Eis que “Papo de Homem” quis me ouvir sobre questões masculinas

Em 17 de outubro de 2018, recebi um email de Ismael dos Anjos, do site “Papo de Homem” com a seguinte proposta:
Oi, Aldir. Tudo bem?

Em 2016, o PapodeHomem e a ONU se uniram para a realização de uma grande pesquisa e um documentário chamado “Precisamos falar com os homens?“. Se tornou um estudo nacional, com mais de 20 mil respostas (cujo relatório pode ser acessado publicamente nesse link) e um filme com mais de 100 mil visualizações no YouTube e que hoje é exibido em encontros sobre o tema e pelo canal a cabo GNT.

O PdH é um projeto independente que se dedica às masculinidades há 11 anos. Somos uma rede com mais de 500 autores e autoras voluntárias, que acreditam nessa razão de ser.

Agora, em 2018, nós lançamos a uma nova iniciativa. Dessa vez, no entanto, a pesquisa e o documentário serão construídos a partir da perspectiva das masculinidades.

Os três grandes eixos de nosso projeto são:

  1. educação: como os meninos brasileiros estão sendo criados/educados, como se constróem as masculinidades?

  2. obstáculos e anseios / comportamentos saudáveis em surgimento: quais as principais questões  relacionados às masculinidades (problemas, obstáculos, dores) fazem parte do cotidiano dos homens brasileiros hoje? Quais comportamentos estão mudando e em que quantidade? (mergulhando em diferentes regiões, classes, idades…)

  3. caminhos práticos de transformação: mapear e apresentar as iniciativas de transformação do masculino que já existem em diferentes locais do Brasil, assim como as pessoas por trás — mostrando como elas funcionam, quais resultados geram na prática e como poderiam ser ampliados ou reproduzidos.

Antes de partir para uma pesquisa quanti e para as gravações do documentário, iremos conduzir uma pesquisa quali sobre o tema de gênero sob essas perspectivas.

O documentário e o relatório da pesquisa serão públicos, para que universidades, escolas, ONGs e órgãos públicos possam se beneficiar dos achados.

Para isso, gostaríamos de falar com especialistas (acadêmicos, ativistas, profissionais) que pensam e lidam com as questões de gênero, pessoas que vivem na pele diversas questões relativas às masculinidades e também pessoas que se opõem às mudanças e movimentos de transformações.

Seu nome surgiu nesse contexto, e gostaríamos de escutar mais sobre a sua perspectiva, como representante do A Voice for Men no Brasil.

Nessa etapa, as entrevistas terão duração de aproximadamente uma hora e podemos fazer por Skype/Zoom conforme sua disponibilidade. Você tem interesse e topa participar? Há algum horário que funciona melhor  para você nesta ou na próxima semana?

Obrigado,

Ismael dos Anjos

Editor Chefe do PhD Insights.

A mensagem do Papo de Homem não chegou em boa hora. Fora os problemas normais da vida, eu estava, mais uma vez, considerando seriamente abandonar toda essa discussão de sites sobre questões masculinas e as dores de cabeça envolvidas.

Também, não quis dar entrevista, exceto se pudesse gravá-la para mim. Infelizmente, estes não são tempos, absolutamente, de se confiar em jornalistas. Menos ainda jornalistas de um site que, a meu ver, se vendeu à ideologia de ódio feminista já há muito tempo. E especialmente para a “ONU” – leia-se especificamente “ONU MULHERES”, um antro de feminismo que eu aprendi a deplorar.

Mas, mesmo absolutamente não muito satisfeito, mas para tentar não me negar a uma proposta de boa-vontade para um mínimo de diálogo, respondi perguntas escritas ao Ismael e à Caroline Bambuy.

Não sei como ou se serão usadas pelo Papo de Homem e/ou ONU Mulheres. As perguntas e respostas foram as seguintes:

  1. Você pode se apresentar brevemente?

Sou o Aldir, sou professor e editor do AVFM em idioma português.

  1. Você consegue identificar algum acontecimento em sua vida que influenciou você trabalhar como editor do A Voice for Men Brasil? O que te levou a se definir como um ex-feminista?

