Entrevista do “masculinista” Aldir Gracindo a Marina Finco, estudante de Jornalismo

A estudante de Jornalismo Marina Finco enviou as seguintes perguntas para o editor do AVfM Brasil, Aldir Gracindo no dia 15 de setembro (Marina considerou Aldir um “masculinista”, talvez porque a revista Época disse que “xs estudiosxs” dizem que esse é o rótulo que deve ser designado a nós. E se a revista disse, deve ser verdade. Ou não?):

 

Olá!

Como está, Aldir?
Meu nome é Marina, eu sou estudante Jornalismo da Universidade Metodista de São Paulo. Estou fazendo meu TCC – uma revista online feminina. Um dos artigos será sobre o masculinismo, como ele funciona e quais são as suas reivindicações.
Você faria a gentileza de responder a algumas perguntas?
– Quando o movimento começou?
– É verdade que o movimento começou como uma forma de ajudar as mulheres? Se for assim, por que ele mudou tanto?
– Quais são as reivindicações do movimento?
– Vocês odeiam as mulheres?
– Por que você acredita que o feminismo representa um perigo para a sociedade?
– Quais são os direitos dos homens que o feminismo pode ameaçar?
– Você acha que as mulheres já alcançaram a igualdade? Se assim for, agora é hora dos homens experimentarem algumas regalias que só as mulheres podem desfrutar – como, por exemplo, a licença maternidade e a não obrigatoriedade de se alistar?
– Você acha que os homens são reconhecidos como criminosos cada vez que um crime sexual acontece sem ser dada a oportunidade para eles se defenderem? Por quê? Como isso poderia mudar?
– Nome, cargo, idade.
Obrigado pela sua atenção!
Por favor, responda, mesmo que seja para dizer não.
Att,
Marina Finco
(11) xxxx-xxxx

Estas foram as respostas, enviadas por Aldir por e-mail:

Oi, Marina, tudo bem aqui, espero que com você e os seus também!

