Quebrando o pêndulo: Tradcons vs. Feministas

Artigo originalmente postado aqui em 26 de março de 2014.
Tradução: Aldir Gracindo.

 

O Pêndulo que é e o pêndulo que não é

A Garota Moderna com o batom e rabo de cavalo é tão rebelde contra a mulher dos direitos das mulheres dos anos 80, com seus colarinhos duros e estrita abstinência alcoólica, quanto a última se rebelava contra a dama vitoriana dos os tons languidos de valsa no álbum cheio de citações de Byron; ou como a última, novamente, era rebelde contra uma mãe puritana para quem a valsa era uma orgia selvagem e Byron o Bolchevique da sua era. Rastreie mesmo a mãe puritana através da história e ela representa uma rebelião contra a lassidão cavalheiresca da igreja inglesa, que era antes uma rebelde contra a civilização católica, que tinha sido uma rebelde contra a civilização pagã. Ninguém além de um lunático poderia pretender que essas coisas foram um progresso; pois elas obviamente vão, primeiro para um lado, depois para o outro.

Mas qualquer que esteja certo, uma das coisas é certamente errada; e esse é o hábito moderno de olhar para essas coisas, somente da perspectiva moderna.

–GK Chesterton, “St. Thomas Aquinas – The Dumb Ox,” 1933.

À luz da “invenção” do of Feminismo 2.0 by Tammy Bruce, que é claramente um chamado ao que nós no AVfM às vezes chamamos de mentalidade “tradcon” (Tradicionalista conservadora”), eu penso que deve ser hora de explicar por que muitos de nós no Movimento pelos Direitos Humanos dos Homens vemos o “tradicionalismo” como tão problemático quanto o feminismo. Deve também ajudar a explicar por que nós não acreditamos que o MDHM seja uma “volta do pêndulo”. Através das décadas tem se popularizado dizer que “o feminismo foi um pouco longe demais e agora o pêndulo está voltando”, e alguns são tentados a ver o Movimento por Direitos dos Homens como parte da “volta do pêndulo” contra os “extremos” do “movimento das mulheres”. Não é, mas explicar porque não é requer uma dose de exploração. Neste ensaio eu irei tentar abordar as duas percepções errôneas de  uma vez.

Há uma “tradição” que surgiu no mundo moderno e falante de inglês, que é mais ou menos assim: um homem se casa com uma mulher, ele fará toda a provisão, ela fará todo o cuidado (dele, assim como dos filhos(as)) e ambos funcionarão como uma “família tradicional”: Papai+Mamãe+Crianças como uma unidade singular  cingida contra o mundo.

Essa “tradição” é um inovação relativamente moderna que saiu principalmente da era pós- 2a Guerra Mundial e é principalmente um produto do governo que planejou ajudar os soldados retornando da Guerra a encontrar seu caminho  de “volta” ao que os planejadores governamentais definiam como “vida normal” – a despeito de isso não ter sido realmente “normal” para a maior parte das pessoas durante a maior parte da História. Governos no mundo industrializado investiram muito dinheiro criando comunidades planejadas para soldados que voltavam da guerra, de forma que cada homem pudesse ter seu “próprio castelo” como lar, dentro do qual ele colocaria sua esposa e 2,5 crianças. O planejamento governamental pós-guerra foi essencial para fazer tudo isso acontecer.

Assim em abstrato, especialmente do ponto de vista de alguém em 1945, isso provavelmente pareceria um bom plano. Como muitos planos visionários semelhantes, porém, não funcionou tão bem assim. Nós sabemos o que aconteceu: Os homens muitas vezes se sentiam isolados e sob enorme pressão de serem os provedores, e eles e suas famílias se arruinavam diante de qualquer problema maior que atingisse as carreiras dos homens. Neste meio tempo, esposas descontentes se viram entediadas e presas, o que resultou, entre outras coisas, nas Betty Friedans. Mas não foram só as feministas; as crianças daquela era se rebelavam contra a conformidade artificial, nos dando a geração beat, os hippies, uma enorme quantidade de boa música e um grande caos social no final dos anos 60.

Avancemos até os dias de hoje e nós temos muitos “tradicionalistas conservadores” que, olhando para trás pela história parecem restringir sua visão da “família tradicional” àquela visão conformista dos anos 50 sobre como as coisas “deveriam ser”.

