A “cultura do estupro no campus”: Consequências de palavras sem sentido

RESUMO: Alega-se que nos campi universitários da América do Norte existe uma cultura de estupro. O termo entrou na linguagem comum e alguns chegaram até a dizer que a cultura ocidental como um todo é uma cultura de estupro. O fato de que “um em quatro” mulheres será estuprada ou abusada sexualmente em sua vida é agora repetido no discurso político e também no comum. No entanto, a análise de como esse número foi obtido revela os fundamentos ideológicos desses estudos e aos quais os autores desses estudos se filiam. O artigo a seguir está relacionado com o contexto ideológico desses estudos, bem como com as motivações políticas e psicológicas daqueles que acreditam em uma cultura de estupro.

Palavras-chave: estupro, cultura do estupro, política, linguagem, sexualidade.

 

Em dezembro de 1945, o ensaio seminal de George Orwell Politics and the English Language (A política e a Língua Inglesa) foi publicado pela primeira vez. Continua sendo um dos melhores ensaios escritos sobre o uso ou abuso da linguagem na política. Agora, em 2015 (ou é 1984?), nos encontramos constantemente expostos à linguagem política através da nossa mídia. Alguns casos recentes se destacam na mídia, como quando Dick Cheney recentemente defendeu as “técnicas aprimoradas de interrogatório” da CIA durante seu tempo como vice-presidente, o que, para meu juízo, soava horrivelmente como tortura. O motivo político de Cheney é evitar um julgamento internacional de crimes de guerra e isso é conseguido com essa distorção da linguagem. No entanto, não é isso o que estará sendo julgado na presente discussão. Minha análise visa à definição de estupro e como ela tem sido usada politicamente por certos ativistas e políticos.

Como esse é um assunto delicado, é preciso esclarecer alguns pontos desde o início. O estupro é um crime violento, horrível, e de forma alguma este ensaio pretende mostrar que não é. Pretende-se mostrar que, quando as definições de palavras são infladas ou redefinidas por uma determinada pessoa ou grupos de pessoas, é conveniente e ético dar uma olhada no motivo pelo qual isso pode estar acontecendo bem como em suas consequências. Mais expressamente isso será feito com o termo “Estupro”, à luz da sua aplicação política nos Estados Unidos da América, mais expressamente quando usado na expressão “cultura do estupro”. O termo “feminista” também será usado neste artigo muitas vezes e isso também precisa de algum esclarecimento. Se o leitor deste artigo se considerar feminista, você pode ficar perplexo com o presente ensaio. Garanto-lhe que meu objetivo não é depreciar as belas mulheres e homens feministas que desejam a igualdade entre os sexos, mas com certeza estou escrevendo sobre aqueles que podem ser definidos como feministas radicais ou ideológicas. À medida que as ideias feministas ideológicas se inserem no mainstream, é importante esclarecer quais ideias feministas têm mérito igualitário e quais são sexistas.

Para o propósito deste ensaio, estou interessado em um espécime da língua inglesa que Orwell aponta como sendo um dos nossos “vícios mentais”. Ele se refere a esse vício em particular de usar palavras sem sentido. Com isso, ele quer se referir a palavras que, por algum motivo ou outro, não têm sentido algum, como quando os anúncios dos filmes nos dizem que os filmes são “espetaculares” ou “incríveis”. Quando todos os filmes dos últimos cinco anos são chamados de “espetaculares” ou “incríveis” as palavras deixam de ter significado. Como Orwell apontou em seu tempo, “muitas palavras políticas são igualmente usadas de forma abusiva. A palavra fascismo agora não tem sentido, exceto na medida em que significa “algo não desejável” [1]. Quando deixou de ser uma forma definitiva de descrever um regime político como o da Itália de Mussolini, a palavra começou a ser usada politicamente para denegrir opositores políticos ou formas indesejáveis ​​de governo. Contemporaneamente, podemos olhar para aqueles que chamam o presidente Obama de “socialista” ou “comunista”. A julgar pelo nível geral da educação na América, é duvidoso que a maioria das pessoas que o acusam saiba o que essas palavras significam em seu contexto histórico maior, mas significa que ele é indesejável, pois ele é inimigo da “Democracia” ou do “Capitalismo”, palavras que podem ser tão vagas para essas mesmas pessoas como as mencionadas anteriormente, mas são importantes na medida em que significam ser desejáveis.

O que é importante neste exemplo é que não é um erro, mas pode fazer parte de manobras políticas. Como Orwell aponta no início de seu ensaio:

Ora, está claro que o declínio da língua deve ter, em última análise, causas políticas e econômicas: não se deve simplesmente à má influência desse ou daquele escritor em particular. Mas um efeito pode transformar-se em causa, reforçando a causa original e produzindo o mesmo efeito de forma intensificada, e assim por diante, indefinidamente… É mais ou menos o que acontece com a língua inglesa. Ela se torna feia e imprecisa porque nossos pensamentos são tolos, mas seu desmazelo torna mais fácil para nós termos pensamentos tolos.[i][2]

O ciclo começa, creio eu, com a intenção de usar palavras sem sentido: “Palavras deste tipo são frequentemente usadas de uma maneira conscientemente desonesta. Ou seja, a pessoa que as usa tem sua própria definição privada, mas permite que seu ouvinte pense que ele quer dizer algo bem diferente”[3]. O candidato do Tea Party pode dizer a seus eleitores em potencial que Obama é um “socialista”, mas isso significa apenas que não é desejável, não que ele realmente subscreva crenças políticas socialistas. O candidato sabe que pode obter apoio para a eleição retratando seu oponente como indesejável.