Posso responder as perguntas para seu TCC, sim:
– Quando o movimento começou? 
O Movimento dos homens tem uma história bem recente. O que nós levantamos leva a no máximo cento e poucos anos. As pautas desde o início têm a ver com discriminações legais específicas em relação aos homens, como alistamento e conscrição, prisões de pais separados em dificuldades financeiras, como até hoje ocorre no Brasil (um último exemplo famoso e recente foi o caso do Marcos Oliver), ou pensão para ex-mulheres no que isso é injustificável, ou impostos específicos para homens (como até hoje ocorre com a aposentadoria, onde todos os homens subsidiam a aposentadoria de todas as mulheres, como se todos eles fossem beneficiários a vida inteira de serviços domésticos de todas elas).
Temos mais informações sobre a história internacional do movimento no nosso site no Brasil e no site internacional (em inglês) também.
– É verdade que o movimento começou como uma forma de ajudar as mulheres? Se for assim, por que ele mudou tanto?
Em parte é verdade. Explico:
Para começar, por clareza, eu não sou masculinista. Sou uma pessoa interessada em direitos humanos que defende também direitos dos homens e meninos e faço isso de forma ativa, escrevendo e editando um site e outras atividades. Alguns feministas vão dizer que somos masculinistas, alguns masculinistas vão dizer que somos feministas. Somos também acusados de sermos marxistas culturais, gayzistas, etc. Não sou masculinista, nem feminista, porque não me identifico assim e não abraço as ideologias predominantes nem em um lado, nem no outro. Sempre que se vê grupos masculinistas dentro do movimento dos homens, há uma tendência de visão unilateral e/ou ideologizada (se quiser mais detalhes sobre isso, eu posso dar hiperligações para artigos onde isso está explicado, inclusive na entrevista que eu dei à Época e que foi infelizmente distorcida).
A verdade parcial nisso é que houve um movimento de feministas, nos anos 60-70, que se dedicavam a apoiar o movimento feminista (na época chamado de “women’s lib”, “women’s liberation” ou movimento de liberação das mulheres – quanto a papéis tradicionais e expectativas limitadoras) que militavam também no que o movimento feminista dizia, e por vezes ainda afirma, querer: a liberação dos homens, tanto quanto das mulheres, de papeis tradicionais que sejam limitadores e/ou preconceituosos. Com o tempo, no entanto, feminismo se tornou focado SÓ nos problemas das mulheres e a ideia de que os homens só poderiam ser “machistas em desconstrução”, que nós vivemos num sistema de opressão política e cultural criado pelos homens para os homens à custa das mulheres, preponderou. Quem insistiu no movimento “unisex” teve que sair ou foi devidamente silenciado(a), estigmatizado(a) e/ou marginalizado(a). Mas algumas pessoas insistiram em ser feministas e defender também igualdade e direitos para homens e meninos, são pessoas chamadas de “feministas esperançosos(as)”. É o caso da Dra. Christina Hoff Sommers, por exemplo, autora dos livros “Who stole feminism” e “The war against boys”.
Ou seja, o movimento dos homens não começou no feminismo, mas parte dele sim. Muitos que defendem direitos dos homens, ou Direitos Humanos dos homens, são ex-feministas, como eu próprio, ou ainda se consideram feministas. Mas não todos.
– Quais são as reivindicações do movimento? 
Temos muitas frentes. Basicamente, o que queremos é o fim de um conjunto de discriminações e estereótipos negativos sobre os homens, meninos e a masculinidade. Estereótipos e preconceitos jurídicos e culturais sobre os homens serem, simplísticamente, os criadores e supostos beneficiários de tudo de ruim (inclusive contra quando eles são vítimas diretas) e de nada de bom, a fonte de toda violência e guerras, os espancadores, os donos opressores do mundo, os estupradores, os psicopatas, e as mulheres, crianças e mesmo meninos serem vítimas dos homens e de um sistema sócio-político-social maligno que teria sido criado por eles, chamado por ideólogos de “Patriarcado” ou “Machismo”.
– Vocês odeiam as mulheres? 
Essa é uma pergunta curiosa e muito comum, devido ao trabalho de certos fanáticos e/ou desonestos formadores de opinião. A resposta, claro, é NÃO. Eu, que sou editor do AVFM no Brasil e membro do Movimento por Direitos Humanos dos Homens e Meninos, tenho muitas mulheres e meninas queridas na minha vida. Sou entusiasta da importância dos diferentes grupos de pessoas na sociedade, não só dos homens, meninos, pais e trabalhadores. O que eu e o movimento por direitos dos homens repetimos sempre é que não existe igualdade para um lado só, o conceito de igualdade em si envolve isso, necessariamente (a igualdade possível, desejável e cidadã, claro, porque nós somos evidentemente todos diferentes).
Mas alguns misóginos vêem ao movimento dos homens. Alguns, inclusive, com muito rancor, ressentimento, mágoa, porque movimentos que falam em justiça social atraem pessoas magoadas, enganadas, maltratadas e/ou injustiçadas ou mesmo adoecidas. A questão é como vamos lidar com isso, até onde e como a revolta, a raiva, o ressentimento, devem ter sua voz e lugar e serem úteis para essas pessoas, para nós e para todos.
– Por que você acredita que o feminismo representa um perigo para a sociedade? 
O feminismo se tornou dominado por uma ideologia de ódio. O que o movimento produz dificilmente se desvencilha disso, como frutos produzidos por uma árvore envenenada. A Lei Maria da Penha, por exemplo, a Justiça de proteção à Mulher, as delegacias da mulher, as secretarias e conselhos da mulher, o feminismo militante instalado em todas as Universidades, corroem garantias constitucionais dos homens, pais, meninos e estudantes, como a presunção de inocência, a ampla defesa, o direito de não ser julgados por um tribunal de exceção, o devido processo legal.
E a sociedade em geral não se importa, por isso mesmo isso acontece. Você me perguntou se nós odiamos mulheres e eis aí um motivo para não odiar as mulheres: a sociedade como um todo não se importa, atualmente, que homens sejam difamados, demonizados, retratados como monstros criadores e usufruidores de uma alegada “cultura de estupro”, que o homem seja visto como mais imoral e desleal que a mulher, o pai seja visto injustamente como o espancador, o pedófilo, o estuprador, o opressor da família. Trata-se de uma cultura que o movimento feminista contribuiu no que pôde para estabelecer. Não que o feminismo seja a origem única dos problemas dos quais falamos. Mas criticar o feminismo, os homens, as mulheres, certos tradicionalismos e modernismos quando se defende esse princípio que hoje se tornou tão polêmico: que os direitos dos meninos e homens também são direitos humanos.
– Quais são os direitos dos homens que o feminismo pode ameaçar?
Não ameaça, já corroeu. Os que eu mencionei acima.
– Você acha que as mulheres já alcançaram a igualdade? Se assim for, agora é hora dos homens experimentarem algumas regalias que só as mulheres podem desfrutar – como, por exemplo, a licença maternidade e a não obrigatoriedade de se alistar? 
Eu penso que igualdade total é um ideal, não é realmente algo alcançável. Mas no que for possível, justo, útil e desejável, em termos de cidadania, em liberdade e responsabilidade, direitos e deveres e até mesmo expectativas sociais, devemos discutir a respeito e buscar. Combater a alienação parental, a discriminação legal, jurídica, tributária, institucional contra qualquer homem, adolescente e menino é parte disso. A maioria dos crimes violentos motivados por homofobia são contra homens e meninos, por que? A maioria dos crimes violentos motivados por racismo são contra meninos e homens, por que? Não é simplesmente por causa do “machismo”, como não é por causa do “homossexualismo”, nem do “negrismo”. Racistas, homofóbicos, misóginos e feministas, não por coincidência, procuram culpar as vítimas de forma bem simplista.
Os homens são o único grupo de cidadãos que deve comprometer sua vida com alistamento e conscrição, por que? Para que? A quem interessa, a quem pode beneficiar tanta certeza de que é natural que nós nunca falemos de homens em termos de direitos, mas sempre sobre as responsabilidades e liberdades deles, como se eles fossem tão desprezíveis, quando eles, na sua ampla maioria, não são dessa forma abjeta como queremos vê-los? Por que não nos importamos que eles estejam sendo excluídos do sistema educacional, das políticas sociais de emprego, renda, moradia e saúde?
– Você acha que os homens são reconhecidos como criminosos cada vez que um crime sexual acontece sem ser dada a oportunidade para eles se defenderem? Por quê? Como isso poderia mudar? 
Os homens não são “reconhecidos como criminosos” quando são injustamente acusados, eles são tachados de criminosos. Homens acusados de estupro, pedofilia e violência doméstica são facilmente presumidos como culpados e isso é ilegal, inconstitucional e imoral. Mas na nossa cultura atual, isso passou a ser legal, constitucionalizado e um ideal de “empoderamento” abraçado por políticos corrompidos por populismo barato em todas as esferas do executivo, legislativo e judiciário.
Isso ocorre porque há 50 anos associamos a masculinidade a toda a malignidade, e isso nos custa caro. Falamos sobre a maioria dos crimes serem cometidos por homens, mas não falamos que os homens, em geral, são os organizadores e efetivadores da segurança dos outros, inclusive à custa das próprias vidas. Falamos que a maioria dos pedófilos presos são homens, mas não que a maioria desses presos sofreram abuso sexual por parte de mulheres quando crianças e que nós ignoramos tanto as pedófilas que nem flexionamos a palavra no feminino. Você consegue imaginar um mundo onde se falasse constantemente do lado obscuro da mulher, como elas matarem os próprios filhos mais de 2x mais que os homens e outros fatos tenebrosos, mas se omitisse que elas são, majoritariamente, as cuidadoras e protetoras de crianças, até que ninguém mais mencionasse isso e se mencionasse, fosse rechaçado? Eu acho que seria absurdo. Nós temos esse absurdo acontecendo com os homens e meninos e, como vemos isso sempre há muito tempo, não notamos mais. Nós não notamos mais o que vemos todos os dias, como os turistas que uma vez tiraram uma foto ao lado de um homem deitado no chão, um aparente mendigo, que por acaso estava morto.
É um problema cultural que mata, aprisiona, cria órfãos de pais vivos, leva ao consumo de drogas, à violência, criminalidade, suicídio inclusive de crianças e adolescentes. E dificilmente se vê alguém se importando com isso. Será que as pessoas pensam que se pode envenenar metade de um poço? As pessoas acham mesmo que ter programas de TV  onde nos divertimos vendo homens sendo representados num bolinho de casamento sendo desmembrados, torturados e decapitados, quando jamais aceitaríamos isso com os gêneros invertidos, não vai se voltar contra todos nós, homens, mulheres, meninos e meninas?
Eu acho que deveríamos nos importar, sim, e muito!
Para mudar isso, vamos ter que mudar muito a nossa mentalidade. E setores conservadores e “progressistas”, quase todo o movimento feminista, juntamente com seus fantoches nos gabinetes políticos e nos meios de comunicação, vão fazer o possível para impedir, porque lucram com isso.
– Nome, cargo, idade. 
Aldir Gracindo, educador, ativista por direitos humanos especializado em homens e meninos, editor do A Voice for Men Brasil e representante do Dia Internacional do Homem no Brasil, 42 anos.
Forte abraço!
Aldir.

