Diga-me quem o lesbocídio NÃO MATOU HOJE e seja processado

Daniel Reynaldo criou um blog e página no Facebook muito interessantes, mas apenas para quem pensa que defender LGBTs não é preciso mentir ou censurar a verdade. Daniel está sendo processado judicialmente por se referir a inverdades e distorções metodológicas em pesquisas sobre homicídios de gays, lésbicas e transgêneros pelo devido nome: mentira e fraude. Por eu defender Direitos Humanos (inclusive de LGBTs) e repudiar desonestidade, ofereci a ele o espaço do A Voice for Men em Português. Eis o que ele tem a dizer.
Bem-vindo, Daniel!
– Aldir.

 

Há alguns meses eu decidi criar uma página com a pretensão de demonstrar e debater manipulações em dados estatísticos relacionados a questões de minorias: números apresentados por ativistas que dizem combater o racismo, o sexismo e a homofobia eram o tema de maior interesse da página ‘Quem a homotransfobia não matou hoje?’.

Embora eu nunca tenha pretendido resumir as discussões às estatísticas de mortes motivadas por homofobia, fiz destes números uma espécie de gancho, de modo que boa parte dos três mil seguidores que eu consegui cultivar em cerca de 9 meses se referiam à página como ‘aquela página que desmente os números do GRUPO GAY DA BAHIA’.

O GRUPO GAY DA BAHIA é uma ONG que produz um relatório anual de mortes que alegam e divulgam terem sido motivadas por ódio homofóbico.

A lista é flagrantemente manipulada: entre as pessoas que ‘morreram por conta de ódio aos homossexuais’, o GRUPO GAY DA BAHIA não se envergonha de listar casos de pessoas mortas por infarto agudo do miocárdio, heterossexuais mortos por homossexuais, pessoas mortas de causas desconhecidas e fora do Brasil, homossexuais mortos em condições acidentais ou devido a complicações cirúrgicas, homossexuais vítimas de bala perdida, além de inúmeros casos de suicídio e de homicídios sem motivação ou autoria conhecidas.

Embora muito manipulada, a pesquisa do GRUPO GAY DA BAHIA tem enorme aceitação por parte da grande imprensa, sendo recorrentemente referida em noticiários dos principais veículos de comunicação do país e do mundo: The Guardian, New York Times, Le Monde, Folha, Estadão, O Globo, UOL, G1, Agência Lupa, Aos Fatos… todos estes já publicaram matérias replicando as (des)informações produzidas pela instituição fundada pelo antropólogo Luiz Mott.

Foi com base neste estudo que a Renata Vasconcellos fez uma de suas perguntas ao Jair Bolsonaro na sabatina do Jornal Nacional, por exemplo.

Essa alta penetrância pelos meios de comunicação dá ao GRUPO GAY DA BAHIA uma confiabilidade pública da qual ele não é merecedor. Numa enquete que fiz entre os meus seguidores, 80% dos que responderam nunca terem ouvido – antes de caírem na minha página – que esta ONG chega a incluir mortes por causas naturais, de heterossexual assassinado por homossexual ou de heterossexual assassinado em Portugal como sendo “crimes homofóbicos ocorridos no Brasil”.

Minha estratégia de ‘ataque’ aos dados do GRUPO GAY DA BAHIA consistia de ir na fonte: os próprios relatórios publicados por eles, e fazer uma varredura. Copiava alguns dos nomes, jogava no Google, procurava por informações sobre as circunstâncias das mortes em noticiários e os dados iam aparecendo. Sempre prezava por oferecer links que confirmassem minhas alegações, isto é: tanto disponibilizo, em cada texto, links que permitam confirmar que a ONG classificou tais e tais mortes em seu relatório de mortes por homofobia, quanto disponibilizo links que mostram as reias circunstâncias das mortes comentadas.

Os posts abaixo mostram alguns dos casos que encontrei:

https://naomatouhoje.blog/2018/05/19/chequei-uma-checagem-da-agencia-lupa-veja-como-ela-se-saiu/

https://naomatouhoje.blog/2018/06/06/5-crimes-homofobicos-do-grupo-gay-da-bahia-em-maio-de-2018-o-numero-4-vai-te-surpreender/

Pouco depois de criar a página, conheci uma pesquisa muito semelhante, feita por uma instituição de ensino e pesquisa muito prestigiosa. Três pesquisadoras, inspiradas na metodologia do GRUPO GAY DA BAHIA, decidiram fazer uma pesquisa especificamente sobre assassinatos motivados por preconceito contra mulheres homossexuais.

A pesquisa carrega uma diferença central e importante em relação à do GRUPO GAY DA BAHIA. Enquanto o GGB é uma ONG privada, a tal pesquisa era feita por uma universidade pública e contava com patrocínio direto ou indireto de três agências públicas de fomento à ciência.

