Por que chamamos estupro de cultura

O seguinte texto é a versão redigida de uma palestra ocorrida na Universidade de Ottawa em 28 de março, promovido pela Associação Canadense por Igualdade (CAFÉ, na sigla em inglês). Intitulada “O que igualdade tem a ver com isso? Os problemas masculinos no campus e os padrões duplos feministas”, a palestra foi inicialmente atrasada por um grupo de estudantes alegando que, como um discurso de ódio, a palestra não deveria ser permitida. Os estudantes tocaram tambores, cantaram e sopraram uma trombeta, enquanto os organizadores e os seguranças do campus os instavam a guardar suas contestações para a seção de perguntas e respostas. Eventualmente, a palestra foi movida para outro local, mas mesmo assim as importunações e interrupções continuaram. Finalmente, o alarme de incêndio foi acionado criminosamente, pondo um fim ao evento. (Aldir)

É uma experiência estranha se ver argumentando a favor de algo que parece uma verdade autoevidente, mas é publicamente negado, e contra algo que é obviamente falso, mas é amplamente pregado – especialmente em uma universidade, tradicionalmente considerada um lugar onde se apoie a busca racional da verdade, mas agora, por demasiadas vezes, é meramente guardiã da monotonia hipócrita. Tem havido muitas monotonia recentemente na universidade de Ottawa em Ontario, Canadá, onde um pequeno número de incidentes acendeu a discussão sobre uma cultura do estupro. Sobre essa cultura do estupro tem havido muita irracionalidade e dogma, com a missão de promover a ideia de que campi universitários e a sociedade em geral são hostis às mulheres.

O reitor da Universidade, Allan Rock, declarou que esses são “tempos muito difíceis” para a Universidade, e reafirmou sua devoção ao “forjamento de novas estratégias” e a acabar com a “violência masculina às mulheres”. Não é a minha intenção focar detalhadamente nos dois incidentes que incentivaram Rock, sobre os quais eu apenas sei o que foi publicado nos jornais. Em vez disso, quero olhar para os diálogos que estão acontecendo em torno da ideia da cultura do estupro e pesar seus infelizes efeitos nos homens que, em números cada vez menores, ainda trabalham e estudam no campus.

A ideia de cultura do estupro deriva do “feminismo da crise do estupro”, surgido nos anos 70 e 80 e articulado por escritoras misândricas e ativistas como Susan BrownmillerAndrea DworkinCatharine MacKinnon e  Mary Daly. Essas teóricas definiram uma rígida polaridade entre homens e mulheres, afirmando que, sob o patriarcado, todas as mulheres são oprimidas, aterrorizadas e tornadas vulneráveis pela violência masculina sistêmica, pelas ameaças de violência e por uma cultura que as transforma em objetos e as degrada, e que todos os homens se beneficiam desse sistema, quer estuprem ou não.

A maioria das pessoas que falam pelo feminismo hoje no campus declara energeticamente que feminismo se tornou muito mais sofisticado e pormenorizado desde então; que emprega “interseccionalidade” para tomar conta das tantas outras identidades sociais – de raça, de classe, de sexualidade, e assim por diante – que modulam a ordem de gênero.

Mas apesar destes supostos avanços na teoria feminista – na verdade não há avanço nenhum, mas meramente um modelo mais detalhado da hierarquia de opressões empregando a mesma estrutura simplista binária – o modelo de gênero ainda está fortemente fundamentado na visão de mundo exposta por Dworkin em seu famoso texto “Eu quero uma trégua de 24 horas”, em que declarou que, por causa do estupro, nenhuma mulher poderia ser livre na América do Norte e nenhum homem poderia ser considerado inocente. Para Dworkin, todos os homens devem carregar a culpa coletiva, pois vivem “em um mundo de sua supremacia baseada na existência da sua pica ela […] em um mundo de humilhação e degradação por ser vista como inferior.”

Tentativas de desafiar esse modelo mostrando que o estupro é menos comum do que as estatísticas feministas mostram, ou que homens também são vítimas do estupro (veja a compilação recente de estatísticas de Peter O’Donovan), assim como de falsas acusações de estupro, são rotineiramente vistas com desprezo ou ultraje por aqueles que dizem valorizar a igualdade. Pressuposições feministas simplistas sobre privilégio e agressão masculinos são evidentes nas discussões atuais nos campi.