3 thoughts on “Entrevista do “masculinista” Aldir Gracindo a Marina Finco, estudante de Jornalismo”

  1. Eu arisco a sugestão de que a pergunta “Você(s) odeia(m) mulheres?” deveria exigir uma retaliação mais severa, algo do tipo “Evidentemente NÃO! Mas eu odeio essa pergunta cretina!” pelo menos.

    Digo porque tal pergunta pressupõe ou uma extrema estupidez, ou mais provavelmente má-fé ativa, quase certamente já contaminada por psicopatia feminista, únicas que tentam igualar, quando lhes convém, feministas a mulheres e que extraem sempre o “ódio” de qualquer discurso crítico, visto que partem também do pressuposto de que o feminismo deve ser incriticável.

    Pessoalmente o dia que me fizerem essa pergunta eu nem irei responder, já partirei pro contra ataque, até porque normalmente não é um pergunta. O inquiridor já parte desse pressuposto e ignorará sua negativa.

    1. Já é um frame e rotulação atribuir misoginia ao discurso que defenda direitos de homens e meninos assim como oposição ao feminismo. Normalmente tentam tornar a pessoa anti-feminista em alguém maligno que piora a sociedade por opor-se ao modismo de apoiar o feminismo.

  2. Gostei da matéria. Li e gostei da citação dos problemas que o feminismo e a misandria institucionalizada causam para o sexo masculino.

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