Esses “tradicionalistas” também, ocasionalmente, olham mais atrás na história para ver as famílias que funcionaram dessa forma “nuclear”, mas não conseguem notar que estão olhando primeiramente para os advogados, médicos, contadores, aristocratas de classe alta e média e outras profissões de ganhos estáveis e altos, e presumem que essas famílias eram a norma, em vez do que realmente eram: uma minúscula minoria. Os homens que eram capazes de dizer com orgulho “minha esposa não precisa trabalhar” sempre foram uma minoria – e mesmo eles normalmente tinham dinheiro para bancar uma babá ou uma  ama-de-leite para ajudar “mãe” com seus encargos.

Mas os olhos modernos muitas vezes querem ter isso como uma visão de como, por toda a História, a “família” significou Papai+Mamãe+seus filhos investidos como uma base unida contra o mundo, sem qualquer outro sistema de apoio além disso.

Em outras palavras, as pessoas que nós chamamos “tradcons” frequentemente se agarram a uma “tradição” que é, majoritariamente, uma invenção recente. Por praticamente toda a História, até e incluindo muito da realidade atual, “a família” ou mesmo “a família nuclear” significou uma coisa muito diferente: Normalmente isso foi pai+mãe+crianças como parte de uma família estendida, com avós e avôs e tios e tias e/ou primos frequentemente vivendo sob um teto, ou em proximidade muito grande uns dos outros, num ambiente de apoio mútuo. “A família” eram todas essas pessoas, normalmente dedicadas a ajudar uns aos outros, muitas vezes formando alianças com outras famílias para seu benefício mútuo. Mesmo em sociedades quando a norma foi os mais jovens se mudarem, eles normalmente se mudavam em grupos que se apoiavam mutuamente a apenas um dia ou dois de distância do resto da família estendida, a quem eles muitas vezes voltavam em tempos difíceis. Mesmo em sociedades nas quais os homens jovens saíam pelo mundo, eles o faziam em grupos de apoio mútuo, não sozinhos contra o mundo todo.

A ideia ancestral de “família” não era “nós nos juntamos e jantamos aos domingos e damos apoio emocional uns aos outros”. Era muito mais uma questão de “nós trabalhamos juntos durante o dia, preparamos nossas refeições juntos, vivemos em uma casa ou em casas adjacentes, nos defendemos juntos de inimigos, quando um de nós está doente nós todos nos juntamos para ajudar. Dois dos nossos jovens estão se envolvendo? Nós podemos ter que construir uma casa para eles, porque não vamos conseguir fazê-los caber aqui agora, então vamos dar a eles um novo lugar mais para lá naquele morro.”

Pesquise outras culturas e você vai descobrir que essa visão de “família” ainda é a norma em grande parte do mundo fora da cultura anglo-americana. Filhos adultos vivendo junto, ou perto, dos membros da família estendida não coisa nem um pouco incomum. Também foi assim na maior parte do mundo anglófono para a maior parte das pessoas fora das classes mais altas por séculos. De fato, em muitas eras, um homem estar ainda morando com seus pais aos trinta anos não seria considerado “dificuldade para começar”, seria considerado normal, coisa cotidiana. Se ele tivesse uma esposa, ela provavelmente viveria lá com ele, ou ele poderia se mudar e viver com os pais dela. Ou, com apoio da família ou amigos, o jovem casal poderia se virar “sozinho”, mas isso seria num ambiente onde eles estivessem comunidades estabelecidas com outras pessoas com afinidades de pensamento, e muitas vezes também com a ajuda de outros familiares.

Nós muitas vezes consideramos esses arranjos como estranhos e doentios, quando durante a maior parte da História e do mundo foi simplesmente o normal.

Pode-se dizer que muito da mudança começou nos tempos da revolução industrial, como Paul Elam escreveu em “The Dynamics of Male Fear” (que brevemente será traduzido e publicado na filial AVfM BR). Essa foi a época histórica do século XIX quando os homens começaram a se distanciar durante a maior parte do dia da família e filhos. Antes disso, em praticamente em todas as culturas, “o papai” era tão parte da vida das crianças quanto “a mamãe”, ou ao menos a maior parte do tempo, e quando criança, a sua “família” normalmente significava mais do que esses dois adultos. A família estendida era a verdadeira “família tradicional”. Ou mesmo se você fizesse parte dos colonos numa nova área, a família e amigos próximos estariam lá para dar apoio.

A visão da “família tradicional” começou a mudar quando nós começamos a enviar homens para dentro de minas de carvão, plataformas petrolíferas e fábricas por 12 horas diárias. E isso só aumentou no período pós Segunda Guerra Mundial quando governantes, tentando se certificar que os soldados retornando tivessem alguma coisa para fazer, cimentaram isso com a noção de que “o lar de um homem é seu castelo” e cada homem deveria ter seu próprio castelo, além dos necessários mulher e filhos dentro dele, separados e investidos contra o mundo (Q.E.D.), possivelmente a centenas ou mesmo milhares de quilômetros do resto das suas famílias ou qualquer coisa que eles entendessem como a comunidade na qual cresceram.

