O Feminicídio é um “Ratiocídio”

O problema do conceito de ‘feminicídio’ começa pelo nome, que já parece excessivo perante ‘femicídio’, e ainda assim desnecessário diante do já previsto termo ‘ginocídio’, que pareceria perfeitamente suficiente a não ser pelo fato de existir a pretensão de um enfoque culturalista que transcenda o simples e objetivo homicídio de uma pessoa do sexo feminino.

O conceito de feminicídio, para o qual o já clássico texto Femigenocidio y feminicidio: una propuesta de tipificación é incontornável, pretende especificar um tipo de ginocídio necessariamente cometido por um homem, desconsiderando o ginocídio intra gênero, e que teria como motivação primordial o simples fato, como se tem dito, da “vítima ser mulher”.

Mas essa noção tem sido confusa entra as próprias feministas, que melhor descreveriam tal tipo de ginocídio “em função da condição de mulher”, e não “por causa de ser”, pois esta simplificação tornaria esse tipo de crime nada menos que inexistente. Todo assassinato, especialmente se doloso, pressupõe um motivo específico que não pode jamais ser reduzido a sua generalidade exceto nos casos de um genocídio devidamente orquestrado, o que jamais poderia ser o caso visto que o genocídio não distingue gênero.

Até mesmo os ginocidas seriais possuem um perfil de vítima, não basta ser mulher, é preciso que isso concorra com uma faixa etária, um grupo étnico, uma aparência específica e normalmente alguma conduta de ordem sexual. Assim, apesar de realmente a vítima ser morta ’em função da condição feminina’, jamais o é ‘apenas por ela’.

O mesmo se diz dos casos passionais, outrora vistos no imaginário como “crimes de paixão”, mas hoje melhor descrito como crimes de ‘possessividade’ ou ‘ciúmes’. Nesses casos, o motivação do ginocídio não é o simples fato de pertencer ao gênero feminino, mas de, em função deste pertencimento, estar envolvida numa relação específica com certas peculiaridades. O motivo do ginocídio será então ‘ciúme doentio’, ‘possessividade desmedida’, alguma séria ‘desavença pessoal de ordem conjugal’ ou qualquer outro motivo usualmente fútil.

Mas o exame da realidade tanto histórica quanto atual demonstra o absoluto oposto da proposta que já avança em nosso país. Mulheres ainda são no máximo cerca de 10% das vítimas de assassinatos, porque a tendência normal da humanidade e preservá-las em detrimento dos homens. Eles são dispensáveis e enviados aos milhões para morrer em guerras, em aventuras arriscadas ou trabalhos insalubres. Até hoje homens ainda são 95% dos mortos em acidentes de trabalho e 100% dos heróis voluntários ou profissionais que se arriscam para salvar vidas alheias em situação de risco. Em qualquer contexto coletivo, numa súbita situação de perigo, o que se observa é a mobilização masculina praticamente imediata para enfrentá-lo e também uma espontânea retração das mulheres, numa dinâmica instintiva e perfeitamente harmônica deles se organizando para protegê-las.

A vida feminina sempre foi mais valiosa e valorada que a masculina. Por isso mesmo frisamos que, num morticínio qualquer, morreram “inclusive mulheres e crianças”, porque não se espera delas que se submetam a situações de risco e normalmente não são o alvo preferencial das ações violentas. A regra viciosa nas atrocidades e guerras normalmente seleciona as mulheres como alvo de violência sexual, mas a violência letal é direcionada aos homens.

Mulheres são de fato estupradas por serem mulheres. Mas quem é morto apenas em função de seu gênero é o gênero masculino. Eliminar os homens e tomar as mulheres é a norma da pilhagem, invasão, guerras e toda sorte de violência. Como diz o Deuteronômio Capítulo 20 versículos 13 a 15 “…logo que o Senhor teu Deus a entregar nas tuas mãos, passarás ao fio da espada todos os homens que nela houver; porém as mulheres, os pequeninos, os animais e tudo o que houver na cidade, todo o seu despojo, tomarás por presa; e comerás o despojo dos teus inimigos, que o Senhor teu Deus te deu. Assim farás a todas as cidades que estiverem mais longe de ti, que não são das cidades destas nações.”