Na maioria dos casos, beneficia o usuário dessas palavras sem sentido a ocultar suas intenções, até mesmo de si mesmo. Ao mostrar a conexão entre a política e a degradação da linguagem, Orwell afirma:

Um escritor escrupuloso, em cada frase que escreve, fará a si mesmo ao menos quatro perguntas: o que estou tentando dizer? Que palavras o expressarão? Que imagem ou expressão idiomática o deixará mais claro? Essa imagem é estimulante o bastante para causar um efeito? E fará provavelmente outras duas perguntas para si mesmo: posso dizer isso de maneira mais curta? Eu disse alguma coisa de uma feiura evitável? Mas você não é obrigado a passar por tudo isso. Para evitá-lo, basta abrir sua cabeça e deixar que as expressões prontas a preencham. Elas construirão as frases para você — de certa maneira, pensarão por você — e quando necessário, executarão o importante serviço de esconder parcialmente seu sentido até de você mesmo. É nesse ponto que a conexão especial entre a política e a degradação da língua fica clara.[4]

Assim, o político que pronuncia slogans políticos para seu eleitorado não é tão diferente do escritor que usa o jargão à custa de construir sua própria maneira de escrever, muito parecido com o da pós-modernidade acadêmica. Sem reflexão, ele repete slogans ou pontos de discussão sobre “questões importantes” que prejudicam a multidão, que é incapaz de discernir o mingau com que está sendo alimentada de caviar, devido à sua compreensão debilitada da linguagem e incapacidade de pensar. Para minha geração, as campanhas de Obama foram obras-primas na fabricação desse tipo de slogan irrefletido (Sim nós podemos [ainda espero por essa mudança]). Todo o tempo, enquanto o político comete a má-fé de esconder suas próprias intenções, retratando sua pessoa para si mesmo e para os outros como o Herói da Mudança ou o Guardião da Democracia, enquanto ocultava sua sede de poder, a vitória da eleição era a intenção original.

Esse desvio vertiginoso na política contemporânea foi para preparar o terreno para nossa compreensão do que está acontecendo com o termo “estupro” em nosso país, pois o termo é o campo minado em que os guerreiros de gênero vêm investindo muitos de seus esforços. Este artigo deve abordar alguns pontos importantes para elaborar adequadamente o tópico: (1) Quais são as controvérsias atuais no país que fazem disso um problema? (2) Qual é a história dessas controvérsias? (3) Como essas questões políticas estão relacionadas ao rebaixamento da linguagem? (4) Por que essa degradação pode ser politicamente motivada? (5) Qual é a psicologia e motivação das pessoas que criaram esta questão? Como Orwell apontou sobre a conexão entre linguagem e política, espera-se que, ao abordar cada questão, a interconexão entre todos esses pontos se torne clara.

A questão mais urgente no centro das atenções nacionais em relação ao estupro é a citada estatística de que 1 em 4 ou 1 em cada 5 universitárias será agredida sexualmente durante seu tempo no campus[5]. Isto é conjugado com o estudo de 2012 sobre Parceiro Íntimo e Violência Sexual dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças, no qual foi alegado que 1,3 milhão de mulheres foram estupradas somente nos Estados Unidos em 2010, colocando os EUA no mesmo nível do Congo. Ambos os estudos são os descendentes intelectuais do “estudo” da Ms. de 1988, que gerou a crença de que 1 em cada 4 mulheres americanas será estuprada durante sua vida. Vamos olhar para esse estudo mais tarde. Essas estatísticas são a espinha dorsal da reivindicação feminista ideológica de que a América é uma “cultura do estupro”. Com isso se quer dizer que a América é uma cultura patriarcal onde os homens usam sua sexualidade para oprimir as mulheres. Com efeito, a sexualidade masculina é caracterizada como uma forma de terrorismo. Elas veem o sexo como algo que diz respeito a poder, não como algo que têm motivações psicológicas ou biologicamente estabelecidas, como o prazer ou a procriação. Estes estudos supostamente devem confirmar que de fato existe uma “cultura do estupro” e não se pode passar por uma universidade americana ou navegar na Internet sem ouvir sobre essa ideia[6]. No entanto, pode ser mais verdadeiro que esses estudos assumam uma cultura de estupro e sejam criativos com seus critérios para confirmar seus próprios preconceitos.

O estupro e a agressão sexual no colégio entraram no cenário nacional como uma questão política com a criação da Força-Tarefa da Casa Branca para Proteger os Estudantes da Agressão Sexual em janeiro de 2014 e com o relatório subsequente em abril daquele ano intitulado Not Alone (Não Sozinha). As conferências de imprensa em torno da criação da força-tarefa utilizaram amplamente a estatística 1 em 5. O relatório pediu que os campi das faculdades estabelecessem tribunais cangurus[ii] para processar os acusados ​​de estupro ou abuso sexual. Para que não pensemos que esses tribunais serão executados com um olhar cego para o sexo dos ofensores e dos queixosos, não precisamos procurar mais do que uma citação muito grande de Joe Biden no início do relatório Not Alone:

Ver-se livre de agressão sexual é um direito humano básico… a decência de uma nação é largamente medida pela forma como ela responde à violência contra as mulheres… nossas filhas, nossos irmãos, nossas esposas, nossas mães, nossas avós têm todo o direito de esperar ser livres de violência e abuso sexual.

Ver-se livre de agressão sexual é um direito humano básico, se você for uma mulher. (Violência contra os homens, bem, a América tem indústrias dedicadas a isso.) É claro que, quando vemos a palavra “estudantes” usada em relação a esta questão, o orador ou escritor quer significar estudantes do sexo feminino, indicando que já é assumido quem será o agressor e quem será a vítima.[7]

No entanto, como a revista Rolling Stone[8] descobriu recentemente, nem todos estão dizendo a verdade sobre o assunto. A mentira começa com a própria estatística real.[9] A estatística é baseada no Campus Sexual Assault Study (Estudo sobre Agressão Sexual no Câmpus), encomendado pelo Instituto Nacional de Justiça e realizado de 2005 a 2007. O estudo é ruim, mesmo pelos padrões de pesquisa de advocacia. James Alan Fox, o professor de Criminologia, Direito e Políticas Públicas na Northeastern University, e Richard Moran, professor de sociologia no Mount Holyoke College, investigaram o estudo. Em sua análise do estudo, eles descobriram que ele foi conduzido em duas grandes universidades americanas, o que deve aumentar imediatamente as preocupações devido ao pequeno tamanho da amostra. Fica melhor, como Fox e Moran indicam: “Além disso, a pesquisa teve uma grande taxa de não resposta, com a clara possibilidade de que aqueles que foram vitimados estivessem mais aptos a preencher o questionário, resultando em um valor de prevalência inflacionado.”[10] O que será um tema recorrente na dissecação dessas estatísticas é apresentado a seguir:

Além disso, a definição de agressão sexual usada neste e em outros estudos era ampla demais, incluindo toques indesejados e encontros sexuais sob efeito de tóxicos. Uma pequena porcentagem subiu para o nível de estupro forçado. Ao agregar toques indesejados e encontros influenciados por álcool / drogas juntamente com estupros violentos, o problema pode parecer mais severo do que realmente é, criando um alarme quando cabeças frias são necessárias.[11]

A linguagem usada para definir estupro e agressão sexual no estudo era ampla demais, nossa primeira sugestão de que a degradação da linguagem para fins políticos está ocorrendo com essa questão. De repente, toques indesejados são comparados à penetração forçada e indesejada. Assim como a moeda está sendo inflada, a palavra estupro começa a se tornar sem sentido.