Os dois incidentes relacionados à Universidade de Ottawa são, brevemente, os seguintes. Em fevereiro deste ano, a Presidente da Federação de Estudantes da Universidade de Ottawa, Anne-Marie Roy descobriu, através de um email anônimo, que cinco alunos, quatro dos quais possuíam envolvimento com a política universitária, haviam feito declarações de cunho sexual sobre ela no Facebook, uma descoberta humilhante para a Srta. Roy.

As declarações referiam-se ao sexo anal e oral que os participantes gostariam de ter com ela. Essas declarações não tinha a intenção de ser públicas, nem de ser vistas por ela. Depois de um dos garotos ser confrontado por ela, todos os cinco envolvidos enviaram-na um email expressando arrependimento, dizendo que nunca tiveram intenção de ameaçá-la, desculpando-se pela natureza inaceitável e de mau gosto das declarações, e renunciando a seus cargos na universidade. Roy tinha todo o direito de estar com raiva e confrontá-los.

Em uma época mais sensível, esse poderia ter sido o fim do incidente; entretanto, ele rapidamente veio a público sob a instigação de Roy, que trouxe o assunto ao Conselho de Administração da Federação dos Estudantes e declarou publicamente que a discussão casual dos jovens revela uma cultura do estupro que é “muito dominante nos campi universitários”.

O incidente foi amplamente divulgado em noticiários com a manchete “Terrível ataque cibernético”, apesar da conversa sobre Roy encaixar-se melhor na categoria de fantasia sexual à toa. Apesar disso, pessoas de alto escalão na universidade rapidamente expressaram sua solidariedade a Roy. A ex-governadora-geral canadense Michaëlle Jean, agora Chanceler da Universidade de Ottawa, participou de uma entrevista coletiva imprensa em que declarou que a cultura do estupro é uma “doença” muito difundida, não apenas na Universidade de Ottawa, mas nos campi universitários em todo o país. Está ficando pior, disse ela, e precisa ser curada.

O reitor da Universidade, Allan Rock, antes um político de esquerda no governo federal canadense, também deu uma declaração pública, dizendo-se “estarrecido” pela cultura do estupro no campus, assim como pela violência masculina contra mulheres em geral, e declarando sua intenção de formar uma Força Tarefa para fazer recomendações a fim de melhorar a segurança feminina na Universidade de Ottawa.

Sobre o outro incidente em questão, há menos a ser dito, como há pouco a ser tornado público. Envolve a suspensão do time masculino de hóquei da universidade por over alegações de má conduta sexual, após uma queixa contra certos membros do time. A polícia de Thunder Bay, onde ocorreu incidente, está investigando o assunto, mas nenhuma acusação foi feita. A Universidade de Ottawa também está conduzindo uma investigação interna. Alguns membros da equipe de hóquei (um dos quais não estava nem em Thunder Bay na hora do incidente) disseram que se sentem traídos pela Universidade, que está tratando-os como se fossem todos culpados de má conduta.

Os dois incidentes foram noticiados por grandes noticiários canadenses e um  administrador universitário pediu pela suspensão dos cinco estudantes que participaram da conversa online sobre Roy. Parece uma punição severa para palavras que nunca pretendiam ser públicas. Mas a histeria da cultura do estupro autoriza uma reação extrema.

Agora já é uma verdade aceita entre as elites universitárias que referências à sexualidade e ao gênero, até mesmo palavras privadas, como nesse caso, têm consequências sérias, mesmo criminais – pelo menos quando ditas por homens sobre mulheres, mas não o contrário. A culpa dos homens em assuntos sexuais é automática, assim como a necessidade de declarações dramáticas de simpatia à feminilidade ferida. E apesar de as universidades deverem ser vigilantes quanto à segurança e bem-estar feminino, a hipersensibilidade sobre uma cultura do estupro não existente não faz nada para promover segurança ou pensamento saudável.

