Quem roubou a verdade? Como cientistas traíram a Ciência – Parte 2

Nota: A Parte 1 está aqui.

 

Parte 2: A verdade subjetiva

Quando a Ciência começou a se tornar o que é hoje, seu objetivo era distinguir com segurança o que era fato, verdadeiro, do que era falso. Em parte, esse objetivo aliado ao ceticismo discutido na parte I gerou a díade objetivo x subjetivo. O objetivo é o real, aquilo que existe independente de nossa vontade e igual para todos; o subjetivo é individual, como cada pessoa interpreta as coisas.

Isso foi um desafio maior do que percebemos, já que um dos vieses cognitivos mais poderosos da mente humana é o viés de confirmação: se eu acredito em algo, procurarei formas de confirmar minha crença e ignorarei qualquer coisa que a contrarie. Qual o problema desse viés? Se você apenas procura confirmações para suas teorias e ignora as contradições, sua teoria sempre estará certa. Afinal, se fosse impossível encontrar um exemplo de corrobore com suas hipóteses, como você foi capaz de formular uma hipótese tão absurda?

Esse problema deveria ter sido solucionado quando a Ciência adotou o paradigma da falseabilidade: uma teoria será considerada verdadeira se não for possível prová-la errada, ou, pelo menos, não é possível formular uma explicação melhor. Isso é chamado de rejeitar a hipótese nula – poder afirmar que os casos que confirmam nossa teoria não se tratam de meras coincidências. Muita gente pensa que a Ciência nunca considera Deus como a causa das coisas porque ela foi feita por ateus, mas muitos filósofos da ciência eram bastante religiosos, incluindo René Descartes e Galileu Galilei. A ciência não considera Deus como a causa das coisas porque não é possível rejeitar a hipótese nula – ou seja, a ciência não consegue diferenciar um “ato divino” (se eles existirem, claro) de um simples acidente.

Mas isso não foi suficiente nas ciências humanas, principalmente na Psicologia. O número de variáveis é tão grande que sempre existe a possibilidade de a pesquisa ter alguma falha que provocou um falso positivo (ou falso negativo). Um exemplo famoso envolve induzir testemunhas oculares a terem falsas memórias. Nesse clássico experimento de Loftus e Palmer, várias pessoas assistiram um vídeo de um acidente automobilístico e, após uma semana, tiveram que responder se tinha vidro quebrado após o acidente. Quando a pergunta era se havia vidro quebrado após os carros terem batido, as pessoas tendiam a responder corretamente que não. Mas se a pergunta fosse “… após os carros se arrebentarem”, as pessoas se lembravam de ter visto vidro quebrado, mesmo não havendo nenhum. Outro caso famoso é do cavalo de Clever Hans, um cavalo que sabia matemática. Depois descobriu-se que, quando alguém fazia uma pergunta de matemática para o cavalo, seu dono olhava para a pata dele, que ele começava a bater repetidamente. Quando o número de batidas era o mesmo que o da resposta correta, o dono levantava a cabeça e o cavalo parava. O pior é que o dono nem tinha percebido que ele estava dando a resposta para o cavalo![1]

Esses e outros exemplos colocam o status das ciências em perigo, principalmente as humanas. Como confiar nos resultados de uma pesquisa, se o pesquisador pode estar induzindo o resultado sem querer? Inúmeros foram aqueles que alegaram ser impossível a Psicologia ser uma ciência séria. Eu defendo que sim, mas não no momento. Não enquanto a Psicologia estiver dominada por “reformadores do mundo”.

Em 2016, fui para o V Congresso brasileiro e IV Congresso ibero-americano e luso-brasileiro de Psicologia da Saúde e qual não foi minha surpresa ao assistir uma palestra sobre violência doméstica dizendo que homens agrediam suas esposas porque vivemos numa cultura que ensina os homens a não “levarem desaforo para casa”. Ao dizermos para meninos que perderam uma briga “volta lá e bate em quem te bateu”, incentivamos os meninos a serem violentos e, consequentemente, a baterem em suas esposas.

Embora isso faça muito sentido se usarmos o viés da confirmação, essa palestra coincidiu de ser no mesmo dia em que eu estava lendo o capítulo do livro The Myth of Male Power (O mito do poder masculino – o qual deveria ser leitura obrigatória para qualquer um que queira discutir gênero) que fala sobre mulheres que assassinaram seus maridos e foram inocentadas, mesmo havendo provas. Quando questionei por que ele considera que a violência conjugal é resultado da “cultura machista” já que, para a hipótese dele ser verdadeira, deveria ser impossível haver agressões em casais homossexuais ou de mulheres contra homens, mas essas ocorrem relativamente com a mesma frequência, ele me respondeu que “nossas bases epistemológicas” eram diferentes, que ele não acredita em “uma verdade objetiva, universal e independente de nossa vontade”, que “é claro que há mulheres violentas”, mas ele é contra “uma visão maniqueísta” e usou uma população masculina para o estudo dele, mas o fato de existir a Lei Maria da Penha (Lei 11.340/06) prova que a violência contra a mulher é “um problema real” e que ele tinha razão.