Longe de ser um inofensivo jogo de palavras, já vimos uma força-tarefa da Casa Branca estabelecida enquanto as faculdades e universidades americanas estão sob pressão do Estado para aceitar suas recomendações para lidar com estupros no câmpus. Como vimos no caso de Duke Lacrosse e em eventos mais recentes na Universidade da Virgínia, culpado até que se prove ser inocente é o que acontece com os jovens acusados ​​de estupro no campus da faculdade. É uma perversão da justiça e indicativa da atitude hostil – a misandria – que está sendo mostrada aos jovens em campi universitários nos Estados Unidos.[12]

Em seguida, devemos examinar o relatório do CDC para ver se algo semelhante está acontecendo, como ocorreu no estudo do Instituto Nacional de Justiça. Com certeza, como Christina Hoff Sommers descobriu ao olhar para o relatório, vemos a mesma coisa de antes: uma definição inflada de estupro e agressão sexual. Em 2010, a Pesquisa Nacional de Vitimização de Crimes do Escritório de Estatísticas da Justiça relatou 188.380 estupros ou agressões sexuais a homens e mulheres nos Estados Unidos. No mesmo ano, o CDC alegou que 13,7 milhões de estupros e agressões sexuais ocorreram contra homens e mulheres nos Estados Unidos. Isso não é uma pequena discrepância. Mesmo considerando que o estupro é um crime subnotificado, é possível que seja tão notoriamente subnotificado quanto isso? Ou a linguagem do relatório é mais indicativa do que está acontecendo? Sommers mostra no estudo:

São os pesquisadores, em vez dos entrevistados, que determinam o que é considerado um ataque. Considere: em uma pesquisa por telefone com uma taxa de resposta de 30%, os entrevistadores não perguntaram aos participantes se tinham sido estuprados. Em vez de perguntas tão diretas, os pesquisadores do CDC descreveram uma série de encontros sexuais e depois determinaram se as respostas indicavam violação sexual. A uma amostra de 9.086 mulheres foi perguntado, por exemplo: “Quando você estava bêbado, alto, drogado, desmaiado e incapaz de consentir, quantas pessoas já tiveram sexo vaginal com você?” A maioria das 1,3 milhão de mulheres (61,5%) que o CDC projetou como vítimas de estupro em 2010 experimentou esse tipo de “penetração facilitada por álcool ou drogas”.[13]

Aqui vemos que ser drogado ou desmaiado é equiparado a estar bêbado ou alto. Em cada caso, o pesquisador determinou que o entrevistado havia sido estuprado quando o sexo ocorreu, sendo o primeiro caso lamentável, e o último significando que quase toda mulher que eu conheço foi estuprada em algum momento![14] O estudo passa à loucura neste momento, mas não termina aí:

Outras perguntas da pesquisa foram igualmente ambíguas. Os participantes foram perguntados se alguma vez tiveram relações sexuais porque alguém os pressionou “dizendo mentiras, fazendo promessas sobre o futuro que sabiam ser falsas?” Todas as respostas afirmativas foram contadas como “violência sexual”. Qualquer uma que consentisse em sexo porque um pretendente o vencia por cansaço ao “pedir repetidamente” ou “mostrar que estavam infelizes” foi similarmente classificada como vítima de violência. O CDC estabeleceu efetivamente um estágio em que cada passo da intimidade física exigia um testamento autenticado de consentimento sóbrio.[15]

Sexo sem consentimento expresso por escrito se tornou estupro.

Mais tarde, Sommers inferiu que o relatório parece ter sido feito em parte sob a pressão do lobby das mulheres (lobistas feministas) que já haviam pressionado o FBI a expandir a definição de estupro e pressionado o vice-presidente Biden e o procurador-geral Eric Holder pelo foco nas questões femininas, que mais do que provavelmente resultaram no foco na agressão sexual no câmpus. É provável que o Conselho de Mulheres e Meninas da Casa Branca, que desenvolveu a Força-Tarefa da Casa Branca para Proteger os Estudantes da Agressão Sexual, esteja repleto de ideias feministas ideológicas, se não com as próprias feministas ideológicas. Assim com as estatísticas falsas usadas no relatório de agressão sexual no câmpus, com uma definição ampliada de estupro e agressão sexual pelo CDC, os Estados Unidos encontram-se em uma companhia inexcedível com o Congo. A intenção política ficará mais clara à medida que examinarmos a história da pesquisa de advocacia feminista.

A mãe de todos os pesquisadores de ativismo feminista é Mary Koss. Seu relatório de 1985 da revista Ms. foi o ponto de partida da estatística “1 em 4” que ainda persiste na consciência pública hoje. Antes de ser convidada a realizar o estudo, ela era professora de psicologia na Kent State University, onde ganhou notoriedade por publicar um artigo no qual afirmava que “o estupro representa um comportamento extremo, mas que está em um continuum com o comportamento masculino normal dentro da cultura”[16]. Se olharmos nas entrelinhas desta afirmação, veremos o que ela está realmente dizendo, em essência: “Todos os homens são estupradores em potencial”. Ela foi então convidada por Gloria Steinem, famosa pela declaração sobre peixes e bicicletas, para realizar uma pesquisa nacional sobre estupro nos campi universitários. Antes de nos voltarmos para a análise brilhante de Christina Hoff Sommers deste estudo, um ponto importante precisa ser feito. As inclinações feministas ideológicas de Koss, que também podem ser encontradas nos relatórios do CDC e do Instituto Nacional de Justice, são tais que os homens são considerados estupradores ou que estão “em um contínuo com o comportamento masculino normal (ênfase minha)” para estuprar mulheres. Essa é a tendência ideológica dos estudos que examinamos até agora e será vista novamente no estudo de Koss. Minha alegação é que a definição expandida de estupro encontrada nesses estudos destina-se a expor uma posição extremista disfarçada com um ar de validade científica para ganho político.