Um pouco da lógica obscura em torno da cultura do estupro é evidente em uma declaração publicada em 6 de março de 2014 pela Associação dos Professores da Universidade de Ottawa, a qual eu recebi há pouco mais de três semanas. A APUO é o agente negociador para os professores universitários e outros professores da Universidade de Ottawa. As ocupações específicas da APUO são relacionadas à carga horária, benefícios, negociação salarial e queixas trabalhistas. Não tenho certeza por que a Associação pensou que fosse necessário envolver-se nos assim-chamados escândalos de qualquer forma, mas se envolveu. Sob o título “A Cultura do Estupro, Misoginia e Sexismo no Campus”, a APUO defendeu a causa de Anne-Marie Roy com unhas e dentes:

A Associação dos Professores da Universidade de Ottawa (APUO) expressa seu apoio à decisão da presidente da Federação dos Estudantes da Universidade de Ottawa (SFUO), Anne-Marie Roy, de quebrar o silêncio sobre a cultura do estupro no campus. Como a Sra. Roy ressalta em sua declaração pública, “O fato de os cinco homens poderem tão normalmente discutir e fazer piadas sobre mim e o cargo para o qual os alunos me elegeram de formas tão sexualmente violentas aponta para quão normalizadas estão a cultura do estupro, a misoginia e o sexismo estão em nosso campus e em nossa sociedade. Esse tipo de comportamento tem impactos claros sobre as mulheres; ele cria um ambiente intimidador, ameaçador e tóxico. As mulheres neste campus e na nossa sociedade merecem mais que isso.

É notável imediatamente a presença de anedotas já familiares e técnicas dúbias de argumentação do feminismo da crise do estupro: a locução “quebrar o silêncio” usada pela APUO, como se estupro nunca fosse discutido nos campi universitários, óbvia falsa; a omissão na declaração de Roy de qualquer distinção entre falar de “sexo” e falar de “estupro”, como se não houvesse diferença significativa entre uma fantasia compartilhada com os amigos, repugnante como possa ter sido para ela, e um plano para realmente forçar essa fantasia contra sua vontade; o mau uso da linguagem como totalmente inaceitável – algo que Roy sabia que iria constranger os homens envolvidos (e não afetaria seu próprio status de maneira alguma) – é dito ser “normalizado”; e finalmente, o exagero, em que um incidente, já reconhecido e retratado, torna-se a prova de um problema social muito mais extenso e sério, um “ambiente” inteiro, amorfo e onipresente, que “ameaça” as mulheres.

Com tudo isso a APUO concorda profundamente e então, logo no parágrafo seguinte, contradiz redondamente seu apoio à alegação de Roy:

A APUO concorda plenamente com esta declaração e acredita que a vasta maioria dos estudantes, funcionários e corpo docente da Universidade de Ottawa, tanto homens quanto mulheres, acreditam que discriminação, intimidação e assédio de gênero são completamente repreensíveis e contrários aos valores mais básicos de nossa comunidade.

Para qualquer um com qualquer conceito do que é uma cultura, não faz sentido dizer que “há uma cultura no campus” e então dizer imediatamente em seguida que “a vasta maioria” dos estudantes e funcionários da Universidade de Ottawa consideram as palavras dos cinco rapazes “completamente repreensíveis”.

Ou nós vivemos em uma cultura do estupro, em que o estupro é tolerado e implicitamente aprovado, ou não vivemos.

E quando um grupo de professores universitários não consegue manter seus argumentos de um parágrafo para o outro, nós estamos no fundo de uma dimensão de duplipensamento ideológico digno de um elenco Orwelliano, o equivalente a um piloto automático mental. Se tais declarações não tivessem consequências sérias, isso seria um assunto para meramente dar umas risadas do que passa por pensamento nas universidades hoje em dia.

Infelizmente, nosso pânico moral atual tem várias consequências, incluindo o potencial de criar uma boa quantidade de medo infundado, assim como uma indignação farisaica entre jovens mulheres e de agravar o que já é um ambiente hostil ao masculino nos campi universitários, onde homens são intimidados a vestir a carapuça da culpa coletiva como estupradores potenciais.

Um elemento agora familiar da discussão sobre a cultura do estupro é a extensão na qual as feministas de crise do estupro querem silenciar qualquer um que negue ou mesmo questione se uma cultura do estupro prevalece mesmo em nossa sociedade. É perfeitamente legitimo em discordâncias argumentar sobre fatos e apontar falhas no raciocínio oposto. Mas não é legítimo afirmar que a posição do adversário é tão terrível que não deva ser ouvida de forma alguma. É isso que as feministas de crise de estupro fazem ao sugerir constantemente que meramente demonstrar uma posição antifeminista produz o mal que as feministas denunciam – uma cultura de intimidação e ameaça que é “tóxica” às mulheres – e que, portanto, tal discussão deva ser proibida.

