Os homens morrem na Ucrânia – E viva o feminismo?!

Aconteceu de novo. A mídia sueca fez seu melhor para encontrar alguma coisa feminista (ou ao menos aparentemente feminista) no fato de mais de 100 homens terem morrido e mais de 600 pessoas (na maioria homens) feridos durante os enfrentamentos violentos entre os manifestantes da EuroMaidan e as forças governamentais do governo ucraniano pró-Rússia do ditatorial Viktor Yanukovych.

O editor do jornal sueco Dagens Nyheter, Peter Wolodarski, escreveu em seu último texto1 que os atos violentos que ocorreram em Kiev foram “de fato” os piores na Europa desde os conflitos nos Bálcãs. Wolodarski então tenta dar uma linha de tempo dos eventos que ocorreram nos últimos 4 meses na Ucrânia de forma a não ofender a delicada sensibilidade que governa a mídia sueca.

Ele escolheu inserir uma citação cuidadosamente selecionada de um artigo publicado no NY Books2 por Timothy Snyder que diz:

A diversidade da Maidan é impressionante: o grupo que monitora os hospitais de forma que o regime não possa raptar os feridos é liderado por jovens feministas. Uma importante linha para denúncias usada para os manifestantes quando precisam de ajuda é atendida por uma equipe de ativistas LGBT.

Há pelo menos dois problemas com essa citação. O primeiro deles: é simplesmente mentira.

Não há feministas administrando nada na EuroMaidan, nem agora, nem há algum tempo já – desde muito antes de a violência aumentar. Feministas, segundo suas próprias declarações (através de vários informativos como o OtherNews, The Nation, sites anarco-comunistas/sindicalistas, etc.) abandonaram a cena no final do ano passado. Elas perceberam que a EuroMaidan, como um todo, acha indevido gritar motes como “Liberdade, Igualdade, Sororidade” ou “Europa é educação sexual” enquanto enfrentam problemas bem maiores como o governo enviar mensagens de texto orwellianas para qualquer cidadão que ouse andar pelas ruas e expressar alguma discordância com o Estado.3

O fato de um intelectual estadunidense ter entendido as coisas parcialmente errado em se tratando das coisas que acontecem no leste europeu não é novidade para qualquer um envolvido em pensar e observar. O relato de Timothy Snyder tentou contradizer a demonização contra os manifestantes da EuroMaidan que acontecem desde que a imprensa de língua inglesa durante o mês anterior com um artigo sensato. Mas, intencionalmente ou não, a consequência foi dar forragem ao stablishment feminista sueco e possibilitar ao Dagens Nyheter outra pirueta.

Isso nos leva ao segundo problema com a citação: O fato de que Peter Wolodarski deveria ter melhor capacidade de análise.

Peter Wolodarski nasceu na Suécia, mas é filho do relativamente conhecido arquiteto Aleksander Wolodarski, que saiu da Polônia Comunista no final dos anos 60. Dada essa conexão, o pai dele poderia contar-lhe o que é viver sob um regime autoritário e como o feminismo é visto no leste europeu. Isso deveria fazê-lo pensar duas vezes e checar a veracidade da afirmação feita pelo Sr. Snyder. Isso deveria ser capaz de dar-lhe uma perspectiva mais honesta.

A verdade é que, além do FEMEN e alguns poucos indivíduos de tendência anarco-comunista, não há feminismo na Ucrânia. E ambos os grupos são desmoralizados aos olhos de praticamente todo o povo ucraniano.

Os anarco-comunistas (ou anarco-sindicalistas, como eles às vezes chamam a si mesmos) têm resmungado em vários fóruns que abriram para eles a porta de saúda quando tentaram subverter a Euromaidan dizendo que a “extrema-direita” (o que quer que isso seja) os está oprimindo.

Informativos como The Nation rapidamente começaram a pintar todos na Majdan como um bando de extremistas violentos.