Sommers escreve sobre o estudo:

Koss e seus associados entrevistaram pouco mais de três mil universitárias, selecionadas aleatoriamente em todo o país. As mulheres jovens foram perguntadas dez questões sobre violação sexual. Estas foram seguidas por várias perguntas sobre a natureza precisa da violação. Eles estavam bebendo? Quais foram suas emoções durante e após o evento? Quais formas de resistência eles usaram? Como eles rotulariam o evento?

…Koss e seus colegas concluíram que 15,4% dos entrevistados foram estuprados e 12,1% foram vítimas de tentativa de estupro. Assim, um total de 27,5% dos entrevistados foi determinado como vítima de estupro ou tentativa de estupro porque suas respostas se encaixavam nos critérios de Koss para estupro (penetração por pênis, dedo ou outro objeto sob influência coercitiva, como força física, álcool ou ameaças). No entanto, não é assim que as chamadas vítimas de estupro a viram. Apenas cerca de um quarto das mulheres que Koss chamou de vítimas de estupro rotularam o que aconteceu com elas como estupro. Segundo Koss, as respostas às questões revelaram que “apenas 27%” das mulheres que ela contava como tendo sido estupradas se consideravam vítimas de estupro. Do restante, 495 disseram que foi “falta de comunicação”, 14% disseram que era “crime, mas não estupro”, e 11% disseram que “não se sentem vitimizadas”.[17]

O número alardeado já começa a desmoronar.[18] No próximo exemplo, vemos que atos sem intercurso sexual podem ser estupros de acordo com Koss:

Em consonância com sua visão de estupro como existente em um continuum de agressão sexual masculina, Koss também perguntou: “Você cedeu ao sexo (afagar, beijar ou acariciar, mas não ao ato sexual) quando não queria porque estava oprimida pelos contínuos argumentos e pressões de um homem?” Para essa pergunta, 53,7% responderam de maneira positiva, e foram contados como vítimas de violência sexual.[19]

Uma pergunta familiar do relatório do CDC também aparece no estudo da Ms. “Você teve relações sexuais quando não queria porque um homem lhe dava álcool e drogas?”[20] Sommers contesta a validade da pergunta. Ela pergunta:

Se o seu namorado mistura um jarro de margaritas e a incentiva a beber com ele e você aceita uma bebida, você foi induzida a ficar intoxicada e seu juízo foi prejudicado? Certamente, se você desmaiar e for molestada, alguém chamaria isso de estupro. Mas se você beber e, enquanto estiver embriagada, tiver uma relação sexual da qual mais tarde se arrependerá, você foi estuprada? Koss não aborda essas questões especificamente, ela apenas conta seu namorado como um estuprador e você como uma estatística de estupro se você bebeu com ele e se arrependeu de ter feito sexo com ele.[21]

Claramente, a opinião das mulheres entrevistadas não importava. Encontramos também uma perigosa linha de pensamento dentro do feminismo ideológico, o da mulher infantilizada e indefesa. É realmente um exemplo maravilhoso de “duplo pensamento” assistir a uma feminista ideológica culpar os homens e o patriarcado pela subordinação e infantilização das mulheres e, ao mesmo tempo, absolver as mulheres de toda a responsabilidade por suas ações. Nesse caso, a maioria das entrevistadas assumiu a responsabilidade por si mesmas, mas suas ações responsáveis ​​não importaram para os entrevistadores.

Removendo do estudo a questão do álcool e os entrevistados que não pensaram que foram estuprados, o infame número “1 em 4” cai para entre 1 em 22 e 1 em 33. No entanto, essa investigação bastante fundamentada do estudo não teve o mesmo impacto que a gritante manchete “1 em 4” teve sobre os Estados Unidos. Sommers fala do impacto do estudo:

Desde então “1 em cada 4” se tornou o número oficial da vitimização de estupro das mulheres, citada em departamentos de estudos femininos, centros de crise de estupro, revistas femininas e em broches e cartazes de protesto. Susan Faludi defendeu isso em uma reportagem da Newsweek sobre correção sexual. Naomi Wolf refere-se a ele em O mito da beleza, calculando que o estupro por alguém conhecido é “mais comum do que o canhotismo, o alcoolismo e os ataques cardíacos”. “1 em cada 4” é cantado nas procissões de “Take Back the Night”, e é o número dado nos fôlderes sobre estupro entregues na orientação de calouros em faculdades e universidades em todo o país. Políticos, do senador democrata Joseph Biden, de Delaware, ao congressista republicano Jim Ramstad, de Minnesota, citam-no regularmente, e é a principal razão para a provisão do Título IV, “Campus Seguro para as Mulheres” da Lei da Violência Contra a Mulher de 1993, que fornece 20 milhões de dólares para combater estupros nos campi universitários.[22]

É evidente que a associação de Joe Biden com o Conselho da Casa Branca para Mulheres e Meninas e a Força-Tarefa da Casa Branca para Proteger os Estudantes da Agressão Sexual não é apenas um movimento de Relações Públicas. Parece que a defesa das ideias feministas ideológicas tem sido parte da estratégia política de longo prazo de Biden. Seu status de “idiota útil” ajudou a impulsioná-lo para a vice-presidência e ele está, sem dúvida, envolvido no constante incentivo a medos alarmistas voltados para as mulheres, comuns no Partido Democrata.[23][iii] Os estrategistas de campanha devem estar cientes de que as mulheres representaram mais da metade de todos os eleitores durante a última eleição. Quem ganha o voto feminino provavelmente vence a eleição. Convenientemente, essas questões foram lançadas nos holofotes nacionais novamente a tempo de uma campanha presidencial da Hillary Clinton e para ajudar a reforçar as carreiras de Elizabeth Warren, Kirsten Gillibrand e Claire McCaskill. O feminismo ideológico transformou o cobiçado status de vítima em influência nos escritórios dos homens e mulheres mais poderosos da América.