Uma cultura do estupro é aquela que aceita, tolera e até mesmo incentiva o estupro, culpando a vitima quando acontece e escusando o autor. Existem culturas pelo mundo, certamente, onde vitimas de estupro não têm a solidariedade da sociedade, onde estupradores não são punidos por seus crimes, e onde vitimas são culpadas. No Irã, na Arábia Saudita, no Egito, Sudão, Iêmen e Paquistão, podem-se encontrar essas culturas, onde menininhas têm seus narizes cortados por suas famílias porque parecem estar agindo sem pudor, onde ácido é jogado nos rostos de mulheres que violam os padrões de comportamento feminino, onde meninas são casadas com 7, 8 ou 9 anos e estupradas por seus maridos, onde mutilação genital feminina é praticada para manter as mulheres puras e onde mulheres são submetidas à “morte por honra” por terem um namorado.

Isso é a cultura do estupro. Se Anne-Marie Roy tivesse realmente vivido em uma cultura do estupro, teria feito tudo a seu alcance para evitar a disseminação dos comentários sexuais feitos sobre ela, sabendo que tal publicidade levaria não a ela ser promovida a heroína das mulheres, mas sim à morte social, se não literal.

Feministas negam rotineiramente, como se fosse um ponto de fé, que o estupro é amplamente considerado um crime hediondo na América do Norte. Um exemplo perfeito de tal negação, escolhido quase aleatoriamente, vem da blogueira feminista contemporânea Amanda Marcotte, que declarou em uma postagem recente(de 18 de março de 2014) para a Slate Magazine que a cultura do estupro é um termo essencial da análise antiestupro. Expondo seu desacordo com uma organização americana (a Rede Nacional de Abusos, Estupros e Incestos, RAINN, em inglês) que rejeita o termo, ela argumenta que “A cultura do estupro é um jeito muito útil de descrever a ideia de que estupradores têm licença social para operar, dada por pessoas que dão desculpas para as ações de predadores sexuais e culpam a vítima por seus próprios estupros”. Uma “licença social” é uma afirmação dramática sobre o quanto o estupro é aprovado e tolerado.

Lendo o post de Marcotte, porém, podemos chegar à conclusão de que, ao defender a frase cultura do estupro, ela não está realmente interessada em discussões baseadas em evidências sobre se o estupro é ou não tolerado na América do Norte. Seu interesse primeiro é proteger, através da retórica, o direito feminista de definir estupro do jeito que as feministas bem entenderem: em outras palavras, definir estupro como qualquer coisa que as feministas digam que é. Amanda Marcotte, devemos nos lembrar, foi contratada para ser a blogueira chefe para a campanha presidencial de John Edward em 2007 e é a mesma mulher que blogou sobre o caso em que três jogadores de lacrosse da Universidade Duke foram acusados falsamente de estupro em 2006.

Mesmo depois de retiradas as acusações contra os atletas, ela manteve a posição cáustica que os “tadinhos dos jogadores de lacrosse” não eram dignos da presunção de inocência: quer fossem considerados culpados ou não, eram sem dúvidas homens desprezíveis, moralmente culpados, se não legalmente. Por quê? Porque homens estupram mulheres, e mulheres nunca mentem sobre isso. Essa é a pedra fundamental do feminismo de crise do estupro que está por trás das discussões sobre a cultura do estupro.

Para Marcotte, o termo cultura do estupro é necessário para ressaltar “todas as razões culturais pelas quais estupradores não são considerados culpados” por seu comportamento. Aqui está sua lista dos assim-chamados mitos:

  • o mito de que acusações falsas são comuns;
  • o mito de que estupradores estão apenas confusos sobre o consentimento; e
  • o mito de que as vítimas partilham da culpa por beber demais ou se fazerem vulneráveis.

De acorde com Marcotte, somente atacando tais problemas culturais poderemos ver claramente que os estupradores sabem exatamente o que estão fazendo e puni-los por isso.

A lista de Marcotte demonstra o perfeito circulo da ilógica feminista em ação: se você acredita que só porque um homem foi acusado de um estupro não quer dizer que ele é realmente culpado, então, pela definição de Marcotte, você é parte da cultura do estupro por sugerir que a acusação pode ser falsa. Se você estivesse conversando com Marcotte, poderia interrompê-la e dizer: “Ei, espera aí, não estou falando de estupro, muito menos o apoiando. Eu estou falando de uma falsa acusação de estupro”.