E quem é o extremista? Um punhado de homens desarmados sendo eliminados por atiradores treinados, por ousarem discordar do Estado?4 Ou talvez os professores de música, os violinistas, advogados ou o ex-esportista que tiveram a ousadia de discordar do Estado?5

A realidade é que se pode melhor entender a EuroMaidan quando se vê as filmagens sem edição que foram (e algumas ainda são, enquanto este artigo é escrito) pela internet, diretamente do local dos conflitos. Isso nos possibilita a chance de ver além do que os ideólogos de qualquer matiz querem que vejamos ou ouçamos. E eu, por exemplo, após mais de um mês vendo e ouvindo atentamente horas de filmagens ao vivo de Kiev e outras cidades ucranianas, nunca vi evidência da maioria do que os jornais me contam sobre o que está acontecendo na EuroMaidan.

Feministas e mulheres são palavras usadas de forma intercambiável pelas mentes da maioria dos jornalistas dos grandes veículos na Suécia. Mas se Peter Wolodarski realmente quisesse falar sobre o envolvimento das mulheres na EuroMaidan, ele provavelmente deveria ter mencionado que as mulheres foram explicitamente solicitadas a sair de lá antes que a violência aumentasse, tanto pelos líderes dos protestos6 quanto pelas forças governamentais.7 E uma porção significativa delas escolheram ignorar o aviso e ficaram lá para oferecer comida, chá quente8 e preparar coquetéis molotov.9 Curiosamente, este fato permaneceu inexplorado pela mídia feminista e é tentador especular a razão disso.

Não é a primeira vez que eu vejo essa narrativa, nem será a última.

Durante a Primavera Árabe, a mídia da Europa ocidental (especialmente a sueca) propagou farsas semelhantes, afirmando que as mulheres estavam no fronte da luta por liberdade – quando os homens eram os únicos lutando e sofrendo as consequências (sendo mortos e feridos). Em um dos poucos protestos dominados por mulheres egípcias, o canto favorito foi:10

Arrastem-me, me dispam, o sangue dos meus irmãos me cobrirá!

O artigo do NY Times de onde foi tirada a citação tem até a audácia de dizer que mulheres “ficaram no fronte da rebelião inicial.” É assim que as mulheres ficam no fronte de uma revolta? Exigindo que mais sangue de homens seja derramado?

Indo um pouco mais atrás no tempo, durante a guerra do Kosovo, a mídia ocidental literalmente apagava11 os homens de todas as reportagens – mesmo quando os homens eram mortos unicamente por serem homens e mulheres estavam sendo levadas para longe do perigo apenas por serem mulheres.

Para adicionar insulto à ofensa, organizações como a Women for Women UK aproveitam o ensejo, até hoje, para comemorar o massacre de Srebrenica (no qual homens foram mortos em massa por serem homens) a fim de discutir… o sofrimento das mulheres.12

Vou ser claro: eu tenho um grande respeito pelas mulheres da Ucrânia, que não se submeteram à narrativa feminista e não quiseram tirar da manga a cartinha de gênero quando a sujeira começou a bater no ventilador. Elas mereceram meu respeito e o respeito de dezenas de milhões de leste-europeus que estiveram na situação que os ucranianos estão agora.

Mas existe também uma verdade fundamental que não pode e não deve ser apagada ou disfarçada. A verdade é que os homens, e especialmente eles, são os que fazem as revoltas contra os regimes tirânicos e são os homens, e virtualmente só eles, que irrigam a da liberdade com seu próprio sangue, para que ela possa brotar.

Se você é um jornalista e essa verdade ofende você, ou pior, você explicitamente se recusa a reconhecê-la, como é o caso de Peter Wolodarski, então você é parte do problema.

Como escreveu Gustav Evensen, editor da AVFM Suécia:13

O dia que eu ler na grande mídia que “existem homens no fronte lutando pela liberdade” em qualquer contexto do dia, eu vou começar a acreditar que existe esperança de igualdade na Suécia.