Os dados estavam disponibilizados em três sites mantidos pelas próprias estudiosas: uma conta no Twitter, outra no Facebook, mais um blog no WordPress.

Comecei a verificar, nestes sites, quais as mortes que estas pesquisadoras listavam como sendo “mortes motivadas por ódio contra lésbicas” e não me surpreendi ao descobrir que lá estavam casos de traficante morta em troca de tiros com a polícia enquanto tentava fugir dirigindo um carro que havia acabado de roubar, morte de lésbica que escorregou do próprio carro ( em que viajava sentada do lado de fora ) e morte de lésbica morta de bala perdida durante um tiroteio entre seguranças e assaltantes de um banco. Todos estes casos foram classificados como morte motivada por intolerância contra lésbicas. Havia também dezenas de mortes de lésbicas por outras lésbicas. Dezenas de suicídios. Dezenas de mortes sem autoria e motivação conhecida.

Comecei a relatar estes casos e cometi o “erro” de afirmar que o estudo divulgava mentiras sobre o número de lésbicas mortas por serem lésbicas no Brasil. Logo após eu ter começado a criticar a metodologia e conclusões do estudo sobre mortes de mulheres homossexuais, as pesquisadoras apagaram os dados disponíveis em suas páginas, impedindo a continuidade da checagem. De qualquer forma eu já havia salvo (através de print de toda a página do Twitter) uma boa parte dos casos que elas haviam usado para construir seus altos números de mulheres mortas por serem lésbicas que vêm anunciando.

O caso gerou algumas manifestações feitas por mim a organismos distintos, de acordo com as suas áreas de atuação: à Controladoria Geral da União eu estou solicitando informações sobre a pesquisa, com base na Lei de Acesso à Informação; à CAPES – um dos órgãos que financiou o estudo – eu denunciei a manipulação nas conclusões apresentadas; ao Ministério Público Federal e à Polícia Federal eu notifiquei uma série de ilícitos criminais que sofri – não por parte das estudiosas, a princípio, mas de outras pessoas – no evento de lançamento do estudo, na universidade onde ele é sediado.

Afirmei algumas vezes que classificar lésbica traficante morta por rivais, lésbica assaltante morta pela polícia em confronto a tiros, lésbica morta por acidente automobilístico e lésbica morta por outra lésbica como sendo exemplos de mortes motivadas por ódio às lésbicas num estudo acadêmico financiado com recursos públicos constitui fraude científica.

Por isso estou sendo processado, e por isso, através de uma decisão liminar de antecipação de tutela, sem que tenha ouvido minha defesa ainda, sem que conheça de fato a natureza exata do trabalho e das críticas que faço, uma juíza do 10º Juizado Especial Cível do Rio de Janeiro determinou a deleção das contas da minha página no Twitter e no Facebook.

A juíza entendeu que – ao confrontar os dados e a honestidade de uma pesquisa sobre mortes por homofobia – a página enalteceria posturas homofóbicas. Mencionou também o fato de que as páginas dos noticiários nacionais destacam frequentemente o alto número de LGBTIs assassinados no país. A principal justificativa dada para o deferimento da liminar foi o uso – da minha parte – de expressões que questionavam a validade do trabalho acadêmico produzido pelas autoras do processo: usar de expressões como “mentira” ou “fraude” para se referir a uma pesquisa que classifica como morte motivada por lesbofobia a um caso de acidente automobilístico foi considerado injustificável pela juíza.

Pretendo convencê-la do contrário em juízo. De que minha página nunca foi um canal de divulgação de homofobia ou qualquer forma de preconceito baseada em raça, sexo, credo ou sexualidade. De que o meu foco tem sido a busca por honestidade e verdade nas informações apresentadas sobre estes temas. De que é, sim, de interesse público e coletivo que as pesquisas financiadas com recursos públicos e com tamanho impacto no imaginário social e na condução de políticas públicas sejam feitas com rigor epistemológico, apresentando conclusões que sejam suportadas pelos dados coletados e que não disseminem injustificado alarme sobre questão de tamanha relevância social. Que é, sim, de interesse público e coletivo que as pessoas saibam claramente que quando ONGs e universidades divulgam que centenas de pessoas têm sido mortas “por serem homossexuais” estas, na verdade, são mortes relacionadas a acidentes, mortes associadas a envolvimento com crime organizado, mortes sem autoria e motivação esclarecidas pelos aparatos oficiais de investigação criminal.

Enquanto não apresento minha defesa e materiais probatórios ao Juizado, o blog “Quem a homotransfobia não matou hoje?” está mantido, mas estou temporariamente proibido de mencionar, por lá, a pesquisa ou as pesquisadoras que estão em litígio contra mim.

Opto por não dizer seus nomes (tanto das pesquisadoras quanto da pesquisa quanto da instituição de pesquisa) também aqui, mas estou disposto a prestar mais esclarecimentos a qualquer pessoa que deseje e que venha a me contactar.

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