Isso é um mito, diz Marcotte. Mulheres não mentem sobre o estupro (ou mentem, mas apenas em números estatisticamente insignificantes). No mundinho feminista de Marcotte, há apenas duas opções: o reconhecimento do estupro que existe ou a negação do estupro que existe. E se você “negar”, apoiando o mito de falsas acusações (mas leia Edward Greer sobre a realidade complexa das falsas acusações), você está fortalecendo a assim-chamada licença social do estuprador. Fortalecer a licença social do estuprador é perigoso, pois promove o estupro. Podemos ver quão facilmente está aberto o caminho para silenciar os críticos da cultura do estupro.

É à luz do confisco da análise razoável das afirmações feministas que se pode notar o escravismo pró-feminista do Mensagem Instantânea” de Allan Rock, Reitor da Universidade de Ottawa, em resposta ao incidente do Facebook e à investigação do time masculino de hóquei. A Mensagem Instantânea é o meio comum de comunicação de Rock com a comunidade universitária e é enviada por email. Sua declaração sobre a cultura do estupro em 6 de março de 2014 é conversa vazia politicamente correta de primeira classe, descartando entusiasmadamente a presunção de inocência dos membros do time de hóquei e pateticamente ansioso para declarar sua boa fé feminista ao ponto de proibir pensamento antifeminista.

Ao ressaltar que as alegações contra o time de hóquei “não são comprovadas”, Rock alinha-se com a posição da cultura do estupro ao supor que são quase certamente verdadeiras – pelo menos ao ponto de que revelam algo real e repugnante sobre a sexualidade masculina. Ele aponta que “essas alegações, juntamente com a perturbadora conversa online sobre a Srta. Roy, indicam a necessidade de uma discussão mais ampla” e “levantam questões problemáticas sobre atitudes e comportamentos”.

Deve-se perguntar o óbvio: como podem alegações não comprovadas indicar ou levantar questões sobre qualquer coisa? Elas podem continuar não comprovadas, caso em que não há nada apontado para lugar algum. É perturbador ver um reitor universitário alegando um problema em larga escala baseando-se apenas em uma conversa de Facebook e uma acusação sem provas. A presunção de que a sexualidade de jovens atletas homens, mesmo que não criminosa de fato, seja agressiva e perigosa a mulheres – merecendo denúncia e repúdio públicos – é uma reflexão da misandria de um funcionário da mais alta patente na universidade.

Entretanto, Rock faz ainda mais do que reconhecer “circunstâncias inquietantes”. Ele convoca uma Força Tarefa do Respeito e Igualdade. E ele deixa claro que ela terá ampla jurisdição. Aqui está uma das questões que lhe concernem:

Podemos ser mais claros ao dizer aos nossos alunos do primeiro ano, nossos funcionários ou professores recém-contratados que nós não aceitaremos palavras ou condutas que sugiram que tal violência seja aceitável.

Observe que “…nós não aceitaremos palavras ou condutas que sugiram…”.

Não “…nós não aceitaremos violência” ou “nós não aceitaremos apologia ou ameaças de violência…”.

Mas “…nós não aceitaremos palavras ou condutas que sugiram que tal violência seja aceitável”.

Uma área larguíssima, uma definição flexível e ampla do que a universidade não aceitará.

A implicação clara para homens no campus: nem pense em uma piada, um comentário, uma brincadeira, um cumprimento, um gesto, uma expressão facial, qualquer coisa absolutamente que possa “sugerir que tal violência seja aceitável”. A Universidade de Ottawa, assim como todas as universidades pelo país, já possui uma hiperativa e rigorosa política de assédio sexual que define assédio sexual largamente como “atenção sexual indesejada”, incluindo palavras. Mas a afirmação de Rock implica que ainda mais medidas regulatórias e punitivas podem ser necessárias para manter os homens na linha.

E se isso não vai longe o suficiente, as últimas palavras de Rock em sua “Mensagem Instantânea” são ainda mais marcantes: “Eu concluo dizendo que por mais terríveis que estes eventos e alegações tenham sido, eles foram um catalisador para uma discussão franca […] e um inventário destemido de nossas práticas e suposições”.