O homem como único provedor, a mulher como única cuidadora: é um arranjo inovador e, pode-se argumentar, bizarro, que não reflete a realidade da maior parte da história humana.

E a propósito, se você é um tradicionalista religioso, você não vai encontrar o arranjo “um homem deve ser 100% responsável por prover para uma mulher que será 100% responsável por criar as crianças”, descrito como norma, em nenhum lugar na Bíblia, também. Exceto talvez por Adão e Eva, veja todas as histórias de família pela Bíblia inteira, Novo ou Velho Testamento, e o que você vê, quase invariavelmente, é o que eu acabei de descrever: famílias estendidas. Mesmo os ricos, abastados patriarcas invariavelmente tinham não apenas sua esposa, como seus filhos e filhas, e muitas vezes as esposas e maridos desses, vivendo com ele.

E a noção de que as mulheres não possuíssem propriedade, ou trabalhem em nada além de cuidar de crianças? Aqui está um ótimo trecho de Provérbios, Capítulo 31:

10 Mulher virtuosa, quem a achará? O seu valor muito excede ao de rubis.
11 O coração do seu marido está nela confiado; assim ele não necessitará de despojo.
12 Ela só lhe faz bem, e não mal, todos os dias da sua vida.
13 Busca lã e linho, e trabalha de boa vontade com suas mãos.
14 Como o navio mercante, ela traz de longe o seu pão.
15 Levanta-se, mesmo à noite, para dar de comer aos da casa, e distribuir a tarefa das servas.
16 Examina uma propriedade e adquire-a; planta uma vinha com o fruto de suas mãos.
17 Cinge os seus lombos de força, e fortalece os seus braços.
18 Vê que é boa a sua mercadoria; e a sua lâmpada não se apaga de noite.
Estende as suas mãos ao fuso, e suas mãos pegam na roca.
19 Abre a sua mão ao pobre, e estende as suas mãos ao necessitado.

24 Faz panos de linho fino e vende-os, e entrega cintos aos mercadores.
25 A força e a honra são seu vestido, e se alegrará com o dia futuro.
26 Abre a sua boca com sabedoria, e a lei da beneficência está na sua língua.
27 Está atenta ao andamento da casa, e não come o pão da preguiça.

O que? Obrigações [de trabalhar como provedora, etc.] para mulheres, com admiração por mulheres que trabalham e proveem? Que tipo de loucura é essa?

Esse é um livro que uma estimativa mínima dada de 2.200 anos, possivelmente algo como 3.000 anos. Uma mulher comprando campos e plantando-os? Trazendo comida de longe? Fazendo coisas para vender pela sua família? Fortalecendo seus braços e trabalhando voluntariamente com suas mãos para ajudar sua família? Você não precisa ser religioso em nada para reconhecer o significado histórico disso. A noção de que mulheres apenas fazem bebês e mantém a casa limpa é um conto de fadas, e um bem moderno, por sinal. Mulheres sempre possuíram propriedade, sempre tiveram trabalhos fora de casa. Que forma isso teve variou de cultura para cultura, era para era e indivíduo para indivíduo, mas isso não é nada do que feministas, ou os “socialistas” modernos inventaram.

Feministas de hoje muitas vezes se referem à inovação moderna do “homem como único provedor”, obscenamente, como “opressão contra as mulheres” quando por qualquer parâmetro são a pessoa com o maior fardo e responsabilidade em tais arranjos é aquele incumbido solitariamente de garantir o pão. Isso é parte do que leva tantos homens a problemas com bebida, discórdia matrimonial e suicídio. Mas os “tradcons” dos tempos modernos tendem a ver isso como “a forma como as coisas devem ser”, porque isso é o que eles percebem como de alguma forma ser do interesse das mulheres – não importa o quanto isso destrua o corpo e a alma de um homem. Eles vendem o autossacrifício como se fosse “ser um homem de verdade”, em vez do que realmente é: desumanização e redução de um homem a nada além de uma utilidade a ser jogada fora em caso de falha.

E ninguém nunca parece pensar: “espera um pouco, quando foi que tudo isso se tornou a norma, para começo de conversa?”

Isso certamente não é a forma como a maioria das pessoas, em qualquer tempo, viveu. Certamente não na Bíblia ou quase quaisquer tradições das maiores religiões. Então, por que nós pensamos que isso é uma “tradição” agora, algo para o que nós deveríamos “voltar”? Como você “volta” para uma coisa que nunca foi a norma, para começar? Além disso, por que você haveria de querer isso?