Os três estudos examinados acima são exemplos de ciência social pobre. No entanto, seus resultados são agora aceitos como conhecimento comum. O traço comum entre eles é a definição expandida de estupro nas questões usadas para obter números extravagantes. Aqui retornamos às palavras sem sentido de Orwell. A definição de estupro é esticada a ponto de se tornar semanticamente sem significado. Não é sem sentido que a palavra seja politicamente útil para agitar as paixões dos eleitores ou estudantes universitários, mas sem sentido na definição do que é o crime e quando isso realmente aconteceu. No entanto, a degradação da palavra alcançou o efeito desejado: tornou as pessoas incapazes de criticar os números apresentados pelos estudos, deixando-os capazes apenas de interpretar as relações sexuais através da ideologia que cooptou a palavra, o feminismo ideológico.

Daphne Patai e Noretta Koertge têm um termo análogo a palavras sem sentido em seu livro Professing Feminism (Professando o feminismo)[24], uma exploração do campo dos estudos sobre mulheres. Eles usam o termo “Conceitos Acordeão” que se refere a casos em que “conceitos são esticados tão amplamente que distinções cruciais são obliteradas”.[25] Ao analisar a ideia feminista ideológica de que todos os homens são potenciais estupradores, vemos as maquinações políticas envolvidas em tornar esses conceitos fungíveis:

A mistificação começa quando as alquimistas feministas trabalham nela. Aqui está o truque. Primeiro, elas capitalizam a ambiguidade do potencial estuprador. O que isso poderia significar? Em uma interpretação razoável, um estuprador em potencial poderia ser usado para descrever um homem que diz que investiria numa penetração forçada se pudesse escapar impune, e há de fato uma minoria substancial de estudantes universitários que deram essa resposta em pesquisas de atitudes no campus… Mas a maioria dos homens, ao contrário do aparente significado da alegação de que todos são estupradores, não expressam, de fato, o desejo de estuprar. Quando confrontados com essa objeção, as teóricas feministas rapidamente negam que acham que todos os homens têm tal anseio. Em vez disso, dizem elas, elas estão pensando no zeitgeist masculino, que supostamente determina nosso meio cultural tão extensivamente que faz de todo homem um possível estuprador.[26]

A pessoa sente-se compelida a acrescentar à última sentença, “e tanto melhor se nosso público confundir os dois”. Aqui vemos as teóricas feministas ideológicas usando definições fluidas com aplicação direta na política. A primeira declaração é feita para definir todos os homens como estupradores em potencial, mas quando questionadas sobre isso, as feministas ideológicas mudarão para uma definição que apenas afirma que os homens crescem em uma cultura patriarcal em que o estupro é normal. Qualquer uma dessas definições é politicamente útil, tanto para fazer dos homens bodes expiatórios, a última para apaziguar os “bons” homens (os feministas) que não estupram, e também as mulheres assustadoras. Bodes expiatórios deixarão de participar da sociedade, homens “bons” se alinharão ideologicamente e elegerão candidatos populares que apoiam questões femininas ou então correm o risco de perder o acesso sexual e emocional às mulheres, e as mulheres se reunirão aos candidatos que as fizerem se sentir protegidas de todos os potenciais violadores. Deixo isso para as observações pessoais do leitor para determinar se esses resultados são especulação ociosa.

Neste ponto, espero que a motivação política por trás da degradação da palavra “estupro” se torne clara. Politicamente, ajudou a angariar atenção nacional para os políticos e deu-lhes a ilusão de parecerem progressistas em vez de alardeadores de medo. Também mantém o Movimento das Mulheres relevante durante um tempo na América, onde estudos das ciências sociais mostram que muitas mulheres são iguais ou melhores que os homens, a menos que alguém lhes dissesse que não são ou estão abrigando razões psicológicas para invejar ou odiar os homens. E quem poderia estar dizendo às jovens que elas estão sofrendo sob o jugo de uma cultura patriarcal na qual todo homem quer estuprá-las?[27] Como um homem sábio disse uma vez, “siga o dinheiro”. Milhões de dólares estaduais e federais são despejados nos campi universitários, que se tornaram o ponto focal do debate, para estabelecer programas como os descritos em Not Alone para combater o estupro. Quem provavelmente irá aconselhar e executar esses programas? É mais do que provável que os Estudos da Mulher e os professores feministas continuem a propagar o mito da cultura do estupro. Cui bono?[iv] A histeria de estupro reforça as carreiras e as contas bancárias das feministas ideológicas do campus e dos administradores que as apoiam.

No entanto, raramente me satisfaço com explicações monetárias de fenômenos culturais. Embora importante, acho que analisar certos atores nesse drama político é igualmente pertinente. O livro de Susan Brownmiller, Against Our Will (Contra a nossa vontade), de 1975, introduziu a ideia de que a América tem uma cultura de estupro e gerou a ideia entre as feministas radicais. No entanto, para obter informações sobre sua aplicação política, nos voltaremos para Catharine MacKinnon e Andrea Dworkin, as arquitetas ideológicas da Lei contra a Violência contra as Mulheres, ou VAWA. Elas tipificam a mentalidade feminista ideológica de maneiras semelhantes e únicas. É possível traçar a ideia de que todo sexo entre homens e mulheres é estupro das mulheres de volta ao seu pensamento. Sua expansão inicial da definição de estupro – que todo sexo heterossexual é estupro de mulheres – pode ser vista nas questões dos três estudos examinados acima. A sexualidade masculina é um pecado original no dogma ideológico feminista e, como sentimento, infiltrou-se no pensamento dos campi universitários e da sociedade em geral.

O que faria essas mulheres difamarem a sexualidade masculina? Em um artigo para a Playboy, e antologizada em Vamps and Tramps[28], Camille Paglia voltou seu olhar para MacKinnon e Dworkin, nos dando uma visão sobre o tipo de mulher que demoniza a sexualidade masculina. Ela justapõe a contribuição positiva de MacKinnon de ter o assédio sexual estabelecido como uma categoria legal com o negativo de criar a histeria sexual dentro do feminismo americano. Ela atribui isso diretamente à personagem MacKinnon:

MacKinnon é uma WASP[v] clássica que constrói meticulosamente estruturas rígidas de palavras em completo esquecimento do orgânico, sensual e visual. Ela é uma puritana do século XX, cuja criação – um severo juiz de Minnesota como pai, episcopal e republicano conservador – parece sair de Hawthorne.[29]

Ela incorpora a herança puritana e avessa ao sexo da cultura americana. Paglia também expõe suas tendências políticas:

MacKinnon é uma totalitária. Ela quer um mundo livre de risco e controlado pelo Estado. Ela acredita que as regras e os regulamentos resolverão todos os males e endireitarão todos esses incômodos problemas entre os sexos que se arrastam há cinco mil anos. Como advogada, MacKinnon é hábil e pragmática. Mas como pensadora política, historiadora cultural ou comentarista do sexo, ela é incompetente. Para uma mulher de sua inteligência óbvia, seu quadro de referência é surpreendentemente pequeno. Ela tem o instinto e o gosto de um burocrata. Tudo é trabalho e não há brincadeira na Terra MacKinnon. Literatura, arte, música, cinema, televisão – nada interfere na consciência de MacKinnon, a menos que tenha sido filtrada através do feminismo, que lhe ensinou, ela gosta de dizer, “tudo que eu sei”. Esse é o problema. Ela é alguém que, por causa de sua própria turbulência emocional privada, prendeu-se ao feminismo da era dos anos 70 e nunca o deixou ir.