Além da fraude retórica desta afirmação – que palavras ele usaria, poderíamos nos perguntar, para um ato real de violência no campus que seria mais forte do que “apavorante”? – a determinação de Rock em conduzir um “inventário de suposições” é digna de nota.  Como um cidadão livre do Canadá, eu me reservo o direito de proteger minhas suposições do escrutínio de qualquer Big Brother Presidencial Universitário. A última coisa que uma universidade deveria estar inaugurando é um inventário de suposições. Violência e ameaças de violência são inaceitáveis. Pensamentos são livres. O fato de o reitor da Universidade de Ottawa não entender isso é perturbador.

Igualmente perturbador é que a mensagem do reitor – como a declaração da APUO e como a postagem de blog de Amanda Marcotte, assim como todos os modelos feministas de estupro e desigualdade sexualizada em que estão baseados – considera certo que a violência sexual é uma rua de mão única, com homens como autores e mulheres como vítimas.

“Violência dos homens contra mulheres”, assegura Rock, “é comum demais em nossa cultura, nosso entretenimento e nossas atitudes”. Em seu documento não é mencionado, porém, que homens também são vítimas de ataques sexuais (ver estudo de 2007 por D.A. Hines descobrindo a natureza transgênero do sexo coercitivo) e que os homens são mais propícios a serem vítimas da violência, de forma geral.

Por que o Reitor Rock está tão ansioso por oferecer às “mulheres, particularmente” um ambiente livre de assédio? Provavelmente nem vem à cabeça dele, ou às mentes de qualquer um de seus conselheiros, que homens também merecem compaixão e proteção. E não vai tranquilizar os homens igualitários lerem que “A Universidade de Ottawa é conhecida pela expertise de nossos acadêmicos feministas e analistas legais”. Esses acadêmicos-ideólogos quase certamente não têm nada a dizer sobre vítimas do sexo masculino, pois é muito improvável que eles sequer tenham consciência da vitimização masculina.

Em parte como resultado do sucesso da narrativa feminista – e em parte por outros motivos – os problemas dos homens são amplamente ignorados por uma sociedade treinada para acreditar que o sofrimento masculino importa menos que o feminino, isso se for sequer reconhecido. Se há uma cultura nos campi, pode certamente ser uma cultura de indiferença, e algumas vezes hostilidade escancarada, à vida dos homens. Nós não ouvimos quase nada sobre os desafios que os homens enfrentam no começo do século vinte e um: o fato, muito evidente para qualquer um que se importe em olhar, de que a proporção de jovens homens na universidade é mais baixa do que nunca e continua a decair.

Onde está o clamor público e as discussões sobre o fato realmente chocante de que os homens no campus agora estão totalmente ultrapassados em número pelas mulheres, na uma razão de quase 2 para 1? E quanto aos outros problemas: a alta taxa de suicídio entre homens jovens, particularmente homens na idade de graduação universitária; o desempenho pobre de garotos no nosso ensino fundamental; os vitalícios problemas emocionais e sociais de muitos garotos que cresceram sem pais; a depressão que muitos homens enfrentam como resultado de um divórcio e da perda do acesso aos seus filhos?

O ativismo feminista já obteve um sucesso extraordinário em criar um ambiente no campus com foco exclusivo sobre a segurança e perspectivas femininas em detrimento das masculinas. A SFUO (Federação dos Estudantes da Universidade de Ottawa) inclui em sua Declaração de Princípiosum encargo para “agir contra a opressão às mulheres [mas não aos homens]… e outros grupos desfavorecidos”, um propósito que foi usado por outros diretórios estudantis para recusar a aceitação de clubes de questões masculinos na Universidade de Toronto e Ryerson.

Como outras universidades canadenses, a Universidade de Ottawa tem um Centro para Mulheres (que serve às “diversas necessidades dos gêneros marginalizados”), mas não um Centro para Homens. O centro cola pôsteres da campanha “Não seja esse cara”, que alveja todos os homens como estupradores potenciais, especialmente de garotas embriagadas, mas não reconhece que os jovens são alvo de coerção sexual por mulheres. E vai quase certamente seguir o caminho de outras universidades ao promover novas diretrizes draconianas para definir o consentimento sexual das mulheres (mas não dos homens).

Como uma mulher beneficiada pelas políticas feministas que já viu homens altamente qualificados continuamente passados para trás em competições contratuais, experimentou a misandria automática de colegas feministas e testemunhou a humilhação de moços em salas universitárias no passado e no presente, eu não quero fazer parte do feminismo da crise do estupro. Neste momento, entretanto, seu status como a fé secular da universidade contemporânea parece deprimentemente assegurado.

Tradução: Guilherme Torres.

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