Isso é para dizer que nenhum homem deveria jamais aceitar o papel de ganhar sozinho o pão. Mas num ambiente onde tudo pelo que ele trabalhou pode ser arrancado dele em um piscar de olho, por que motivo, na face da Terra, ele faria isso?

E mais, nós tendemos a pensar no “movimento das mulheres” como algo que surgiu do nada 50 anos atrás. Não. Ele surgiu primeiro entre as classes média e alta lá anos 1.800, num tempo em que a “classe média” simplesmente significava “em algum lugar entre a aristocracia e fosso gigantesco dos pobres”. Por classe média, no século XIX, se entenderia, de forma geral, como os talvez 5 a 10% da população; a enorme maioria das pessoas era mesmo pobre, vivendo juntos em cabanas ou casas no campo em famílias estendidas.

O feminismo moderno surgiu da “esquerda”, dos “novos liberais”, dos “progressistas”? Sim, surgiu. O tradicionalismo ginocêntrico surgiu daí? Não, não surgiu. Ele vem principalmente dos “conservadores”, que estão requentando uma tradição artificial que nunca foi a realidade da maioria da população, para começar, e tem pouca base histórica, bíblica ou evolutiva.

De volta ao “movimento das mulheres”

O “movimento das mulheres” (se é que pode ser chamado assim com propriedade, já que ele nunca representou todas as mulheres) sempre foi um produto das mulheres da classe média e alta que se sentiam restringidas pelas normas importas a elas pela sociedade, sem qualquer pensamento, exceto talvez raramente ou com desimportância, sobre os problemas dos papéis atribuídos aos homens. A mulher do século XIX resmungando que ela não podia ser uma advogada seria uma coisa ridícula para 99% dos homens, que dirá para as mulheres, que não tinham absolutamente nenhuma esperança de se tornar médicos, advogados ou banqueiros. A maioria das pessoas eram pais que começaram a se ocupar cuidando de crianças bem antes de chagar ao 20º aniversário, e faziam isso sob condições que hoje seriam consideradas de pobreza abjeta e desgraçada. As mulheres, como os homens, tinham vidas áridas e as queixas das sinhás branquinhas de classe média eram tão patéticas e irritantes para eles quanto são para qualquer cético bem informado hoje em dia – possivelmente até mais.

A noção do feminismo e antifeminismo como um “balançar de pêndulo” dos direitos dos homens versus os das mulheres é falso.  Houve um balançar de pêndulo durante o último século, ou dois, mas foi um pêndulo inteiramente ginocêntrico: que queixas das damas privilegiadas teremos hoje?

Você acha que eu estou brincando? Deixe-me repetir a citação de GK Chesterton com que eu abri este ensaio, e vou lembrar você que Chesterton escreveu isso nos anos 1930, 80 anos atrás:

A Garota Moderna com o batom e rabo de cavalo é tão rebelde contra a mulher dos direitos das mulheres dos anos 80, com seus colarinhos duros e estrita abstinência alcoólica, da mesma forma que a última se rebelava contra a dama vitoriana dos os tons languidos de valsa no álbum cheio de citações de Byron; ou como a última, novamente, era rebelde contra uma mãe puritana para quem a valsa era uma orgia selvagem e Byron o Bolchevique da sua era. Rastreie mesmo a mãe puritana através da história e ela representa uma rebelião contra a lassidão cavalheiresca da igreja inglesa, que era antes uma rebelde contra a civilização católica, que tinha sido uma rebelde contra a civilização pagã. Ninguém além de um lunático poderia pretender que essas coisas foram um progresso; pois elas obviamente vão, primeiro para um lado, depois para o outro.

Mas qualquer que esteja certo, uma coisa é certamente errada; e esse é o hábito moderno de olhar para essas coisas, somente da perspectiva moderna.

–GK Chesterton, “St. Thomas Aquinas – The Dumb Ox,” 1933.

Pare e leia novamente, contemplando a referência que ele faz à “mulher dos ‘direitos das mulheres’ dos anos 80” e apreenda que ele quer dizer década de 1880. Com poucas atualizações sobre as referências musicais e literárias, ele poderia ter escrito essas palavras em 2014 e dificilmente causaria espanto a alguém.

Esse é um pêndulo balançando, sim, mas não é um pêndulo entre “direitos das mulheres” e “direitos dos homens”. É um pendular entre uma forma das mulheres verem a si mesmas e outra forma das mulheres se verem, com os homens nas laterais, principalmente só observando a partida de tênis feminino intergeracional.