O conceito de Feminicídio, como uma pretensão de vitimar e eliminar mulheres por conta apenas de seu gênero se relacionando até ao Genocídio, é uma falsificação histórica, uma fraude sociológica e uma impostura intelectual que subverte por completo a estrutura da realidade em nome de uma ideologia que parte de pressupostos absolutamente falsos e só pode levar a resultados nefastos. (Entre elas querer, em nome da igualdade, declarar que a vida feminina é um bem jurídico mais valioso que a masculina,  um verdadeiro “ratiocídio”, um assassinato da razão!)

Mas existe sim um contexto no qual ele se aplica, que é o infanticídio seletivo, cuja tradicional modalidade pós-parto está em nítida retração no mundo, em favor do infanticídio intra uterino, por meio do Aborto Seletivo.

Neste, de fato, meninas, e algumas vezes também meninos, são mortas simplesmente em função de seu gênero, ou seja, nada mais é necessário além disto para justificar a morte. Da mesma forma como, analogamente, num campo de concentração nazista, apenas a condição de ser judeu é suficiente para a execução, exatamente o que caracteriza o genocídio, algo que não possui qualquer paralelo no caso do ginocídio, visto jamais se ter ouvido falar de um contexto minimamente notável que tenha sistematicamente eliminado mulheres apenas em função do gênero. (Tema muito similar é detalhadamente examinado em meu texto O Estupro da Cultura.)

Curiosamente, é justo nesse ÚNICO caso onde o conceito de Feminicídio realmente se aplica, que o Feminismo não fará esforço algum no sentido de combater, pelo contrário, dedicando todas as suas forças para preservar.

Marcus Valerio XR

Obs: Este texto é um adaptação extraída da minha breve monografia Desleituras Feminicistas em Cristine de Pizan – O alegado Feminicídio na obra A CIDADE DAS DAMAS, que examina a obra de uma pensadora medieval que examina assassinatos e torturas de mulheres.

10 thoughts on “O Feminicídio é um “Ratiocídio””

  1. A língua portuguesa deriva, enquanto língua neolatina, do ancestral latim, pelo menos do latim falado, por via dos tempos que estas regiões (que vieram a constituir Portugal) estiveram sob domínio do império romano. O latim foi a língua oficial de Portugal até 1296 (século XIII portanto), sendo substituído nessa altura pelo português. Mas vamos lá ao que interessa e por que vim aqui escrever esse dito português em muito explicado por aquele latim.

    Existe todo um mundo (espero que não o vejam como um mundo de possibilidades…) de tipos de homicídio, no que respeita ao sujeito homicidado (lol….tou a brincar…. ao sujeito morto). Homicídio deriva do latim “hominis excidium”. A propósito e muito interessante: excidium significa destruição. Homicídio é o acto através do qual um ser humano mata outro ser humano. Isto porque a lei penal foi criada para punir este tipo de atos entre todos (e todas) nós.

    Mas há vários tipos de homicídio, atendendo ao grau de parentesco entre o homicida e a vítima, ao número de vítimas, ao cargo/posição social da vítima, à duração de vida da vítíma, e todo um rol a que há pouco chamei de “mundo”. É um mundo negro e sangrento, é certo, mas descobri agora que é também muito rico em palavras e termos, com uma semântica demasiado opulenta para aquilo que visa descrever e que no fundo é apenas um vazio.

    Genocídio – homicídio em massa. ex. limpezas étnicas, religiosas e culturais; massacres;

    Fratricídio – matar o próprio irmão;

    Sororicídio – matar a própria irmã;

    Infanticídio – matar o próprio filho nos primeiros dias de vida ou matar uma criança;

    Regicídio – matar um rei;

    Parricídio – matar o próprio pai;

    Matricídio – matar a própria mãe;

    Mariticídio – mulher matar o próprio marido;

    Uxoricídio – marido matar a própria mulher;

    Atenção que “matar” está subjacente assassínio, isto é, fazê-lo com intenção, dolo…

    1. Marcus Valerio XR

      Mas o ponto importante não é a palavra, e sim o conceito. Qualquer que seja o termo, quer se dizer que no caso em questão um homem mata uma mulher não por um motivo pessoal, mas como um representante do gênero masculino atacando todo o gênero feminino.

      É como se fosse uma guerra. Enquanto num assassinato civil qualquer, uma pessoa mata outra por algum motivo pessoal, numa guerra oficialmente declarada, um soldado não mata uma pessoa, mas um representante do país adversário, e o faz em nome de seu próprio país.

