Quem roubou a verdade? Como cientistas traíram a Ciência – Parte 1

PARTE 1 – QUESTIONE A AUTORIDADE

 

Como um estudioso do gênero, frequentemente encontro artigos que fazem apologia ao feminismo e, na Psicologia como um todo, aos movimentos sociais considerados de esquerda. No Facebook, fui expulso da 51ª divisão da American Psychological Association (APA), a Society for Psychological Studies of Men and Masculinity (SPSMM), por concordar com Cassie Jaye que deveríamos ouvir homens e mulheres, tanto feministas quanto masculinistas. Eu não tenho coragem de ir a encontros presenciais para discutir a situação do homem na atualidade, porque todos os grupos presenciais que conheço são feministas e, baseado na violência verbal que cai sobre mim em discussões online, tenho certeza que me bateriam fisicamente se fosse a um encontro presencial. Como exemplo, num grupo de WhatsApp do Conselho Regional de Psicologia daqui do ABC Paulista, ao defender que a Psicologia não pode apoiar nem se opor ao Feminismo, pois fazer isso seria o mesmo que dizer que a Psicologia deve apoiar ou se opor a um partido político ou religião, fui atacado durante 3 dias, além de quase expulso também.

O principal argumento é que, por eu não ser mulher, não posso entender o “sofrimento” que as mulheres sofrem todos os dias. Apesar de o contrário também ser válido, ou seja, que as mulheres não poderiam entender o sofrimento que os homens sofrem todos os dias, esse argumento nunca era levado a sério. Porém, abordarei melhor esse assunto quando for falar do princípio da falseabilidade.

Pelo menos na Psicologia, tais apologias são toleradas e incentivadas sob a alegação de que a Psicologia foi usada no passado para incentivar e manter relações opressivas, como a afirmação de que brancos eram superiores a negros, homens a mulheres e que a homossexualidade uma doença, e agora, a psicologia tem a “responsabilidade social” de reparar esses erros. Entretanto, uma leitura verdadeiramente crítica, que eu chamo de leitura analítica, indica que não se tratava necessariamente de “oprimir as minorias”, mas falhas em perceber todas as variáveis envolvidas. Não se pensava que negros poderiam ser a maioria dos criminosos por causa da desigualdade econômica ou que mulheres fossem menos habilidosas em cargos de chefia pela falta de experiência, havia uma relação entre ser negro e ser criminoso ou entre ser homem e ter um cargo de chefia. Então, pulava-se rápido demais para a conclusão mais óbvia e errada que podemos pensar. O mesmo erro é cometido hoje contra os supostos “dominadores”, mas o que torna os erros de hoje tão ou mais graves que os do passado, é que sabemos os erros cometidos no passado e, ao invés de corrigi-los, insistimos em repeti-los.

Para repetir essas opressões em tempos contra a opressão, corrompe-se os fundamentos da Ciência. É importante lembrar que os princípios científicos surgiram como uma crítica principalmente contra o conhecimento religioso. A máxima de qualquer Ciência de verdade é “questione a autoridade”. Ao invés de acreditar em algo porque alguém que supostamente entende do assunto diz que é assim, duvide da palavra dessa pessoa, teste você mesmo e, então, tire suas próprias conclusões. Atualmente, isso deixou de ser um princípio apenas da Ciência e é repetido pelo senso comum, sem entender o seu real significado. Os militantes de movimentos sociais, ou SJWs (Social Justice Warriors), frequentemente conquistam a simpatia dos outros alegando que “questionam a autoridade opressora”, que possuem “pensamento crítico”, mas o que geralmente observamos não é uma crítica construtiva contra uma autoridade opressora, mas apenas uma reclamação contra um mundo que não é exatamente como gostaríamos que fosse.

Friedrich Nietzsche disse que Deus está morto e James Hollis (ou James Hillman, não consegui confirmar qual dos dois James) rebate que Deus não está morto, mas foi transformado em doença. Ou seja, se antes as doenças eram punições divinas ou possessões demoníacas, agora são invasões de microorganismos ou deficiências orgânicas. Eu digo que, se Deus virou doença, o Diabo virou política (mitologicamente, o Diabo foi o primeiro ser a se rebelar contra uma autoridade).

Quem é a autoridade questionada? O Capitalismo? O Machismo? O racismo estrutural? Tudo isso seria aceitável se não fosse um simples problema: nenhum deles é existe por si mesmo, mas apenas em oposição a seus questionadores. Quem é o pai do machismo? Onde fica a sede do capitalismo? Nessas eleições de 2018, qual o número do “Partido Racista”? Atualmente, na política brasileira, alguns podem pensar no Jair Bolsonaro, mas são os outros que chamam suas ideias de machistas, homofóbicas e afins, ele mesmo não se diz representante de nenhuma dessas ideologias, nem tem influência suficiente para ser considerado uma autoridade. Sua fama deve-se mais a sua excentricidade que a seu poder. As únicas instituições de verdade que são questionadas atualmente são o Estado e o Cristianismo. Porém, as críticas contra o Estado geralmente assumem a forma de reclamação mais que de análise e, após 400 anos de críticas ao Cristianismo, não vejo por que alguém deveria ser considerado um dissidente por questioná-lo.