As assim chamadas mulheres “conservadoras” e “tradicionalistas” são muitas vezes contra o feminismo, mas o que elas parecem quase invariavelmente estar falando é sobre as mulheres reterem privilégios especiais, status especial e poder especial, exclusivo para mulheres. Feministas alegam estar se rebelando contra isso, mas no discurso dobre “opressão”, nunca estão olhando para o papel das mulheres na criação e manutenção do status quo, nunca reconhecendo os privilégios especiais que as mulheres sempre desfrutaram, e nunca reconhecendo que quando querem “direitos”, quase nunca querem as responsabilidades que os acompanham, deixando a responsabilidade pelo que quer que haja de errado para os homens (ou melhor, o “Patriarcado”, que é tão real e ameaçador quanto o Poderoso Xenu ou o Monstro Espaguete Voador).

Então sim, é um pêndulo, e um pêndulo bem velho. Esse pêndulo balança de um lado para o outro, de um lado para o outro, década após década: de que forma você vai pôr os interesses das mulheres no centro das nossas preocupações? Do jeito “tradicional” ou do jeito “novo”?

O que nem mesmo está nesse pêndulo é qualquer preocupação pelo bem-estar dos homens e meninos, exceto em como isso afeta as mulheres.

Isso, senhoras e senhores, é ginocentrismo. É colocar as preocupações pela felicidade, bem-estar, segurança, necessidades e descontentamentos das mulheres no centro das nossas preocupações. E os homens são importantes para aquelas pegas nesse pendular – mas apenas em como os homens vão servir aos interesses das mulheres.

Um desvio na questão dos “progressistas” x “conservadores”

Porque as questões sobre as quais nós falamos são tantas vezes falsamente retratadas como “esquerda” versus “direita” (outra forma de pêndulo que em que a maioria de nós não tem interesse, aliás), é provavelmente melhor falar sobre o que “progressista” ou “liberal” realmente significa.

Entendido propriamente, “liberal” ou “progressista” significa mente aberta, disposto a mudar, e pragmático. Propriamente entendido, “conservador” significa resistente a mudanças, prudente, moderado. Se você duvida, confira no dicionário. Embora o dicionário não reflita necessariamente o uso popular, ele nos aponta o que as ideias originárias da palavra normalmente significam.

Assim, entendida a definição do dicionário, tanto o progressismo quanto o conservadorismo podem ser considerados coisas boas. Mas na realidade, ao longo da maior parte da história, assim chamados “progressistas” agem, querendo ou não, de formas que muitas vezes parecem boas, mas pioram as coisas, e nós também temos os chamados “conservadores” que tentam conservar coisas que não fazem sentido, ou persistem em tradições que eles pensam que são ancestrais, mas não são mais velhas que uma ou duas gerações.

Se você não acredita em mim, eis mais uma vez Chesterton, desta vez escrevendo 90 anos atrás:

Todo o mundo moderno se dividiu em conservadores e progressistas. O negócio dos progressistas é seguir cometendo erros. O dos conservadores é evitar que os erros sejam corrigidos. Mesmo quando o revolucionário possa ele próprio se arrepender de sua revolução, o tradicionalista já está defendo-a como parte da sua tradição. Assim, nós temos dois grandes tipos – a pessoa avançada que nos empurra para a ruína e a pessoa retrospectiva que admira as ruínas. Ele as admira especialmente à luz da lua, para não dizer sob um raio da lua. Cada nova tolice do progressista ou golpista se torna instantaneamente uma lenda ou antiguidade imemorial para o pretensioso. Isso é chamado de equilíbrio, ou contrapesos mútuos, em nossa Constituição.

—G.K. Chesterton, “The Blunders of Our Parties,” 1924 (conforme reimpresso em The Collected Works of G.K. Chesterton, Volume 33.)

Diga-me que isso não soa assustadoramente semelhante à política atual na maior parte do mundo anglófono. E embora Chesterton esteja falando aqui da Constituição Britânica, isso se aplica muito bem aos EUA e outros países também. Mesmo os tradicionalistas “constitucionais” nos EUA estão frequentemente falando de uma “tradição” de interpretação constitucional que está longe de ser tão profunda ou ancestral quanto eles pensam que é; eles são, por exemplo, muito afeitos a citar os escritos de James Madison nos Federalist Papers, mas eles nunca citam nada dos Anti-Federalist Papers, que saíam de forma concorrente com os documentos federalistas em oposição a Madison e outros escritores federalistas, apontando coisas na nova Constituição que eles não gostavam e predizendo coisas que Madison e os Federalistas negavam que viessem a acontecer – mas logo aconteceram. Os tradicionalistas constitucionais modernos que gostam de citar Madison também, normalmente, não examinam o fato de que quando se tornou presidente, Madison governou de formas muitas vezes diretamente opostas ao que ele tinha escrito nos Federalist Papers e quando Madison foi questionado nisso, ele disse que aqueles debates que o levaram à ratificação da Constituição não tinham lugar na interpretação constitucional. Portanto, mesmo esses americanos “constitucionalistas” frequentemente repisam uma tradição inventada que nunca descreveu a realidade, em primeiro lugar. Madison era um pontífice de letras do século XVIII e nada mais.