      O objetivo das feministas é exatamente esse, como sempre, tentar criar a todo custo uma Guerra dos Sexos, tentar trazer à realidade sua psicopatia delirante de que há uma guerra movida pelos homens contra as mulheres, deslavadamente omitindo o fato de que mulheres vivem muito mais.

  2. Marcus Valerio XR

    Interessante artigo que, embora ainda peque por algumas omissões e se deixe enganar pela absurdidade da tese central do Feminicídio, ao menos aponta falhas objetivas na caracterização do crime. http://www.conjur.com.br/2014-dez-28/euro-maciel-filho-nao-justificar-previsao-feminicidio

    Ao menos, já bem melhor que o anterior artigo http://www.conjur.com.br/2014-dez-26/leonardo-yarochewsky-feminicidio-retrocesso-busca-igualdade que apesar de devidamente reprovar a proposta, passa sua primeira metade mostrando acreditar piamente no turbilhão de desinformação, deturpação e fraude estatística orquestrada pelo Feminismo Político Internacional.

  3. Willian Oliveira

    O intuito da lei é proteger somente mulheres. Homens? Que se danem, que morram, o importante é se a mulher é a vítima, é de puro egoísmo o pensamento dessas senhoras, será que elas não possuem filhos? Mas acredito que essa lei vai além de proteção, ela cria aquela imagem de que o homem é um ser maligno que mata mulheres por elas serem mulheres e não por outro motivo qualquer, eu não duvido nada que elas vão culpar o machismo. Elas ignoram fatos como mulheres viverem mais, que morrem muito mais homens do que mulheres e de que mulheres também matam seus companheiros ou os próprios filhos por vingança de um relacionamento terminado pelo homem. Ou seja, mais poder às mulheres, mais proteção para elas e mais demonização dos homens. Não duvido muito que essa lei entre em vigor, não duvido que após isso terão campanhas a respeito dessa lei, comerciais televisivos por exemplo. E não duvido nada que alguma outra lei em benefício às mulheres será criada. O movimento feminista é um problema sério, mas enquanto estiver mascarado por falsas definições como luta por igualdade, vai continuar aderindo novos adeptos. Na verdade, só por ser um movimento para as mulheres, ele não será destruído pois os homens nunca que vão se voltar contra um movimento em benefício das mulheres. Mas o que pode acontecer é um movimento, tão forte quanto o feminismo, a favor dos homens existir algum dia, é a única solução para termos realmente um equilíbrio.

    1. Paula Klinger Reis

      Excelente a sua proposição e seu ponto de vista. Concordo plenamente. E como já venho percebendo, tudo o que o homem tentar para mostrar que ele tem atitude, poderá ser usado contra ele como um ‘abuso sexual’ ou ‘estupro’, mesmo que, segundo a lei, para ser considerado abuso, deve haver o ato. E agora com essa de que a mulher não precise de testemunhas ou provas para denunciar um abuso ou estupro, ou seja, só a palavra dela basta para dar crédito ao fato (mesmo que não tenha sido realmente fato), dá margem para que, por vingança, ela possa denegrir a imagem de um homem o qual ela odeie ou tenha feito algo ínfimo contra ela ou dela se aproveitou (como qualquer outro faria, e até mesmo ela teria feito com um homem, se fosse ela no lugar dele na situação). E já deu pra perceber que a palavra de uma mulher vale mais do que a de mil homens. Infelizmente. Dá a entender que “quem reclama mais (a mulher) é porque sofre mais (do que o homem) e, por isso, tem razão em reclamar”. Como eu penso: “o grito de dor nem sempre é proporcional à dor deveras sentida”. Mas, unicamente porque as mulheres adoram se pôr como vítimas, que a dor delas é sempre uma dor insuportável (mesmo que seja uma dor psicológica ou controlável), quem vai sempre acabar sofrendo realmente mais são os homens, porque, se eles reclamam da dor, são tachados de fracos e homens considerados fracos são sempre passíveis de humilhações, desprezados pelas mulheres, inferiorizados, etc. Triste?!

  4. Uma pergunta: aceitam tradutores freelance voluntários do AvFM Internacional e do WhiteRibbon.org? Eu estou lendo e quero traduzir alguns artigos de lá.

    1. Marcus Valerio XR

      Certamente. Fale com o Aldir. Ou traduza de qualquer jeito e publique você mesmo. Precisamos ao máximo possível disso.

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