Ter sido um apoiador e entusiasta do movimento feminista foi o que mais me levou a ser não só ex-feminista, como antifeminista. Porque todos os objetivos declarados do feminismo, inclusive a autodefinição que está em qualquer dicionário (“movimento que luta pela igualdade de direitos e deveres entre homens e mulheres”) é falsa. Falsa não só na prática como nas teorias feministas. O feminismo pensa, age e busca objetivos de um movimento de ódio. Evidentemente, feministas não “odeiam homens”, porque não é assim que movimentos e doutrinas organizadas de ódio funcionam, nem mesmo o nazismo. O feminismo tem várias, inúmeras narrativas de ódio, vale dizer, para justificar o ódio a homens: Homens seriam privilegiados, opressores, carregam uma dívida histórica, são o pior perigo para as mulheres. Pesquisas corrompidas como a do “wage gap”, da “cultura do estupro”, etc. Como um acontecimento singular, na verdade foram muitos ao longo da vida toda, eu demorei muito para aceitar que feminismo não é o que feminista diz que é. Foram várias gotas d’Água, porque o meu balde, figurativamente falando, foi muito grande. Posso porém dizer, sem dúvida, que os principais eventos que realmente me fizeram mudar inteiramente foram as reações que feministas têm quando qualquer problema que os homens têm por serem homens é mencionado ou quando emerge qualquer notícia atinente, como caso de homicídio de homem pela companheira. Se vê que feministas vêm de uma base narrativa persistentemente construída e essa narrativa é uma narrativa de ódio. Esta narrativa não só perverte e transtorna toda a possibilidade desses feministas de verem empaticamente homens e meninos como seres humanos como é uma narrativa entregue constantemente à sociedade como um todo. A narrativa de ódio feminista se desdobra em inúmeras narrativas menores que suportam o fundamento anti-homem (o que inclui jornalismo ativista, pesquisas com metodologia corrompida, mentiras por omissão e apresentação de fatos que convém à narrativa.

  1. O que é o Movimento por Direitos Humanos dos Homens e Meninos? Como funciona e atua? Você acredita que os direitos dos homens e meninos não são também tratados como direitos humanos? Por qual motivo? Esse artigo aqui — “Existe uma crise dos meninos?” — também se conecta com o tema e pode ser interessante escutar sua perspectiva sobre.

O Movimento por Direitos dos Homens tem já muitas décadas de história, embora seja pouco conhecido. Nós agimos em diversas frentes como podemos, como ocorreu no caso em que conseguimos a aprovação da Lei da Guarda Compartilhada no Brasil, por exemplo, juntamente com pais divorciados alienados. O problema da misandria é que a invisibilidade do problema e sua seriedade, relevância, e consequências, é invisível devido à própria misandria. E “os feminismos” sempre atuam contra qualquer ativismo por dignidade masculina, saúde masculina (como ocorreu com a iniciativa “movember” e todas as outras). A lógica é aquela do “jogo de soma zero” e pior ainda: Não só tudo que se faz pelos homens e meninos é claramente definido como uma perda para as mulheres e meninas, é visto como uma violência em si e um estímulo a todas as “violências sistêmicas do patriarcado” contra as mulheres. O AVfM entra nisso no sentido de combater algo fundamental contra os homens e meninos: A narrativa feminista da opressão.
Evidentemente, os direitos do “opressor”, nessa perspectiva de que tudo que for feito por esses direitos só vai “empoderar a classe opressora” não vão ser tratados como direitos humanos. O artigo se conecta com a nossa perspectiva sim,  Warren Farrell é um dos “pais” conceituais do movimento pelos direitos dos homens. Por isso mesmo ele é caluniado e difamado por feministas e segou a ser acusado (falsamente), entre outras coisas, de apologista do estupro.
  1. Como incluir os direitos dos homens na discussão sobre homens e mulheres, sem isso ser interpretado como um ataque às mulheres?

Não vai ser incluído. O que acontece, na maioria das vezes é que pegam qualquer discussão sobre questões masculinas e transformam em uma discussão sobre a “opressão sistêmica violentíssima” contra as mulheres. Isso ocorreu recentemente em uma discussão no Congresso sobre guarda compartilhada de filhos após o divórcio, por exemplo. Por essa postura persistente, repleta de alarmismo e histeria do ativismo ideológico feminista é que todo o ativismo por direitos humanos masculinos é, de fato, antifeminista.
  1. Quais são os obstáculos para sua mensagem alcançar mais pessoas, em sua opinião?