Assim, capitalismo, machismo, racismo, etc. são apenas nomes que damos para aquilo que não gostamos. Se eu criticar o feminismo nas minhas redes sociais ou na rua, rapidamente alguém aparece dizendo que eu não conheço o verdadeiro feminismo, que o feminismo é bom e que todos deveriam ser feministas. Mas se eu critico o machismo, ninguém me questionará, ninguém tentará me convencer que estou errado ou me explicar os verdadeiros princípios do machismo. Que espécie de autoridade é essa que não impõe sua autoridade? É fácil criticar quem não critica de volta. Porém, se é verdade que o feminismo luta contra o machismo, então é uma luta em que apenas um lado ataca e, uma guerra em que apenas um lado ataca não é uma guerra, é um massacre.

Vemos isso facilmente nos meios de comunicação em massa. Quando se quer falar sobre os papéis de gênero (ou mais especificamente, do papel feminino), o único discurso que ouvimos é que as mulheres são maravilhosas (e coitadas que precisam lutar muito para ter tudo que querem), o preconceito deve ser abandonado e as mulheres devem ter os mesmos direitos que homens (não se sabe por quê, devemos apenas acreditar nas feministas que dar direitos para mulheres = liberdade para mulheres = coisa boa), mas nunca uma opinião diferente. Quando Fernanda Torres criticou o feminismo, sofreu linchamento moral na internet e se retratou 48h depois. No dia 14/01/2018, foi publicado na Folha de São Paulo que homens não prestam e, até agora (29/07/2018), não houve retratação.

Não estou dizendo que o modelo antigo era bom e que devamos retornar a como eram as coisas na Europa Vitoriana, mas estou usando o “pensamento crítico” para “questionar a autoridade”. Se a divisão tradicional de papéis era tão ruim, por que as mulheres não se rebelaram antes? Seria machismo internalizado? Eu acho que não. Não há estudos sobre os efeitos de “discriminação internalizada” porque eles seriam antiéticos, mas com base em biografias e relatos que sobreviveram aos dias de hoje, como a própria bíblia sobre a escravização dos hebreus, parece-me que os oprimidos tendem a “fugir de seu sofrimento” relembrando um passado glorioso, enquanto esperam a vinda de um salvador que trará um futuro maravilhoso e sem sofrimento ou, quando essa defesa psicológica rui, entra num estado de desesperança. Os alunos de escola pública que não estudam porque “sabem que, sendo favelados, não têm futuro”, possuem “discriminação internalizada”, a mulher que é feliz sendo dona-de-casa e financeiramente dependente do marido, não. Dizer que toda mulher que se contenta em ser dona-de-casa internalizou o machismo é deturpar a realidade para que ela se encaixe na teoria, uma verdadeira cama de Procusto intelectual.

O pior de tudo é que apenas quem já questionou o Feminismo consegue perceber suas incoerências. Quando fui no V congresso brasileiro e IV congresso ibero-americano e luso-brasileiro de psicologia da saúde, acabei assistindo mais uma palestra que dizia que vivemos em uma sociedade que ensina os homens a “não levarem desaforo para casa” e, consequentemente, a serem violentos, o que os leva a baterem em suas esposas. Quando questionei por que o palestrante ignorou os estudos que indicavam que violência conjugal em casais homossexuais ou que tinham uma mulher-agressora e um homem-vítima ocorria praticamente na mesma frequência que casos com a configuração padrão (homem-agressor e mulher-vítima) ele simplesmente deturpou minha pergunta e desconversou, alegando que tinha uma “epistemologia diferente”, pois ele “não acredita que exista uma verdade única, objetiva e universal, mas que quando escolhemos estudar algo, já temos um desejo anterior” e existem mulheres que agridem homens, mas a pesquisa dele usou apenas homens agressores e a Lei Maria da Penha existir prova a gravidade da violência contra a mulher (vocês não acham que usar uma lei para justificar um estudo equivale a dizer que existe uma verdade única e objetiva?) – falarei mais sobre o subjetivismo em outro texto.

Nem vou falar dos questionamentos de micro-agressões, como “vamos questionar por que temos que usar o pronome masculino num grupo composto por apenas um homem e 100 mulheres”, com todos seus @s e Xs no meio de palavras, vou apenas dizer que @ Feminism@ não consegue questionar a autoridade, já que elx é x maior autoridade em “equidade de gênero” e elx não aceita ser questionad@.

Vou finalizar recorrendo a uma das filosofias mais controversas da Psicologia: o Behaviorismo, que rejeita as emoções como causas do comportamento. O behaviorista nega que uma pessoa agride outra porque está com raiva, mas “raiva” é o nome que damos para o comportamento de agredir. Se ela para de agredir não é porque ela parou de sentir raiva, mas ela parou de sentir raiva porque o ambiente parou de reforçar a agressão. Embora as pessoas não-behavioristas tenham dificuldade de concordar com esse raciocínio, ele é facilmente passado para os ismos. A desigualdade salarial entre homens e mulheres não diminui porque a sociedade se tornou menos machista. Damos o nome de machista para sociedades com diferença salarial e dizemos que ela se torna menos machista a medida que a desigualdade salarial diminui.

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