MacKinnon tem uma mente fria, inflexível e fundamentalmente não acadêmica. Ela é uma propagandista e casuísta, boa na construção de argumentos ad hoc de conveniência para objetivos políticos específicos. Mas seu conhecimento de história intelectual ou mundial é limitado e, como pesquisadora, ela tem um julgamento notavelmente ruim na avaliação de fontes. Ela supervaloriza escritoras feministas fracas e não tem nenhum sentimento para psicologia, um defeito que torna suas conclusões sobre sexo ridículas. Ela é uma stalinista que acredita que a arte deve servir a uma agenda política e que todas as vozes opostas são inimigas da humanidade que devem ser silenciadas. MacKinnon e Dworkin são fanáticos, zelotes, fundamentalistas da nova religião feminista. Sua aliança com a direita reacionária no combate à pornografia não é coincidência.[30]

O desejo de MacKinnon por controle e ordem, principalmente a ordem sexual, levou-a a usar o Estado como meio de controlar a sexualidade, mais notavelmente a sexualidade masculina. Podemos julgar seu sucesso pelos sucessos da VAWA e pela atenção política às questões das mulheres hoje. Ela estava procurando estabelecer o controle sobre a sexualidade de acordo com seus ancestrais puritanos. Ela é a madrinha das alunas de Estudos da Mulher, sem instrução, salvas pela doutrinação em crenças feministas ideológicas, capazes de silenciar vozes dissidentes; ela é o protótipo do ativista feminista ideológica de hoje. Aos seus olhos, o poder do Estado, como um pai frio e dominador[31], deve ter controle sobre a sexualidade masculina, à medida que tenta aumentar a propriedade puritana.

Então nos encontramos com Andrea Dworkin:

Dworkin, como Kate Millet, transformou uma história berrante de instabilidade mental na grande ópera feminista. Dworkin se orgulha publicamente de seus bizarros estupros, agressões, espancamentos, avarias e traumas bruscos, como se sua incapacidade de lidar com a vida fosse mais culpa do patriarcado do que dela própria. Ela finge ser uma ousada vidente, mas nunca menciona seu problema mais óbvio: comida. Por isso, ela é hipócrita. A prosa estridente, contagiante e solipsista de Dworkin tem um infantilismo desleixado e berrante. Isso atraiu MacKinnon, com seu passado sombrio de alta seriedade protestante, que trata crianças como adultos em miniatura. A prosa impessoal de MacKinnon é seca, branqueada, ressecada. Seu estilo hereditário no norte do país, anal-retentivo, mesquinho e picante, foi contrabalançado pela oralidade indiferenciada de Dworkin, seus baldes de canja de galinha estufados com despeito.

Dworkin, chafurdando na miséria, é um “tipo” que reconheço depois de 22 anos de ensino. Eu a chamo de A garota com o Eterno Resfriado. Essa era a criança atarracada, desajeitada e chorona no acampamento de verão que estava sempre derramando seu leite, deixando cair o pirulito no chão, pegando uma cãibra na caminhada, uma pedra no sapato, uma abelha no cabelo. Na faculdade, esse tipo – pastoso, bilioso e desmazelado – fica constantemente doente do outono para a primavera. Ela tosse e espirra em todos, nunca está preparada com lenço e fica fungando na sala de aula com um rolo de papel higiênico no colo. Ela é a praga final do professor, a criança rabugenta e desprovida de amor que nunca obteve a aprovação da mãe e, portanto, exige atenção a qualquer preço. Dworkin aproveitou o feminismo como uma máscara para esconder sua amargura nesse tedioso e banal drama familiar.[32]

Dworkin é uma feminista “confessional”. Nenhum palco é grande demais para ela declarar todos os seus infortúnios físicos e existenciais. Ela representa a outra metade do nascimento psicológico da histeria de estupro, a sempre-buscadora-de-atenção. Ela é o complemento perfeito para o ódio puritano de MacKinnon pela sexualidade, pois ela ajuda a disfarçar esse ódio como uma cruzada justa contra o estupro. No entanto, sabemos melhor que isso. Ambas as mulheres caracterizam a própria sexualidade masculina como estupro. Dworkin era a voz mais alta na sala, fazendo de suas questões pessoais as questões políticas do dia, ela encenou o psicodrama de seu passado em um grande palco.

Pense na garota que Paglia descreve no segundo parágrafo. Fui a uma faculdade com algumas dessas “Garotas com Eternos Resfriados”. Elas estão prontas para a escolha do pensamento feminista ideológico. Nenhuma responsabilidade precisa ser tomada por sua melancolia. O espantoso bicho-papão do patriarcado agora existe para explicar todos os tipos de depressão, transtorno do pânico, transtorno alimentar, problemas de autoestima, problemas com namorados etc. Que a maioria dessas mulheres jovens seja branca e da periferia não é coincidência. Crescendo no cadinho da família nuclear isolada e agora dessecada, seus dramas familiares são incubados até que elas saiam de casa pela primeira vez para a faculdade. A mamãe e o papai workaholics nunca foram ao redor para fornecer o amor e atenção necessária na infância e agora todo mundo precisa saber.

Paglia identifica o ódio de MacKinnon e Dworkin pela pornografia com o ódio à sexualidade em geral. Ela também fala sobre a situação da garota suburbana, divorciada da natureza e de seu corpo, que facilmente se apega a esse tipo de ideologia feminista radical.