Principalmente, as pessoas não enxergam que existam questões, discriminações ou desvantagens contra os homens. Quanto maior a formação delas, aliás, menos elas vão perceber porque infalivelmente terão tido um bom nível de “formação feminista” que reforça a não-percepção disso. Se percebem, não acham sério. Se acharem sério e vierem a falar a respeito, terão contra si reações, não só do sistema cultural que já é tradicionalmente avesso a essas discussões, como terão o sexismo turbinado gerado pelo ativismo feminista há mais de um século.
Concordo com Farrell, a dificuldade de ver os problemas dos meninos e homens tem raízes pré-feministas, já que a descartabilidade masculina, o treinamento dos meninos e homens para se distanciarem dos próprios sentimentos e mais ainda da expressão deles e o treinamento da sociedade para não ter a mesma empatia pelos meninos e homens faz parte da estratégia de sobrevivência das sociedades humanas. Então, é um problema com raízes culturais e também biológicas. Não que nós não sejamos capazes de mudar isso, só é inédito demais e intuitivo de menos.
  1. Quais dores dos homens, com dados e fatos, vocês acham que as pessoas deveriam conhecer? Se puder nos listar as principais e mais relevantes, seria ótimo.

A lista é bem grande, mas eu posso citar:
– A mutilação genital (que inclusive é promovida pela ONU Mulheres no continente Africano);
– A misandria jurídica, com as penas estatisticamente mais altas para homens pelos mesmos delitos cometidos, o presunção de culpa de homens acusados por mulheres, a alienação parental com apoio de juízes e outros operadores do sistema jurídico;
– A evasão escolar, por trás da qual há uma discriminação sistematizada contra os meninos;
– A desvalorização da paternidade na vida das crianças;
– O nosso descaso sistêmico em relação à saúde masculina – incluo aqui, além da absurda falta de investimento e pesquisa, as campanhas de inspiração feminista que, em vez de estimular os homens em pior situação social a ir na direção contrária à da descartabilidade masculina já mencionada, se dedicam a ridicularizar e “desconstruir” a masculinidade (por exemplo, um anúncio é uma pequena janela para se enviar uma mensagem, dever-se-ia imaginar qual o problema de se mandar a mensagem oposta para o público-alvo: Recentemente, uma campanha do Ministério da Saúde dizia em grandes letras: “Homem que é homem contrai câncer no pênis” e depois, mais embaixo, dizia o contrário, “homem de verdade . A campanha recebeu muitos comentários de crítica e essas críticas receberam muitas respostas a essa preocupação na linha: “Nossa, mas que masculinidade frágil!” Nem preciso mencionar de onde vem essa noção “iluminada” de que uma preocupação como essa significa “masculinidade frágil”);
– o AVfM se dedica a um problema fundamental, que é são as narrativas antimasculinidade, além de abordar outras manifestações da misandria. A “narrativa” não só barra a percepção dos problemas masculinos, como cria aversão à mera menção deles e produz novos problemas que atingem aos homens primeiro e, por consequência, atingem a todos.
  1. Masculinidade tóxica tem sido uma abordagem bastante comum ao falar sobre masculinidades, a ponto disso quase se tornar um sinônimo, como se todo homem fosse tóxico — como explicado nesse artigo aqui. Qual sua opinião à respeito?

Não é por acaso essa generalização de toda a masculinidade como sendo “tóxica”, como mencionei. Existem comportamentos masculinos cuja mudança devemos incentivar junto com reflexão, como a falta de cuidados com a saúde e vários outros. Mas, fazer isso na perspectiva feminista da “opressão patriarcal” transforma as iniciativa em frutos de árvore envenenada. Por exemplo, associar os problemas dos homens à masculinidade é contraproducente e instiga o sentimento de autoódio e o desprezo de todos, inclusive dos próprios homens, por eles próprios e os outros homens. Por que ninguém fala de “as feminilidades”? O uso do termo “masculinidades” é atrelado a isso, porque não se trata de considerar a diversidade de expressões da masculinidade, mas parte da perspectiva de que a masculinidade é tão opressora que os homens são “opressores patriarcais/machista” deles próprios e dos outros. Claro, o mais exaustivo nessa discussão é a negação, mesmo sendo razoavelmente óbvio que “masculinidades” expressa a mesma perspectiva de ódio, a narrativa da opressão. Eu não uso esse termo por isso e aos que negam o óbvio significado impresso nele, eu uso um ditado popular estadunidense: “Não mije em mim e diga que é chuva.”
  1. É comum que a masculinidade seja olhada pelo viés negativo. Em nosso projeto queremos jogar uma luz no que os homens fazem de positivo. O que você sente que os homens fazem e não é valorizado ou reconhecido?

Muita coisa, certamente. Os homens são, historicamente, os grandes construtores, inventores, defensores, filósofos, líderes, soldados, lixeiros, os grandes responsáveis pelas sistematizações que chamamos de civilização (transportes, engenharia, arquitetura, comunicações, Justiça, filosofia, ética, saneamento, distribuição de água, segurança). Homens são os nossos grandes sistematizadores. Também são os maiores promotores e protetores das mulheres, sendo rotulados como exatamente o contrário disso.
  1. Quando pessoas com desprezo por mulheres se aproximam do movimento de vocês, como você lida? Ativamente se afasta ou se aproxima, até como acolhimento?