Veja novamente as palavras de Chesterton: os progressistas frequentemente nos empurram para a ruína e os conservadores, enquanto isso, fazem o que quer que podem para evitar que nós desfaçamos a ruína, admirando as ruínas, como se elas fossem uma tradição antiquíssima provada.

E as damas tradicionalistas, como Tammy Bruce, ou sua progenitora Phyllis Schlafly, querem que nós “voltemos” a uma tradição de poder feminino e sexualidade que nunca foi real, e aquelas buscando a “liberação” das mulheres não têm quaisquer ideias específicas do que eles querem ser liberadas, exceto, aparentemente, da responsabilidade pelas próprias escolhas.

A exemplo de como esse pêndulo ginocêntrico continua indo de um lado para outro, veja este segmento incrível de um programa que foi ao ar em 15 de abril de 1973: um debate entre a feminista Ann Scott e a “tradicionalista” Phyllis Schlafly sobre se deveria ou não ser ratificado o “Equal Rights Amendment”, no programa “Firing Line”, de William F. Buckley:

https://www.youtube.com/watch?v=YWyv5Fw0JSk

Observe atentamente as duas mulheres, mas especialmente veja e ouça Schlafly: Ela não está argumentando que as mulheres deveriam ter menos direitos do que os homens, ou que as mulheres deveriam ser subordinadas aos homens. Ela está clara e diretamente argumentando que “direitos iguais” prejudicaria as mulheres, não lhes dando nenhum direito que elas já não tivessem, mas colocando sobre elas responsabilidades que elas não queriam.

Preocupação com os homens? Nenhuma.  Bem aí, neste debate, você tem o pêndulo feminista-tradicionalista, balançando de um lado para outro. Schlafly ganhou o dia quanto ao Equal Rights Amendment, que não foi ratificado nos EUA parcialmente devido aos seus esforços – que foram esforços para convencer as mulheres de que direitos iguais seria um passo para baixo, para elas.

E funcionou. Muito embora, para registro, o A Voice for Men endossa e apoia a retomada e ratificação do Equal Rights Amendment (Lei dos Direitos Iguais). E nós fazemos isso porque nós queremos quebrar o pêndulo ginocêntrico. Nós realmente queremos direitos e responsabilidades iguais sob a lei e que os homens e mulheres sejam livres para viver e escolher seus próprios caminhos na vida e assumir as consequências, igualmente. De muitas formas, como diz Tom Golden, a igualdade será um degrau para baixo para as mulheres, que se acostumaram seja com os privilégios “tradicionais” ou com os ultramodernos privilégios “feministas” do “empoderamento das mulheres”.

Sejam as “feministas socialistas” ou as “tradicionalistas conservadoras”, o resultado é o mesmo: “primeiro as damas” – em todas as coisas, exceto nas que forem sujas, vis, perigosas e destruidoras da sua alma.

As raízes do paradigma ginocêntrico

De onde provém a visão de mundo ginocêntrica? Alguns afirmam que é inerentemente genética e isso é inteiramente parte de uma imutável natureza feminina ou masculina. Por outro lado, a maioria de nós do MDHM tende a pensar que a Biologia sempre desempenha um papel no comportamento humano, mas também o faz a cultura; nós tendemos a pensar que o comportamento humano não é nem “uma construção social”, nem “biológico”. Nem mesmo é realmente 50/50; em vez disso, é 100% ambos! A Biologia funciona dentro da cultura, a cultura atua dentro da Biologia. De qualquer forma, ao pensar, seres sapientes podem reconhecer suas diretivas biológicas e fazer escolhas conscientes para aceitar, rejeitar ou modifica-las. Essa adaptabilidade é o nos faz seres humanos.