MacKinnon e Dworkin detestam pornografia porque ela simboliza tudo o que elas não entendem e não conseguem controlar sobre seus próprios corpos. O feminismo atual, com sua antisciência e viés social construcionista, nunca pensa em natureza. Por isso, não pode lidar com o sexo, que começa no corpo e é energizado por impulsos instintivos. O erro básico de MacKinnon e Dworkin está na identificação da pornografia e da sociedade, que elas então simplisticamente definem como patriarcal e opressiva. De fato, a pornografia, que irrompe durante os tempos de liberdade pessoal, mostra a obscura verdade sobre a natureza, escondida pelos artifícios da civilização. A pornografia é sobre a luxúria, nossa realidade animal que nunca será completamente domada pelo amor. A luxúria é elementar, agressiva e antissocial. A pornografia nos permite explorar nossos egos mais profundos e proibidos.[33]

Eu vejo a sexualidade masculina se encaixando nessa descrição também. Tudo o que elas não conseguem entender sobre a sexualidade masculina é considerado estupro. Somente quando atua segundo as regras e está em conformidade com os cenários de televisão e cinema soporíferos é que a sexualidade masculina é aceitável. Tudo que é ctônico sobre isso, o que faz o homem e a mulher agirem com força primordial, deve ser controlado, de preferência pelo Estado, se pessoas como Catharine MacKinnon conseguirem o que querem. Mas agora não parecemos muito distantes daquele tempo.

MacKinnon e Dworkin são personificações de certas atitudes culturais norte-americanas, talvez americanas brancas, em relação à sexualidade e aos homens. Seu ódio ao sexo, simbolizado pelo aspecto penetrante da sexualidade masculina, assertivo e avassalador, levou-as a caracterizar toda a sexualidade masculina como estupro, o que foi perfeitamente disfarçado em racionalizações sobre o patriarcado e a misoginia. Sua atitude não foi motivada pelo feminismo, mas pode ser rastreada até os fundadores puritanos das colônias americanas. Depois de um período de liberdade sexual, aventura e desventura no século XX, o impulso reacionário em direção a um controle sexual se tornou aparente.

Para começar a concluir, cabe-me resumir meus cinco pontos e perguntar se eles foram adequadamente abordados:

  • Quais são as atuais controvérsias no país que fazem disso uma questão? O atual clima político em torno dos campi universitários e do estupro foi discutido e mostrado como sendo o resultado da retórica política baseada em métodos de pesquisa defeituosos. Isso leva a:
  • Qual é a história dessas controvérsias? Foi demonstrado que o infame estudo da revista Ms. feito por Mary Koss foi baseado em métodos de pesquisa defeituosos semelhantes e foi responsável por introduzir o número de estupro “1 em 4” no discurso público.
  • Como essas questões políticas se relacionam com a degradação da linguagem? Mostrou-se que o estupro foi definido de tal forma em todos os estudos que todas as áreas cinzentas e situações sexuais embaraçosas foram consideradas como estupro, especialmente em relação ao álcool, levando a palavra a tornar-se sem sentido. Assim, as pessoas têm dificuldade em pensar a palavra para além do seu uso político. Nós então questionamos:
  • Por que essa degradação pode ser politicamente motivada? Parecia que a questão não era mais complicada do que questões de prestígio político e benefício monetário. No entanto, também perguntamos:
  • Qual é a psicologia e motivação das pessoas que criaram esta questão? Foi hipotetizado que os personagens das figuras feministas ideológicas Catharine MacKinnon e Andrea Dworkin são indicativos de certos “tipos” psicológicos que têm diferentes, mas sobrepostas, motivações para difamar a sexualidade masculina. Espero que eu tenha sido capaz de mostrar de uma maneira coerente que a degradação original e a expansão da palavra estupro por razões políticas promovida por MacKinnon e Dworkin tiveram a consequência de trazer à tona a atual histeria de estupro nos Estados Unidos.

Sensacionalizar as estatísticas de estupro não resultará em nada bom para a humanidade em longo prazo. Até agora, apenas promoveu as carreiras de alguns políticos, ativistas e acadêmicos, ao mesmo tempo em que amedrontava as mulheres e difamava os homens. Na medida em que as feministas ajudaram a produzir esse resultado, ideológicas ou não, elas causaram danos terríveis às relações entre homens e mulheres em nosso país. Como Paglia percebe: “Quando define os homens como inimigos, o feminismo está alienando as mulheres de seus próprios corpos”.[34] A opressão ou difamação de um sexo prejudica o outro; nós existimos em um estado fundamental de inter-relação e interdependência. No interesse da harmonia entre os sexos, faço este humilde pedido para nos libertarmos da lavagem cerebral política do feminismo ideológico. Paglia mais uma vez:

Um feminismo esclarecido do século XXI abraçará toda a sexualidade e se desviará do delusionalismo, da santificação, da prudência e do ataque ao masculino feito pela brigada MacKinnon-Dworkin. As mulheres nunca saberão quem são até que os homens sejam homens. Vamos nos livrar do Feminismo da Enfermaria, com sua confusão de anormais, anoréxicos, bulímicos, depressivos, vítimas de estupro e sobreviventes de incesto. O feminismo se tornou uma gaveta de vegetais, onde grupos de irmãs solitárias podem armazenar suas neuroses mofadas.[35]

É somente quando ambos os sexos têm a força para permitir que o outro se torne quem ele é que realmente vamos ver a mudança. Permitir que jovens homens e mulheres tenham liberdade para explorar sua sexualidade, com suas tragédias e triunfos, e sem a interferência de estruturas abstratamente paternas, como a administração do Estado e da universidade, é uma parte necessária da mudança da infância prolongada para a vida adulta. O controle autoritário da sexualidade recapitula o espaço psíquico infantilizador da família.

