O macho alfa bandido e o macho beta padeiro

Leroy Leonard – Não seja Lesse cara! Peraí… Leroy quem?

Acho bem possível que ninguém lendo isso já tenha ouvido de Leroy Leonard, mas é bem provável que você tenha ouvido falar [dependendo de onde você vive] do homem que fez de Leroy um corno [ou cuck, em inglês]. Então, vamos começar com uma breve biografia de Charles Arthur “Menino Bonito” Floyd.

Floyd nasceu em Adairsville, Georgia, EUA, em 3 de fevereiro de 1904, e se mudou com sua família para o leste de Oklahoma quando era ainda menino. Sua criação foi bem típica dos jovens da sua época. Sua família não era abastada, mas ninguém ficava sem uma refeição. Pode-se descrever como modesto; duro, mas light. Para a família Floyd, assim como era com muitos naqueles dias, produzir aguardente [ou como chamam, moonshine] era lugar comum. Evidentemente, se você quer produzir aguardente de milho, ter uma plantação de milho na sua propriedade lhe dá uma dianteira.

Floyd progrediu da produção de moonshine e pequenos furtos (seu primeiro atrito com a lei foi literalmente por causa de centavos: roubou uma jarra de moedas de centavos) para roubos a bancos, que causaram vítimas e confrontos com agentes da lei.

Como acontecia com muitos marginais naqueles dias, os feitos de Floyd foram tanto fatos quanto lenda. Ele foi acusado de muito mais crimes do que poderia ter cometido e, assim como Jesse James, ele se tornou um tipo de herói para as pessoas da região.

O leste de Oklahoma ainda era relativamente selvagem e bruto nos dias de Floyd (46º estado da União, Oklahoma teve o status de estado até 1907). Nos seus dias de território, era uma espécie de santuário para todos os tipos de hombres maus. A maioria dos “bucha de presídio” postos perante o Juiz Isaac Parker (também conhecido como “juiz enforcador”, que ocupou a cadeira em Fort Smith, Arkansas, de 1875 a 1896) foi recolhida no chamado IT (Indian Territory, ou Território Indígena) por agentes federais (o velho filme Hang ’Em High, de Clint Eastwood é uma reprodução bem decente daqueles tempos). O chão batido por “Menino Bonito” Floyd estava poucas milhas a oeste de Fort Smith.

A lenda do Menino Bonito se espalhou por muitas pessoas desafortunadas (a Grande Depressão começou cedo na área rural dos EUA) para quem ele tinha dado uma mão. A maioria do pessoal do campo admirava Floyd e poucos estavam dispostos a ajudar os lacaios da lei. Sem dúvida, muitas pessoas tiveram uma satisfação indireta com as façanhas e admiraram a coragem do Menino Bonito. Sua vida de crimes foi, de uma certa forma, uma história de sucesso. Se o crime é “uma forma tortuosa de empreendedorismo humano” (de acordo com o advogado corrupto em The Asphalt Jungle [filme O Segredo das Joias (título brasileiro) ou Quando a Cidade Dorme, (título português)]), então Menino Bonito era uma versão tortuosa de Horatio Alger.

Antes de se tornar um criminoso em série, Floyd conheceu Ruby Hardgraves, filha de um arrendatário de plantação; ele tinha 19 anos e ela, 17. Fagulhas voaram e continuaram a voar. Os dois eram inseparáveis e eventualmente se casaram (ela estava grávida então) em 28 de junho de 1924 em Sallisaw, Oklahoma.

Logo após seu filho Dempsey (nomeado por causa do campeão dos pesos pesados Jack Dempsey) nasceu, Floyd entrou em um assalto a mão armada. Após imprudentemente se ostentar seus ganhos ilícitos, ele atraiu a atenção de autoridades locais, que rastrearam seu dinheiro de subornos até um roubo de dinheiro de folha de pagamento em St. Louis. Foi enviado para o Missouri para julgamento, declarado culpado e remetido à penitenciária estadual na cidade de Jefferson, Missouri. Tinha 25 anos quando foi solto em 7 de março de 1929.

A ausência não tinha tornado o coração de Ruby mais afeiçoado. Em vez de ficar ao lado do seu homem, ela se divorciou do Menino Bonito enquanto ele estava encarcerado. Aqui é onde Leonard Leroy entra no cenário.

Leroy Leonard não era tão notável quanto o Menino Bonito Floyd, mas era notável o contraste entre os dois. Leonard era um macho beta clássico, confiável, trabalhador, estável e provavelmente um lerdo. Ainda assim, era a solução para uma mãe solteira. E ele se uniu a Ruby e seu filho.

Chame Leroy um idiota, capacho, fracassado ou o que você quiser. Talvez ele fosse apenas daltônico e não reconheceu os sinais vermelhos. Eram eles:

1) Ruby era divorciada;

2) Ruby era mãe solteira; e

3) O primeiro marido de Ruby era um bandido famoso que ainda estava por aí.

Sem or, o que poderia dar errado?

De qualquer forma, Leonard se casou com Ruby e a levou com seu filho ao sudeste do Kansas, na cidade de Coffeyville, onde ele trabalhava em uma padaria. Esse passo deve ter sido um presságio, já que a cidade era sinônimo de assaltos a bancos, mais especificamente assaltos a banco que dão errado. Em 5 de outubro de 1892, quatro membros da quadrilha Dalton foram mortos enquanto tentavam roubar dois bancos simultaneamente.

