Mais da metade das entrevistadas – 53% – disseram ter experimentado violência física ou sexual de um parceiro íntimo.”
“O estudo também destaca a importância de se trabalhar com os jovens para evitar tanto a violência contra as parceiras quanto a coerção em torno da gravidez.”

 

Physorg
“Cerca de uma em cada cinco mulheres jovens disseram ter experimentado gravidez por coerção.”

 

eScience News
“Mulheres jovens e adolescentes muitas vezes enfrentam os esforços de parceiros do sexo masculino para sabotar o controle de natalidade ou coagir a gravidez – incluindo preservativos danificados e destruição de contraceptivos”.

 

Insciences
“‘Este estudo destaca um fenômeno desconhecido, no qual parceiros do sexo masculino procuram ativamente promover a gravidez contra a vontade de suas parceiras’, disse a principal autora do estudo, Elizabeth Miller.”

 

Medical News Today
Manchete: “Violência física ou sexual muitas vezes acompanha coerção reprodutiva”.

 

End Abuse.Org
“Descobriu-se que as mulheres jovens muitas vezes enfrentam os esforços de parceiros do sexo masculino para sabotar seu controle de natalidade, que coagem-nas ou pressionam-nas para engravidar – inclusive danificando preservativos e destruindo contraceptivos”.

 

O que todos esses estudos têm em comum? Todos eles soam como se o estudo em questão se aplicasse à população geral de homens e mulheres, meninos e meninas. A circulação da Newsweek é de 2,7 milhões, de modo que essa notícia só deu origem a muitas pessoas tendo a impressão de que homens em geral coagem mulheres em geral a engravidar.

O primeiro nível a ser influenciado é o do própria área de pesquisadores. Muitos especialistas certamente leram o Contraception. O próximo nível é o da comunicação em massa, na qual os jornalistas deturpam a pesquisa original. Mas o terceiro nível, o dos artigos de blogs, vão ainda mais longe. Aqui estão apenas alguns títulos do que acontece na blogsfera. Eis um título em um blog:

 

Loucura: homens são os que mais frequentemente realizam a façanha de furar camisinhas

jezebel picture

 

Esse é o resultado de se omitir as características da amostra de uma pesquisa ao publicá-la em mídia nacional, fazendo crer que ela se aplica a homens em geral; uma vez que isso acontece, os usuários de blogs tomam essas informações como verdade e as exageram ainda mais. Aqui está outro exemplo:

 

“Há um novo estudo que discute uma forma horrivelmente comum, mas raramente discutida, de violência íntima: a coerção reprodutiva”.

 

Assim, nós saímos do campo das mulheres pobres negras e hispânicas vítimas de coerção por seus parceiros sexuais para fazer pronunciamentos generalizantes sobre a coerção reprodutiva ser “horrivelmente comum”. Está certo. Esses loucos maníacos por furar camisinhas fazem parte de um padrão horrivelmente comum!

Não é preciso muita imaginação para saber qual será o próximo assunto à mesa do jantar. Depois da sobremesa, a filha anuncia que os homens estão furando camisinhas para forçar mulheres a engravidarem. Mamãe diz que isso não pode ser verdade, a filha saca o artigo do Newsweek e depois mostra o blog que ela acompanha. Papai ainda não se impressiona, até que ela acessa um link para o estudo, que comprova parcialmente sua falsa alegação. Pronto, agora todos na mesa estão convencidos de que todos os homens estão coagindo as mulheres a ficarem grávidas.

É assim que começam os “memes”. Um artigo de “pesquisa” conta metade da história; os jornalistas não só interpretam da maneira errada como também transmitem sua má interpretação para milhões de pessoas. Isso é exatamente o que aconteceu com a investigação sobre a violência doméstica. Primeiro, investigadoras feministas contaram metade da história – que as mulheres eram vítimas de violência doméstica e os homens eram agressores. Jornalistas simplesmente transmitiram essa história. Por fim, milhões de pessoas – homens e mulheres – passam a acreditar que somente as mulheres são vítimas de violência doméstica e somente os homens são agressores.

O método científico é muito claro. Você formula uma hipótese e procura uma forma de testá-la. Você deve, então, analisar cuidadosamente os dados obtidos nos testes, analisando tanto os dados que confirmam sua hipótese quanto os que entram em conflito com ela. Uma ou outra vez, no entanto, pesquisadores feministas têm simplesmente ignorado os dados que entram em conflito com suas hipóteses ideologicamente influenciadas (vítimas do sexo masculino) e focado exclusivamente naqueles que as confirmam (vítimas do sexo feminino). Neste estudo, os investigadores sequer entrevistaram os homens acusados para ouvir seu lado da história, nem perguntaram às mulheres que os acusaram se também já haviam recorrido a alguma forma de coerção. Em vez disso, os pesquisadores escolheram apenas questões que eram mais propensas a dar-lhes respostas “aceitáveis” e as fizeram apenas àqueles que eram suscetíveis a lhes fornecerem essas respostas.

Neste caso, ainda, os pesquisadores “esqueceram” de lembrar aos jornalistas que sua amostra era muito limitada. Como no primeiro estudo sobre violência entre adolescentes, um comunicado de imprensa dirigiu a interpretação dos dados. Poderia ter sido um erro inocente? Se assim fosse, eu esperaria que Miller respondesse às minhas perguntas sobre a amostra. Mas ela não o fez. Pode-se facilmente concluir que o erro teve motivações políticas, não foi nada “inocente”.

Talvez nunca saibamos. Mas eu sei qual é o meu palpite. Qual é o seu?

 

___________________________________________________________________________________________
Notas:

1- Muito obrigado a Typhonblue por informar-me que o CDC tem estatísticas sobre coerção reprodutiva. E adivinhem! Seus dados indicam que os homens são mais propensos a serem vítimas que as mulheres. Dos homens, 8,7% já foram vítimas e, das mulheres, 4,8%. Esse valor exclui o conflito sobre o uso do preservativo, que pode ser devido ao incômodo e não necessariamente ao controle reprodutivo.

http://www.cdc.gov/violenceprevention/pdf/nisvs_report2010-a.pdf

2- Eu indaguei sobre as questões apresentadas neste artigo aos editores da revista Contraception. Sua resposta? “Sinto muito, não podemos responder. Esse artigo foi tratado pelo editor anterior”. Praticamente, uma recusa em assumir qualquer responsabilidade.

3- Um artigo da 2013 USA Today nos dá uma ideia de como as pessoas têm tratado essas informações. Eles se abstêm de informar que os homens são vítimas de coerção reprodutiva com mais frequência que as mulheres, de dizer aos homens vítimas desse tipo de abuso que procurem ajuda em linhas diretas da National Domestic Violence Hotlines e ainda definem coerção reprodutiva da seguinte forma: “coerção reprodutiva ocorre sempre que uma pessoa tenta impedir uma mulher de fazer suas próprias escolhas sobre a gravidez”, ignorando assim os homens que são obrigados a ser pais contra a vontade e as mulheres perpetradoras.

1 thought on “Misandria na Psicologia – Parte 3: Coerção Reprodutiva”

  1. Tiago M. Peixoto

    Esta série de artigos é incrível, raciocínio do autor é bem ousado! Espero poder contribuir com artigos na área mais psi em breve.

Leave a Comment

Your email address will not be published. Required fields are marked *