O debate sobre onde exatamente o ginocentrismo se tornou a tradição definidora da nossa cultura é provavelmente longo. O que eu creio é que, enquanto “proteger mulheres e crianças” tem raízes biológicas e mesmo divinas, mesmo o pensador cristão C.S. Lewis escreveu em 1930 que a ideia de “amor cortês”, em que um homem essencialmente se torna o vassalo de uma mulher cujos interesses ele vivia para servir foi uma coisa que todos entenderam ter sido inventada pelos nobres ricos. Nas palavras dele:

Todos já ouviram falar do amor cortês e todos sabem que ele apareceu de forma relativamente abrupta no fim do século onze em Languedoc. O sentimento, claro, é o amor, mas o amor de uma espécie altamente especializadas, cujas características podem ser enumeradas como Humildade, Cortesia e a Religião do Amor. O amante é sempre desprezível. A obediência aos mais tênues desejos sua senhora, não importa o quão caprichosos, e a silenciosa aquiescência a suas censuras, por mais injustas, são as únicas virtudes que ele ousa reivindicar. Eis um serviço de amor modelado bem de perto ao serviço que um vassalo feudal deve a seu senhor. O amante é o ‘homem’ da senhora. Ele se dirige a ela como midons, que etimologicamente representa não ‘minha senhora’, mas ‘meu senhor’. Toda a atitude foi corretamente descrita como ‘uma feudalização do amor’. Esse solene ritual amatório é sentido como parte e parcela da vida cortês.

—C.S. Lewis, The Allegory of Love: A Study in Medieval Tradition, 1936.

Como é que quase 80 anos atrás um escritor de popularidade gigantesca poderia observar com naturalidade que todos sabiam que essa tradição “cortesa” de um homem subordinar todos os seus interesses a uma mulher era de certa forma uma inovação excêntrica, mas hoje quase ninguém parece saber disso? A tradição cortesa do homem como vassalo, colocando todas as suas necessidades e interesses subordinados aos de uma mulher, não era sequer algo que a maioria das pessoas aceitasse, há 100 anos. Ainda assim, hoje nós aceitamos como alguns argumentos genéticos reducionistas de que isso é tudo simplesmente o destino biológico? Como é que esse escritor cristão pôde ver tão claramente que isso era uma invenção do homem, não de Deus, e que isso não estava em lugar algum da Bíblia, e ainda assim, hoje em dia, nós temos “tradicionalistas” religiosos que pensam que isso é exatamente como Deus quis que as coisas fossem?

Um olhar amplo nos registros históricos e antropológicos está além do escopo deste ensaio, mas basta dizer que se você olhar atentamente para os registros antropológicos e a história antiga, indo até as primeiras civilizações com escrita, a os antigos chineses, gregos, romanos, babilônios e assim por diante, você não irá encontrar a ideia de que os interesses do homem devem ser subordinados aos das mulheres como sendo o senso comum entre eles. De fato, você descobrirá que, embora você tivesse elementos específicos que poderiam ser considerados ginocêntricos – a antiga cidade de Atenas foi nomeada em homenagem a uma deusa, afinal, e a adoração da Virgem Maria remonta a ao menos o século IV, senão antes – e você poderá encontrar atitudes específicas na história que podem ser consideradas ginocêntrica, você raramente encontrará culturas inteiras fundadas totalmente no princípio de que as necessidades da mulher devem estar no centro de tudo. Isso, meus amigos, é uma inovação relativamente moderna, com no máximo mil ou dois mil anos e não é algo que nós tenhamos que abraçar. Nem é algo que Deus ou Darwing diga que nós tenhamos que abraçar.

Para um olhar mais completo sobre a história de onde o ginocentrismo se tornou uma força cultural predominante, em vez de uma das muitas forças atuando sobre a vida humana, eu ainda recomendo a exploração do excelente site Gyoncentrism, de Peter Wright. Eu também recomendo o ensaio de Peter: “’Tradicionalismo’ – Que P. é essa?”, artigo no AVfM-MGTOW, onde isso e outras questões envolvendo Homens Seguindo seu Próprio Caminho são exploradas.

Conclusão

O Movimento pelos Direitos Humanos dos Homens não é, definitivamente, parte de uma “volta do pêndulo” a “tempos anteriores” e melhores. É uma rejeição dos velhos paradigmas como um todo. Nós não estamos interessados em pendular para um lado ou outro; nós queremos acabar com ele e jogá-lo fora completamente. Não é uma escolha entre direitos das mulheres e dos homens. Não é uma escolha entre feminismo e tradicionalismo, a maneira como as coisas são versus como elas eram. E não é de esquerda versus direita.