Ora, o quão contraditório pode ser a mentalidade humana? Ele não acredita numa verdade objetiva, mas que todos os fenômenos são apenas interpretações de coisas sem sentido e, ainda assim, considera que a sociedade educar os homens para serem violentos e agredirem suas esposas seja uma verdade objetiva. Também é contra uma visão maniqueísta, mas defende que os problemas sociais são causados pelos homens, sendo as mulheres pobres vítimas inocentes. Isso é uma das coisas que mais me irritam nas “ciências sociais”: o malabarismo teórico. Falarei sobre ele num post futuro, mas resumidamente, é como chamo o hábito de usar palavras e sentenças pouco comuns ou de difícil entendimento para deixar o ouvinte confuso. Como a mente não interpreta cada palavra de forma separada, mas analisa o contexto, basta convencer o ouvinte de que você está lutando contra uma opressão e ele concordará com você, não importa o quão contraditório você está sendo.

Provavelmente, o melhor texto que conheço para falar sobre o conflito entre objetividade e subjetividade é, ironicamente, um texto sobre feminismo. Em Who stole feminism?: How women betrayed women (Quem roubou o feminismo?: Como as mulheres traíram as mulheres), livro que deu origem ao título dessa série de artigos, Christina Hoff Sommers reúne inúmeros casos de “estudos” divulgados pela grande mídia que “provam” a existência do machismo, mas, ou estão enviesados ou não existem, são apenas mitos criados na base do “telefone sem fio”. Nesse livro, ela também reúne histórias interessantes de como era frustrante dar mentoria a mulheres e elas desistirem por terem outras prioridades, enquanto os homens geralmente iam até o fim. Também fala o que acontece em grupos e congressos feministas, em que participantes são incentivadas a falar do seu momento “click”, o momento em que elas tiveram um “insight” e perceberam como eram objetificadas, oprimidas e desamparadas, numa espécie de catarse religiosa em que o peso do pecado é retirado através do compartilhamento do segredo e a pessoa se conecta com o universo ao encontrar um grupo no qual se sente pertencente.

Mas a história mais interessante, na minha opinião, é da alunA que participava de aulas de estudos de gênero (leia estudos sobre mulheres), nas quais aprendeu que professores (e professoras) elogiam mais a participação masculina que a feminina e que essa era a causa da falta de interesse das mulheres em seguir carreira acadêmica. Essa aluna brigou com a Christina porque ela não discriminava alunos e alunas, mas parabenizava ambos igualmente, o que contrariava os ensinamentos feministas. Ao decorrer do ano, essa aluna passou a ficar mais calma e feliz, porque nas aulas de estudos de gênero, ela “aprendeu a observar direito” e percebeu o quão “machista” era a Christina. A Christina, assustada, pediu que a aluna lhe mostrasse o que estava fazendo de errado para poder corrigir, mas o que aconteceu é que, a aluna estava apenas contando que a Christina parabenizava mais homens e mulheres, mas não contou que homens participavam mais da aula e as mulheres não poderiam ser parabenizadas por algo que não estavam fazendo.

Quando ouvi pela primeira vez, no Ensino Médio, que Nietzsche defendia que a moralidade foi uma invenção dos fracos para dominar os fortes, eu achava que isso era uma piada de mal gosto. É óbvio que o mundo é dominado pelos mais fortes, mais inteligentes e mais ricos. Hoje, acho isso inegável. Ninguém quer ser o mais forte, o mais inteligente, o mais rico, isso te torna um opressor e opressores só são dignos de desdém. Hoje, vivemos uma guerra para decidir quem é mais fraco, mais explorado, pois isso desperta compaixão. Porém, como bem lembrado por Tim Goldich, a fraqueza desperta compaixão, faz as pessoas nos amarem, mas é incompatível com o respeito. O respeito é um sentimento que reservamos para quem superou as dificuldades e fez o improvável, por quem se responsabiliza por seus atos isso, ao invés de culpar os outros ou exigir que os outros facilitem as coisas. Isso é algo que os movimentos sociais acham “opressor”.

Infelizmente, é através desses artifícios que militantes de movimentos sociais, ou pra usar o termo mais correto, os social justice warriors, justificam seus discursos de ódio, suas contradições e chamar de ético a reprodução dessas atitudes por órgãos que representam classes profissionais, como o Sindicato e o Conselho Federal de Psicologia. Você pode lutar pela equidade e defender apenas um ponto de vista; ser a favor da diversidade e liberdade de expressão desde que não te contrariem; alegar que homens não podem opinar sobre “direitos das mulheres” porque não sabem o que é ser mulher, mas o contrário não só é permitido, como incentivado; ser injusto para corrigir injustiças (e acreditar que duas injustiças se anularão); e dizer que a falta de provas de que existe uma conspiração de um grupo contra outro prova que a opressão está tão naturalizada que não a percebemos. Afinal, se, das 8 bilhões de pessoas, apenas uma for oprimida, isso prova que a opressão existe. Você só precisa escolher qual “verdade” vai contar para decidir se ela é oprimida ou se é “justo” lutar contra a opressão.

 

Referência:

[1] Catania, A. C. (1999). Aprendizagem: comportamento, linguagem e cognição (D. das G. de Souza, trad. 4ª ed.). Porto Alegre: Artes Médicas Sul.

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