Gustav está sendo gentil. O problema maior que a falta de igualdade na mídia é a propensão escancarada a mentir. Não seria (necessariamente) evidência de igualdade se a grande mídia escrevesse sobre os homens estarem à frente da luta por liberdade – mas seria definitivamente evidência de a mídia estar se tornando a ser mais verdadeira. Infelizmente, nós não só perdemos o equilíbrio no jornalismo (se é que algum dia o tivemos), como perdemos de vista até as verdades que seriam parte do senso comum mais básico. E por isso parte da culpa é de Peter Wolodarski!

Referências:

[1] http://www.dn.se/ledare/signerat/peter-wolodarski-moskvas-man-skjuter-medan-putin-ser-pa-os/ – Peter Wolodarski: Moskvas män ­skjuter medan Putin ser på OS, published in Dagens Nyheter, 24.02.2014 (in Swedish)
[2] http://www.nybooks.com/articles/archives/2014/mar/20/fascism-russia-and-ukraine/?insrc=hpss – Timothy Snyder – Fascism, Russia, and Ukraine, published in NY Books, 19.02.2014
[3] http://motherboard.vice.com/en_ca/blog/maybe-the-most-orwellian-text-message-ever-sent – Brian Merchant – Maybe the Most Orwellian Text Message a Government’s Ever Sent, published in Vice, 21.01.2014.
[4] http://www.dailymail.co.uk/news/article-2563609/Truce-Kiev-collapses-hours-official-day-mourning-28-people-killed-protests-erupts-violence.html – Ted Thonrhill –Harrowing footage emerges of UNARMED protesters being cut down by sniper fire on a day of violence in Kiev that has brought today’s death toll to at least 70, published inDaily Mail, 20.02.2014
[5] http://www.nytimes.com/2014/02/22/world/europe/growing-support-and-tea-from-young-women-embolden-kiev-street-fighters.html – Andrew E. Kramer – Growing Support, and Tea From Young Women, Embolden Kiev Street Fighters, published in The New York Times, 21.02.2014
[6]http://www.montrealgazette.com/news/opposition+demonstrator+holds+Molotov+cocktail+during+clashes+with+police+Kiev+February+2014+Opposition+leader+Vitali+Klitschko+Tuesday+urged+women+children+leave+opposition+main+protest+camp+Kiev+Independence+Square+known+Maidan+riot/9521200/story.html– “We ask women and children to quit Maidan as we cannot rule out the possibility that they will storm (the camp),” – Opposition leader Vitali Klitschko.
[7] http://www.france24.com/en/20140218-live-ukraine-kiev-protesters-killed-clashes-police/
[8] ibidem 5
[9] http://www.ynetnews.com/articles/0,7340,L-4490282,00.html
[10] http://www.nytimes.com/2011/12/21/world/middleeast/violence-enters-5th-day-as-egyptian-general-blames-protesters.html
[11] http://adamjones.freeservers.com/effacing.htm – Adam Jones, Ph.D. – Effacing the Male: Gender, Misrepresentation, and Exclusion in the Kosovo War, Published in:Transitions: The Journal of Men’s Perspectives, 21: 1-3 (2001)
[12] http://www.womenforwomeninternational.org.uk/blog/in-the-country-2013-peace-march-in-bosnia-and-herzegovina/
[13] http://se.avoiceformen.com/nytt/feminister-och-hbt-aktivister-i-ukraina-lyfts-fram/– Gustav Evensen – Feminister och HBT-aktivister i Ukraina lyfts fram, Published in: AVFM Sverige, 24.02.2014 (in Swedish)

 

Nota editorial: “Euromaidan”  também se escreve “Euromajdan” em várias fontes. A última versão parece ser mais próxima da escrita nativa dos manifestantes. –Dean Esmay

 

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