É a noção radical de que os homens são seres humanos e deveriam ser, ver a si mesmos como seres humanos primeiramente, e deveriam dispor dos mesmos direitos e consideração que quaisquer outros indivíduos. É a noção radical de que os homens, como um grupo e como indivíduos, não devem nada às mulheres. Nós não devemos às mulheres nossa proteção. Não lhes devemos nossa provisão. Quando se trata de proteger qualquer outra pessoa, nossa primeira questão é: “Por que deveríamos fazer isso?” E quando se trata de coisas como relações íntimas, casamento, filhos, nós perguntamos, sem medo e sem pedir desculpas, “o que nós ganhamos com isso?”

Se a resposta, prezadas moças, é somente “minha companhia e acesso à minha vagina”, a maioria de nós simplesmente dirá “não, obrigado”. Nós precisamos de mais do que isso e nós precisamos de prova que você manterá suas promessas. E essa prova parece muito tênue no contexto da cultura popular e legal atuais.

Isso lhe causa desconforto? Que pena. Porque os homens têm todo o direito de fazer essas perguntas e de terem respostas que, para eles, possam parecer passíveis de lhes dar segurança e felicidade.

E para citar Tammy Bruce, que alega que o poder ancestral das mulheres é o poder do “não”? Nós temos isso a dizer:

A civilização foi construída em parte por homens dizerem “não” a mulheres. Não a seus avanços sexuais, não a relacionamentos que eles não achassem desejáveis, não a exigências não razoáveis. Muitos dos homens mais produtivos na história foram homens que se recusaram a casar-se ou ter filhos. Você pode não gostar de ouvir isso, mas é a verdade. Coletivamente, os homens não devem coisa alguma às mulheres. E mais de nós vão continuar a dizer “não” a mulheres até termos uma boa razão para dizer outra coisa.

Vocês terão a igualdade, moças, quer gostem ou não. É disso, realmente, que se trata o “Homens Seguindo seu Próprio Caminho” (Men Going Their Own Way MGTOW) e o MDHM.

Imagem é cortesia de Europa Phoenix. (DE)

17 thoughts on “Quebrando o pêndulo: Tradcons vs. Feministas”

  1. A civilização foi construída em parte por homens dizerem “não” a
    mulheres. Não a seus avanços sexuais, não a relacionamentos que eles não
    achassem desejáveis, não a exigências não razoáveis. Muitos dos homens
    mais produtivos na história foram homens que se recusaram a casar-se ou
    ter filhos. Você pode não gostar de ouvir isso, mas é a verdade.

    Gostaria de saber quem foram esses homens, pois não conheço nenhum.
    A mulher faz o homem

    1. “Você pode não gostar de ouvir isso, mas é a verdade.” A não ser num outro mundo, imaginário, onde ela pudesse se inseminar e sair da vida no mato e escondida em cavernas e construir a civilização. Sua presunção certamente nasce de uma péssima educação, onde seus pais não te ensinaram que não melhor que ninguém por ter nascido com ovários.

      1. Eu queria exemplos de quem foram esses homens que ajudaram tanto a sociedade a progredir e não se preocuparam com mulheres.

        1. O texto não falou de não se preocuparem com mulheres, mas não viver em função de agradá-las, trata-se de não ser ginocêntrico.

          1. Exatamente Aldir, o texto se refere a não idolatrar mulher, endeusa-la.
            É sobre não tornar a mulher objetivo de vida, seja seu bem estar e afins. O que é muito diferente de se preocupar, foi uma grande falha sua Barbara, onde se escreve e vocês interpretam o que não está escrito. Se quer iniciar um diálogo comece sendo coerente ao texto. Tira a vagina do pedestal.

          2. Homens que não eram heterossexuais? Ou que não orbitaram à volta de uma mulher, ou de mulheres, e contribuíram para a sociedade? Eu conheço vários. Como Platão, Aristóteles, Sócrates, Newton, Einstein, Alan Turing, Nikola Tesla. Alguns movidos pelo questionamento científico, outros por ambição, pela solução de problemas, por defender seu próprio povo, pela autotranscendência, pela busca da verdade, etc.

            Sua pergunta está cada vez mais parecendo uma pergunta retórica. E este seu perfil foi criado no Disqus somente para fazer essas perguntas, interessante.

            Interessante essa sua ideia de que os homens só fazem qualquer coisa se for “por causa de mulher”. Bom, agora você já conhece ao menos alguns.

  2. Excelente!
    Acho até que a ideia de que “o homem é opressor e a mulher é vítima”,nada mais é do que uma manifestação de ginocentrismo,mais uma forma de divinizar a mulher.

    1. Se ainda não fez, nem viu feito por alguém, seria ótimo. Se for fazer, me envie depois, por favor, que publicamos.

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