Precisamos separar o joio do trigo nessa era de notícias 24 horas por dia alimentadas por figuras políticas e pela mídia e de acesso anárquico, mas não refinado, à informação via Internet. Não apenas os políticos mentem para nós, mas um fluxo aparentemente interminável de sites e blogueiros pode regurgitá-las de volta para nós, ofuscando, na virtualidade, nossa capacidade de confiar nos nossos próprios sentidos e experiência de vida. Eu acho que tudo começa com o nosso conhecimento da linguagem e como ela está sendo usada, especialmente em um contexto político. Como Orwell nos advertiu:

A linguagem política — e, com variações, isso é válido para todos os partidos políticos, de conservadores a anarquistas — é projetada para fazer que as mentiras soem verdadeiras e o assassinato seja respeitável, e para dar uma aparência de solidez ao puro vento. Não podemos mudar isso de uma hora para outra, mas podemos ao menos mudar nossos hábitos e, de vez em quando, podemos até, se zombarmos bastante alto, mandar alguma expressão gasta e inútil — algum tacão, calcanhar de Aquiles, viveiro, cadinho, prova dos nove, verdadeiro inferno ou outro monte de refugo verbal — para a lata de lixo a que pertence.[36]

Então eu acho que o uso político da frase “cultura do estupro” deve ser jogado no lixo. Será melhor que ambos os sexos, a longo prazo, sejam capazes de falar aberta e honestamente sobre a sexualidade e será um ponto de partida para o diálogo entre os sexos de que tão desesperadamente precisamos.

 

Notas:

1 Orwell, G. “Politics and the English Language.” Essays. Selected by John Carey. New York: Everyman’s Library, 2002. 959.

2 Ibidem. 954.

3 Ibidem. 959.

4 Ibidem. 962.

5 Às vezes, diz-se isso não só das universidades, mas dos EUA como um todo.

6 Como uma nota pessoal, eu não posso ter relações sexuais com uma garota que frequentou a faculdade (especialmente se ela frequentou um ou dois cursos de estudos de gênero) sem ter alguma longa discussão sobre eu dominá-la. É como se Michel Foucault estivesse assombrando a minha vida sexual.

7 Implicando que apenas homens são estupradores.

8 http://www.rollingstone.com/culture/features/a-rape-on-campus-what-went-wrong-20150405

9 Mark Twain fez uma observação no sentido de “mentiras, mentiras desgraçadas e estatísticas.” Eu diria que as estatísticas feministas são o quarto nível desse Monte Rushmore de falsidade.

10 Fox, J.A. & Moran, R. (2014, August 10). Sex assault surveys not the answer. USA Today. Obtido de http://www.usatoday.com.
11 Ibidem.

12 Muitas vezes, homens jovens no campus irão rir da ideia de que eles são alvo de discriminação. Infelizmente, isso é quando a bravata masculina e não expressão dos sentimentos se tornam um desserviço a eles próprios.
13 Sommers, C.H. (2012, January 27). Estudo do CDC sobre violência sexual nos EUA exagera o problema. The Washington Post. Obtido em www.washingtonpost.com
14 Como será elaborado posteriormente no paper, isso pode ser um dos efeitos desejáveis desses estudos, mostrar que todos os homens heterossexuais são estupradores e todas as mulheres heterossexuais, vítimas.

15 Ibidem.

16 Koss, M. & Oros, C. (1982). “Sexual Experiences Survey: A Research Instrument Investigating Sexual Aggression and Victimization.” Journal of Consulting and Clinical Psychology 50(3), 455.

17 Sommers, C.H. (1994). Who Stole Feminism? How Women Have Betrayed Women. New York: Simon & Schuster. 210-11.

18 Em uma discussão acalorada com uma jovem feminista, me foi dito que eu tinha que aceitar cada definição individual de estupro feita por uma mulher. E aquelas mulheres que disseram a Koss que não tinham sido estupradas? Aparentemente, a aceitação apenas conta quando contribui para a causa.

19 Sommers, C.H. (1994). Who Stole Feminism? How Women Have Betrayed Women. New York: Simon & Schuster. 211.

20 Ibidem. 211.

21 Ibidem. 212.

22 Ibidem. 212. Ênfase minha.

23 Poder-se-ia argumentar que ambos os lados políticos fazem isso com a mulher em seus eleitorados, mas para este One could argue that both parties do this with the women in their respective constituencies, but for this particular matter it seems more common among Democrats.

24 Patai, D., & Koertge, N. (1994). Professing feminism: Cautionary Tales from the Strange World of Women’s Studies. New York: BasicBooks.

25 Ibidem. 126.

26 Ibidem. 128.

27 Eu não aposto em psicopatologia, mas isso soa muito como paranoia ou narcisismo. 28 Paglia, C. (1994). “The Return of Carry Nation: Catharine MacKinnon and Andrea Dworkin” Vamps & Tramps: New Essays. New York: Vintage Books.

29 Ibidem. 108-109.
30 Ibidem. 108.

31 O pai de Sylvia Plath, talvez? A ausência paterna na sociedade americana se insinua na paisagem.

32 Paglia, C. (1994). “The Return of Carry Nation: Catharine MacKinnon and Andrea Dworkin” Vamps & Tramps: New Essays. New York: Vintage Books. 109.

33 Ibidem. 110.

34 Ibidem. 111.

35 Ibidem. 111.

36 Orwell, G. “Politics and the English Language.” Essays. Selected by John Carey. New York: Everyman’s Library, 2002. 966.

 

Notas do tradutor:

i As citações do ensaio do Orwell não foram traduzidas por mim. Foram todas aproveitadas do ensaio A política e a língua inglesa, presente no livro Como morrem os pobres e outros ensaios, publicado pela Companhia das Letras.

ii No original, kangaroo courts. Segundo a Wikipédia, um tribunal canguru é um tribunal que ignora padrões de lei e justiça reconhecidos. A definição também se aplica a julgamentos conduzidos por autoridades judiciais legítimas que intencionalmente ignoram as obrigações legais e éticas.

iii) Democratas são o partido mais à esquerda no sistema bipartidário estadunidense.

iv) Expressão latina que significa “a quem beneficia?”.

v) Da Wikipédia: WASP é um acrônimo que em inglês significa “BrancoAnglo-Saxão e Protestante” (White, Anglo-Saxon and Protestant). Com frequência usada em sentido pejorativo.

 

GLOVER, K.C. A “Cultura do estupro no campus”: Consequências de palavras sem sentido [The “Campus Rape Culture”: Consequences of Meaningless Words]. Tradução e notas de Rodrigo Cesar Dias. Publicado em New Male Studies: an international journal. ISSN 1839-7816. Vol. 4, Issue 2, 2015, pp. 24-38, 2015. Australian Institute of Male Health and Studies. Disponível em: http://www.newmalestudies.com/OJS/index.php/nms/article/view/185. Acesso em 19/10/218.

Leave a Comment

Your email address will not be published. Required fields are marked *