Como assaltante de banco, Floyd era melhor provedor do que Leonard. Ele era ousado e melhor apresentado – daí seu apelido. Ele não apenas era um menino bonito, ele era o Fantasma das montanhas Ozark, o Robin Hood das colinas de Cookson. Embora Floyd operasse principalmente no meio-oeste, ele era tão celebridade nacional quanto qualquer ator de cinema ou herói dos esportes, a despeito do fato de sua educação lhe impor que ele mais evitasse do que buscasse ser fotografado.

Manter a discrição não era problema para Leroy Leonard. Em Pretty Boy: the Life and Times of Charles Arthur Floyd (St. Martin’s Press, 1992), o escritor Michael Wallis descreve Leonard como um “rapaz trabalhador de 22 anos que ela [Ruby] tinha conhecido em Oklahoma. Ele era muito apaixonado por Ruby e era gentil com seu filho pequeno. Amigos lembraram que ele tratava Dempsey como se fosse seu próprio filho.”

“Leroy era sempre muito bom comigo e minha mãe”, se lembraria Dempsey muitos anos depois. Sim, Leonard era um cara legal, e como Leo Durocher supostamente disse, “Caras legais terminam por último” – ou neste território, em segundo. Leonard não podia competir com o Menino Bonito, o homem ou a lenda.

Sem o conhecimento de Leroy, sua esposa tinha retomado contato com seu ex-marido. Ela tinha não tinha procurado por ele. Um die ele simplesmente apareceu à sua porta em Coffeyville e fagulhas começaram a voar novamente. Dempsey se lembraria desta como sua primeira lembrança do seu pai, naquele dia em 1931.

Imagine o pobre Leroy Leonard caminhar até em casa após dar duro o dia inteiro na padaria para descobrir que o primeiro marido da sua esposa, um bandido famoso, é um convidado em casa. Não apenas isso, sua esposa e afilhado estão para ir embora com ele – naquela mesma noite.

Como pode um escravo de salário, batedor de cartão, competir com uma celebridade membro de quadrilha? Como padeiro, Leroy Leonard pode ter trazido para casa o pão, mas Floyd tinha as mãos cheias de bem mais pão dos seus trabalhos. Ironicamente, Floyd gostava de um forno, como hobby.

Leroy aprendeu da forma difícil que damas em perigo, uma vez resgatadas, não são sempre gratas. Ao menos, não enquanto elas têm valor no mercado sexual (Ruby tinha 26 anos quando renovou sua relação com Floyd). De acordo com Wallis, “O coração de Leonard estava partido pela forma dura com que Ruby o tratou após ele ter sido tão gentil com ela e o garotinho que ele amava.”

Floyd não era bobo, no entanto. Embora ele não pudesse evitar a atração por Ruby, ele entendeu que ela já tinha se divorciado dele e tinha abandonado seu segundo marido. Então, Floyd manteve outra mulher por fora.

Mesmo em ausência, Floyd se mostrou útil para Ruby. Durante o último ano da vida de Floyd, enquanto se escondia da lei, ela e Dempsey entraram no circuito dos espetáculos do vaudeville para palestrar sobre como o crime não compensa.

Menino Bonito sempre tinha suspeitado disso, mesmo quando ele gozava dos frutos dos seus trabalhos. Tendo jurado que nunca retornaria à prisão, ele sabia que seu fim provavelmente seria violento. E assim foi quando ele foi morto pelo FBI em uma plantação de milho no oeste de Ohio em 22 de outubro de 1934. Àquele tempo, Floyd era oficialmente Inimigo Público Número 1, status a ele outorgado por J. Edgar Hoover, após os federais acabarem com John Dillinger em 22 de julho em Chicago. O reinado de Floyd no topo do monte foi de apenas três meses, mas ele saiu no topo. Ele morreu macho alfa.

Leroy Leonard pode ter encontrado alguma satisfação no fim do Menino Bonito. Machos beta são heróis das canções não cantadas da sociedade e suas vidas raramente são escritas, então não sabemos muito sobre Leroy Leonard além de sua relação colateral com o Inimigo Público Número 1. Nada sobre como Leroy Leonard viveu, mas ele durou mais que o Menino Bonito Floyd. Conforme relatado na biografia de Wallis em 1935, Leonard se casou “com uma mulher amorosa e criaram uma família”. Após isso, ele desaparece da narrativa.

Quanto a Ruby, ela seguiu a trilha dos casamentos falidos e terminou ela própria uma mulher falida. Ela morreu, apropriadamente, em um lugar chamado Flecha Quebrada (Broken Arrow), Oklahoma, em 1970.

Assim a fábula do padeiro e do bandido (profissão anotada na documentação do funeral de Floyd) fornece lições para os rapazes. A vida breve do Menino Bonito Floyd prova que o crime não compensa.

E resgatar damas em perigo também não. Leroy Leonard pode atestar isso.

 

Primeiro postado no A Voice for Men.
Tradução: Aldir Gracindo.
Foto: Charles Arthur “Pretty Boy” (“Menino Bonito”) Floyd.

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