Era uma coisa muito difícil para eu lidar. Pedi ajuda de profissionais de saúde mental para isso. Passei a acolhê-los e dizer que a raiva é natural e normal, sempre há algum histórico por trás. Muitas vezes são homens privados da presença paterna, portanto não aprenderam a ter relações tão saudáveis com ninguém porque os pais são os grandes estabelecedores de limites e altruísmo para as crianças.
Outros têm experiências horríveis envolvendo mulheres, como terem sido penalizados judicialmente por acusações caluniosas e perderem tudo que lhes dava sentido à vida, como os próprios filhos. Warren Farrell certa vez comentou que os homens não são vistos, e muitas vezes não se veem, como seres humanos, mas como fazeres humanos. Se eles não são profissionais, pais, maridos, não se sentem úteis, muitos são como mortos. Não falo que eles são misóginos, sejam eles ou não, porque essa expressão foi muito, e mal, usada e perdeu o sentido, além de servir sempre de acusação. Me atenho a falar do discurso.
Ao mesmo tempo, os ADH sempre repetem que o problema não são as mulheres, mas sim o ginocentrismo e a misandria culturais. É difícil passar esta mensagem sem parecer condescendente, presunçoso, estar passando um sermão, se colocando como superior. Sempre tenho esperança que esses homens passem do que chamamos de “fase da raiva”, mas sei que alguns não vão superar isso. A misoginia é uma forma de ginocentrismo, só provavelmente algum acontecimento causou uma virada do avesso
Uma forma que estes homens podem trabalhar isso, portanto, é estarem em contato com o que lhes desperte paixão e não envolva orbitar mulheres. Música, tecnologia, esporte, amigos, happy hours, artes marciais, carreira, negócios, espiritualidade, coisas que lhes deem um sentido de vida fora da bipolaridade ginocêntrica ginolatria-misoginia, por assim dizer.
  1. No atual momento político polarizado, muitos assuntos associados (positivamente ou negativamente) às masculinidades estão em evidência. Como você vê o lugar das pautas que defende em meio a esse panorama?

Isso é bastante complexo para se abordar aqui sem me estender demais ou não me fazer entender direito. Tentando ser o mais conciso possível, a polarização era de se esperar e a guinada à direita também é explicável, certamente. Penso que no âmbito político, a forma de usar o momento produtivamente é defender ativamente princípios como o devido processo legal e a presunção de inocência para os homens, coisa que a esquerda pós-moderna interseccional odeia. Eu entendo que a apelidada “onda conservadora” quer, entre outras coisas, que a sociedade funcione. Que tenhamos bom senso quanto a economia, segurança pública, em vez do tal “lacre, lacre” em absolutamente tudo. Podemos começar por aí, então, começar a ver racionalmente, cientificamente, as necessidades que a esquerda passou a rejeitar. Ao mesmo tempo, a direita dá bons sinais de estar intolerante ao “anti-homossexualismo”, por exemplo. Podemos seguir por aí, já que não só estamos em um momento de polarização, como de pêndulo indo (de forma justificada, inevitável e necessária, a meu ver) à direita. Que seja então um direitismo de razão, operabilidade social republicana e democrática, sem o identitarismo interseccional que tanto contaminou a esquerda e em função de resultados que as pessoas tanto parecem precisar, portanto.
  1. Como seria um bom funcionamento da Lei Maria da Penha e do sistema de apoio em torno dela, em sua opinião?

Há uma proposta repetida desde antes dessa Lei. Não pauta-la pela tal narrativa do “terrorismo patriarcal”, como tanto repeti aqui. Ver vítimas como vítimas (em vez do conhecido paradigma “mulher vítima, homem monstruoso”), entender a dinâmica complexa dentro da qual as pessoas (homens e mulheres) se inserem, mantém, reproduzem situações de violência. Sabemos que muitas vezes há transtornos psíquicos envolvidos, na maioria das vezes é violência recíproca, a maioria das agressões unilaterais (só um agride, outro não reage) são de mulheres contra homens, e a maioria das vezes existe uma origem ambiental na infância e na transmissão de atitudes violentas de uma geração para outra. Temos isso de várias fontes, mas sempre as “pesquisas de ódio” (como as chamou Christina Hoff Sommers) feministas trazem sempre os mesmos resultados, que são inteiramente diferentes disso.
Obrigado aos dois e fico à disposição se necessário.
Saudações,
Aldir.

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